Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

Pauta ambiental segue à margem nas eleições municipais

Pandemia fará da saúde e do social temas centrais na campanha, restando pouco espaço para debater a sustentabilidade

Há pouco espaço nas eleições municipais para a temática ambiental –  talvez em 2020 haja menos. Embora debate sobre pautas relacionadas a sustentabilidade se amplie de forma global, inclusive gerando pressão sobre o governo brasileiro, esse não é um assunto tratado com relevância por candidatos a prefeitos e vereadores.

Mas uma vez o que se desenha para as eleições municipais é que a pauta ambiental seja deixada à margem. Não é uma novidades em relação aos anos eleitorais anteriores. Política ambiental sempre tem pouca importância para partidos e candidatos – nas eleições municipais isso se torna mais evidente. Em um ano em que o pleito ocorre em meio a uma crise sanitária causada pela pandemia do coronavírus, a saúde e o social serão temas centrais da campanha, e podem não deixar nenhuma “beirinha” para um debate ambiental.

Tratando de preservação ambiental, as chamas crescentes e constantes que queimam a Amazônia, o Pantanal e o Cerrado, causam reflexos em todas as cidades. Nas últimas semanas as queimadas e a agenda política disputam de forma acirrada o espaço nos noticiários – mesmo estando associadas. Ainda assim o tema não aparece nos discursos dos candidatos. Há também uma espécie de incentivo provocado pelo negacionismo do próprio presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em relação ao problema, fato que inegavelmente tem influência no direcionamento dos debates.

A seca que vem se agravando ano após ano, também atinge em cheio a política local. O cidadão cobra o prefeito pela falta de água em suas torneiras. Da mesma forma age o agricultor que se vê inviabilizado de fazer a irrigação. Mesmo assim os planos para preservação de mananciais e de uso consciente dos recursos hídricos não estão presentes nas eleições municipais.

Quanto ao tratamento de esgoto, serviço que parte considerável das cidades brasileiras não dispõe – cerca de 38% – continua sendo tema completamente ausente dos debates. A realidade é que as cidades de pequeno e médio porte não têm recursos suficientes para implantar sistemas de coleta e tratamento de esgoto. Dependem dos governos estaduais e de recursos federais escassos.

A gestão pública, na figura do prefeito, dos vereadores e na própria burocracia administrativa, não dá a importância do meio ambiente e dos recursos naturais. Assim as cidades seguem sem planejamento socioambiental. As ações dos gestores seguem orientadas apenas pelos interesses econômicos ou por políticas imediatistas.

Ao que parece o tema ambiental é visto pelos partidos e políticos como algo que não resulta em votos. O cientista político Creomar de Souza disse recentemente ao Estadão que partidos não são estruturados em termos temáticos e tem a lógica de atender aos interesses do eleitorado nas situações de ocasião. Pois bem, está na hora dos candidatos abrirem o olho para o tema. 

Problemas e soluções para o setor ambiental estão cada vez mais presentes no cotidiano do eleitor, e ele acumula conhecimento e questionamentos sobre o assunto. É preciso então que candidatos tenham respostas claras. Quais são as políticas públicas que eles propõem? Como pretendem alinhar tais políticas com a legislação municipal? São projetos de continuidade? 

“Há uma certa miopia em não enxergar que isso dá voto. É crescente o número de pessoas nas novas gerações que são preocupadas com o tema ambiental”, avalia o professor da Escola de Engenharia Civil e Ambiental da UFG, Emiliano Lobo de Godoi.

Uma declaração do ambientalista expõe com clareza a forma errônea com que o assunto socioambiental é avaliado por políticos. “Eles ligam o meio ambiente a plantar árvore. Mas essa é uma questão muito superficial de ver.” 

Candidatos precisam estar atentos para se aprofundar no tema, percebendo que as cadeias produtivas sustentáveis e ecológicas podem ser desenhadas de forma a se integrar as políticas econômicas, inclusive de forma local. Uma política ambiental bem conduzida resulta na  geração de empregos, pois uma economia diversificada atrai mais investimentos. Há ainda a economia: Estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que a cada dólar investimento em água e saneamento, U$4,3 são economizados com tratamento a saúde.

Os municípios possuem diferentes estágios para a gestão ambiental. Mas cabe aos candidatos e, principalmente aos que forem eleitos, colocar em debate os rumos da política ambiental, prioridades e maiores desafios. Essa parece ser a forma mais eficaz de ampliar e aprofundar o conhecimento sobre qual modelo de desenvolvimento e sustentabilidade as cidades podem se inserir.

Por isso que o momento eleitoral sempre é uma oportunidade para dar visibilidade a pautas socioambientais negadas até aqui e também para realizar balanços ou diagnósticos do que foi deixado para trás.

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