Ponto de Partida
Pandemia fará da saúde e do social temas centrais da campanha, restando pouco espaço para debater a sustentabilidade
Interromper os testes clínicos da vacina de Oxford é demonstração do rigor da ciência na busca pela cura
A eleição 2020 será o grande teste dos efeitos da Lei da Ficha Limpa a longo prazo. Com o adiamento das eleições para novembro deste ano, os candidatos considerados inelegíveis a partir de 2012 podem voltar a se candidatar este ano
Desigualdade racial segue sendo obstáculo na busca por representatividade política no Brasil
Descrença na política e avanço da Covid-19 devem provocar uma abstenção histórica nas eleições municipais. TSE cogita anistiar multa para quem não votar este ano
Em meio ao cenário incerto da pandemia, projeções do PIB apresentam melhoras. Do ouro lado, saldo de geração de emprego e renda segue na decrescente
36 vacinas são oferecidas pelo SUS. O calendário brasileiro de imunização é um dos melhores do mundo. Em contrapartida, a procura pelas doses contra doenças teve queda de 34% nos últimos anos no País
O impacto da pandemia na educação vai refletir na redução das aulas tradicionais e expositivas
Ataques promovidos em redes sociais resultaram no aumento de processos por calúnia e difamação. A tendência é de que essas ações se tornem mais recorrente durante as eleições municipais que terá a internet como meio de fazer campanha em plena pandemia
Presidente da Alego emergiu como líder por saber se posicionar como interlocutor, ser presente nas articulações e ter foco em sua carreira política
Em um mês de fechamento de atividades comerciais por zona, segundo maior município teve alta de 456%, enquanto na capital ela foi de 213%
Número de mortes confirmadas em Goiás em julho corresponde a 35% do total registrado desde a primeira, em 26 de março
A falta de ações coordenadas contra a Covid-19 se mistura com o charlatanismo difundido nas redes sociais, com o óbvio resultado de mais casos e mortes

Goiás entrou no período mais duro da pandemia de Covid-19 da pior forma possível. Autoridades bateram cabeça, o setor produtivo pressionou, o Judiciário se meteu e alguns médicos optaram pelo curandeirismo. Enquanto isso, apenas nos quatro primeiros dias de julho, 130 pessoas morreram vítimas da doença no Estado. Isso equivale a 20% de todas as mortes desde o início da pandemia, cujos primeiros diagnósticos positivos para o coronavírus datam de um já longínquo 12 de março.
A média de mortes em julho está em 32,5 por dia. Essa foi a média que o Amazonas teve no final de abril. A curva de mortes em Goiás, nesse momento, é muito semelhante à do Estado do Norte brasileiro, um dos mais devastados pela pandemia no início dela em território brasileiro. Depois de picos que romperam a casa dos 100 óbitos em um dia, o Amazonas volta ao patamar de 30 – o que, assustadoramente, hoje é uma boa notícia.
Em Goiânia, os leitos de UTI dedicadas à Covid-19 disponíveis na rede privada ligada à Associação dos Hospitais Privados de Alta Complexidade de Goiás (Ahpaceg) estavam esgotados no final da tarde de sexta-feira, 3. Na rede pública, restavam 15 vagas, mas o número de pacientes que dependiam delas era muito maior que isso.
Na mesma semana em que o caos começou a dar os primeiros sinais, um imbróglio legal piorou ainda mais a confusão que já toma conta a cabeça das pessoas. Em um dia, decretos governamentais proibiam o funcionamento de atividades econômicas não essenciais em Goiânia. Noutro, uma liminar autorizou. Só para depois ser derrubada no Tribunal de Justiça e comerciantes, trabalhadores e consumidores dormirem sem saber como seria o dia seguinte.
Isolamento social
Na dúvida, as pessoas decidiram que não é mais hora de ficar em casa. O índice de isolamento social cresceu mísero 0,8% em Goiás no primeiro dia do decreto de quarentena alternada (14 dias com quase tudo aberto, igual período com quase tudo parado). Aglomerações nas ruas, comércio funcionando, distribuidoras de bebidas que se transformaram em bares, pessoas lotando os parques sem máscaras. Em terra de cego, o cidadão segue seus próprios instintos.

Para piorar a situação, médicos decidiram que era hora de publicar vídeos em que alegam que a cura para a Covid-19 já existe. Prefeitos passaram a dispensar "kits Covid" em seus municípios. O brasileiro, crédulo, supersticioso e crente em milagres teve reforçada a impressão de que, se pegar, não morre. E que os políticos deixam milhares morrerem por pura maldade ou interesse escuso, já que a cura está ali, num coquetel ao alcance de todos.
Ficam as perguntas: se é tão fácil curar a Covid-19, por que 525 mil pessoas, 62 mil delas no Brasil, morreram à míngua? Por que, a cada dia que passa, a morte parece estar mais próxima de todos?
Aids e HIV
O momento é repleto de semelhanças com o início da epidemia da aids nos anos 1980. Elas vão desde a comunicação atrapalhada sobre grupos de risco (naquela época, os gays; hoje, os idosos ou pacientes com comorbidades), linguagem (da peste gay ao vírus chinês), teoristas conspiratórias (vírus criado em laboratório), charlatanismo e negacionismo.
Na década de 1990, um “pesquisador” radicado no Tocantins ficou famoso na internet ao divulgar que havia encontrado a cura para a aids em um produto a base de mutamba. A “pesquisa” ficou conhecida como “Mutamba Project”. Não se tem notícia de que ele tenha ganhado algum prêmio Nobel pela descoberta.
Atualmente, várias sãos as “mutambas” contra a Covid-19. Corre nos grupos de WhatsApp a tese de que o chá de São Caetano, usado na medicina popular para o controle do diabetes, também tem propriedades contra o coronavírus. De fato, como mais de 90% das pessoas se recuperam da Covid-19, muita gente se cura tomando aspirina.

ao HIV/Adis | Foto: Divulgação
O uso de medicamentos experimentais contra uma doença nova, em si, não é problemático. Ao contrário, faz parte do desenvolvimento de tratamento eficazes. No caso do HIV, por exemplo, a primeira substância com algum efeito positivo foi a zidovudina, popularmente conhecida como AZT. Inicialmente sintetizada para tratamento de tipos específicos de câncer, ela foi experimentada contra a aids, que matava 100% dos pacientes.
O AZT efetivamente foi uma virada de chave na guerra contra a aids e continua no arsenal disponível para os soropositivos no Brasil. Contudo, por causa dos severos e inúmeros efeitos colaterais e rápida adaptação do vírus ao medicamento, há muito deixou de ser receitado como opção inicial. Hoje, no País, o principal coquetel é composto por uma combinação de dois comprimidos: um de dolutegravir e outro que reúne o tenofovir e a lamivudina. A quantidade de medicamentos disponibilizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), porém, chega atualmente às duas dezenas e cada paciente pode ter um tratamento praticamente individual.
Bala de prata
No caso da Covid-19, no mundo todo estão sendo testadas várias intervenções. Não há, contudo, nenhuma que tenha se revelado a bala de prata contra o coronavírus. Na prática clínica, alguns médicos relatam sucesso com este ou aquele produto. Repita-se: esse não é o problema.
Se não há remédio, não há que se esperar todo o longo trâmite das pesquisas para se tentar salvar vidas.
O perigo começa quando se dá a falsa impressão de que a cura já existe, como tem sido difundido nas redes sociais e como algumas autoridades políticas e médicas têm deixado transparecer.
Isso só estimula o comportamento já indisciplinado do brasileiro, que se recusa a usar camisinha, que dirá uma máscara.
Legado brasileiro no enfrentamento à aids está sendo jogado fora
O sucesso do Brasil no combate à aids, que tornou o País referência mundial, não é construção de uma só pessoa. Em 1996, o presidente Fernando Henrique Cardoso sancionou a Lei 9.313, que tornou obrigatória o fornecimento dos antirretrovirais pelo SUS. Em 1999, começou a produção nacional do AZT e da lamivudina. Nos anos 2000, o governo brasileiro, especialmente na gestão Dilma Rousseff, obteve avanços na negociação com laboratórios e com quebra de patentes, barateando o custo do tratamento e universalizando o acesso. Nos últimos anos, substâncias e tratamentos mais modernos foram incorporados, inclusive com possibilidade de profilaxia pré e pós exposição ao vírus.
No caso da Covid-19, todo esse legado está sendo jogado na lata de lixo da história. Cada prefeito e cada governador toma as medidas que julgam as melhores. Enquanto o governo federal lava as mãos.
Em Goiás, um exemplo curioso de como a descentralização de ações pode dar com os burros n´água. O prefeito de Goianésia decretou lockdown apenas nos fins de semana, a partir das 19 horas de sexta-feira. O resultado, como foi possível observar na primeira semana em que a regra vigorou, foi uma corrida insana aos supermercados e postos de combustível (veja vídeo abaixo).
Enquanto cada um decide por si, o coronavírus segue tranquilo sua saga mortal.
Rubro-negro obteve maior audiência da história para uma transmissão esportiva na internet, mas números comprovam maior penetração da televisão
Já são mais de 100 dias desde o primeiro caso no Estado e, segundo autoridades de saúde, pico de contaminações ocorrerá em julho

Goiás alcançou, na quinta-feira, dia 25, 100 dias desde o registro do primeiro caso de Covid-19 no Estado. Vidas se perderam, empresas quebraram, famílias se despediram de pessoas amadas, homens e mulheres ficaram sem trabalho. Solidão e medo caminharam de mãos dadas. E, mais de três meses depois, tudo leva a crer que o período mais duro de enfrentamento ao coronavírus começa agora.
Os números são frios. E assustadores. Em poucos dias, o aparente controle da doença começa a escorrer tal como água pelas mãos. Os dados de junho são reveladores. No dia 1º, havia 4 mil diagnósticos de Covid-19 em Goiás. O coronavírus Sars-CoV-2 havia matado, até então, 139 pessoas. No sábado, 27, já eram 21 mil testes positivos e 434 mortes. Em termos porcentuais, a alta foi de 404% e 212%, respectivamente.
Em Goiânia e Aparecida de Goiânia, os dois maiores municípios goianos, e que dividem seus limites, a explosão de casos e mortes segue o mesmo padrão. Na capital, o número de casos cresceu 253% no mês (de 1,7 mil para 6,1 mil). O de mortes, 163% (de 58 para 153). Em Aparecida de Goiânia, o salto foi de 415% (de 458 para 2,3 mil) e 241% (de 12 para 41), respectivamente.
Olhados isoladamente, os dados de Goiás preocupam. Colocados em contexto nacional, dão a dimensão do problema. No mesmo período, o mês de junho, o crescimento no número de casos em todo o Brasil foi de 149% (de 526 mil para 1,3 milhão) e o de mortes subiu 90% (de 29, mil para 57 mil). Portando, a aceleração das infecções e mortes pelo coronavírus em Goiás está bem acima da média brasileira.
Média de mortes é semelhante ao que ocorreu em abril no Amazonas
O que Goiás vive agora se assemelha ao que o Amazonas experimentou em abril. A média de mortes na última semana, em território goiano, foi de quase 20. O Estado do Norte brasileiro tinha, há dois meses, patamar semelhante. Poucas semanas depois, as cenas de covas coletivas ganharam o noticiário e comoveu o Brasil – ao menos a parte do País que não está anestesiada pelo negacionismo.
Não há sinais de que tamanha tragédia se abata sobre os goianos. A realidade dos dois Estados é diferente. O Amazonas tem um território imenso e a população está espalhada em vilarejos que estão a horas de viagem por barca dos hospitais mais próximos. Por outro lado, Goiás tem uma concentração populacional mais densa. As regiões metropolitanas de Goiânia e do Entorno do Distrito Federal são exemplos.
Mas os casos não têm se concentrado apenas nessas aglomerações urbanas. No começo da pandemia em Goiás, mais da metade dos casos estavam em Goiânia. Hoje, a capital tem aproximadamente 28% das notificações. Um dos motivos foi a expansão em Rio Verde, detectada por causa de testes em massa nas plantas da BRF na região.
Esse sinal vindo do Sudoeste goiano aciona outro alarme: o porcentual de positivos demonstra que a subnotificação é incalculável em todo o território. Experiências semelhantes, em outras empresas ou grupos específicos (como a Câmara de Vereadores de Goiânia e os clubes de futebol) revelam uma proporção muito grande de pessoas portadoras do vírus que não têm conhecimento da situação.
A polêmica reabertura do comércio
Todo esse contexto coincide com a retomada mais ampla das atividades comerciais. No interior, já havia uma flexibilização maior. Em Goiânia, shoppings e galerias reabriram as portas. Nos próximos dias, será a vez da região da Rua 44. Segundo maior polo de confecções do Brasil, circulavam por ali, em finais de semana normais, entre 200 mil e 250 mil pessoas. Quantidade de gente impensável na realidade atual.
O problema não tem solução simples. Por um lado, infectologistas e epidemiologistas apontam para a provável contaminação em massa, mesmo com todos os cuidados, como uso de máscara, contenção do fluxo de pessoas e uso de álcool em gel. Por outro, empresários, economistas e trabalhadores não enxergam mais como a atividade econômica ficar parada. O governo federal não tem auxiliado a contento nenhum dos dois lados da moeda: o empreendedor não consegue linhas de crédito (apenas 10% dos R$ 40 bilhões prometidos efetivamente chegaram às empresas), o trabalhador tem dificuldade em acessar o auxílio emergencial – que também não pode ser eterno.
O governo do Estado, as prefeituras e outras entidades (como representantes do setor privado de saúde e o Ministério Público) intensificaram as conversas nos últimos dias para encontrar saídas. Depois de um aparente distanciamento, especialmente após os prefeitos do interior terem optado por uma abertura mais ampla quando o Estado ainda pleiteava um isolamento mais profundo, o diálogo foi retomado. A possibilidade de lockdown foi aventada, assim como a adoção de medidas mais ou menos dura em cada região de Goiás, conforme a situação epidemiológica e a capacidade de atendimento.
São medidas necessárias em busca de um equilíbrio delicado e difícil de ser encontrado. A emergência sanitária coincide, tristemente, com a endemia social da pobreza e desigualdade social. Um casamento que obriga a convivência entre o necessário e o possível.
Comportamento social não ajuda, só atrapalha
Em meio aos números (de doentes, mortos, desempregados e falidos), o comportamento social só tem piorado a situação. Em Goiânia, ao menos, não é difícil encontrar grupos reunidos em postos de combustível e perto de food trucks, como se nada estivesse ocorrendo. O isolamento social em Goiás, que já foi o melhor do País, atualmente está estacionado na casa dos 30% - na prática, isso significa muito pouco, pois, mesmo antes da pandemia, o índice era de aproximadamente 20%. O ideal, conforme os especialistas, é que ele fique acima dos 50%.
Não é o caso de exigir que todos fiquem dentro de suas casas. A realidade brasileira faz com que essa não seja uma opção para muita gente. Além disso, há os que trabalham em atividades essenciais (como os profissionais de saúde) e os deslocamentos para compras de itens de alimentação e medicamentos, por exemplo. Contudo, há quem possa, mas não quer ficar longe das ruas. A esses, o mínimo que se espera é um comportamento adequado, com o uso de itens de segurança e o distanciamento uns dos outros.
Em 2020, julho chega para os goianos sem a temporada do Araguaia. A temporada, este ano, é de enfrentamento de um inimigo mortal. E ela, que se prolonga há meses, terá os capítulos mais tensos nas próximas semanas.


