Euler de França Belém
Euler de França Belém

TV Globo está fazendo jornalismo e não campanha contra o governo Bolsonaro

A imprensa crítica permanece, no fundo, como um aliada de governantes sérios. Trata-se de uma vigilância atenta e não remunerada

Jair Bolsonaro, presidente da República, como não tem nada a temer, deveria apreciar a imprensa crítica | Foto: Reprodução

Recebo, quase todos os dias, mensagens de leitores perguntando (mais insinuando) se a TV Globo — por vezes, tomada como símbolo de “toda a imprensa” brasileira — está ou não fazendo campanha contra o governo do presidente Jair Bolsonaro. A maioria dos leitores, por sinal, conclui, por si, apesar das perguntas, que, sim, a Globo “é contrária” ao governo e quer derrubá-lo. Curiosamente, os defensores dos ex-presidente Lula da Silva e Dilma Rousseff, ambos do PT, criticavam a imprensa — a “mídia” —, que chamavam de “a grande imprensa”, de maneira agressiva, notadamente nas redes sociais. Os apoiadores de Bolsonaro seguem na mesma toada: a “grande imprensa” supostamente “quer” defenestrar um político legitimamente eleito.

Um leitor é radical: “Estão mexendo com a família da mulher do presidente da República, Michelle Bolsonaro, que não tem nada a ver com política”. De fato, a vida privada merece respeito e proteção. Mas o fato de informar que parentes da primeira-dama — inclusive a avó materna (chegou a ser presa e condenada por tráfico de drogas) — flertaram com a criminalidade é ou não legítimo? Em termos estritamente jornalísticos, é. Porque se trata de um fato. A “Folha de S. Paulo” não mentiu. O próprio presidente Jair Messias Bolsonaro admite que os fatos são verdadeiros. Mas reclama que a dita “oportunidade jornalística” não é oportuna, não tem sentido. Poderia ter se expressado de outra maneira: o que Michelle Bolsonaro tem a ver com seus parentes criminosos? Nada. Portanto, tanto ela quanto o presidente devem ficar tranquilos e, se quiserem, nem precisam se manifestar. Os criminosos — ou ex-criminosos — são adultos e responsáveis por seus atos.

Ali Kamel, diretor de Jornalismo da TV Globo, é responsável pela abrangência do noticiário da rede: ouve-se o outro lado de maneira exaustiva | Foto: Reprodução

Retomando a questão da Globo. Não se pode dizer que a rede da família Marinho está fazendo campanha contra o governo de Bolsonaro. O que se está fazendo, e talvez não tenha sido feito na mesma proporção em relação a outros governos — que, por sinal, eram menos midiáticos (presidente que fala em cocô, “um dia sim, um dia não”, não deveria exigir que se repórteres e editores deixem de produzir manchetes espetaculosas —, é um acompanhamento mais crítico de suas ações.

A Globo está crítica, até mais crítica do que de costume. Mas, como permanece abrindo espaço para o contraditório — o ministro do Meio Ambiente participou, na semana passada, de um debate com um líder ruralista e um cientista na Globo News, mediados pela excelente Renata lo Prete —, inclusive ouvindo exaustivamente o outro lado, não se pode falar exatamente em campanha.

Sob o comando de Ali Kamel (e mesmo antes), o que a Globo faz, assim como jornais e revistas, é jornalismo. Mas claro que os homens do poder não apreciam jornalismo crítico — que se torna a sua cárie. Eles querem que a imprensa seja o sorriso do poder. Governantes, se realmente decentes, deveriam ficar profundamente agradecidos com as investigações de jornalistas e veículos críticos. Pois, de alguma maneira, estão ajudando-os a governar. Governos são, em geral, gigantes, e o presidente (o governador, o prefeito), apesar de determinados instrumentos de fiscalização e controle, nem sempre consegue observar tudo e encaminhar todas as questões para o rumo das leis. Assim, com uma imprensa crítica e vigilante, os governantes, como Bolsonaro, passam a ter uma fiscalização externa que, possivelmente, poderão assustar aqueles que tratam a coisa pública como privada.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Vicente Gomes

Concordo com o remédio, contudo, a dose do medicamento, tem sido para tentar deixar o doente em letárgica, num estado catatônico, onde deixava de tomar conta das suas obrigações e o baile rolava solto.
O paciente não quer ser dopado, mudou.
A imprensa séria tem um papel vital na democracia, o que vemos de fora da arena, não passa de poderosos grupos que exigem o seu quinhão.
As pessoas tem demonstrado que abominam isso mudando os canais.
O mundo esta diferente.