Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

Goiás entra no período mais duro de enfrentamento ao coronavírus

Já são mais de 100 dias desde o primeiro caso no Estado e, segundo autoridades de saúde, pico de contaminações ocorrerá em julho

Goiás alcançou, na quinta-feira, dia 25, 100 dias desde o registro do primeiro caso de Covid-19 no Estado. Vidas se perderam, empresas quebraram, famílias se despediram de pessoas amadas, homens e mulheres ficaram sem trabalho. Solidão e medo caminharam de mãos dadas. E, mais de três meses depois, tudo leva a crer que o período mais duro de enfrentamento ao coronavírus começa agora.

Os números são frios. E assustadores. Em poucos dias, o aparente controle da doença começa a escorrer tal como água pelas mãos. Os dados de junho são reveladores. No dia 1º, havia 4 mil diagnósticos de Covid-19 em Goiás. O coronavírus Sars-CoV-2 havia matado, até então, 139 pessoas. No sábado, 27, já eram 21 mil testes positivos e 434 mortes. Em termos porcentuais, a alta foi de 404% e 212%, respectivamente.

Em Goiânia e Aparecida de Goiânia, os dois maiores municípios goianos, e que dividem seus limites, a explosão de casos e mortes segue o mesmo padrão. Na capital, o número de casos cresceu 253% no mês (de 1,7 mil para 6,1 mil). O de mortes, 163% (de 58 para 153). Em Aparecida de Goiânia, o salto foi de 415% (de 458 para 2,3 mil) e 241% (de 12 para 41), respectivamente.

Olhados isoladamente, os dados de Goiás preocupam. Colocados em contexto nacional, dão a dimensão do problema. No mesmo período, o mês de junho, o crescimento no número de casos em todo o Brasil foi de 149% (de 526 mil para 1,3 milhão) e o de mortes subiu 90% (de 29, mil para 57 mil). Portando, a aceleração das infecções e mortes pelo coronavírus em Goiás está bem acima da média brasileira.

Média de mortes é semelhante ao que ocorreu em abril no Amazonas

O que Goiás vive agora se assemelha ao que o Amazonas experimentou em abril. A média de mortes na última semana, em território goiano, foi de quase 20. O Estado do Norte brasileiro tinha, há dois meses, patamar semelhante. Poucas semanas depois, as cenas de covas coletivas ganharam o noticiário e comoveu o Brasil – ao menos a parte do País que não está anestesiada pelo negacionismo.

A evolução das mortes por Covid-19 em Goiás, segundo o Ministério da Saúde

Não há sinais de que tamanha tragédia se abata sobre os goianos. A realidade dos dois Estados é diferente. O Amazonas tem um território imenso e a população está espalhada em vilarejos que estão a horas de viagem por barca dos hospitais mais próximos. Por outro lado, Goiás tem uma concentração populacional mais densa. As regiões metropolitanas de Goiânia e do Entorno do Distrito Federal são exemplos.

Mas os casos não têm se concentrado apenas nessas aglomerações urbanas. No começo da pandemia em Goiás, mais da metade dos casos estavam em Goiânia. Hoje, a capital tem aproximadamente 28% das notificações. Um dos motivos foi a expansão em Rio Verde, detectada por causa de testes em massa nas plantas da BRF na região.

Esse sinal vindo do Sudoeste goiano aciona outro alarme: o porcentual de positivos demonstra que a subnotificação é incalculável em todo o território. Experiências semelhantes, em outras empresas ou grupos específicos (como a Câmara de Vereadores de Goiânia e os clubes de futebol) revelam uma proporção muito grande de pessoas portadoras do vírus que não têm conhecimento da situação.

A polêmica reabertura do comércio

Todo esse contexto coincide com a retomada mais ampla das atividades comerciais. No interior, já havia uma flexibilização maior. Em Goiânia, shoppings e galerias reabriram as portas. Nos próximos dias, será a vez da região da Rua 44. Segundo maior polo de confecções do Brasil, circulavam por ali, em finais de semana normais, entre 200 mil e 250 mil pessoas. Quantidade de gente impensável na realidade atual.

O problema não tem solução simples. Por um lado, infectologistas e epidemiologistas apontam para a provável contaminação em massa, mesmo com todos os cuidados, como uso de máscara, contenção do fluxo de pessoas e uso de álcool em gel. Por outro, empresários, economistas e trabalhadores não enxergam mais como a atividade econômica ficar parada. O governo federal não tem auxiliado a contento nenhum dos dois lados da moeda: o empreendedor não consegue linhas de crédito (apenas 10% dos R$ 40 bilhões prometidos efetivamente chegaram às empresas), o trabalhador tem dificuldade em acessar o auxílio emergencial – que também não pode ser eterno.

O governo do Estado, as prefeituras e outras entidades (como representantes do setor privado de saúde e o Ministério Público) intensificaram as conversas nos últimos dias para encontrar saídas. Depois de um aparente distanciamento, especialmente após os prefeitos do interior terem optado por uma abertura mais ampla quando o Estado ainda pleiteava um isolamento mais profundo, o diálogo foi retomado. A possibilidade de lockdown foi aventada, assim como a adoção de medidas mais ou menos dura em cada região de Goiás, conforme a situação epidemiológica e a capacidade de atendimento.

São medidas necessárias em busca de um equilíbrio delicado e difícil de ser encontrado. A emergência sanitária coincide, tristemente, com a endemia social da pobreza e desigualdade social. Um casamento que obriga a convivência entre o necessário e o possível.

Comportamento social não ajuda, só atrapalha

Em meio aos números (de doentes, mortos, desempregados e falidos), o comportamento social só tem piorado a situação. Em Goiânia, ao menos, não é difícil encontrar grupos reunidos em postos de combustível e perto de food trucks, como se nada estivesse ocorrendo. O isolamento social em Goiás, que já foi o melhor do País, atualmente está estacionado na casa dos 30% – na prática, isso significa muito pouco, pois, mesmo antes da pandemia, o índice era de aproximadamente 20%. O ideal, conforme os especialistas, é que ele fique acima dos 50%.

Não é o caso de exigir que todos fiquem dentro de suas casas. A realidade brasileira faz com que essa não seja uma opção para muita gente. Além disso, há os que trabalham em atividades essenciais (como os profissionais de saúde) e os deslocamentos para compras de itens de alimentação e medicamentos, por exemplo. Contudo, há quem possa, mas não quer ficar longe das ruas. A esses, o mínimo que se espera é um comportamento adequado, com o uso de itens de segurança e o distanciamento uns dos outros.

Em 2020, julho chega para os goianos sem a temporada do Araguaia. A temporada, este ano, é de enfrentamento de um inimigo mortal. E ela, que se prolonga há meses, terá os capítulos mais tensos nas próximas semanas.

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