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PSD sedia encontro da juventude neste sábado em Goiânia

“A Juventude e a Política de Goiás e do Brasil” é tema de encontro estadual do PSD

JBS tinha planos para assumir saneamento de ao menos cinco estados, revela delator

Grupo J&F pretendia criar "uma concessionária dos serviços de água e de esgoto pelo país". Repercussão da Lava Jato, entretanto, teria freado esquema

Vacina contra a gripe está disponível a partir desta segunda-feira para toda a população

Campanha vai até sexta-feira (9). Meta é de vacinar 90% do público-alvo, mas, até o momento, nenhum grupo prioritário atingiu o índice

Os vales que produzem os mais famosos vinhos chilenos consumidos no Brasil

Características geográficas do país sul-americano resultam em distintos cultivos de uvas para produção da bebida

Em protesto, Iris intimida professora: “Eu exijo respeito, não sou Paulo Garcia”

Gravação mostra prefeito visivelmente alterado ao abordar de forma evasiva uma manifestante durante mutirão. Vereador e trabalhadora falam em agressão

Homem é preso em Goiás após tentar atropelar agente rodoviário

Motorista realizou ultrapassagem em local proibido e, na tentativa de fugir da abordagem, jogou o veículo contra o policial. Ele estava bêbado e em um carro furtado

Estado Islâmico reivindica autoria do atentado em Londres

Ataque no último sábado (3) deixou sete mortos. Polícia já prendeu 12 pessoas e suspeita que os responsáveis diretos pelo episódio são parte de célula terrorista

Internada por complicações na gravidez, Eliana diz que escolheu cuidar de uma vida

Grávida, apresentadora teve um deslocamento de placenta e se afastou do trabalho para ficar no hospital até pelo menos o dia do parto

Bia de Lima é reeleita presidente do Sintego e pede união da categoria

Atualmente na liderança do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Goiás, Bia recebeu 70% dos votos

Empresário da JBS pediu para tirar ex-assessor de Temer de delação

Em ligação grampeada pela Polícia Federal, Ricardo Saud pede que nome de José Yunes seja retirado

Breaking Bad e A Poética de Aristóteles

A sofisticação dos programas de TV é um fenômeno relativamente novo; série tomando qualidade de cinema. Breaking Bad é a primeira grande peça desse novo caminho da indústria do entretenimento Já estudei muito tragédia grega. Dois livros são essenciais neste tema: "A Origem da Tragédia", do Nietzsche, onde há uma análise sob o ponto de vista filosófico e religioso; e "Poética", do Aristóteles, onde se analisa os caracteres técnicos da construção do drama, principalmente na obra de Sófocles. Os poetas trágicos não criavam argumento, que é o mote sobre o qual se desenvolve a ação. Faziam seus textos sempre a partir dos mesmos mitos tradicionais, e as competições eram sobre quem desenvolvia com mais habilidade as variações de ação sobre os argumentos já conhecidos do público. Criar argumento é perigoso, pois há grande chance de ser artificial e, portanto, irrelevante. As boas narrativas em geral trabalham motes clássicos, como o amor, o ciúme, dilemas morais, as guerras, a vingança. Pra pegar um exemplo pop, Tarantino fez dois grandes filmes a partir de argumentos muito básicos: Kill Bill (vingança) e Bastardos Inglórios (II Guerra). Breaking Bad conseguiu a façanha de um argumento modernoso e inovador na aparência, além de curioso (um professor de química que, ao se descobrir com câncer de pulmão, começa a fabricar metanfetamina), e, no fundo, clássico: um homem encarando a própria mortalidade. Aqui entra também um dilema "dostoievskiano" sobre se, perante a mortalidade e a perspectiva de desaparecimento, vale a pena jogar pelas regras. Essa pergunta atormenta Walter White e os consequentes dramas de consciência, justificações e tentativas de redenção são muito bem trabalhados. Quanto à estrutura narrativa, Aristóteles dizia que dois recursos são essenciais pra provocar a "catarse" no público: o reconhecimento e um desenlace inesperado. O "reconhecimento" se dá quando um personagem conhecido da trama revela sua verdadeira identidade, para a surpresa de todos. A identidade verdadeira deve ser relevante. Um exemplo famoso na cultura pop é o "Luke, i`m your father", do Star Wars. Em Breaking Bad há dois reconhecimentos. O primeiro no episódio "Mandala", quando Walt senta na mesinha dos Pollos Hermanos com Gus Fring, que, até então fingindo não conhecê-lo e ser um mero dono de fast food, de repente muda a expressão e solta o "I don't think we`re alike at all, Mr. White. Your partner was late. And he was high". O segundo é quando Hank acha o "Leaves of Grass" no banheiro de Walt e percebe que ele é, na verdade, Heinsenberg. Neste ponto há também o que Aristóteles chama de "desenlace", o fato que desata o nó da trama, no caso, como Heinsenberg seria descoberto e pego pela DEA. E Gilligan acha uma solução perfeita, verossímil, a partir de um elemento casual presente na trama, sem recorrer ao que chamamos de "Deus ex machina", uma solução mirabolante vinda de fora dos fatos já fornecidos. Solução "ex machina" seria, por exemplo, se Hank sonhasse que Walt era Heisenberg e isso desencadeasse sua investigação e perseguição. Enfim, isso é o básico, eu poderia escrever um livro sobre cada ponto do Breaking Bad. Não existe nenhuma série à altura ainda, apesar de eu nunca ter visto Família Soprano, que dizem ser do mesmo patamar. A sofisticação dos programas de TV é um fenômeno relativamente novo; série tomando qualidade de cinema. E, pra mim, Breaking Bad é a primeira grande peça desse novo caminho da indústria do entretenimento.

Pesquisa diz que não há candidato favorito em caso de eleição indireta

Entre os que escolheram um candidato, Rodrigo Maia (DEM-RJ) está na frente

“É a memória viva do povo goiano”, diz Marconi em missa do Divino Espírito Santo

Símbolo cultural e religioso de Luziânia, festa na cidade ocorre sempre 50 dias após a Páscoa

Protesto com artistas pede saída de Temer e eleições diretas

O cantor Chico César abriu os shows que tem ainda blocos de carnaval e apresentação de Criolo, Pitty, Emicida e Tulipa Ruiz

Contos de ficção científica à brasileira – Parte 2

Sequência da série iniciada em 21 de maio, sob organização de Luiz Bras, Sérgio Tavares e Anderson Fonseca, traz mais dois contos dedicados a dois escritores. Desta vez, os homenageados são André Carneiro e William Gibson   [caption id="attachment_96507" align="alignleft" width="300"] Ilustração: Bianca Lana[/caption]

Revolução do zíper

Homenagem a André Carneiro Luiz Bras Especial para o Jornal Opção   No sermão dominical, repetiu nosso abençoado presidente: {No princípio era o caos opaco e o Plástico Transparente. E o plastrans, desafiando o caos opaco, gerou as galáxias, o sistema solar, a Terra, o homem e todos os animais. E o homem, soberano na Terra, criou o Estado Único, o triunfo espiritual, social e político do plastrans. } {No mundo ideal tudo é transparente: cidades de plastrans acolhem amorosamente cidadãos de plastrans. Na sociedade perfeita a liberdade e a felicidade são sempre obedientes, e a obediência é sempre transparente. } {Mas o caos opaco, avesso à beleza e à obediência, não descansa… Sombras insidiosas esperam pacientemente o melhor momento pra turvar a transparência do cosmo e do homem. A sagrada missão do Estado Único é proteger a qualquer preço o radiante facho de Plástico Transparente que habita cada um de nós.} Fechar as bocas, todas as bocas, o poder central e a felicidade geral da nação exigem bocas fechadas, interromper também os olhos e os ouvidos, que cidadão algum fale, veja e ouça o que não deve ser falado-visto-ouvido. {Que estropício espalhou que neste mundo haveria pão e circo, bem-estar e dignidade pra todos?} “Quando falta material hospitalar, quando faltam leitos e médicos, o cidadão reclama demais, pára o trânsito, queima pneus, um horror.” “A repressão policial já não está dando conta da situação, muito menos a repressão religiosa, a censura artística, científica.” {Que estafermo propagou a noção estapafúrdia de liberdade-igualdade-solidariedade?} “Quando falta material escolar, quando faltam salas de aula e professores, o cidadão também reclama demais, volta a parar o trânsito, queimar pneus, um horror.” “A repressão do jornalismo também não está dando conta da situação, muito menos a repressão dos costumes, a pressão da tradição, da moral.” “Basta de blablabá. O presidente já avisou que não tolerará outro fracasso. Chega desse chove não molha. Sua excelência quer detalhes da solução final. Tragam o inventor.” {Que palerma avisou aos enxadristas que peões e cavalos merecem os mesmos privilégios da nobreza e da realeza?} Entra o inventor, escoltado-arrastado por dois agentes do serviço secreto. “Senhor Gideão, após muito deliberar, decidimos patrocinar seu projeto.” “Mas eu não pedi nada…” “Esta sagrada comissão e nosso abençoado presidente entendemos que sua invenção encerra um alto potencial civilizatório.” “Mas eu não pedi…” “Trata-se, como o senhor sabe, de uma questão de segurança nacional.” “Mas eu não…” “É verdade que dinheiro não há, vivemos tempos difíceis, a balança comercial, a previdência social, o déficit no orçamento, o senhor compreende.” “Mas eu…” “Tudo o que podemos oferecer ao senhor é a honra de prestar um grande serviço ao país e a perpétua satisfação do dever cumprido.” “Mas…” “Muito melhor que a prisão perpétua, o senhor não concorda?” {Gostar de poesia é fácil, quero ver gostar dos poetas.} O inventor é convidado a assinar o contrato de cessão total do direito de produção e difusão de sua admirável invenção, sem ônus para o Estado. {Gostar de ciência é fácil, quero ver gostar dos cientistas.} O inventor recusa-se a assinar. Os dois agentes do serviço secreto socam seu rosto, seu abdome. O inventor recusa-se a assinar. Os dois agentes do serviço secreto arrancam seus dentes, suas unhas. {Gostar de religião é fácil, quero ver gostar dos religiosos.} O inventor recusa-se a assinar. Os dois agentes do serviço secreto enfiam sua cabeça numa tina de água. O inventor recusa-se a assinar. Os dois agentes do serviço secreto introduzem um cabo de vassoura em seu ânus, dão choque em seus testículos. {Gostar de política é fácil, quero ver gostar dos políticos.} [relacionadas artigos=" 95058 "] O inventor recusa-se a assinar. O chefe da comissão ameaça prender a mulher e as filhas do inventor, que finalmente assina o contrato. Acima das manchas de sangue surge uma garrafa de champanha e muitas taças. Brindam à saúde do abençoado presidente de nossa gloriosa social-sensacional-democracia. {Riem a bandeiras despregadas.} Os dois agentes do serviço secreto escoltam-arrastam o inventor pra fora do salão. {O fio de Ariadne esta noite é vermelho.} Resolvidos os detalhes contratuais, a invenção de Gideão logo se torna o mais precioso presente de nosso abençoado presidente a seu amado eleitorado. Cirurgiões de jaleco corporativo vão de casa em casa suturando a solução final primeiro em crianças e jovens bastante cooperativos, depois em adultos agora nada conspirativos. Fechar as bocas, todas as bocas, o poder central e a felicidade geral da nação exigem bocas fechadas, interromper também os olhos e os ouvidos, que cidadão algum fale, veja e ouça o que não deve ser falado-visto-ouvido. É claro que o cidadão pode escolher a cor e a textura das fitas de tecido, é claro que o cidadão pode escolher o design e o metal do cursor e do puxador, dos dentes e da parada. Afinal vivemos numa gloriosa social-sensacional-democracia, esqueceram que nosso lema é ordem, liberdade e progresso? {Ah, que lindo de admirar, mais ainda de fotografar e filmar, boca-olhos-ouvidos fechadinhos, ah, que lindo, Arlindo, a população sem voz-visão-audição zanzando por avenidas-escolas-estádios sem ódios, por labirintos enfim pacificados.} F I M Fim o caralho, a cabaça, ó meus irmãos, que a revolução está só começando, ride ridentes, sorride sorridentes, quem manda nesta História sou eu, se a realidade política contradiz a fantasia poética, pior pra realidade política, neste espaço eu faço e desfaço, fim a cabaça, o caralho, ó minhas irmãs, contra o mal-mau eu convoco o bem-bom, estão percebendo o tremor de terra, a dança da pajelança-criança, ride ridentes, sorride sorridentes, do fundo do mato-virgem vem Macunaíma, herói de nossa gente, trazendo a pandemia-utopia, rejeitando o voto e o serviço militar obrigatórios, levando ao colapso o Estado centralizado, do fundo do mato-virgem chegam o curupira e o mapinguari, vêm abrir as bocas, todas as bocas, também os olhos e os ouvidos, pra que todos falem, vejam e ouçam o que deve ser falado-visto-ouvido, ride ridentes, sorride sorridentes, a liberdade levanta voo, o vento espalha nosso delírio, acaricia nossa lucidez, que reluz, tremeluz, feliz, chega de ladrões, chega de usurpadores, não existem homens nobres por isso livres, existem homens livres por isso nobres, quem manda nesta História sou eu, então fecho, encerro, reverbero, com alegria, alegria, carnavalizando o mal-mau europeu, convocando o bem-bom tropical, a propriedade particular é pornográfica, a propriedade pública é erótica, o curupira e o mapinguari querem menos Pornos e mais Eros, trazendo a pandemia-anarquia vem Macunaíma, vem no centro do rodamoinho, transferindo a solução final pra botas e calças e jaquetas e quinquilharias outras, fim o caralho, a cabaça, ó meus irmãos, vejam só: o herói de nossa gente liberta o inventor e prende o presidente, os ministros, os assessores e os agentes do serviço secreto, enfia todas as autoridades neste cárcere bidimensional chamado papel, nesta máquina chamada livro, que é pra jamais voltarem a azucrinar a nossa paciência, que é pra jamais voltarem a nos pentelhar sem fiscalização, que a revolução está só começando e quem manda nesta História sou eu. Luiz Bras é crítico literário e escritor. *** [caption id="attachment_96508" align="alignleft" width="300"] Ilustração: Bianca Lana[/caption]

De códigos genéticos e pães franceses

Homenagem a William Gibson Santiago Santos Especial para o Jornal Opção A lembrança da turbulência do voo ainda irritava o estômago sensível de Nilesh enquanto seguia Manu pelas vielas do Coophamil. Fome, a mãe sagrada de todas as necessidades. Fome de vida, no caso, uma vida de rei em Singapura desperdiçada pelo equilíbrio mal calculado entre blackjack, puteiros e uísque. A Louva-Deus Sagrado o colocou pra correr sem muito mais que a roupa do corpo e os dentes na boca. Antes da fuga, uma parada no laboratório da Myrage, onde gastou a maior parte dos últimos 12 anos, para uma série de injeções no próprio corpo e uma maleta com os últimos protótipos da pesquisa. A reescrita CRISPR teve como efeito colateral apenas a sensibilização aguda do seu estômago, o que explicava por que nos últimos quatro dias nada parava dentro dele. Por outro lado, seu código genético já não era mais o mesmo, nem seu suor, nem suas digitais, nem suas pupilas, o que lhe permitia usar a lente de realidade aumentada sobre elas, conectando à rede sem se preocupar com os escaneamentos que a Myrage exigiria dos governos e agências de inteligência quando descobrisse que seu bioquímico mais cobiçado havia desaparecido com uma maleta de propriedade roubada. − Oi, sou a Manu. Me pediram pra te buscar − ela disse, em inglês. Aguardava sua chegada no trevo da entrada do Coophamil, onde o táxi do aeroporto o deixou. Logo adentraram a configuração de ruas com tendas e barracas onipresentes sobre o asfalto quebrado, carcaças de carros transformados em estufas, gambiarras elétricas nos postes irrigando casas e prédios pequenos com fios esticados, uma multidão colorida e acalorada de um lado pro outro. Seu prometido refúgio. A Djorúbo, uma organização ainda desconhecida, recrutava especialistas dos mais diversos campos. Não a escolheria como porto seguro contra a caçada da Myrage não fosse por Harini, uma antiga amiga cientista da própria Myrage. Estava instalada em Cuiabá há alguns meses e fez a ponte entre Nilesh e a Djorúbo, interessada na tecnologia CRISPR. Manu seguiu até topar com uma escadaria de degraus lascados que dava em um corredor que parecia escavado na terra, com várias portas. Nilesh apertou o indicador com força no polegar, acessando o menu de realidade aumentada em seu campo de visão, sobreposto ao que enxergava, e o localizador de GPS: pensão Pequi Roído, dizia a legenda ao lado do seu ponto no mapa translúcido. Entraram em uma das portas. Harini estava sentada na cama. Ela o abraçou e conversou com ele em malaio, o que o deixou mais confortável. Manu aguardou até que terminassem a conversa e os guiou pelo corredor até outra porta. Dentro, um homem de rastafári o cumprimentou em um inglês de dicção perfeita, com sotaque jamaicano. Estendeu-lhe a mão. − Seja bem-vindo a Cuiabá, doutor Suryavanshi. Sou Alek e falo em nome de Butau-Curi-Répa, que não pôde estar presente. Temos um apartamento pronto pro senhor, próximo à residência de Harini. Sei que deve estar exausto da viagem. Manu vai levá-lo até lá. Eu queria cumprimentá-lo pessoalmente. Amanhã conversaremos sobre os pormenores da sua colaboração. Nilesh agradeceu e voltou a seguir Manu pelo bairro, com Harini ao lado. O Coophamil seria uma casa bastante diferente da sua querida Singapura, expoente tecnológica do mundo pós-névoa; Cuiabá era capital da maior região exportadora de commodities das Américas e seguia a cartilha urbana do novo capitalismo extrativista: periferias de condomínios ricos ultrafechados e um centro pobre. Estava no centro. Chegaram a um prédio de dois andares e subiram a escadaria. Manu abriu um dos apartamentos. Do lado interno da porta, reforços na madeira e vários trincos de combinação. As janelas tinham o mesmo tipo de tranca. Nilesh largou a maleta em uma cama de solteiro arrumada. O lugar estava todo mobiliado, pronto para morar. Manu abriu um armário cheio de roupas. − Compramos com base nas suas preferências. Espero que sirvam. A geladeira também está cheia. Pode liberar o meu acesso? Manuela 7043V − ela tocou em algo no ar e empurrou na sua direção. No campo de visão de Nilesh apareceu um mapa de imagem de satélite cheio de pontos de referência com legendas ocultas. Eram os arredores do prédio. − A vizinhança, com recomendações de lugares para comer ou beber algo, se quiser. Enquanto estiver no bairro, não há problema em circular. É claro que recomendamos cautela. Mas sei que o senhor está ciente disso. Ela disse que alguém entraria em contato no dia seguinte e saiu. Nilesh ficou à sós com Harini. Ela o abraçou novamente. Ele se deixou abraçar, depois se deixou largar no piso do banheiro sob o chuveiro gelado enquanto ela fazia café na cozinha. Esfregou o corpo todo três vezes. Fez a barba com uma gilette nova na pia. Quando saiu, ela o esperava na mesa, um saco de padaria aberto. − Pão francês − ela disse −, que é o pão brasileiro, na verdade. Acho que você vai gostar. Comendo um sanduíche, falou com ela sobre seus últimos dias em Singapura e sobre os avanços na pesquisa. Os nanocomponentes que trazia na maleta eram um estoque experimental de CRISPR, nucleotídeos capazes de editar linhas do genoma humano, como os que injetou no próprio corpo. Por enquanto as alterações eram singelas, mas já podiam curar certas doenças e alterar assinaturas corporais. Faltava expandir suas possibilidades. As apostas em Singapura eram de que a tecnologia se tornaria comerciável em até dez anos. E ali estavam os caríssimos protótipos de pesquisa da Myrage. Harini foi embora depois do lanche para deixá-lo descansar. Nilesh sentou de frente pra janela do apartamento, observando a nova vista, o calor empapando as axilas. Vasculhou o armário da cozinha até achar o Old Parr 18 anos. Fizeram um bom trabalho de pesquisa. Encheu o copo, voltou a sentar. Do uísque não largaria. Dos puteiros, com muito esforço, talvez. O blackjack era um proibitivo. Um proibitivo contundente. Não queria ter que contar com a sorte pra achar outro refúgio e adicionar outro inimigo poderoso à lista. Bebeu, levantou e vomitou tudo. Deitou-se enfim para desfrutar do sono revigorante dos sobreviventes. Santiago Santos é escritor, tradutor e jornalista. Estreou em livro com a coletânea de contos Na eternidade sempre é domingo, lançada em 2016.