Euler de França Belém
Euler de França Belém

Historiador britânico discute a literatura transnacional sobre a Segunda Guerra Mundial

Norman Davies analisa a produção literária que enfoca a Segunda Guerra Mundial, mas não do ponto de vista estético, e sim a respeito de como apresentaram o assunto

O crítico de cinema Herondes Cezar talvez tenha razão: Norman Davies possivelmente entende muito de história e pouco de cinema. Talvez o mesmo ocorra com suas interpretações literárias. No capítulo final do livro “A Europa na Guerra: Uma Vitória Nada Simples — 1939-1945” (Record, 599 página, tradução de Vitor Paolozzi), Davies discute a produção literária que enfoca a Segunda Guerra Mundial, mas não do ponto de vista estético (não é o seu foco), e sim a respeito de como apresentaram o assunto.

Keith Douglas, poeta inglês que morreu aos 24 anos

A tese de que poucos poetas discutiram a Segunda Guerra é, na visão de Davies, uma percepção anglo-americana. O historiador nota que os Aliados ignoram inclusive os bardos soldados. Ele cita como exemplo o poeta e soldado inglês Keith Douglas, morto por um mosteiro aos 24 anos, e cita seu poema “Actors Waiting in the Wings”². Li, não se aproxima da poesia de Rimbaud. “Alamein to Zem-Zem” é apontado, por Davies, como tendo “momentos brilhantes”, mas nem parte do poema é transcrito.

Soljenítsin conta que foi preso pelo governo de Stálin durante a Segunda Guerra Mundial e enviado ao Gulag | Foto: Jornal Opção

Alexander Soljenítsin provou, com o “Arquipélago Gulag”³, que estava à frente dos historiadores, documentando a devastação do povo e da intelligentsia soviéticos pelo stalinismo. Foi massacrado pelos críticos literários de esquerda, que, como de hábito, não fizeram autocrítica, quando, abertos os arquivos soviéticos, descobriu-se que “era tudo verdade”. Em “Noites Prussianas” escreveu um épico russo sobre a Segunda Guerra, no entendimento de Davies. Kamil Baczynski, morto aos 23 anos, em 1944, durante o Levante de Varsóvia (poloneses atacaram os nazistas e foram destroçados), é apontado por Davies como um grande talento.

T. S. Eliot tratou a Segunda Guerra, episodicamente, em “Quatro Quartetos”. Dylan Thomas roçou o assunto. George Orwell “estava bem adiante de seu tempo ao notar as semelhanças totalitárias entre o inimigo nazista e o aliado soviético”. No “Tribune”, onde foi editor, Orwell criticou os crimes soviéticos durante o Levante de Varsóvia. Há um trecho de “A Revolução dos Bichos”, de 1945, que, na opinião de Davies, diz tudo: “Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais do que outros”. Trata-se de uma crítica corrosiva ao stalinismo, à sua burocracia assassina e totalitária. Em 1949, Orwell publicou seu retrato final do totalitarismo, o romance “1984”. Era a ficção dando conta, com felicidade, da abrangência da era totalitária.

Davies nota que outros grandes escritores ingleses voltaram-se para entender a guerra, a partir de focos diferentes. Em “Fim de Caso” (que rendeu dois filmes), de 1951, Graham Greene “enfoca os romances notoriamente frágeis do período da guerra”. Evelyn Waugh (um autor notável, mas subestimado, possivelmente por não ser de esquerda) publicou a trilogia “A Espada da Honra”, entre 1952 e 1961. Davies diz que é “semi-satírica”. Não entendo o “semi”, porque a obra, apesar dos cuidados com o registro histórico, é mesmo satírica. Lawrence Durrell, em “O Quarteto de Alexandria”, quatro volumes densos (publicados no Brasil pelo Ediouro, em ótima tradução de Daniel Pellizzari), “conduziu ‘uma investigação do amor moderno’ no sórdido ambiente do fim do Egito imperial”.

Para Davies, a maior surpresa, em termos qualitativos, é o romance “Senhor das Moscas” (Alfaguara, 224 páginas, tradução de Sergio Flaksman), de 1954, de William Golding (1911-1993). O Nobel de Literatura de 1983 empregou “sua pena ácida para recontar a velha história de homens presos em uma ilha deserta” e ofereceu “sua convicção quanto à selvageria subjacente da natureza humana. Sua convicção de que a selvageria ficava logo abaixo da superfície da civilização obviamente havia sido alimentada pelas observações do autor durante a guerra”. Golding foi tenente da Marinha Real.

Por ser mais historiador do que especialista em literatura, Davies resgata do anonimato um autor do segundo ou do terceiro time (o que não significa que seja ruim). Nicholas Monsarrat, autor do romance “Mar Cruel” (publicado, pela Editora Mérito, na década de 1950), foi oficial naval. Davies diz que Monsarrat procurou “tornar a ficção realista mais real do que a história” e sustenta que é um dos “melhores” livros sobre a guerra. O livro conta a história dos tripulantes dos navios Compass Rose e Saltash, que circularam, sob intenso perigo, pelo Atlântico Norte. Davies diz que o filme extraído do romance é “soberbo”.

Norman Lewis (1908–2003) é destacado como um dos melhores autores que escreveram sobre a guerra. “Graham Greene definiu-o como ‘incomparável’, e alguns críticos classificaram-no como ‘o escritor dos escritores’.” Lewis, que serviu no Corpo de Inteligência britânico na Itália em 1943-1945, publicou “The Honoured Society”, em 1964, e “Nápoles 1944” (Nova Fronteira, 224 páginas), em 1978.

O existencialismo é, segundo Davies, produto da guerra. Ele diz, irônico, que a guerra gerou também “muita pose marxista”. Albert Camus, talvez o maior escritor francês do século 20, depois de Proust e ao lado de Gide, escreveu “O Estrangeiro”, de 1942, durante a guerra, “A Peste”, de 1946, e “O Homem Revoltado”, de 1951. Camus “era profundamente obcecado com o absurdo da condição humana e talvez por isso fosse menos abertamente político. Sartre não via contradição entre ser um comunista de carteirinha e filosofar sobre a liberdade”. Ao contrário, Camus optou pela coerência.

Escritores americanos também usaram a guerra como fonte. Norman Mailer publicou “Os Nus e os Mortos”, de 1948. Joseph Heller escreveu “Ardil 22”, de 1961. Kurt Vonnegut, prisioneiro de guerra, é autor de “Matadouro 5”.

Os alemães escreveram sobre a guerra, mas, no geral, fugiram do tema. Davies cita, como uma tentativa de “conciliar-se com o passado”, de Bernhard Schlink, o romance “O Leitor”, de 1995. (Curiosamente, ignora a prosa complexa de Thomas Bernhard e, antes deste, o Thomas Mann de “Doutor Fausto”, que, de maneira metafórica, trata do nazismo.) O historiador arrola também Henrich Boll (“O Anjo Silencioso”, de 1992) e Günter Grass (“O Tambor”, de 1959, e “Passo de Caranguejo”, de 2002).

Se a literatura reproduziu bem a desnazificação, criticando asperamente os crimes de Hitler e acólitos, continuou, senão escondendo, pelo menos omitindo os crimes do stalinismo. Davies diz que, na Alemanha, prefere-se, mais recentemente, a autoflagelação. “A moda de sentir culpa foi encorajada, mesmo entre jovens que não eram nascidos na época de Hitler, e radicais esquerdistas ganharam proeminência entre os árbitros dos gostos literário e intelectual. Um ex-policial do serviço de segurança stalinista, Marcel Reich-Ranicki (nascido em 1920), pôde tornar-se um influente crítico literário.” Aqui, digamos, reside um dos problemas de Davies: não ficamos sabendo se a crítica de Ranicki tem qualidade, e sim que foi policial. O historiador afirma que a prosa de Jürgen Habermas é “impenetrável” e que o filósofo, “neomarxista”, é propenso à polêmica. E daí? Davies é, não raro, extremamente sintético e impreciso.

Os escritores soviéticos não tiveram refresco durante e depois da guerra. Stálin, no lugar de afrouxar o controle, continuou a caça às bruxas (Stálin mandou prender Óssip Mandelstam porque o poeta escreveu que ele tinha bigodes de barata). “Um ‘delego’ muito limitado aconteceu após o ‘discurso secreto’ de Khruschov em 1956. Mas, em essência, 200 milhões de cidadãos soviéticos e um conjunto de nações cativas foram mantidos por meio século em camisa de força mental e física.”

Ilia Ehrenburg: espécie de autor integrado que, eventualmente, demonstrava alguma rebeldia ante o stalinismo | Foto: Reprodução

Escrever sobre a participação da União Soviética na guerra? Só com “triunfalismo”. “As críticas ao Grande Stálin ou ao alto-comando soviético eram proibidas.” Ilia Ehrenburg (1891-1967) rompeu o cerco, no entendimento de Davies (que não nota, por outro lado, que Ehrenburg, na França, articulou um movimento para destruir o dissidente Victor Serge), e publicou “A Queda de Paris”, em 1941, “A Tempestade”, em 1948, e “O Degelo”, em 1954. O escritor apresentou temas tabus, como o Holocausto e o Pacto Nazi-Soviético. Davies diz que Ehrenburg era importante para o stalinismo, como propagandista do sistema — “Ehrenburg vale por várias divisões”, disse Molotov —, e por isso sobreviveu. Entre seus feitos estavam os apelos para os soviéticos matarem alemães e, durante a Guerra Fria, atacarem americanos. Era um stalinista ao qual permitia-se arranhar, bem levemente, o stalinismo. Era o rebelde consentido.

Um escritor mais consistente, como Vassili (ou Vasily) Grossman (1905-1964), que Davies conta ter sido protegido de Ehrenburg, foi perseguido pelo stalinismo. Por seu imenso talento, ganhou o cargo de correspondente do jornal “Krasnaia Zviezda”, e escreveu livros ditos ortodoxos por Davies, como “Povo Imortal”, de 1942, e “Stalingrado”, de 1943, “e até mesmo se safou com uma obra testemunhal sobre o Holocausto, ‘O Inferno de Treblinka’”, de 1944. Quando decidiu ousar, dotando sua obra de um matiz mais crítico, o regime endureceu. “Na Causa Justa”, de 1954, sobre Stalingrado, depois de oito anos censurado, foi publicado, mas com mutilações. A obra-prima de Grossman, “Vida e Destino”4, de 1960, ficou sob censura durante 20 anos. Mikhail Suslov, principal ideólogo soviético, disse que “a obra só seria impressa depois de 250 anos”. Surpreende que Davies, quase sempre atento, não cite o excelente “Um Escritor na Guerra” (Objetiva, 495 páginas, tradução de Bruno Casotti), livro que recolhe as reportagens de guerra de Grossman. A obra foi editada e traduzida do russo para o inglês pelo historiador inglês Antony Beevor e pela bióloga e jornalista russa Luba Vinogradova.

Judeus, Ehrenburg — Davies o apresenta quase que como “rebelde”, o que nunca foi; era um integrado com laivos de rebeldia— e Grossman recolheram farto material para escreverem um Livro Negro sobre o destino dos judeus soviéticos. Davies garante que os dois queriam comparar o Holocausto nazista com o sofrimento dos judeus russos. “Mas, à mente soviética, a própria ideia de criminalidade soviética, quanto mais de comparações com a criminalidade nazista, era uma abominação.”

Ievguêni Ievtushênko, autor do poema “Bábi Iár” | Foto: Reprodução

Ievguêni Ievtushênko, nascido em 1933, teve a sorte de escrever e, portanto, publicar depois da morte de Stálin. Publicado em 1958, o longo poema “Bábi Iár” (uso a grafia com acentos, não a de Davies. Vitor Paolozzi não põe acentos porque traduziu o livro do inglês) é visto, por Davies, “como um ato de grande coragem”. Porque Stálin havia falecido, intoxicado pela paranoia, cinco anos antes, mas o stalinismo (seus seguidores), como notou o próprio Ievtushênko, no célebre poema “Os herdeiros de Stálin”, permanecia vivo.

Transcrevo o trecho inicial do longo poema “Bábi Iár”, na tradução de Lauro Machado Coelho (“Poesia Soviética”, Editora Algol, 654 páginas): “Em Bábi Iár não há monumento./Uma rocha escarpada, apenas, como a lápide mais rude./Tenho medo./Hoje, sinto-me tão velho/Quanto todo o povo judeu./Vejo-me como um antigo israelita./Perambulo pelas estradas do antigo Egito/E, na cruz, morro torturado:/Até hoje carrego nas mãos a marca dos pregos./Parece que eu sou o próprio Dreyfus.”

O objetivo de Ievtushênko, com o poema, “não era divulgar o massacre de 1941 [o de Katyn], mas sim lamentar a recusa das autoridades soviéticas em permitir a discussão da história judaica em geral. (…) Ele falou dos pogroms czaristas: ‘Eu vejo a mim mesmo como um menino em Belostok,/E sangue corre pelo chão//Eu sou odiado como um judeu/E é por isso que digo que sou russo’”.

Alexander Soljenítsin, citado antes, foi, segundo Davies, “o pugilista literário que desferiu os golpes mais potentes. Um veterano da guerra e um russo profundamente patriota, ele ficou indignado pelos seus anos perdidos no Gulag e encheu-se de determinação em mostrar ao mundo a realidade das repressões soviéticas — que não pararam durante a guerra, como muitos ocidentais pensavam, e que prosseguiam. Seu primeiro meio escolhido foi a ficção. O romance ‘Um Dia na Vida de Ivan Denissovitch’ (1962), que foi apenas o começo, causou uma sensação. ‘Pavilhão dos Cancerosos’ (1968) e ‘O Primeiro Círculo’ prosseguiram no tema das reações humanas a dificuldades extremas. Por esse motivo, foi expulso da União dos Escritores Soviéticos. Mas isso foi um mero prelúdio à erupção vulcânica que viria com sua abrupta deportação da URSS”.

Livro de Alan Furst | Foto: Jornal Opção

Enquanto os soviéticos tentavam escrever sobre a guerra, num estilo enviesado, para tentar escapar da censura — que não acabou com a morte de Stálin, em 1953 —, no mundo democrático viu-se uma enxurrada de livros, a maioria sem qualidade. Davies diz que a produção excessiva “atesta o poder da Segunda Guerra Mundial na imaginação popular, ou seja, o impacto contínuo do mais memorável dos eventos passados sobre a consciência atual”.

Os espiões, com suas histórias fabulosas, ganharam dezenas de livros (faltou citar um livro sobre Kim Philby, o espião dos espiões). Alguns dos melhores foram escritos por Graham Greene (“O Ministério do Medo”, de 1943) e John Le Carré. Davies cita um autor que não conheço, Alan Furst (nascido em 1941, autor de “Dark Star”, de 1991, e “Red Gold”, de 1999. A Record publicou “No Reino das Sombras”), que “tem um toque invejável e uma sensibilidade para o lado exótico do Leste Europeu”.

O historiador diz que a “alohistória”, ou história alternativa, “parece ter surgido da ficção científica”. “E se a Operação Leão-Marinho tivesse dado certo?” — é o que perguntam Len Deighton (“Bomber”, de 1970, e “SS-GB — A Grã-Bretanha Ocupada pelos Nazistas”, de 1978) e Robert Harris (“Pátria Amada”, de 1992, e “Enigma”, de 1995).

Davies diz que alguns prosadores, depois de enfocarem as ações dos vitoriosos Aliados (a guerra naval, a guerra aérea e o deserto ocidental), mudaram o rumo de seus livros. “Nos anos 1970 e 1980, o Holocausto tornou-se uma grande preocupação, após longa negligência. Como no campo da história, seu tratamento ficcional caracterizou-se por uma profunda compaixão pela tragédia judaica e muitas liberdades tomadas em relação à ambiência.” Leon Uris (“Mila 18”, de 1961) e William Styron (“A Escolha de Sofia”, de 1979) se tornaram peças-chaves do debate universitário nos Estados Unidos. Filmes semidocumentários, como “Shoah”, de 1986, de Claude Lanzmann, “foram arquitetados para promover o efeito desejado”. Outros livros sobre o Holocausto: “A Noite” (1958), de Elie Wiesel; “O Pássaro Pintado” (1965), de Jerzy Kosinski; “O Planeta do Sr. Sammler” (1970); “É Isto um Homem?” (1947) e “Se Não Agora, Quando? (1982), de Primo Levi; “A Seta do Tempo” (1991), de Martin Amis.

Aos poucos, de forma lenta e segura, “a Frente Oriental impôs-se com justiça como um tópico dominante”. Dizer que Stálin é um monstro, tudo bem, mas não se pode deixar de admitir que os soviéticos lutaram bravamente e foram decisivos na Segunda Guerra Mundial. Os dois temas, os crimes do stalinismo e a face guerreira dos soviéticos, chegaram ao palco da história e da literatura. “O choque de duas tiranias titânicas, que se encontram no núcleo da Segunda Guerra Mundial, podia finalmente tomar o palco central. A pura escala do sofrimento exigia nada menos do que isso.”

Davies cita como exemplo de prosa de qualidade, que combina a apresentação da Frente Oriental com o Gulag, o livro “Siege”, de 2001, do americano Russ Schneider. O escritor (e historiador) Schneider escreve sobre “as tribulações de três fictícios soldados alemães no cenário real da Batalha de Velikie Luki, em 1942. Mas o livro começa e acaba não no campo de batalha, e sim no maior campo de concentração da Europa”. Trecho do livro: “Vorkuta fica bem embaixo dos montes Urais. Fica não nas partes remotas da Sibéria, mas na porta da Sibéria… Tudo era indescritível… O Gulag está em todas as partes e todas as partes são a Rússia. Há rios de morte e longas distâncias de trilhos colocados, metro por metro, sobre os ossos de homens…” Schneider também escreveu “Demyansk”, de 1995.

Sven Hassel é autor de “Morte nas Estepes” (1976). Seus livros podem ser encontrados no site www.estantevirtual.com.br. A Livraria Cultura (www.livrariacultura.com.br) disponibiliza suas obras em inglês, português (edições de Portugal) e espanhol.

Quando romancistas constroem laços entre o maior teatro de ação militar e os maiores órgãos de repressão civil, eles estão penetrando nas áreas mais cruciais da Segunda Guerra Mundial na Europa”, escreve Davies.

É difícil entender a omissão de Davies a respeito da poesia de Anna Akhmátova, uma das principais e mais altivas vítimas do stalinismo.

Notas

¹ O livro de Norman Davies foi publicado na Inglaterra em 2006 e no Brasil em 2009.

² Frise-se que Keith Douglas viveu apenas 24 anos (morreu em 1944, durante a guerra). No livro “Poesia — Tradução e Versão” (Record, 301 páginas), Abgar Renault traduz dois poemas do autor, “Simplify me when i’m dead” e “Mersa”. A seguir, leia um dos poemas.

³ “O Arquipélago Gulag”, de Soljenítsin, ganhou uma tradução direta do russo recentemente.

4 “Vida e Destino”, de Vassili Grosman, saiu pela Alfaguara (920 páginas, tradução de Irineu Franco Perpétuo).

Simplify me when i’m dead

Keith Douglas

Lembrem-se de mim quando eu estiver morto,

simplifiquem-me quanto eu estiver morto.

Como os processos da terra

nos despojam de cor e pele,

levem os cabelos castanhos e os olhos azuis,

deixando-me mais simples que ao nascer,

quando, sem cabelos, surgi uivando

ao entrar a lua o frio céu

Do meu esqueleto tão despojado

talvez um sábio diga apenas:

“Tinha tal tipo e tal inteligência.”

Assim, quando num ano desabarem

as memórias pessoais, poderão

deduzir, da longa dor que sofri,

as opiniões que tive, quem era meu inimigo

e o que deixei, até minha aparência;

mas os incidentes não servirão de guia.

O invertido telescópio do Tempo mostrará

um homenzinho daqui a dez anos

e simplificado pela distância.

Por essa lente vejam se pareço

substância ou nada, merecendo

do mundo lembrança ou piedoso olvido;

não por momentâneo rancor,

nem por amor que se exalte em sentença,

firmem pausadamente sua opinião.

Lembrem-se de mim quando eu estiver morto,

simplifiquem-me quando eu estiver morto.

Livro analisa a poesia brasileira que tratou da Segunda Guerra

“O Mundo Sitiado — A Poesia Brasileira e a Segunda Guerra Mundial” (Editora 34, 373 páginas), de Murilo Marcondes de Moura, relata como poetas brasileiros perceberam a batalha mais cruenta da história (25 mil militares brasileiros participaram da luta, na Itália). Ele menciona os poetas Carlos Drummond de Andrade, Oswald de Andrade, Cecília Meireles e Murilo Mendes. Professor da USP, Murilo Marcondes de Moura é doutor em teoria literária e literatura comparada, com pós-doutorado na França.

Boris Schnaiderman publicou o romance “Guerra em Surdina” (Editora Cosac Naify) e “Caderno Italiano”. Os livros tratam da participação de brasileiros na campanha de combate ao nazismo, na Itália. Boris integrou a Força  Expedicionária Brasileira (FEB).

Roberto de Mello e Souza escreveu “Mina R” (Editora Ouro Sobre Azul), romance, sobre a guerra na Itália. Ele foi combatente.

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