Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

Na terra do cada um por si, o coronavírus é contra todos

A falta de ações coordenadas contra a Covid-19 se mistura com o charlatanismo difundido nas redes sociais, com o óbvio resultado de mais casos e mortes

Goiás entrou no período mais duro da pandemia de Covid-19 da pior forma possível. Autoridades bateram cabeça, o setor produtivo pressionou, o Judiciário se meteu e alguns médicos optaram pelo curandeirismo. Enquanto isso, apenas nos quatro primeiros dias de julho, 130 pessoas morreram vítimas da doença no Estado. Isso equivale a 20% de todas as mortes desde o início da pandemia, cujos primeiros diagnósticos positivos para o coronavírus datam de um já longínquo 12 de março.

A média de mortes em julho está em 32,5 por dia. Essa foi a média que o Amazonas teve no final de abril. A curva de mortes em Goiás, nesse momento, é muito semelhante à do Estado do Norte brasileiro, um dos mais devastados pela pandemia no início dela em território brasileiro. Depois de picos que romperam a casa dos 100 óbitos em um dia, o Amazonas volta ao patamar de 30 – o que, assustadoramente, hoje é uma boa notícia.

Em Goiânia, os leitos de UTI dedicadas à Covid-19 disponíveis na rede privada ligada à Associação dos Hospitais Privados de Alta Complexidade de Goiás (Ahpaceg) estavam esgotados no final da tarde de sexta-feira, 3. Na rede pública, restavam 15 vagas, mas o número de pacientes que dependiam delas era muito maior que isso.

Na mesma semana em que o caos começou a dar os primeiros sinais, um imbróglio legal piorou ainda mais a confusão que já toma conta a cabeça das pessoas. Em um dia, decretos governamentais proibiam o funcionamento de atividades econômicas não essenciais em Goiânia. Noutro, uma liminar autorizou. Só para depois ser derrubada no Tribunal de Justiça e comerciantes, trabalhadores e consumidores dormirem sem saber como seria o dia seguinte.

Isolamento social

Na dúvida, as pessoas decidiram que não é mais hora de ficar em casa. O índice de isolamento social cresceu mísero 0,8% em Goiás no primeiro dia do decreto de quarentena alternada (14 dias com quase tudo aberto, igual período com quase tudo parado). Aglomerações nas ruas, comércio funcionando, distribuidoras de bebidas que se transformaram em bares, pessoas lotando os parques sem máscaras. Em terra de cego, o cidadão segue seus próprios instintos.

O abre e fecha do comércio em Goiânia deixa todo mundo sem saber o que fazer

Para piorar a situação, médicos decidiram que era hora de publicar vídeos em que alegam que a cura para a Covid-19 já existe. Prefeitos passaram a dispensar “kits Covid” em seus municípios. O brasileiro, crédulo, supersticioso e crente em milagres teve reforçada a impressão de que, se pegar, não morre. E que os políticos deixam milhares morrerem por pura maldade ou interesse escuso, já que a cura está ali, num coquetel ao alcance de todos.

Ficam as perguntas: se é tão fácil curar a Covid-19, por que 525 mil pessoas, 62 mil delas no Brasil, morreram à míngua? Por que, a cada dia que passa, a morte parece estar mais próxima de todos?

Aids e HIV

O momento é repleto de semelhanças com o início da epidemia da aids nos anos 1980. Elas vão desde a comunicação atrapalhada sobre grupos de risco (naquela época, os gays; hoje, os idosos ou pacientes com comorbidades), linguagem (da peste gay ao vírus chinês), teoristas conspiratórias (vírus criado em laboratório), charlatanismo e negacionismo.

Na década de 1990, um “pesquisador” radicado no Tocantins ficou famoso na internet ao divulgar que havia encontrado a cura para a aids em um produto a base de mutamba. A “pesquisa” ficou conhecida como “Mutamba Project”. Não se tem notícia de que ele tenha ganhado algum prêmio Nobel pela descoberta.

Atualmente, várias sãos as “mutambas” contra a Covid-19. Corre nos grupos de WhatsApp a tese de que o chá de São Caetano, usado na medicina popular para o controle do diabetes, também tem propriedades contra o coronavírus. De fato, como mais de 90% das pessoas se recuperam da Covid-19, muita gente se cura tomando aspirina.

O Brasil foi referência no combate
ao HIV/Adis | Foto: Divulgação

O uso de medicamentos experimentais contra uma doença nova, em si, não é problemático. Ao contrário, faz parte do desenvolvimento de tratamento eficazes. No caso do HIV, por exemplo, a primeira substância com algum efeito positivo foi a zidovudina, popularmente conhecida como AZT. Inicialmente sintetizada para tratamento de tipos específicos de câncer, ela foi experimentada contra a aids, que matava 100% dos pacientes.

O AZT efetivamente foi uma virada de chave na guerra contra a aids e continua no arsenal disponível para os soropositivos no Brasil. Contudo, por causa dos severos e inúmeros efeitos colaterais e rápida adaptação do vírus ao medicamento, há muito deixou de ser receitado como opção inicial. Hoje, no País, o principal coquetel é composto por uma combinação de dois comprimidos: um de dolutegravir e outro que reúne o tenofovir e a lamivudina. A quantidade de medicamentos disponibilizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), porém, chega atualmente às duas dezenas e cada paciente pode ter um tratamento praticamente individual.

Bala de prata

No caso da Covid-19, no mundo todo estão sendo testadas várias intervenções. Não há, contudo, nenhuma que tenha se revelado a bala de prata contra o coronavírus. Na prática clínica, alguns médicos relatam sucesso com este ou aquele produto. Repita-se: esse não é o problema.

Se não há remédio, não há que se esperar todo o longo trâmite das pesquisas para se tentar salvar vidas.

O perigo começa quando se dá a falsa impressão de que a cura já existe, como tem sido difundido nas redes sociais e como algumas autoridades políticas e médicas têm deixado transparecer.

Isso só estimula o comportamento já indisciplinado do brasileiro, que se recusa a usar camisinha, que dirá uma máscara.

Legado brasileiro no enfrentamento à aids está sendo jogado fora

O sucesso do Brasil no combate à aids, que tornou o País referência mundial, não é construção de uma só pessoa.  Em 1996, o presidente Fernando Henrique Cardoso sancionou a Lei 9.313, que tornou obrigatória o fornecimento dos antirretrovirais pelo SUS. Em 1999, começou a produção nacional do AZT e da lamivudina. Nos anos 2000, o governo brasileiro, especialmente na gestão Dilma Rousseff, obteve avanços na negociação com laboratórios e com quebra de patentes, barateando o custo do tratamento e universalizando o acesso. Nos últimos anos, substâncias e tratamentos mais modernos foram incorporados, inclusive com possibilidade de profilaxia pré e pós exposição ao vírus.

No caso da Covid-19, todo esse legado está sendo jogado na lata de lixo da história. Cada prefeito e cada governador toma as medidas que julgam as melhores. Enquanto o governo federal lava as mãos.

Em Goiás, um exemplo curioso de como a descentralização de ações pode dar com os burros n´água. O prefeito de Goianésia decretou lockdown apenas nos fins de semana, a partir das 19 horas de sexta-feira. O resultado, como foi possível observar na primeira semana em que a regra vigorou, foi uma corrida insana aos supermercados e postos de combustível (veja vídeo abaixo).

Enquanto cada um decide por si, o coronavírus segue tranquilo sua saga mortal.

Uma resposta para “Na terra do cada um por si, o coronavírus é contra todos”

  1. Avatar Carlos Augusto Quinta disse:

    Bom Dia!!
    Melhor comentário que já foi publicada em tofu’s canais de comunicação .

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