Euler de França Belém
Euler de França Belém

Witzel erra ao comemorar morte mas não deixa de agradar parte dos indivíduos

A esquerda falha quando não condena, de maneira enfática, a violência, porque a conecta a problemas sociais

“Caçadores de Nazistas” (Intrínseca, 431 páginas, tradução de Berilo Vargas), de Andrew Nagorski, conta a história de Fritz Bauer, William Denson, Rafi Eitan, Benjamin Ferencz, Tuvia Fridman, Elizabeth Holtzman, Beate Klarsfeld, Serge Klarsfeld, Simon Wiesenthal, que contribuíram, de maneira decisiva, para que nazistas — assassinos de pessoas em algunss países, e não só em campos de extermínio — fossem julgados e condenados. Relata-se também a história do sargento John C. Woods, do Exército dos Estados Unidos, que atuou como carrasco no julgamento de Nuremberg. “Enforquei dez nazistas em Nuremberg com muito orgulho; foi um serviço bem-executado. Tudo foi excelente”, admitiu o militar. Os criminosos eram brutais e mereciam morrer — eles próprios, no geral, não questionaram a decisão. Mas há indícios de que Woods deu nós de maneira que pelos menos dois condenados sofressem mais. O general Alfred Jodl e o marechal Wilhelm Keitel demoraram, respectivamente, 18 e 24 minutos para morrer.

Wilson Witzel, governador do Rio de Janeiro | Foto: Reprodução

Na semana passada, no Rio de Janeiro, o vigilante William Augusto Nascimento sequestrou um ônibus, fez 37 reféns e ameaçou incendiar o veículo. Um sniper da Polícia Militar o matou e evitou o pior — a morte de vários inocentes. Logo depois, o governador do Estado, o ex-magistrado Wilson Witzel (PSC), desceu de um helicóptero, com os braços erguidos — “comemorando” o desfecho do episódio.

O que se cobra de uma autoridade, ao menos numa sociedade democrática, é o mínimo de compostura. Witzel, de acordo com suas palavras, estava “comemorando” o fato de que 37 pessoas foram salvas e sem ferimentos e a atuação competente da polícia (“Primeiro eu quero agradecer a Deus. Não foi a melhor solução possível, o ideal era que todos saíssem com vida, mas tomamos a decisão de salvar os reféns”, disse). Isto é comemorável, mas a impressão que deixou foi outra — de que estaria alegre com a morte do vigilante-sequestrador, que não tinha passagem pela polícia, e estava em surto psicótico, aparentemente.

Se a reação de Witzel foi excessiva, dando a impressão que estava levemente surtado, há outro tipo de reação que não compreende os que apoiam o governador. A sociedade não pode nem deve descartar aqueles que fazem a defesa dos direitos humanos. Tais pessoas são necessárias, porque há setores da sociedade, inclusive autoridades, que extrapolam e precisam ser contidas. Como a lei demora um pouco, o que é normal, a primeira denúncia parte dos que podem ser chamados de humanistas. Parte das pessoas, talvez a maioria, parece ter ficado satisfeita com o resultado do que aconteceu no Rio. Porque, finalmente, inocentes sobreviveram e apenas uma pessoa, que estava cometendo uma infração, morreu. Então, do ponto de vista do público, a polícia acertou. Assim como Witzel.

Nas redes sociais, ainda que às vezes de maneira cautelosa, setores ideologizados condenaram Witzel, sobretudo a celebração de uma morte. Neste sentido, quando criticam a celebração, não estão equivocados — ainda que, com alívio, é provável que a maioria das pessoas tenha mesmo comemorado o que aconteceu.

A esquerda perde terreno, junto aos indivíduos que não se interessam por ideologia e estão preocupados com a violência, quando, às vezes, não se posiciona com radicalidade contra os criminosos — adotando a tese de que a origem da violência é social, e assim estaria, teoricamente, justificada. A esquerda ganharia terreno se condenasse com veemência a violência e cobrasse medidas duras para combatê-la, mas com amplo respeito ao Estado de Direito.

Um dos motivos de a sociedade afastar-se dos políticos de esquerda, priorizando políticos de direita, como Jair Bolsonaro e Witzel, é sua “falta” de compreensão das agruras do povão na questão da violência. A percepção da direita — e quem sabe não só por oportunismo — a respeito do assunto é mais aguda.

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