Euler de França Belém
Euler de França Belém

Segunda Guerra Mundial e o trabalho controverso dos historiadores

A batalha entre o nazifascismo e os Aliados produziu certo consenso, o que é natural. Mas há problemas não resolvidos, sugere pesquisador polonês-britânico

Lidar com a história da Segunda Guerra Mundial¹, depois de 80 anos de seu começo e 74 anos de seu fim, parece fácil, mas não é, diz Norman Davies, no livro “Europa na Guerra — 1939-1945” (Record, 599 páginas). Observe-se que apenas na década de 1990 os historiadores tiveram oportunidade de examinar os arquivos de guerra do NKVD e do Ministério do Exterior soviético. “Entretanto”, nota Davies, “imensas lacunas persistem, especialmente com respeito ao Ministério da Defesa soviético e aos Arquivos do Troféu. Adolf Hitler morreu em abril de 1945. Seu crânio só foi localizado (numa caixa de sapatos) nos arquivos do NKVD em 1992 e o arquivo completo do NKVD sobre Hitler só foi liberado em 2002. O primeiro guia com base em arquivos do sistema de campos de concentração soviético só foi publicado em 1998. Enquanto isso, o mundo acostumou-se à ideia de que só os nazistas tinham campos de concentração durante a guerra”.

Mas as imensas dificuldades com alguns arquivos não impediram uma enxurrada de livros. Davies faz um rastreamento do que há de mais interessante e, infelizmente, muito não foi traduzido para o português. As memórias de Winston Churchill, ainda que idiossincráticas, foram vertidas. Há também os relatos de Charles de Gaulle, Albert Speer, Jukov (o general que Stálin não conseguiu matar, porque o Exército reagiu), Goebbels. “Relatos pessoais do Holocausto, como o diário de Anne Frank, somam número muito maior do que as narrativas vindas do Gulag”, ressalta Davies.

Norman Davies, historiador: há menos narrativas sobre o Gulag | Foto: Reprodução

Milovan Djilas, entre os comunistas, deu o “testemunho mais chocante”, segundo Davies, sobre os bastidores do regime de Stálin. Ele apontou, em primeira mão, o surgimento de uma “nova classe”, no clássico “A Nova Classe” (publicado no Brasil) O regime stalinista era gerido “por uma brutal e ditatorial ‘Classe Nova’ de puxa-sacos do partido” (comunista).

Em 1951, seis anos depois do fim da guerra, Alan Bullock, de Oxford, pôs nas livrarias o livro “Hitler — Estudo de uma Tirania”. O historiador teve “acesso privilegiado a arquivos alemães”. “Na época, cinco anos antes do ‘degelo’, Stálin estava vivo e ninguém ainda concebera um estudo sobre a tirania stalinista.”

Hitler e Stálin flertaram fortemente em agosto de 1939

Depois da obra de Bullock, esgotada no Brasil, saíram livros de Joachim Fest, autor de uma biografia clássica de Hitler (publicada pela Nova Fronteira), Michael Burleigh, Richard Evans e Ian Kershaw (o mais completo biógrafo do líder nazista). “O mais interessante é que vários dos biógrafos de Hitler também foram atraídos por Stálin. O duelo épico dos dois homens durante a Segunda Guerra Mundial é um tema central, sem o qual pode haver muito mal-entendidos a respeito de ambos.” Em 1991, Bullock lançou “Hitler and Stálin: Parallel Lives” (pode ser encontrado nos sites da Livraria Cultura e do Estante Virtual).

“Mais recentemente, Richard Overy agarrou o touro pelos chifres com mais firmeza. Ninguém sugeriu que os dois tiranos [Hitler e Stálin] fossem idênticos. Mas ambos eram tiranos vis. E não faz sentido argumentar que Stálin era de algum modo menos tirano porque tinha combatido o tirano Hitler”, critica Davies.

Livro de historiador britânico mostra similitudes e diferenças entre os dois líderes totalitários | Foto: Jornal Opção

Logo depois da guerra, os historiadores alemães evitaram estudar o período nazista. O tema ficou na “geladeira durante muitos anos”. Gerhard Ritter, uma das exceções, procurou negar a “relação” entre Hitler e os grandes homens da história alemã. Fritz Fischer argumentou, no livro “Griff nach der Weltmacht”, de 1961, “que a Alemanha vinha seguindo uma ‘Sonderweg’, ou ‘trilha especial’, desde o Império”.

A partir de 1960, dois temas começaram a tomar conta dos debates, o Holocausto judaico e o histórico criminoso de Stálin. Lucy Dawidowicz, Raul Hilberg, Yehuda Bauer e Martin Gilbert “colocaram a tese principal sobre o genocídio nazista de cerca de 6 milhões de judeus, a maioria da Polônia ocupada pelos alemães, acima de qualquer suspeita”.

Para Davies, “o tema dos crimes de Stálin veio à cena como resultado direto do não tão secreto discurso de Khruschov em fevereiro de 1956, do subsequente ‘degelo’ na cultura soviética e da brutal repressão do levante húngaro. (…) A percepção se fortaleceu com os escritos de Soljenítsin, as investigações históricas de Robert Conquest e a onda seguinte de opressão soviética na Tchecoslováquia”.

Apesar das evidências dos crimes do stalinismo, que não acabaram com a morte de Stálin, e “até os anos 1990, obras criticando a URSS eram rotuladas como ‘controversas’ ou ‘antissoviéticas’ e, consequentemente, não exatamente confiáveis”.

No campo da história militar, John Keegan foi pioneiro com “A Face da Batalha”, de 1976. Keegan examinou o trabalho dos soldados, na linha de frente. Seguiram-se “Pegasus Bridge” (1984) e “Band of Brothers” (1992), “O Dia D” (1994) e “Soldados e Cidadãos” (1997), de Stephen Ambrose. O defeito básico de Ambrose é o americocentrismo. Os soldados americanos eram “tudo”.

Como “a história evolui por meio de controvérsias”, é preciso citar o célebre “A Segunda Guerra Mundial” (1963), de A. J. P. Taylor. O historiador inglês sustentava que Hitler, “nos anos 1930, não trabalhava com um cronograma planejado de agressão. Em vez disso, Taylor defendia a tese de que Hitler gostava de correr riscos, era um blefador e um oportunista. (…) Nos anos 1960, a demonização de Hitler estava bem avançada, e a ideia de que o Führer não seguiu o diabólico plano que delineara em ‘Mein Kampf’ foi vista por muitos com um insulto”.

Depois da controvérsia provocada por A. J. P. Taylor, surgiu outra. Alguns historiadores sugeriram que a Segunda Guerra Mundial era decorrente da Primeira Guerra Mundial, das rivalidades (“profundamente enraizadas”) entre as potências europeias, e não das ambições de Hitler e aliados. No livro “A Última Guerra Europeia” (não se sabe o motivo do tradutor do livro de Davies pôr os títulos em inglês para livros traduzidos), de 1976, John Lukacs postulou que o nacionalismo havia sido superado e que o essencial era entender as rivalidades entre as superpotências.

Dez anos depois, no livro “Der Europäische Bürgerkireg, 1917-1945”, o historiador alemão Ernst Nolte “sustentou que algumas das técnicas e práticas políticas dos nazistas foram copiadas das da União Soviética”. Davies percebe que Nolte estava conectando comunismo e fascismo ao totalitarismo. Ele estava dizendo que “comunismo e fascismo tinham muito em comum, especialmente suas aspirações a controle total”. Em tese, Nolte seguia o pensamento da filósofa Hannah Arendt, que provocou irritação, mesmo em círculos judaicos, com seu livro “Origens do Totalitarismo” (1951).

No seu livro, Arendt ressaltou “a singularidade do Holocausto e o papel dos comunistas judeus”. Notou também uma espécie de “irmandade” entre os totalitarismos comunista e nazista (não deixa de ser curioso que Hitler e Stálin tinham uma imensa curiosidade um sobre o outro e, claro, foram parceiros durante algum tempo). Mais tarde, em 1963, a filósofa lançou outro livro igualmente polêmico “Eichmann em Jerusalém — Um Relato Sobre a Banalidade do Mal”. Num artigo, “O passado que não irá morrer”, de 1986, Nolte irritou ainda mais a esquerda. Ele disse que “o fascismo” era “uma ‘reação defensiva’ ao comunismo”.

O historiador Andreas Hilgrüber, no livro “Zweierlei Untergang” (“Ruína Dupla”), de 1986, sugeriu “que a Alemanha havia sido vitimada duas vezes — uma pela derrota militar e outra pelas expulsões” (dos alemães do leste, entre 1945-1947). Foi atacado pelo filósofo Jürgen Habermas (tratado como confuso e radical por Davies). Os adversários de Hilgrüber não aceitaram a tese de que o sofrimento dos alemães, expulsos do leste, podia ser comparado ao Holocausto. Por que não falar das duas mil mulheres estupradas pelos soldados russos e das dezenas de milhares de civis alemães que foram queimados e mortos nos bombardeios dos Aliados, principalmente ingleses e, em seguida, soviéticos?

Por trás do debate, havia, nota Davies, a tese de que os alemães, por meio do governo nazista, eram responsáveis pelo maior sofrimento ocorrido durante a guerra. Esquecia-se do sofrimento, digamos massacre, dos soviéticos nos campos de concentração, o Gulag. Porque, em tese, o governo soviético, de Stálin e pós-Stálin, representava o Bem, enquanto o nazismo representava o Mal. Com a derrocada do comunismo, e as consequentes denúncias, agora plenamente documentadas pelos arquivos soviéticos, se pôde entender, em toda a sua extensão, os crimes do stalinismo. Davies não diz isto, mas eu assinalo: se os soviéticos não reclamavam, e não denunciavam o Gulag e os expurgos, apesar de serem bem conhecidos — Robert Conquest foi um dos pioneiros a denunciá-los, documentada e analiticamente, no livro “O Grande Terror — Os Expurgos de Stálin” (Expressão e Cultura, 600 páginas, tradução de Henrique Benevides, 1968. Publicado no Brasil em 1970) —, a situação, teoricamente, não era tão ruim assim. Ninguém supera a esquerda em propaganda política — nem mesmo o nazista Joseph Goebbels. A direta, excluindo Goebbels, sempre foi superada, em propaganda, pela esquerda. A esquerda é o “Bem” e não se condena o “Bem”, mesmo quando este, para além das aparências, não é nada “Bem”, e sim é, sobretudo, o “Mal”. Quando quer, a esquerda manipula, com mestria, o maniqueísmo. Quando julga necessário, critica o maniqueísmo. Por que os crimes do comunismo não são internalizados como crimes contra a humanidade iguais aos do nazismo? Em regra, porque a propaganda comunista foi e, apesar da abertura dos arquivos soviéticos (e outros), continua sendo muito eficiente. Enfrentar a esquerda, o “Bem”, é quase impossível. A pessoa, ainda que seja um intelectual sólido, como Robert Conquest, pode ser execrada pelo resto de seus dias. Então, o silêncio, ou neutralidade do muro, é um dos caminhos protetores das carreiras intelectuais e acadêmicas.

Entretanto, “nos anos 1990, quando vozes russas se juntaram às persistentes condenações do sistema soviético, a maioria de seus antigos defensores perdeu o ímpeto. A publicação, em 1997, de ‘O Livro Negro do Comunismo’, compilado por uma equipe de desiludidos comunistas franceses e europeus do Leste, mostrou-se irrefutável. A partir daí, os crimes soviéticos figuraram na agenda ao lado dos crimes nazistas”. (Vale acrescentar que, mesmo no Brasil, vozes se levantaram para criticar o livro como produto de um trabalho sistemático da direita — omitindo-se, é claro, que os autores eram egressos da esquerda, e de uma esquerda profundamente respeitável, não contaminada pelo direitismo militante. Basta citar, como exemplo, o seriíssimo François Furet. Chegaram a produzir um livro negro do capitalismo, nos quais crimes que ocorreram antes de o capitalismo se tornar o modo de produção dominante foram arrolados como “crimes do capitalismo”.)

O historiador Tony Judt, citado por Davies, escreveu no “New York Times”: “O mito dos bem-intencionados fundadores — o bom czar Lênin traído por seus diabólicos herdeiros — foi enterrado de uma vez por todas. Ninguém poderá mais alegar ignorância ou incerteza a respeito da natureza criminosa do comunismo e aqueles que começaram a esquecer serão forçados a se lembrar novamente”. Judt comenta, no jornal americano, o surgimento do “Livro Negro do Comunismo” (que, depois, teve uma sequência, muito boa, porém pouco divulgada).

Doze anos após o colapso da União Soviética, a historiografia sobre os acontecimentos do Leste europeu renasceu com vigor, sobretudo porque os historiadores passaram a ter acesso aos documentos de arquivos que permaneceram décadas fechados aos pesquisadores. Davies relata que vários livros instigantes foram publicados — os principais, felizmente, traduzidos no Brasil. Dmitri Volkogonov (o general soviético, informadíssimo, escreveu uma biografia, em dois volumes, de Stálin e, depois, um livro sobre todos os líderes que governaram a União Soviética. Ele mostrou a mediocridade dos governantes, com exceções que confirmam a regra), Robert Service (sua biografia de Stálin não foi publicada no Brasil; saiu, entre nós, a biografia “Lênin — A Biografia Definitiva”, eivada de erros de tradução e um título absurdo. Service jamais disse que sua biografia era “definitiva”, afinal é um historiador do primeiro time) e Simon Sebag Montefiore publicaram livros desmitificados sobre Stálin e sua gangue. O livro “Stálin — A Corte do Czar Vermelho”, de Montefiore, não resta dúvida, é muito bom. Mas fica-se com a impressão de que o historiador, consciencioso, superestima Stálin como intelectual, aparentemente, porque o ditador leu muitos livros. No afã de compreender, de superar a demonização, é provável que Montefiore tenha cristalizado uma impressão razoavelmente positiva de Stálin, ainda que o monstro apareça com toda a sua fúria no livro. Trata-se, muito mais, de uma impressão de leitor. Talvez o que fica mesmo é a “presença” monstruosa de Stálin, muitíssimo bem descrita pelo historiador britânico. O modo como o ditador operava o sistema stalinista, transformando aliados em peões suspeitos, aterrorizando-os, é descrito com mestria. Para uma visão mais nuançada, que ressalta os muitos equívocos políticos e estratégicos do ditador soviético, convém ler “Stálin, os Nazistas e o Ocidente — A Segunda Guerra Mundial Entre Quatro Paredes” (Larousse, 568 páginas), o brilhante livro de Laurence Rees. O historiador observa que, a partir de certo momento, Stálin começou a manipular, aí, sim, com rara habilidade, o inglês Winston Churchill e o americano Franklin D. Roosevelt, que, precisando do aliado do Leste, cederam em vários pontos, como no caso da Polônia. O livro de Rees não é citado por Davies, talvez porque seja tão recente quanto o seu livro.

Davies nota que “Stalingrado”, de Antony Beevor, o brilhante historiador inglês, é um relato notável. Um retrato equilibrado do heroísmo soviético, mas também da violência do governo de Stálin. Davies faz justiça a um dos mais importantes livros publicados nos últimos anos, “Gulag — Uma História dos Campos de Prisioneiros Soviéticos” (Ediouro, 749 páginas, tradução de Mário Vilela e Ibraíma Dafonte), de Anne Applebaum. Trata-se, escreve Davies, de “um soberbo estudo condenatório sobre o Gulag, que deixa sem argumentos todos os céticos e negadores”. Mesmo assim, como notei antes, há quem não consiga perceber tais crimes como tão monstruosos quanto os crimes do nazismo. O livro de Applebaum, um soco na cara dos que não querem perceber a barbárie stalinista (assim como não querem perceber que Che Guevara era um político sanguinário e não um rebelde romântico), é uma obra-prima sobre a tragédia soviética.

“Os mecanismos do NKVD [antiga KGB] podem agora ser documentados. (…) As vítimas do comunismo soviético podem agora ter a mesma dignidade e reconhecimento que as vítimas do nazismo há muito possuem”, anota Davies. Ou será que a esquerda vai dizer, agora, que uns são mais vítimas do que outros? É bem possível que, mesmo livros sérios, continuem tratados como “propaganda capitalista” ou da direita.

Nos Estados Unidos, segundo Davies, a argumentação patriótica — fruto, em parte, dos livros do historiador Stephen Ambrose (no geral, fascinantes) e, segundo o historiador, também da cinematografia de Steven Spielberg (entre outros) — começa a ceder. Os EUA de Franklin D. Roosevelt, afinal, admitem os americanos (muitos deles, pelo menos), não venceram a guerra sozinhos — como prova Davies, no seu notável livro, embora tenham sido decisivos na sua finalização, demoraram muito a participar dos combates e participaram de poucos combates verdadeiramente decisivos. Tornaram-se decisivos, isto sim, em decorrência da história que se escreveu sobre eles. Os americanos não têm o hábito de discutir a cruenta batalha de Kursk, uma das mais decisivas, senão a mais decisiva, da guerra.

A ideia de que os soldados e generais americanos decidiram a guerra, algo romântica, no entendimento de Davies, foi ampliada, depois de Ambrose, por Tom Brockaw, no livro “The Greatest Generation”, de 1998. Um pouco antes, em 1975, o americano Paul Fussell, criticou o romantismo interessado (a tese é mais ou menos a seguinte: os Estados Unidos merecem dominar o mundo, pois o salvaram de Hitler) de seus compatriotas. “A parte aliada da guerra de 1939-1945 foi higienizada e romanceada pelos sentimentais, pelos patriotas tolos, pelos ignorantes e pelos sanguinários a ponto de se desfigurar”, escreveu Fussel, no livro “Wartime and Behavior”, de 1989. Os americanos tendem a excluir, a omitir ou a reduzir o peso da violenta e decisiva guerra no território soviético. Morreram na guerra 27 milhões de soviéticos, 400 mil americanos e 400 mil ingleses. Os números dizem tudo. Os soviéticos foram usados como bucha de canhão por Stálin, diretamente, e, indiretamente, pelos demais Aliados. Antes os soviéticos, certamente pensaram os estadistas democratas, do que os ingleses e os americanos. Davies nota também que vários povos, como poloneses, lutaram na Grã-Bretanha contra os ataques alemães. Mas persiste o mito de que os ingleses lutaram sozinhos. Sem os soviéticos, como os Aliados teriam se virado? Talvez vencessem a guerra, mas os sacrifícios humanos teriam sido muito maiores entre ingleses, americanos e outros aliados.

No fim de seu ensaio (sim, é um ensaio, ainda que preso a um texto mais amplo) sobre o trabalho dos historiadores, Davies diz que “a tarefa de compor uma estrutura concisa e exata da história da Segunda Guerra Mundial parece estar ficando mais viável”. Ele cita que os primeiros a tentar uma síntese foram os ingleses A. J. P. Taylor, John Ray e R. A. C. Parker. Em 1994, Gerhard Weinberg (americano de origem alemã), no livro “A World At Armas: A Global History of World War II”, combinou “uma perspectiva americana com a eficácia germânica”.

Davies diz que um livro muito elogiado é “Total War”, de 1972, de Peter Calvocoressi, Guy Wint e John Pritchard. A edição mais recente saiu com o título de “The Penguin History of the Second World War”. Davies ressalva: “Mesmo assim, a perspectiva continua decididamente anglo-americana, para não dizer churchilliana. A parte devotada ao período do Pacto Nazi-Soviético ainda tem o título ‘As Guerras de Hitler’. Na parte da derrota do Reich, ‘A Vitória da URSS’ ocupa apenas um entre 25 capítulos. Semelhantes ênfases não refletem adequadamente a realidade histórica. Se isso é o melhor que os historiadores podem fazer, eles têm que continuar ‘tentando, tentando e tentando de novo’”.

Se os historiadores têm dificuldade de lidar com fatos ocorridos há certo tempo, com documentação em geral farta, imagine o trabalho dos jornalistas no dia-a-dia. Os jornalistas, acreditando numa objetividade impossível, avaliam que traduzem a realidade à risca, quando, na verdade, fazem um recorte superficial, muitas vezes contestado no dia seguinte, da realidade. Davies mostra que, com o trabalho dos historiadores, por incrível que possa parecer, não é muito diferente. Mas deveria ser.

Um detalhe às vezes negligenciado pelos historiadores, mas não por Davies: grande parte da documentação sobre a Segunda Guerra Mundial está na internet. O historiador fornece vários sites. Consultei alguns e é um verdadeiro maná. Mas, claro, os livros, como os de Davies e Laurence Rees, ainda são as melhores fontes.

Nota

¹ O livro de Norman Davies saiu em 2006, na Inglaterra, e em 2009, no Brasil. O texto acima é de 2009. Portanto, outros livros foram publicados sobre a Segunda Guerra Mundial (confira algumas dicas abaixo). Curiosamente, o pesquisador nasceu em 1939, o mesmo ano do início da batalha mais sangrenta da história.

Livros importantes para entender a Segunda Guerra

1 — “A Segunda Guerra Mundial” (Bertrand), de Antony Beevor. Uma excelente história da luta, ressaltando que pode ter começado, em 1935, na Ásia, e não na Europa, em 1939. Mostra também japoneses comendo americanos — como se fossem gado.

2 — “Apoiando Hitler — Consentimento e Coerção na Alemanha Nazista”, de Robert Gellately. O autor proa, entre outras coisas, que os alemães sabiam do Holocausto.

3 — “Terras de Sangue — A Europa Entre Hitler e Stálin” (Record), de Timothy Snyder. O historiador mostra a devastação provocada pelos dois países.

4 — “A Tempestade da Guerra” (Record), de Andrew Roberts. Um livro notável. A conclusão mostra que, a rigor, Hitler venceu a guerra durante boa parte do tempo.

5 — “Inferno — O Mundo em Guerra: 1939-1945” (Intrínseca), de Max Hastings.

6 — “Combate Moral — Una Historia de la Segunda Guerra Mundial” (Taurus), de Michael Burleigh.

7 — “Fascistas! (Record), de Michael Mann.

8 — “O Terceiro Reich — Em Guerra” (Planeta), de Richard J. Evans.

9 — “A Alemanha Nazista e os Judeus — Os Anos de Extermínio, 1939-1945” (Perspectiva), de Saul Friedländer.

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