Todos têm de repensar urgentemente o real valor do que é produzido por uma nascente

Barragem do Ribeirão João Leite | Foto: Marcos Vieira

Nada deveria ser mais prioritário do que a água. Até onde sabe a ciência, não pode existir vida sem ela. Onde não tem água, impera o silêncio, o “não ser”.

É simbolicamente irônico que a maior crise hídrica de Goiás se dê em meio à sequidão da paisagem. Incêndios, debaixo do nariz ou no alto do horizonte, mostram o predomínio da era do fogo. O marrom da terra e o cinza do céu: tudo parece opaco. Uma sensação de fim de mundo que se completa com a umidade quase nula do ar. Apesar de tudo isso, é bom lembrar: estamos no Cerrado, a caixa d’água do Brasil, região vertedouro das maiores bacias hidrográficas.

Como imaginar escassez, então? Difícil? Pois ela chegou. E a culpa é de quem? Fácil é encontrar culpados, embora isso não resolva muita coisa: o importante agora é saber o que cada um dos envolvidos pode fazer, de sua parte, para assegurar o que ainda há de reversível na escalada cega rumo a um crescimento econômico que ocorreu, mas, para Goiás, trouxe pouco desenvolvimento e veio sem nenhuma sustentabilidade.

Qual a irresponsabilidade de cada um dos responsáveis? Começando pela ponta que mais sofre, o cidadão comum. O goiano padrão nunca passou por escassez de água, a não ser em cenários muito efêmeros: uma torneira seca por um ou dois dias, por alguma falha no abastecimento; ou uma cisterna que precisou ser cavada em mais um palmo. Assim, está em toda a população o mau costume de achar normal lavar a calçada com a mangueira ou tomar banho de meia hora todo dia.

Afinal, quem esperaria enfrentar uma crise hídrica no “berço das águas”? A realidade mudou, mas os hábitos, por passarem pela questão cultural, são difíceis de alterar. Então, assim que vem novamente a estação chuvosa, a tendência é relaxar e esquecer os tempos duros. Ainda que o consumo familiar seja a parte menos agressiva de todo o conjunto de mazelas, há de se destacar um problema sério: a educação equivocada em relação à água, que é algo passado de pai para filho. De nada adianta exigir uma disciplina no currículo escolar voltada para meio ambiente e sustentabilidade se em casa a vivência disso não ocorrer. Como em todas as áreas, escola serve, sim, para dar os pilares do ser humano, mas em termos de instrução; daí o ditado sábio a dizer que “educação vem de berço”.

O maior consumo de água não é de pessoa física, mas jurídica. Está com aqueles que produzem e movimentam o PIB. O agronegócio e a indústria precisam da água para prosperar, mas não podem se apropriar de um bem social da forma com que tem acontecido. Denúncias não faltam sobre irregularidades cometidas por meio de desvios e canalizações clandestinas, bem como instalação de pivôs ilegais.

Rio Meia Ponte abaixo do ponto de captação de água | Foto: Marcos Vieira

Entretanto, o problema da retirada da água dos rios não é maior que o que a faz não mais chegar até eles – ou que por eles passe em alta velocidade, em que rio vira enxurrada. É que o desmatamento e a expansão agrícola aniquilam a vegetação do Cerrado, que – com suas raízes múltiplas vezes maiores do que o tamanho externo – é trocada por lavouras e gramíneas de radículas diminutas. A teia subterrânea e generosa que levava o que caía do céu até o profundo da terra, reabastecendo os lençóis freáticos, já foi destruída em parte imensa. E a pergunta que não quer calar: compensa continuar a devastação em prol da produção? Aquela paisagem que era mato feio com árvore retorcida está sumindo. O que deveria valer mais para a sociedade hoje: um alqueire com Cerrado em pé ou a serviço de uma colheitadeira?

O produtor rural se orgulha de dizer ser aquele que põe a comida no prato da população. Mas, quanto maior a fazenda-empresa que administra, menor a probabilidade de realmente reverter sua safra para o mercado interno. Mais fácil que o milho sirva para ração canina na China do que entrar na composição de algum industrializado nacional. Os grãos se tornam, na verdade, commodities.

Por fim, a classe política e os governos. Goiânia está entrando na discussão da revisão do Plano Diretor, que tem por objetivo último dar diretrizes para o desenvolvimento sustentável na cidade. Não dá para negar a premência de discutir a expansão urbana pelo viés do abastecimento. Como ressalta estudo elaborado pela equipe do Plano de Desenvolvimento Integrado (PDI) para a região metropolitana, com alguns dos melhores doutores e técnicos da Universidade Federal de Goiás (UFG), o que há de reserva de abastecimento, mesmo com a entrada em funcionamento do Sistema Mauro Borges, com o reservatório do Ribeirão João Leite –, dará conta apenas do número de lotes já existentes. Ou seja: discutir expansão urbana da capital significa pensar em “redução urbana”. O contrário disso vai refletir em escassez de água, antes cedo do que tarde.

No cenário estadual, muito bem faria uma oposição na Assembleia Legislativa que realmente fosse construtiva e forçasse o governo a acelerar medidas iminentes. Em vez de ameaçar sair pelo interior fazendo vídeos eleitoreiros de obras inacabadas, muito mais interessante seria mostrar os descompassos da gestão de recursos hídricos no Estado. Com pessoal de número limitado, a Secretaria de Meio Ambiente, Recursos Hídricos, Infraestrutura, Cidades e Assuntos Metropolitanos (Se­cima) precisa urgentemente mostrar agilidade diante do cenário caótico da água em Goiás. Não há outro meio que não saídas criativas, como a aproximação com o meio acadêmico em busca de tecnologias que encurtem distâncias e facilitem o trabalho de controle e de fiscalização.

Ao mesmo tempo, o governo precisa rever a política de outorga de pivôs centrais para irrigação, reavaliar o impacto das pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) e – fundamental – fazer funcionar de verdade os comitês de bacias pelo Estado inteiro. Eles são os “olhos e ouvidos do rei” para detectar as emergências e o que deve ser efetivado como política pública para determinada localidade.

O contrário disso será apenas continuar a dar margem para a imprensa publicar manchetes ambientais apocalípticas, seja na estiagem, seja nas chuvas. A propósito, jornais, portais, rádios e TVs prestariam um grande serviço se fossem além do noticioso que varia entre o denuncismo e o sensacionalismo, e ampliassem o debate com a população. No fim, todos os envolvidos precisam de apenas uma tarefa: repensar o valor imaterial do que produz uma nascente. Bastaria praticar isso. l