O retorno da Lua

O que quer o homem no planeta já visitado pelos americanos, em 1969? Água? Sim, e otras cositas más

Gilvane Felipe

Especial para o Jornal Opção

Recentemente, a Lua retornou ao centro de discussões e movimentações científicas, políticas e econômicas. Curioso é que o interesse tenha ressurgido justamente no ano em que se comemora 50 anos da chegada do primeiro homem à Lua. Vale lembrar que o planeta tinha deixado de ser prioridade desde o fim do programa Apollo, da Nasa, em 1972.

Em 2017, os Estados Unidos anunciaram retorno à Lua em 2024. China e Índia enviaram missões neste ano e pretendem retornar em breve. Além disso, Japão, Rússia, União Europeia e Índia também se preparam para aportar por lá…

A questão então é saber: por que o interesse pela Lua reapareceu com força entre as principais potências mundiais?

Poema de Vinicius de Moraes

“São demais os perigos desta vida

Para quem tem paixão, principalmente

Quando uma lua surge de repente

E se deixa no céu, como esquecida.

E se ao luar que atua desvairado

Vem se unir uma música qualquer

Aí então é preciso ter cuidado

Porque deve andar perto uma mulher.

Deve andar perto uma mulher que é feita

De música, luar e sentimento

E que a vida não quer, de tão perfeita.

Uma mulher que é como a própria Lua:

Tão linda que só espalha sofrimento

Tão cheia de pudor que vive nua.”

Se observarmos com certa atenção, poderemos constatar que toda essa movimentação ressurgiu a partir da descoberta da existência de água, sob forma de gelo, em seus polos. Na sequência dessa revelação, como em um truque de mágica, essa notícia teve por efeito abrir novas perspectivas para a exploração lunar, viabilizando-a. O raciocínio seria mais ou menos o seguinte: se há água, há possibilidade de se produzir ar, alimentação e combustível, tornando realistas antigos projetos de tornar a presença humana na Lua permanente.

Que há água, parece haver consenso entre estudiosos de diferentes nacionalidades. Em que quantidade: essa é a questão que dominará as pesquisas nos próximos anos. Se confirmada a existência do precioso líquido da vida em grandes depósitos no solo lunar, todo um leque de possibilidades se abrirá, tornando a Lua não apenas habitável, como também lucrativa.

Os rios

Poema de João Cabral de melo Neto

“Os rios que eu encontro

vão seguindo comigo.

Rios são de água pouca,

em que a água sempre está por um fio.

Cortados no verão

que faz secar todos os rios.

Rios todos com nome

e que abraço como a amigos.

Uns com nome de gente,

outros com nome de bicho,

uns com nome de santo,

muitos só com apelido.

Mas todos como a gente

que por aqui tenho visto:

a gente cuja vida

se interrompe quando os rios.”

Nos anos 1950-70, a corrida rumo à Lua teve motivação política, era turbinada sobretudo pela guerra fria que opunha blocos de Estados liderados por EUA e pela extinta União Soviética, numa guerra santa entre capitalismo e socialismo, para provar qual sistema era superior a ponto de cravar sua bandeira na no território lunar. Naquela feita, os EUA venceram, expondo as limitações de seu concorrente rival.

Nesta nova versão da marcha para a Lua, não há mais a guerra fria, os Estados continuam presentes, mas surgem novos atores nessa grande trama. Agora, além de cientistas, políticos, militares e astronautas, entram em cena empreendedores bilionários que passaram a enxergar cifrões onde outros até então só viam o aumento da esfera de poder político do Estado a que pertenciam.

Grupos empresariais como Amazon, Virgin e Tesla entraram pesado na disputa pelo que calculam ser um fundo de comércio compensador, já realizam testes, agendam lançamentos de espaçonaves. Eles pretendem “chegar primeiro para beber água limpa”, como diz o ditado.

Teorias da conspiração há muito sustentavam que o homem nunca havia pisado a Lua e que todo o ocorrido em 1969 não passara de uma encenação cinematográfica fabricada por Hollywood. Os fatos e provas mostram o contrário disso.

Desde as missões Apollo, a Lua recebeu grandes quantidades de equipamentos e experimentos que, presencialmente e remotamente, coletaram dados que agora, depois de tantos anos, se revelam promissores.

Trucidaram o rio

Poema de Manuel Bandeira

“Prendei o rio

Maltratai o rio

Trucidai o rio

A água não morre

A água que é feita

de gotas inermes

Que um dia serão

Maiores que o rio

Grandes como o oceano

Fortes como os gelos

Os gelos polares

Que tudo arrebentam.”

Em realidade, a Lua, depois da Terra, é o corpo celeste sobre o qual a humanidade mais detém informações e conhecimento, pois, apesar de não ter recebido mais nenhuma visita humana desde 1972, ela nunca deixou de ser observada, monitorada e exaustivamente estudada.

Hoje, o interesse pela Lua poderia ser comparado à descoberta de um novo continente, cheio de oportunidades. Alguns exemplos de aspectos que tornam o nosso lindo e solitário satélite fonte de cobiça: em seu subsolo já se constatou a presença de pelo menos dois elementos valiosos que são o hélio 3 e as chamadas “terras raras”.

Ademais, sua gravidade, seis vezes menor que a da Terra, tornaria muito mais econômico o lançamento de foguetes espaciais a partir de lá, reduzindo em 40% o gasto em combustível. Isso sem falar que, a partir da água, poderia se fabricar localmente o combustível a ser utilizado. Então, está mais ou menos rascunhados os objetivos dessa nova corrida à Lua: criar lá uma estação espacial, assim como uma plataforma de lançamento de novas missões em direção a novos destinos espaciais.

Como um novo continente, recentemente descoberto, resta a saber se seu desbravamento se dará de maneira colaborativa, como ocorre na Antártida, por exemplo, ou se será um ponto a mais de tensão e conflito entre as potências envolvidas, ocasionando — até quem sabe? — novas e perigosas guerras, dessa vez, estendidas até o espaço.

Como vemos, podemos ir nos habituando com esse velho novo tema, pois ao que tudo indica, a Lua voltou e desta vez é pra ficar.

Gilvane Felipe é mestre em História pela Universidade Sorbonne de Paris, ex-secretário de C&T e de Cultura de Goiás e ex-superintendente do Sebrae-GO.

Coisas da Vida, de Rita Lee

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