Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

Previsões econômicas são opostas à vida real

Em meio ao cenário incerto da pandemia, projeções do PIB apresentam melhoras. Do ouro lado, saldo de geração de emprego e renda segue na decrescente

“O que vai gerar a riqueza das nações é o fato de cada indivíduo procurar o seu desenvolvimento e crescimento econômico pessoal.” Essa é uma das citações mais conhecidas do economista e filósofo social Adam Smith. Esse pensamento se faz legítimo ao falar do PIB, afinal, via de regra, a renda é proporcional à qualidade de vida – mais consumo, mais investimento e mais produção. Tudo que a pandemia atacou frontalmente desde o início deste ano.

Antes da crise sanitária do novo coronavírus acossar o mercado financeiro, a economia brasileira já não fluía bem. Em 2019, IBGE apontou um crescimento do PIB de 1,1%. Foi o desempenho mais fraco em três anos. Nos três primeiros meses de 2020, foi registrada uma retração de 1,5% na economia brasileira. A pandemia colocou em xeque a construção de resultados alentadores para a economia brasileira neste ano. As medidas de isolamento e distanciamento social promoveram o fechamento de comércio, redução da atividade industrial e geraram grandes perdas no setor de serviços. 

Em junho, no auge das medidas de contenção à proliferação da Covid-19 e todas as incertezas do cenário, o Fundo Monetário Internacional (FMI) previu uma queda de 9% no PIB do Brasil. Uma projeção que, naquele momento, não despertou muitas vozes dos descontentes, afinal o impacto negativo na economia mundial inquietou todos analistas e elevou o grau de incerteza das previsões que têm como base suposições do cenário desconhecido da pandemia.

No reino distorcido da economia, porém, o processo se mostra ainda mais complexo. E a demonstração disso é que o boletim Focus, divulgado na última segunda-feira, 10, aponta que por seis semanas consecutivas a projeção prevê melhora no PIB. A última leitura aponta queda de 5,62%, na semana anterior esse número era de 5,66%. Há quatro semanas, estava na marca de -6,10%.

Se mais de 3 milhões de pessoas ficaram sem trabalho nos últimos quatro meses, se até julho mais de 520 mil empresas decretaram falência, se a intenção de consumo das famílias caiu pelo 6º mês seguido no Brasil, o que explica essas projeções feitas em meio a mais de cem mil mortos pela Covid, a impactos sanitários e avanço de problemas sociais?

Ao que parece, as perspectivas do mercado e do PIB estão totalmente descoladas da vida real. As projeções não estão no cotidiano de desemprego, de suspensão de contratos, de cortes de jornadas, da queda na renda e consumo das famílias, da baixa na produção, dos investimentos adiados, do tombo na arrecadação pública, do aumentos dos gastos estatais e das empresas fechadas em definitivo.

Ainda parece cedo para a volta do otimismo, mesmo que a equipe econômica do governo pregue que o ano será encerrado com uma queda de 4,7% do PIB. Ainda há de se pensar que os dados do segundo semestre podem decepcionar. Se houver a retirada dos significativos estímulos governamentais (principalmente o auxílio emergencial) e aumento mais forte da taxa de desemprego, as projeções não vão se manter no ritmo das últimas semanas.

Entre os economistas consultados por esta coluna, há os que confiam nos movimentos recentes de redução nas projeções de queda do PIB. Outros ainda veem com receio as projeções otimistas. O consenso é que as notícias sobre a Covid-19 continuam a ser importantes, mas mexem menos com o humor do mercado do que há alguns meses, pois a exaustão econômica faz com que medidas de reabertura sejam de difícil reversão.

Agronegócio dribla a pandemia e pode salvar PIB goiano

Mesmo com demanda reprimida, a retomada será lenta. Os indicadores de atividade dos setores econômicos são levados em consideração no cálculo do PIB, mas ainda mostram sinais leves de recuperação, de acordo com o próprio Banco Central.

Na avaliação por regiões, os impactos econômicos da pandemia são significativos, mas demonstram a força do agronegócio – o que beneficia Goiás. A retração da atividade econômica entre as regiões do País variou de 3,5% no Centro-Oeste a 8% no Nordeste no trimestre encerrado em maio na comparação com o período anterior.

O nível de contração da economia do Centro-Oeste no trimestre encerrado em maio foi menos intenso do que o observado no País, o que reflete, principalmente, a estrutura econômica regional, que apresenta maior participação de atividades relacionadas a agricultura – a perspectiva é de desempenho recorde da safra de soja.

O PIB do agronegócio brasileiro cresceu 4,62% no acumulado de janeiro a maio deste ano em relação ao mesmo período de 2019, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). O resultado foi puxado principalmente pela atividade primária (dentro da porteira), que teve expansão de 11,67% nos cinco primeiros meses de 2020, por conta da alta de preços e da estimativa de aumento da produção. Nos outros segmentos da cadeia global do agronegócio, os serviços registraram alta de 4,51%, enquanto os insumos subiram 1%.

São percentuais que devem ser comemorados. Impulsionado pela safra da soja com perspectiva de recorde para esse ano. O momento do setor agropecuário é bom para Goiás, pois garante a entrada de recursos, seja para o setor público ou privado. Somado ao bom preço para os produtos, a exportação em evolução e o aumento da produção agrícola fortalecem muito o Estado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.