Euler de França Belém
Euler de França Belém

Livro de Jared Diamond talvez possa “ensinar” Paulo Guedes a arrancar o Brasil da crise

O professor da Ucla tem uma visão diferente dos chicago-boys, mas, ainda assim, pode apontar caminhos para o país de Bolsonaro

Não há a menor dúvida de que o ministro da Economia, Paulo Guedes, é competente e tem ideias precisas de como retirar o Brasil da crise econômica. A ressalva é que a saída da crise não depende tão-somente de boas ideias — como enxugar o Estado e expandir o investimento privado. Depende também da dimensão dos problemas locais, que não podem ser revolvidos de imediato, e da conjuntura internacional. É por isso que as pessoas dizem, com relativo bom senso, que, de boas ideias, o Inferno está cheio.

Administrar um país pode ser um inferno, o paraíso ou o purgatório. O presidente Jair Bolsonaro, com o apoio de seu “Posto Ipiranga”, está tentando levar o Brasil do Inferno para o Purgatório. Talvez não se chegue ao Paraíso, mas, se chegar a um purgatório menos sofrido, talvez seja um “portal” para melhorar a vida das pessoas. Pouco dado às questões de ordem econômica, o papel de Bolsonaro é, em tese, costurar a aliança política para Paulo Guedes implementar medidas econômicas que estanquem a recessão e possibilite a retomada do crescimento. O problema é que, às vezes, o presidente atrapalha — com seu linguajar-metralhadora. Ainda assim, pressionando, galvaniza certa aliança em torno de seus projetos? Bem, a Reforma da Previdência está aprovada.

Jared Diamond, da Ucla, é um estudioso que não se prende apenas à economia | Foto: Reprodução

Paulo Guedes, um discípulo da Escola de Chicago, é um leitor infatigável e, ao mesmo tempo, um homem de mercado (quer dizer, conhece teoria e, ao mesmo tempo, a prática do mercado). Bolsonaro, político inteligente e astuto, ainda que relativamente inculto, é pouco afeito a leitura. Mas os dois, sobretudo o primeiro, deveria ler, se ainda não leu, o livro “Reviravolta — Como Indivíduos e Nações Bem-Sucedidas se Recuperam das Crises” (Record, 502 páginas, tradução de Alessandra Bonrruquer), de Jared Diamond, professor da Universidade da Califórnia.

Jared Diamond, Prêmio Pulitzer pelo excelente livro “Armas, Germes e Aço”, discute os casos da Finlândia, Japão, Chile, Indonésia, Alemanha, Austrália, Estados Unidos. As histórias dos países citados, até porque estão conectados ao mundo da globalização, têm a ver com o Brasil, citado em quatro páginas. “O único resultado sustentável para nosso mundo globalizado que China, Índia, Brasil, Indonésia, países africanos e outros países em desenvolvimento aceitarão é que as taxas de consumo e os padrões de vida sejam mais igualitários em todo o mundo. Mas o mundo não possui recursos suficientes para suportar sustentavelmente o Primeiro Mundo, e muito menos o mundo em desenvolvimento, nos níveis atuais do Primeiro Mundo. Isso significa que com certeza terminaremos em desastre? Não”, anota, na página 411

A dupla Bolsonaro e Guedes certamente ficará mais atenta sobre a economia (e as sociedades) do Chile e dos Estados Unidos. O Chile teve ditadura militar, mais cruel do que a brasileira, e, aplicando ideias dos chicago-boys — “primos” do czar da Economia patropi —, conseguiu ter crescimento extraordinário, além de estabilidade monetária e desenvolvimento. Só que é um país bem menor e menos populoso do que o Brasil. Os Estados Unidos, maior economia do mundo, é uma exemplo mais adequado para o país de Bolsonaro.

Vale frisar que o pensamento de Jared Diamond, ainda que realista, difere do pensamento dos liberais ortodoxos, como Paulo Guedes, que parecem pensar mais no presente, no imediato, do que no futuro da humanidade. Daí a aparente falta de preocupação do governo Bolsonaro com o desmatamento da Amazônia. O objetivo do guedismo é produzir mais e, portanto, tornar o Brasil mais competitivo no mercado externo. A guerra ideológica contra os supostos catastrofistas, se não é uma máscara, é sobretudo uma faceta da batalha econômica, ou seja, produzir mais matérias-primas para exportação, o que atrairá mais recursos financeiros para o Brasil. Bolsonaro e Guedes estão pensando nos próximos quatro anos; e talvez no máximo nos próximos oito anos. O pesquisador americano pensa no presente e no futuro da Humanidade.

Aos 82 anos, Jared Diamond continua dando aulas na Ucla, e não pensa em se aposentar. No Brasil, na universidade pública, os mestres, mesmo se de altíssima qualidade, têm de se aposentar aos 70 anos. Harold Bloom está prestes a completar 90 anos e continua dando aulas em Yale.

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