As crises econômica, política e moral que atingiram o país de forma avassaladora vão modificar a estrutura eleitoral do ano que vem ou tudo vai se manter no ritmo tradicional das disputas? A motivação do eleitor será decisiva

É até complicado tentar adivinhar se o pior e mais chocante dos escândalos já aconteceu ou se algum evento futuro será ainda pior. Os brasileiros já viram de tudo. De dólares escondidos em cueca de assessor de deputado federal a governador e vice cassados por compra de votos no varejo, por 50 reais. De deputado correndo assustado carregando mala de dinheiro à porta de uma pizzaria na capital paulista a um apartamento re­cheado de malas de dinheiro vivo. De contas na Suíça e em outros paraísos fiscais de políticos graduados da política brasileira a empresários ladrões de mililitros de combustível em bombas adulteradas. De assalto aos cofres da saúde pública à bancarrota de uma das maiores petrolíferas do mundo. De fraudes em concursos públicos a juízes flagrados com sentenças vendidas. De presidente cassada a presidente quase cassado no mesmo mandato. De empresários que confessaram subornos e propinas a ricaços delirantes que conspiraram quase abertamente para “moer” o poder Judiciário.

Terá todo esse conjunto algum tipo de efeito sobre o eleitorado brasileiro em outubro do ano que vem de modo a marcar o início de uma profunda mudança na forma como se elege os políticos brasileiros, ou o país vai esquecer completamente tudo o que já aconteceu – e provavelmente ainda vai acontecer – e votar como sempre votou, sofrendo as mesmas influências que sempre sofreu?
Essa provavelmente é a maior incógnita sobre as eleições de 2018: como o eleitor vai se comportar, o que decidirá o voto, co­mo conquistar a confiança dele?

Como sempre

Este ano, o Estado do Amazonas teve eleição temporã. O governador e o vice eleitos em 2014 tiveram seu mandatos cassados porque a Justiça entendeu ter provas suficientes de que eles fraudaram o processo ao pagarem por votos. A disputa foi liderada o tempo todo, na rápida campanha que se fez, por Ama­zo­nino Mendes e Eduardo Braga. Amazonino ganhou no 2º turno.

O que chama a atenção nesse caso é que ambos são velhos conhecidos dos eleitores amazonenses. Eduardo Braga é senador atualmente, e já foi vice-prefeito e prefeito de Ma­naus, capital do Estado, além de governador. Amazonino volta a co­mandar o governo do Amazonas pe­la quarta vez. Ele também já foi prefeito de Manaus por três mandatos.

No ano passado, a vitória do jornalista e empresário João Dória na disputa pela Prefeitura de São Paulo, que se apresentava como “não político”, foi analisada como um fato novo, algo como o início de uma reviravolta geral na política brasileira. Não é e nem foi. São Paulo já votou em outras “novidades”. Aliás, isso não é inédito em lugar algum, nem no Brasil e nem em outras democracias.

Em relação a 2018, é quase impossível estabelecer alguma linha de ação a respeito da tendência majoritária que o eleitorado irá adotar. O único fato que pode servir como referencial sobre o comportamento do eleitorado amazonense nas eleições deste ano é a altíssima alienação eleitoral – soma de abstenção, votos brancos e nulos – que chegou a quase 50%.

A única vez que se tem notícia de que a abstenção interferiu diretamente no resultado de uma eleição foi no Distrito Federal. O então governador Cristovan Buarque, hoje senador, buscava a reeleição em 1998. Ele era favorito, e confirmou a dianteira no 1º turno. A confirmação de sua vitória no 2º turno era questão de tempo. Todas as pesquisas mostravam claramente que ele venceria Joaquim Roriz até com certa tranquilidade. Apurados os votos, Roriz foi eleito. Boa parte do eleitorado fiel de Cristovam, morador de Brasília, aproveitou o feriado e a crença de que a disputa estava decidida, e viajou. Essa abstenção foi decisiva a favor de Roriz.

Pode ser que o principal papel definidor das eleições de 2018 seja a alienação eleitoral. O candidato que conseguir motivar o seu eleitor a comparecer nas urnas e votar, dará um passo importante. Sem essa motivação, a derrota será um risco bastante alto. Portanto, a estrutura bem azeitada das máquinas eleitorais vai ser, muito provavelmente, mais importante do que em outras disputas. E esse fato deve ser registrado tanto em nível nacional como também nas disputas estaduais. A motivação para que o eleitor vá votar será a chave dos Palácios que vão estar em jogo. l