Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

Esperamos pela cura da Covid-19, mas abandonamos outras vacinas

36 vacinas são oferecidas pelo SUS. O calendário brasileiro de imunização é um dos melhores do mundo. Em contrapartida, a procura pelas doses contra doenças teve queda de 34% nos últimos anos no País

Outros surtos não esperam a pandemia do novo coronavírus passar. Enquanto aguardamos a vacina da Covid-19, deixamos de lado doses de imunização contra doenças já conhecidas e controladas no Brasil. Estudo da Fiocruz divulgado nesta semana revela uma queda de 34,4% nas vacinações entre crianças.

Há países em que os sistemas de saúde ficaram tão tensos que os serviços de rotina foram suspensos para se dedicarem totalmente à luta contra a Covid-19. Mas esse não é o caso do Brasil. Aqui as doses continuam disponíveis mesmo com a pandemia –  inclusive campanha de imunização contra gripe H1N1 aconteceu durantes os primeiros meses da crise sanitária. Por aqui, deixamos de vacinar antes mesmo da chegada do coronavírus.

No ano de 2017 foram aplicadas 238 milhões de doses de vacinas prevista no Calendário Nacional de Vacinação. No ano seguinte esse número caiu para 225 milhões. Já em 2019 foram 205 milhões. O acompanhamento feito pela Fiocruz demonstra o descaso da população.

Entre as vacinas que tiveram maior redução na procura está a Tríplice Bacteriana (DTP). Em 2017 foram 4,5 milhões de doses. No ano passado, apenas, 2,9 milhões. Essa é uma vacina obrigatória que deve ser aplicada até o segundo mês de vida da criança e serve para imunizar contra Difteria, Tétano e Coqueluche.

No mesmo período em que os brasileiros deixaram de lados as vacinas, a oferta aumentou – era 11, agora são 36 tipos diferentes. O SUS disponibiliza um calendário para aplicação de todas elas, não só para crianças, mas adolescentes, adultos, idosos, gestantes e povos indígenas. Todas gratuitas e acessíveis em postos de saúde.

Enquanto o mundo inteiro está envolvido no combate ao coronavírus outras doenças infecciosas continuam ameaçando com surtos. A campanha de vacinação contra H1N1 deste ano começou em 23 de março e foi até 30 de junho. Em Goiânia, apenas os idosos atingiram a meta neste período. Só 45% das crianças foram levadas aos postos para se vacinarem. Entre as gestantes (59%) e puérperas (76%) a procura também foi baixa. Ao final da campanha, 120 mil doses sobraram nos postos da capital goiana.

“O esclarecimento rápido e efetivo é o melhor instrumento para que se retome as vacinas como prevenção”

Esse desprezo pela vacina contra H1N1 não é coerente ao dano que ela causa e nem sua capacidade de provocar um novo surto. Em 2019 foram cerca de 1 bilhão de casos de gripe no planeta, com 646 mil mortes. No Brasil, de acordo com informações do Ministério da Saúde, em 2019 houve 5.714 casos e 1.109 óbitos.

Outra doença que temos a vacina, mas deixamos de lado é o sarampo. No ano passado ela provocou mortes em vários países. No Brasil foram 18.203 casos confirmados, com 15 mortes, sendo 14 em São Paulo, onde houve uma irrupção com 16.090 ocorrências.

No mundo, estima-se que 182 milhões de crianças tenham perdido a primeira dose da vacina contra o sarampo entre 2010 e 2018, ou 20,3 milhões de crianças por ano, em média, de acordo com uma análise do UNICEF. Isso ocorre porque a cobertura global da primeira dose de sarampo é de apenas 86%, bem abaixo dos 95% necessários para evitar surtos de sarampo.

Os perigos da não vacinação são grandes. Em 2017, isso ficou bastante claro para nós no Brasil quando um surto de febre amarela levou a mais de 200 óbitos, mesmo existindo a vacina. Se falharmos com imunização de rotina, principalmente em crianças, corre o risco de outros surtos sobrecarregar ainda mais hospitais e clínicas com casos de doenças que podem ser prevenidas.

É preciso observar que o interesse e a ansiedade que o brasileiro tem para chegada da vacina contra o novo coronavírus demonstra a compreensão da importância da vacinação. Felizmente prevalece esse entendimento, que aliado ao desenvolvimento científico e tecnológico, desperta o senso de responsabilidade dos cidadãos,  reforçando a consciência de que vacinas representam curas.

O que se precisa então para que se retome o cuidado com doenças já conhecidas? Se está tão claro que a imunização é a única maneira de garantir que doenças erradicadas não voltem, é preciso fortalecer a confiança da sociedade na imunização.

Especialistas avaliam que a queda na procura por vacina é fruto de uma dicotomia: o sucesso do programa pode ser uma das causas da queda da cobertura. Avalia-se que população que hoje está com 30, 40 e 50 anos de idade foi amplamente e devidamente vacinada na infância, quando doenças como o sarampo ou a poliomielite eram visíveis. Como a doença quase desapareceu, os pais que foram beneficiados pela vacina e que por isso não conviveram com a doença não percebem a importância da imunização. 

Talvez com a chegada da vacina contra a Covid-19 e o fim da pandemia traga também a confiança nas doses oferecidas no calendário nacional de vacinação sejam retomadas. Vamos acreditar que a convivência com uma doença tão devastadora e que exige tanto dos pesquisadores que colocaram em desenvolvimento mais 100 possíveis vacinas, possa demonstrar o valor que tem uma agulhada com doses preventivas.

Estratégia

O SUS oferece todas as vacinas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) no Calendário Nacional. Atualmente, são disponibilizadas pela rede pública de saúde, de todo o país, cerca de 300 milhões de doses de imunobiológicos ao ano, para combater mais de 19 doenças, em diversas faixas etárias. As metas mais recentes contemplam a eliminação do sarampo e do tétano neonatal, além do controle de outras doenças imunopreveníveis como difteria, coqueluche e tétano acidental, hepatite B, meningites, formas graves da tuberculose e rubéola, assim como a manutenção da erradicação da poliomielite.

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