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“Veado não pode”, diz árbitro ao parar partida – o que é uma ótima notícia

No dia em que a torcida do Ceará aplaude jogador do Flamengo, pela primeira vez um árbitro interrompe um jogo no Brasil por causa de gritos homofóbicos

Daronco e o técnico Vanderlei Luxemburgo: "Veado não pode" | Foto: Reprodução TV Globo

Sou cria da geral do Estádio Serra Dourada e das arquibancadas do Estádio Onésio Brasileiro Alvarenga (OAB). Um amigo pagava meu ingresso para assistir aos jogos do Goiás no Campeonato Brasileiro, no final dos anos 1980 e início dos anos 1990 – mal sabia ele que a doutrinação não surtiria efeito, pois eu já era um vilanovense doente (sempre digo que há aí um pleonasmo, uma redundância).

Formei-me torcedor homenageando jogadores, árbitros, bandeirinhas e torcedores rivais com toda sorte de palavrão dicionarizado ou não. Entre o vasto repertório, o xingamento preferido era, é claro, o “viado” (assim mesmo, com ‘i’). Em um ambiente toxicamente masculinizado, nada mais ofensivo que imputar a outrem a desonrosa alcunha. Invariavelmente, o coro “Ei, juiz, VTNC!” se repetia algumas vezes.

Rádio a pilha

Não me lembro de que, naquele tempo, havia algum debate ou discussão sobre o comportamento dos torcedores. Tudo isso fazia parte do ecossistema dos estádios – como o amendoim, o rádio a pilha, os banheiros emporcalhados e o placar do Serra Dourada que nunca funcionava.

Hoje, as coisas mudaram. Há muito mimimi nos estádios e fora deles – ainda bem. Os tempos são outros, o mundo evolui. O que era normalizado passou a ser contestado. Cada vez mais pessoas estão se cansando da incivilidade. É para frente que se anda.

Há algum tempo a Fifa tenta coibir atos de racismo e homofobia nos estádios mundo afora. Clubes e torcedores têm sido punidos. Ainda assim, muita gente ainda prefere se comportar como se estivesse nas arenas romanas.

Neste fim de semana, o mundo assistiu a um marco no futebol brasileiro. Durante o jogo contra o São Paulo, o árbitro Anderson Daronco parou a bola por causa de cantos homofóbicos por parte da torcida do Vasco, virou-se para o técnico Vanderlei Luxemburgo e disse: "Viado não pode!" O técnico pediu que seus torcedores cessassem com os gritos. O time pode ser punido.

Foi um ato simbólico. Pode ser o pontapé para novos tempos. Claro, não colocará um ponto final nas ofensas. Mas, devagarinho, as arquibancadas podem se tornar menos hostis. Quem sabe um dia cenas como a da torcida do Ceará aplaudindo o Arrascaeta, do Flamengo, sejam menos surpreendentes. E que ataques homofóbicos e racistas é que sejam a exceção.

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