Faroestes made in Brazil – Parte 1

O que dizer do western tupiniquim? Desde “Da Terra Nasce o Ódio”, de 1954, o gênero cinematográfico vem sendo praticado entre nós

Milton Ribeiro e Vanja Orico em cena do filme “O Cangaceiro” (1953) | Foto: Divulgação

Herondes Cezar de Siqueira
Especial para o Jornal Opção

“O western é o cinema americano por excelência”, se­gundo o escritor francês Jean-Louis Rieupeyrout. Mas os westerns têm plateia no mundo todo. Talvez porque o gênero focalize a construção da vida em sociedade, consoante os preceitos da lei e da ordem. Cineastas de outros países também tentam replicar o gênero, inserindo nele ingredientes locais. Todas as contribuições são bem-vindas. Pois, como disse o crítico francês André Bazin, o “gênero suporta a falsificação, a imitação ou a paródia”. No Brasil, western é faroeste.

O pesquisador Rodrigo Pereira diz que “Da Terra Nasce o Ódio” (1954) foi o primeiro faroeste tupiniquim. Conta ele que o ator Maurício Morey participou das filmagens de “O Cangaceiro” (1953) como figurante e, ao ver o sucesso do filme, resolveu fazer um faroeste à brasileira. Ele e o irmão Antoninho Hossri conseguiram o financiamento com a prefeitura de Santa Rita do Passa Quatro (SP). Morey fez o mocinho e Hossri encarregou-se da direção, roteiro e de outras funções. O resultado é revelador de heroico amadorismo: o enredo é confuso, os diálogos são ruins e as cenas de luta, um horror. Mas o público gostou e eles ainda fizeram “A Lei do Sertão” (1956).

No mesmo ano, o cinema carioca lançou “Matar ou Correr” (1954), do diretor de chanchadas Carlos Manga, que parodiou o faroeste americano “Matar ou Morrer” (1952). A paródia, no caso, se estendeu a todo o gênero. Por ser uma comédia, não é comum vê-lo em rol de faroestes, mesmo sendo mais fiel ao gênero que a maioria dos exemplares brasileiros. Teve produção cuidadosa, com cidade cenográfica do Velho Oeste como pano de fundo para, por contraste, realçar os esculachos promovidos por Oscarito e Grande Otelo.

Não há dúvida de que “O Cangaceiro”, tendo feito grande sucesso dentro e fora do País, serviu de gatilho para colocar o faroeste no radar do cinema brasileiro. Abriu uma porta para o cinema carioca e uma porteira para o cinema paulista, seja para faroestes, seja para filmes de cangaço, subproduto do faroeste. O crítico Salvyano Cavalcanti de Paiva chamou os filmes de cangaço de nordestern, fundindo as palavras nordeste e western. A despeito da sua função seminal, “O Cangaceiro” parece ter sido menos inspirado no faroeste americano e mais no mexicano, em filmes como “Enamorada” (1946), de Emilio Fernández.

O primeiro bom faroeste brasileiro foi “Paixão de Gaúcho” (1957), de Walter George Dürst. Baseado no romance “O Gaúcho”, de José de Alencar, e filmado em São José dos Campos (SP). Situado na Guer­ra dos Farrapos, o filme retratou bem usos e costumes gauchescos.
Em 1958, José Mojica Marins lançou “A Sina do Aventureiro”, cujo tema pode ter sido sugerido por “O Anjo e o Bandido” (1946), faroeste com John Wayne. O mocinho é um fora-da-lei em fuga que, ferido, encontra refúgio numa fazenda, apaixona-se pela filha do fazendeiro e decide se regenerar. Foi o segundo filme brasileiro em cinemascope. Os vaqueiros usam bombacha, possível influência de “Paixão de Gaúcho”. O ator principal é Acácio de Lima, goiano de Catalão.

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Na época, circulou a notícia de que Acácio tinha vendido uma fazenda que recebera de herança e ido para São Paulo a fim de fazer cinema. Acácio não aparece nos créditos como produtor, mas há uma produtora de nome Nilza de Lima, que bem poderia ser sua parenta.
Nelson Pereira dos Santos levou a temática do faroeste para a paisagem nordestina, em “Mandacaru Vermelho” (1962). Conta-se que ele foi para a Bahia com a intenção de filmar “Vidas Secas”, mas encontrou a caatinga verde, havia chovido. Para não perder a viagem, teria improvisado o roteiro do filme. O filme é bem-feito, apesar de sinais de improvisação. Por exemplo: no elenco de dez atores, seis fazem parte da equipe técnica, inclusive o próprio diretor, no papel do herói.

O filme começa com uma matança por cangaceiros de tocaia, fato que deu origem a uma suposta lenda. No local nasce um mandacaru, vermelho pelo sangue derramado, o que lembra a falsa lenda do faroeste americano “Duelo ao Sol” (1946). Um vaqueiro foge com a sobrinha órfã da patroa, uma coronela que fuma charutos, a qual reúne seu pessoal e persegue os jovens para lavar a honra da família. O clímax se dá na pedreira do mandacaru vermelho, onde vive uma figura mística, mescla de Antônio Conselheiro e São João Batista, o que dá ao filme ares de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), de Glauber Rocha. Até a fotografia, com a luminosidade estourada, lembra a deste filme.

Em 1965, surgem dois filmes baseados em obras de Guima­rães Rosa: “O Grande Sertão”, de Geraldo e Renato Santos Pereira, adaptação do romance “Grande Serão: Veredas”, e “A Hora e Vez de Augusto Matra­ga”, de Roberto Santos, inspirado no conto homônimo de “Sagarana”. A obra de Rosa tem afinidades com faroestes americanos, conforme observou Davi Arrigucci Jr. em seu texto sobre “O Homem que Matou o Fa­cínora” (1962): “Sempre me chamou a atenção como certos faroestes de John Ford poderiam se aproximar […] do universo literário de Guimarães Rosa”. De todos os filmes inspirados na obra do escritor mineiro, “A Hora e Vez de Augusto Matraga” é o único que faz jus à fonte.

Também em 1965 veio à luz “No Tempo dos Bravos”, de Wilson Silva. Produção carioca que seguiu à risca o modelo do faroeste americano, incluindo o climático duelo entre o mocinho e o bandido. Com uma novidade: todos os atores são crianças. A cidade cenográfica, o saloon e a carruagem foram construídos em escala compatível com o tamanho dos atores. No final, uma reviravolta: as crianças aparecem assistindo a um faroeste na TV. O que se viu, portanto, foi uma projeção da identificação das crianças com as personagens do filme real.

Herondes Cezar de Siqueira é crítico de cinema

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