Euler de França Belém
Euler de França Belém

Manuel Bandeira criou poema modernista a partir de uma história de jornal e a eternizou

Em 1925, o bardo pernambucano publicou um poema curto, relatando a história de João Gostoso, que, talvez traído pela mulher, se suicidou no mar

Primeira versão

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia (num barracão sem número)./ Um dia ele chegou no bar 20 de Novembro./Bebeu./Cantou./Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.”

Segunda versão

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número/ Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro/ Bebeu/ Cantou/Dançou/Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.”

Manuel Bandeira, poeta modernista: arte eternizando a realidade| Foto: Reprodução

O poeta pernambucano Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (1886-1968), ou só Manuel Bandeira (viveu 82 anos, e havia sido tuberculoso na juventude) publicou o “Poema tirado de uma notícia de jornal” na edição de 31 de dezembro de 1925” do jornal “A Noite” (na coluna “O Mês Modernista), do Rio de Janeiro. A história está muito bem contada pelo repórter Armando Antenore, na revista “Piauí” que está nas bancas. O bardo usou 38 palavras e cinco versos.

Mais tarde, em 1930, Manuel Bandeira dispôs o poema no livro “Libertinagem”. Antenore nota que “o poeta eliminou os parênteses do verso inicial e os pontos finais que se espalhavam pelo texto, à exceção do último. Substituiu ‘um dia’ por ‘uma noite’, colocou maiúscula em ‘lagoa’, trocou a grafia do algarismo 20 e, o mais importante, adicionou outro verbo à história”. O repórter postula que “a nova versão do poema se tornou um marco do modernismo brasileiro”.

O vate do Recife — ou “Ricife” — havia lido a notícia no jornal, e lá era morreria, não fosse sua veia poética para eternizá-la, criando uma arte, transcendente, sobre um assunto corriqueiro. Dando-lhe sobrevivência e atemporalidade.

A história de João Gostoso e da gostosura de Manuel Bandeira tornou-se conhecida devido, primeiramente, ao poeta Heitor Ferraz Mello, professor de jornalismo literário na Faculdade Cásper Líbero, em Sampa. Há dois anos, descobriu a história de João Gostoso no semanário “Beira-Mar”, que a relatou em dezembro de 1925. O mestre pesquisou o jornal na Hemeroteca Digital Brasileira.

Ao descobrir a história de João, que se tornou mais Gostoso graças a Manuel Bandeira, Heitor Ferraz, emocionado, compartilhou-a no Facebook.

O editor do Hiperliteratura, Cláudio Soares, sem saber da descoberta anterior, pesquisou na Hemeroteca Digital Brasileira e, em junho deste ano, também divulgou o poema. Ele encontrou sete reportagens, publicadas em jornais do Rio. “As notícias mostram que o carregador existiu de fato e chamou a atenção de jornalistas não só em 1925, quando morreu.”

João Gostoso chegou aos jornais em 1916. Nesse ano, segundo registro da edição de 23 de abril de 1916 de “A Noite”, João de Oliveira, o João Gostoso, usou uma pedra para fazer um grande rombo na cabeça de Rosa Maria da Conceição. Os “amasiados” moravam no morro da Babilônia. O jornal “O Paiz” publicou manchete de gosto duvidoso: “Para a amante é que ele não foi gostoso”.

Manuel Bandeira colheu uma notícia de jornal e transformou em poesia | Foto: Reprodução

Em 1925, João Gostoso decidiu tomar banho na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado. Um menino disse que o mancebo lutou, com braços, pernas, unhas, cutículas e dentes, para escapar, mas a correnteza o levou, afogando-o. O “Jornal do Brasil” e o “Correio da Manhã” deram a notícia.

Negro, com possíveis 40 anos, João Gostoso “trabalhava com ‘carretos nas feiras livres’”. Era, claro, pobre. Havia se afogado mesmo? A polícia sugeriu que o trabalhador havia se suicidado. Quando se jogou ao mar, o homem que se tornou poema estaria embriagado — de cachaça, amor e, aparentemente, cornice. Desta vez, no lugar de bater na mulher, destruiu a si mesmo.

O “JB” notou que, mais bêbado do que um gambá imaginário, “João Gostoso dançou e cantou diante do bar Vinte de Novembro”. O poema de Manuel Bandeira teria influenciado a música “Construção”? O bardo nordestino era amigo de Sérgio Buarque de Holanda, o pai de Chico Buarque.

A “Piauí” ouviu o crítico literário e poeta Antonio Carlos Secchin, professor emérito da Universidade do Rio de Janeiro. “Por muito tempo, intuímos que João Gostoso realmente existiu e virou notícia, mas não havia como ter certeza absoluta. Era quase impossível encontrar reportagens sobre o carregador antes da revolução digital. Agora, graças às descobertas, podemos estabelecer relações precisas entre aqueles versos célebres e as narrativas que os motivaram. Ou melhor: podemos analisar de que maneira se deu a transposição do discurso jornalístico para o poético”, postula Secchin.

Os jornais “O Imparcial” e “Beira-Mar” publicaram todos os dados que estão no poema, portanto um deles, ou os dois, foi lido por Manuel Bandeira, que ficou impactado pela notícia, notando sua carga, digamos, dramática, teatral.

Davi Arrigucci Jr., crítico literário: “Raros são os artistas que conseguem extrair tanto de tão pouco”

O “bandeirólogo” Davi Arrigucci Jr. (autor do magnífico “Humildade, Paixão e Morte — A Poesia de Manuel Bandeira”), professor emérito Universidade de São Paulo, disse à “Piauí”: “Raros são os artistas que conseguem extrair tanto de tão pouco”.

Antenore menciona o ensaio “Poema tirado de uma notícia de jornal”, no qual Davi Arrigucci Jr. percebe que os “seis versos livres abarcam diversos paradoxos”. “Piauí” sumariza as ideias do “bandeirólogo” ou “bandeirologista”: “O primeiro e mais óbvio: Bandeira se valeu de uma linguagem aparentemente não poética e impessoal para alcançar o poético e a marca personalíssima de um estilo. Outros: por meio da concisão formal, resultado ‘de uma poda completa’, o poeta expandiu o sentido do relato e converteu um episódio trivial da vida carioca no destino universal do indivíduo que é tratado pela finitude após abraçar a festa (o gozo de mãos dadas com a morte). O autor também conferiu à historieta de João Gostoso certa ironia, certa comicidade atroz que tanto acende quando gela o riso dos leitores”.

A “Piauí” menciona um poema que Antonio Carlos Secchin fez a partir do poema de Manuel Bandeira. O leitor que quiser lê-lo (e é muito curioso, porque o poeta sugere que João Gostoso havia sido traído pela mulher) deve adquirir um exemplar da revista, por sinal, excelente.

O poema de Manuel Bandeira resiste, não devido ao fato em si, ao acontecido, e sim em virtude de sua imaginação criativa. A grande arte fixa raízes quando transcende ao fato. Quando os fatos e tornam ficções — e ficções tão ou mais fortes do que fatos —, produtos da imaginação de um poeta ou de um prosador, resulta que a arte, assim como os fatos, tende à sobrevivência. Porque se tornou, de alguma forma, mito… vivo. João Gostoso se tornou eterno e moderno graças à sensibilidade artística do bardo, que, sim, possivelmente era tão namorador quanto o carregador de feira.

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