Rodrigo Janot lança flechas de bambu que a corrupção transforma em bumerangues de aço

A Procuradoria da República “derrapou”, aparentemente servindo à família de Joesley Batista, mas é preciso resguardar as instituições — como o Ministério Público Federal — e a Operação Lava Jato

Rodrigo Janot e Marcelo Miller: uma parceria cuja atuação precisa de esclarecimento, porque, além da possível corrupção financeira, é preciso avaliar o que se pode chamar de corrupção moral | Fotos: Divulgação

Numa entrevista, publicada em mar­ço de 2016, o ex-mi­nistro da Su­prema Corte da Itália Gherardo Colombro fez um comentário sobre a Operação Mãos Limpas que é útil para entender os desdobramentos atuais da Ope­ração Lava Jato: “Os cidadãos comuns tiveram uma parte importante na decretação do fim da Mãos Limpas porque, no início, eram todos entusiastas na Itália das investigações, pois elas nos levavam a descobrir a corrupção de pessoas que estavam lá em cima [políticos e empresários]. Mas, conforme elas prosseguiram, chegamos à corrupção dos cidadãos comuns: o fiscal da prefeitura que fazia compras de graça, que não fiscalizava a balança do vendedor de frios, que continuava a vender apresuntado como se fosse presunto”.

A Operação Lava Jato co­me­çou denunciando, prendendo e condenando empresários, políticos e executivos. As elites. Parecia tudo muito bem. Afinal, há uma tradição de impunidade no Brasil: os pobres vão mais facilmente para a cadeia do que os ricos. Costuma-se dizer que os afortunados têm advogados mais qualificados, que se interessam mais por suas causas, e sabem de caminhos enviesados que a maioria dos mortais não conhece e não tem como trilhar. Porém, se a corrupção no Brasil é sistêmica, e não meramente localizada, é de se concluir que sua extensão vai além de políticos, empresários e executivos.

A carne é fraca
“Quer pureza? Não vá ao convento.” A frase de um filósofo pouco requestado nunca esteve tão atual. Ao usar o empresário Joesley Batista, do grupo JBS, para incluir mais políticos na terra devastada da Corruptolândia — como o presidente Michel Temer, o ex-ministro Geddel Vieira, entre outros —, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, mexeu num vespeiro que, aparentemente, pensava controlar. Mas ninguém controla vespeiros nem processos amplos e arraigados de corrupção. O Ministério Público Federal, cortando na própria carne, pediu a prisão do procurador da República Ângelo Goulart, que estava a serviço, não da defesa da sociedade e da instituição que representava, e sim de Joesley Batista e de seu irmão, Wesley Batista. Os bilionários da JBS, segundo a denúncia do MPF, subornaram o procurador.
Há uma “grita” generalizada con­tra os altos salários de juízes, sobretudo, e, menos, de procuradores e promotores de justiça. Alguns salários são, de fato, abusivos, escandalosos. A inclusão de determinados penduricalhos, que teriam de ser sazonais, acaba se tornando permanentes. Salários de 500 mil reais — como o que é pago a um juiz de Mato Grosso — e mesmo salários pouco acima do teto constitucional devem ser criticados e revistos. Mas a crítica não pode ser usada para colocar tanto juízes quanto promotores e procuradores na defensiva. Uma coisa é certa: juízes, promotores e procuradores precisam mesmo ganhar bem. É uma das formas de garantir o mínimo de independência no ato de denunciar e julgar (absolver ou condenar). Entretanto, salários de 33 mil reais, ou até mesmo de 45 mil reais — a média salarial dos magistrados patropis —, não possibilitam a aquisição de determinados bens que alguns querem possuir, como casas e apartamentos de 3 a 10 milhões de reais, fazendas faraônicas, aviões. Não dá para tomar vinho de 10 mil reais e pagar diárias de 2 mil reais em hotéis estrelados da Europa ou dos Estados Unidos.

Como diria Joesley Batista, a carne às vezes é fraca e moralmente as pessoas podem ser vulneráveis. Depois do procurador Ângelo Goulart, outro procurador, Mar­ce­lo Miller, se envolveu com o esquema da JBS. Durante três anos, Mar­ce­lo Miller participou da equipe de Ro­drigo Janot, como seu braço direito, até se aposentar. Eram com­panheiros de trabalho e, dizem, amigos íntimos. Comenta-se que, ao se aposentar, o procurador-geral iria trabalhar com o colega num escritório de advocacia. Ele nega.

As novas gravações entregues à Procuradoria-Geral da República por Joesley Batista — de uma gravidade explosiva — indicam que, quando auxiliar de Rodrigo Janot, Marcelo Miller agia como Kim Philby, agente britânico que espionava para os soviéticos. Ajudava o procurador a formular denúncias contra corruptos, mas fazia “advocacia” para Joesley Batista, informando-o sobre o que deveria fazer para não ser pego pela Lava Jato. Na sua afinada arte do jogo duplo, ajudava Rodrigo Janot a formular a “armadilha” e, do outro lado, ajudava Joesley Batista a não cair nela. Bastava entregar determinados políticos — como o presidente da República, Michel Temer, do PMDB. O pacto faustiano, em que se servia a Deus, Rodrigo Janot, e a Lúcifer, Joesley Batista, parecia perfeito, se não tivesse sido descoberto.

Didático e meticuloso, Mar­celo Miller parece ter “ensinado”, à perfeição, o que Joesley Ba­tista e seus executivos, como o boquirroto Ricardo Saud, de­veriam revelar a Rodrigo Janot. Disseram e a delação “colou”. O que permitiu que a família Batista — livre, leve e solta, circulando em jatinhos e iates, trafegando entre São Paulo e Nova York — pudesse iniciar a liquidação de algumas de suas empresas, como a Eldorado Celulose. Não se sabe sequer se os potentados Joesley e Wesley Batista vão deixar o dinheiro no Brasil ou se vão aplicá-lo noutros países. A família parecia ter cometido o “crime” perfeito. Afinal, fez um procurador do gabarito de Rodrigo Janot, sério e competente, de “bobo”. Mais: fez o país de “otário”. É até possível que Joesley Batista — cujo guru seria o “espertíssimo” Ricardo Saud — possa ser enquadrado na categoria dos “burros inteligentes”. O “burro inteligente” é aquele que é mesmo inteligente, mas pensa que os demais são burros. Sua estultice reside nisto: crer num avaliação equivocada e transformá-la em verdade e, daí, guia para a ação.

Pode-se dizer que Rodrigo Janot foi “iludido” por Joesley Batista e seu executivo Ricardo Saud? No caso, iludido é uma palavra forte em demasia — não há inocentes nem vítimas nesta história pós-kafkiana. Porém, ante a suposta “fragilidade” momentânea do empresário e sua incultura proverbial (fala “nóis”, em vez de nós; nunca leu nem mesmo José Mauro de Vasconcelos e consta que acha “O Pequeno Príncipe”, do francês Antoine de Saint-Exupéry¹, tão complexo quanto “Ulysses”, do irlandês James Joyce), o procurador-geral deve ter concluído que o “caipira” de Goiás, açougueiro que se tornou bilionário, estava, ao fazer a delação premiada, dizendo totalmente a verdade, e sem táticas e estratégias próprias. Mas ninguém salta de açougueiro para a categoria dos bilionários — com negócios no país que mais impressionava o marxista Lênin (chegou a escrever a respeito), os Estados Unidos — sendo ingênuo, panglossiano. Joesley Batista pode não citar Friedrich Hayek, Luwig von Mises e Milton Friedman, talvez nem saiba quem são, mas sabe como a economia e a cabeça dos homens funcionam. Sabe como poucos. Trata-se de um intuitivo cujo conhecimento foi anabolizado pelo conhecimento que a vida eventualmente oferece. Sua simplicidade atual é mais artifício do que uma coisa verdadeira. Na prática, apesar de que a entrega das fitas auto-incriminadoras sugere sandice (mais do que arrogância), é tão “sábio” (ao menos para os negócios) quando, digamos, Vito e Michael Corleone, os poderosos chefões da máfia ficcional de Mario Puzo e Francis Ford Coppola. Marcelo Miller seria como o bispo do filme “O Poderoso Chefão”, apresentado por don Altobello como um homem de “dois mundos” — o legal e o ilegal? Quem sabe. O procurador aposentado afirma que pode provar que não cometeu improbidade administrativa. Espera-se que prove mesmo e ele tem o direito de fazê-lo, assim como é um dever dos demais esperar o esclarecimento definitivo.

Nas entrevistas, como a concedida à revista “Veja”, percebe-se claramente que Joesley Batista, um homem simples mas extremamente inteligente (pouco habilidoso com as palavras) — como o ex-presidente Lula da Silva —, está manipulando o repórter, assim como parece ter seduzido o procurador-geral Rodrigo Janot. Ele diz mais ou menos assim: “Eu era um criminoso” — uma insinuação de que, com a delação premiada, deixou de sê-lo. “Fez” um bem ao país ao denunciar a camarilha corrupta da qual, sugere com habilidade, “não faz parte”. Os brasileiros vão agradecê-los, quiçá de joelhos, no presente ou no futuro. Homens sábios e com sólida formação intelectual e jurídica, como parece ser o caso de Rodrigo Janot, às vezes não têm a percepção adequada da inteligência dos homens pragmáticos e avessos ao debate de ideias. Eles são “perigosos” porque, mesmo quando não parecem, são inteiramente objetivos, de um realismo típico de um… Franklin Delano Roosevelt. A ética deles é o lucro a qualquer custo e rápido. A lei é apenas um “drummond” a ser removido.

Tubarões e janotas
Entendendo como funciona o capitalismo — e qualquer outro modo de produção, como o socialista —, Joesley Batista sabe que não há pureza em lugar algum. Empresários de sua estirpe, envolvidos com variados jogos capitalistas mundiais — em que piabas morais são devoradas por tubarões amorais —, jogam de maneira dura, apesar, às vezes, do linguajar compassivo, diplomático e, quiçá, parnasiano. A disputa no meio econômico-financeiro não é para “janotas” e para aqueles que acreditem em ética e jogo limpo. A rigor, Joesley Batista não é pior nem melhor do que o banqueiro J. P. Morgan — aquele que dizia que podia justificar sua fortuna, menos o primeiro milhão (uma grande família de empresários brasileiros teve na venda de escravos sua acumulação primitiva) —, Abílio Diniz, Marcelo Ode­brecht, os Ermírio de Moraes, os Gutierrez, os Moreiras Salles, os Setúbal, Jorge Paulo Lemann. Os Batistas, ao contrário dos empresários que se tornaram “aristocratas” — destes, só os empreiteiros estão com a reputação em baixa —, não tiveram tempo nem mesmo para justificar sua fortuna, alavancada, como várias outras, nos cofres públicos (mas não só, vale ressaltar). Rodrigo Janot, fiado unicamente nas leis — na sua seriedade de padre diocesano —, talvez não tenha compreendido, até agora, o jogo em que está envolvido. Ao menos não de maneira integral. É provável que Marcelo Miller, mais do que o seu ex-chefe, saiba muito mais como funciona a sociedade real e, por isso, tenha decidido participar dela, aliado a Joesley Batista e ao agregado deste, Ricardo Saud. Umberto Eco diria que Rodrigo Janot é apocalíptico e Marcelo Miller, integrado (da estirpe dos dionisíacos, dos realistas supremos).

Joesley Batista e Ricardo Saud: é provável que o empresário-sócio da JBS e o executivo não sejam “gângsteres”, mas estão contribuindo para a desmoralização do Ministério Público Federal. São os típicos “burros inteligentes” | Fotos: Divulgação

Dado a frases de efeito, o que caracteriza a formação bacharelesca, Rodrigo Janot disse, para a alegria daqueles que fazem títulos em jornais e sites de notícias, que, “enquanto houver bambu, vai ter flecha”. Pois, depois das novas gravações, fica-se com a impressão de que as flechas de bambu do procurador-geral se tornaram verdadeiros bumerangues de aço ou de arame farpado. Oxalá não o machuquem.

Se a corrupção é sistêmica, como parece ser, é provável que certos cidadãos impolutos, e não só os poderosos do dinheiro e da política, sejam também “fisgados” pela Operação Lava Jato. O mundo é mais “impuro” do que se costuma pensar e nem mesmo ditadores — como Stálin, de esquerda, e Hitler, de direita, que eram o Estado e as leis —conseguiram depurá-lo. A impureza, tudo indica, faz parte da vida. No geral, o homem é um ser que mistura pureza e impureza, mais dado à ambiguidade do que à clareza. Os que acreditam na depuração total certamente vão fazer como Rodrigo Janot — que teria “chorado” ao saber da “traição” de Marcelo Miller. As decepções dos indivíduos — e não só daqueles que ficam imprecando nas redes sociais — derivam, em larga medida, da interpretação equivocada e moralista da realidade. Os que acreditam na possibilidade de se construir sociedade e indivíduos perfeitos costumam viver de mau humor, e não percebem que, ante as agruras da vida, é preciso viver de maneira um pouco mais “leve”, menos apegados ao excessos e aos radicalismos de quaisquer natureza. Apesar de tudo, com seus problemas, alguns insolúveis — o Iluminis­mo vendeu a tese de que todos (ou quase todos) problemas do mundo poderiam ser resolvidos, o que é falso —, a vi­da é bela. Um mundo sem pro­blemas se­ria no mínimo chato. Mas como um procurador da República vai aceitar isto, quando busca a pureza punindo a impureza, sem entender que alguns dos que estão ao seu lado são homens, no fundo comuns, com desejos semelhantes aos de Joesley Batista — casar-se com uma bela e sofisticada mulher, como Ticiana Villas Boas, ter um belo e confortável apartamento (nem precisa ser em Nova York), se não um iate, um barco, uma Mer­ce­des de 500 mil reais — e, portanto, subornáveis? A corrupção é sistêmica porque pode atingir qualquer um, mesmo os que são “pu­ros”… ou se julgam “puros”.

É provável que Rodrigo Janot entenda, dada a obsessão pela letra da lei, que a corrupção é apenas financeira, desconsiderando que há uma espécie de corrupção moral. É provável que não esteja envolvido com a jogada de Marcelo Miller. Mas a “armação”, embora a palavra seja forte demais e talvez inapropriada, para “colher” peixes grandes na rede da Lava Jato — como Michel Temer e Lula da Silva —, embora não mereça a qualificação de corrupção financeira, merece a atribuição de corrupção moral. O filósofo Norberto Bobbio escreveu que, ao contrário do que se pensa — que os fins justificam os meios —, os meios tendem, por vezes, a corromper os fins. É o que parece que aconteceu e está acontecendo.

O que não se pode fazer, a partir da derrapada da dupla Rodrigo Janot e Marcelo Miller, é desacreditar as instituições, com o Ministério Público Federal — que tem feito um excelente trabalho em defesa da legalidade institucional —, e, ao mesmo tempo, a Operação Lava Jato. O que se deve é tornar a Lava Jato mais legalista e menos, por assim dizer, “vingativa”. Mais Sêneca e menos Lampião…

1Curiosamente, Joesley Ba­tis­ta, o príncipe transnacional da car­ne, está com 44 anos. A mes­ma idade com a qual o escritor e aviador Saint-Exupéry morreu. Frise-se que, sob pressão, o empresário da JBS sempre informa que está doente.

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