“Tudo que é novo gera muita comoção”

Presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria analisa como benéfica a disseminação do acesso ao conhecimento pelas novas tecnologias, mas alerta para o isolamento social gerado pela compulsão nas relações virtuais

Fotos: Minas Tênis Clube

O comportamento da nova geração, compreendida pelos estudiosos como os nativos digitais – nascidos a partir de 1984 em algumas definições (geração Y) e de 1991 em diante (geração Z) por outros teóricos –, é alvo de diversas análises e uma dose carregada de críticas sobre seus hábitos, principalmente pelo uso excessivo dos smartphones e tablets. Para falar sobre os benefícios e prejuízos da inclusão das novas tecnologias no cotidiano dos jovens, o Jornal Opção conversa nesta edição com a médica Carmita Helena Najjar Abdo, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Ela é psiquiatra, sexóloga, professora e doutora pelo Instituto de Psiquiatria (IPq) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM/USP).

Fundadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) da instituição, Carmita vê no uso das novas tecnologias vantagens e desvantagens. “Tudo na vida nós podemos fazer um bom uso ou um mau uso e você pode se beneficiar ou se prejudicar daquilo. Educar para o bom uso é o que as gerações mais antigas podem fazer.”

O ponto principal, para a profissional da área de saúde, é a capacidade da pessoa em filtrar as informações e conhecimentos recebidos no mundo digital e não se prender apenas à vida na internet, o que pode trazer problemas como fobias e compulsões. Confira a entrevista completa.

A nova geração é vista geralmente de forma muito pejorativa, principalmente sobre o uso excessivo da tecnologia. O que é possível apontar como benefícios da inclusão dos tablets e smartphones na vida das pessoas?
A tecnologia pode ser vista do ponto de vista negativo e existem vários comentários nesse sentido. De fato a comunicação se torna mais precária, as pessoas parecem menos interessadas afetivamente umas nas outras. Existe um distanciamento natural porque a pessoa fica muito ligada em comunicação via tecnologia. Mas exatamente o que a tecnologia traz de bom é difundir a informação de forma bastante rápida, eficaz e também acessível.
O custo está se tornando cada vez mais acessível. Não só difundir a informação em geral, mas também o acesso ao conhecimento vai se tornando muito mais fácil e rápido. Não há a necessidade de se ir até uma biblioteca. No próprio local em que a pessoa está ela pode acessar todo e qualquer material de interesse dela.

Inclusive pode abrir novas perspectivas de interesse. Porque uma coisa puxa a outra e é um infinito de informações que você vai obtendo a partir de um interesse básico que se desdobra em outros. A tecnologia facilitou a vida das pessoas ao não precisarem ir até os locais, mas de onde estão poderem estar em contato com o mundo inteiro.

Ficou muito mais viável você se comunicar com pessoas das mais diferentes etnias e regiões. Isso sem dúvida é um ganho muito grande porque traz uma miscigenação da cultura, um conhecimento mais geral. Cada pessoa em um determinado país passa a ter contato com outras pessoas que jamais ela conversaria não fosse por essa forma, que é mais barata do que um telefone, mais rápida do que qualquer outra antes possível.

Essas são algumas das vantagens, como também a de ver muitas pessoas com bastante criatividade, a partir da tecnologia, inventando novas formas e soluções. Muitas delas bastante jovens que têm maior facilidade para lidar com essas novas tecnologias criando instrumentos, elementos e procedimentos que facilitem de forma crescente cada vez mais a vida das pessoas. A­guça a criatividade e leva a resultados inimagináveis daqueles que mui­tos jovens têm condição até maior do que alguém mais velho de lidar com esse instrumental. E a partir disso criar novas possibilidades.

Fala-se muito que os nativos digitais – quem já nasceu inserido em um mundo informatizado ou se desenvolveu acompanhando a evolução tecnológica – são parte de uma geração muito cooperativa e colaborativa. É de fato o que a sra. tem observado?
Ela é uma geração muito colaborativa porque aprendeu desde cedo que esse é um instrumental que serve para você ter de fato uma atitude de colaboração. Através desse instrumental você pode informar e indicar muito, e esse conhecimento se difunde muito rápido. Você acaba recebendo uma informação que pode ser multiplicada. Boas informações podem ser multiplicadas, assim como as informações ruins, errôneas e falsas. Esse é o outro lado da moeda.

Tudo que pode ser bom também pode ser ruim na mesma medida. Essa é a questão dessas novas tecnologias. Nós verificamos que é possível disseminar um conhecimento importante e interessante que vai contribuir muito para facilitar a vida das pessoas quanto eu posso difundir uma notícia que não é verdadeira e tornar as pessoas extremamente angustiadas e também precavidas contra algo que é absolutamente irreal.

O uso das novas tecnologias pode ser benéfico se bem usado. Mas já existe um consenso sobre qual seria o limite para que o hábito de utilizar smartphones e tablets não passe a ser um problema? Há de fato um limite?
A verdade é que quem tem uma predisposição ao uso exagerado de qualquer elemento, qualquer instrumental que seja à sua disposição, ou até de qualquer atividade vai acabar usando em excesso. Como alguém que, por exemplo, é muito ligado a esporte pode acabar se desgastando nas academias ou alguém que é muito ligado a jogo pode se viciar e assim por diante. Diante desse elemento, alguém que já tem uma predisposição a ficar monopolizado pode sim correr o risco de “se viciar”, vamos dizer assim entre aspas porque não é uma coisa química. Mas é um vício que acaba afastando essa pessoa de outras formas de relacionamento e de outras atividades em geral.

O que nós precisamos fazer não é limitar, mas é o tempo todo mostrar para uma criança e alguém que está se desenvolvendo as vantagens de outras formas de acesso às pessoas, de acesso à comunicação e de veiculação de ideias. Desde que se apresentem as vantagens de outras alternativas, cabe àquela pessoa que está em desenvolvimento associar essas várias possibilidades.

Porque nós sabemos que é inócuo se proibir ou fechar canais. Não tem hoje em dia quem possa ficar ao lado de uma criança travando a internet. Por mais que existam filtros e meios de coibir o uso, ela vai à casa do vizinho, a um local público e o acesso acaba acontecendo. É até melhor que fique em casa e não corra o risco de associar duas ou três possibilidades de perigo. Porque a criança pode sair de casa para acessar o computador do amiguinho que mora não tão perto.

Educar é oferecer todas as alternativas, esclarecer os benefícios e os riscos, estimular o uso dessas várias alternativas, as mais antigas com aquilo que elas têm de vantagens sobre as mais novas, e criar nessa pessoa que está se desenvolvendo uma curiosidade para aquilo que não é tão habitual. O que acaba acontecendo é que a tecnologia quanto mais moderna ela é mais habitual para essa criança que está chegando hoje no contato com os instrumentais que nós temos à nossa disposição.

Na sua rotina profissional, é possível apontar doenças que es­tão relacionadas diretamente ao uso excessivo das novas tecnologias?
Eu, que trabalho com sexualidade, tenho observado muito o aparecimento de pessoas que acabam se tornando compulsivas por sexo virtual. São pessoas que acabam, consequentemente, não conseguindo ter uma relação presencial porque se tornaram adeptos e adictos dessa excitação. E isso vem de forma crescente. Começam um dia com um interesse por curiosidade. Dada a facilidade, a privacidade e o fato de ser um instrumental barato, acabam voltando a praticar esse sexo virtual. Uma, duas, três vezes. E daqui a pouco, quando se dão conta, estão completamente impossibilitados do sexo presencial porque perderam a condição, dado que o sexo virtual é um sexo que se faz de uma forma menos integrativa. O indivíduo tem que controlar só a si próprio.

Ele não tem que interagir, não tem que se adaptar ao ritmo do outro. Todas essas condições que favorecem a individualidade, inclusive a atividade sexual, podem fazer com que essa pessoa se torne não apta mais a uma atividade compartilhada. Eu tomo isso como exemplo de uma situação emblemática. Se isso acontece no sexo, que é uma atividade por si só integrativa – e é elementar que seja assim – e encontra-se um jeito de se fazer sem a necessidade de outra pessoa, imagine exponencialmente como isso pode acontecer para vários tipos de atividade.

Se por um lado é muito bom que essa pessoa possa fazer um curso de MBA via internet sem sair da sua sala, de repente não é nada bom que ela não consiga ter uma atividade social por mais leve e agradável que seja porque perdeu essa condição de convívio e de trocas de experiências. Isso ao se tornar uma pessoa reclusa e que não consegue estar presencialmente em um ambiente e desfrutar dessa possibilidade.

É claro que isso não vai acontecer de um dia para o outro e não vai ser para quem acessa a tecnologia frequentemente, mas não de forma absoluta e única. Vai acontecer para aqueles que vão se afastando cada vez mais de outras possibilidades. Seja pela facilidade, custo barato e privacidade, por uma série de condições que essa tecnologia oferece, já não estão mais interessados em algo que não seja extremamente tão prático assim.

A psiquiatra e sexóloga Carmita Abdo afirma que tem se tornado hábito de alguns pais deixarem seus filhos pequenos muito tempo com smartphones e tablets pelo fator sedutor que a tecnologia tem sobre as crianças, mas que devem ser oferecidas também outras atividades além do acesso às novas tecnologias | Foto: Divulgação

Ao mesmo tempo em que as novas tecnologias podem gerar uma aproximação, essas ferramentas tendem a gerar o afastamento e a dificuldade em lidar com as relações presenciais para parte das pessoas?
Sim. Mas elas têm de ter uma tendência para acabarem se fixando nessa situação. Uma pessoa que consegue o equilíbrio se beneficia das duas formas de relações, ela soma. A partir do momento em que ela substitui o real pelo virtual ela está perdendo.

Outras áreas médicas já mostram o surgimento de problemas na coluna pelo uso excessivo do smartphone com a cabeça abaixada. Isso tende a se agravar?
Sem dúvida. É claro que essa postura tem de ser corrigida o tempo todo. Muitos sites acabam ensinando como manter uma postura mais adequada.

Na psiquiatria, há a verificação do aumento de doenças que estejam relacionadas e aconteçam com mais frequência por uso das novas tecnologias?
Tudo que é novo, através do uso errado ou inadequado, pode gerar repercussões negativas para a saúde. Há o caso de pessoas que têm fobia. E há também a compulsão. É o movimento que vai de um extremo ao outro, como aquela pessoa que não consegue se desligar mais e a pessoa que tem ojeriza porque alguma coisa desencadeou esse tipo de sentimento nela, que pode ser uma experiência negativa por exemplo.

Mas são casos em que já há uma predisposição tanto para uma quanto para outra reação e a tecnologia apenas é um instrumento. Não é que a tecnologia causa uma fobia ou compulsão. A tecnologia pode, quando mal utilizada, favorecer o surgimento dessas condições.

O impacto da quantidade excessiva e rápida de informação que é disponibilizada pode gerar um medo maior, como quando a pessoa se percebe vivendo em um contexto repleto de notícias sobre violência?
Pode. Mas desde que essa pessoa não tenha capacidade de filtrar, de ela própria ter o seu controle. Fica em um momento ávida por saber cada vez mais e, de repente, ela se exaure de tanta informação negativa e passa, em um terceiro momento, a sentir muito medo dessa violência. São três momentos. Um momento de busca excessiva, um segundo momento de exaustão e outro em que ela chega a desenvolver um quadro fóbico. Para isso é preciso ter uma predisposição. Uma pessoa que não tivesse essa predisposição identificaria esse uso excessivo e abrandaria a utilização, ou mesmo que usasse muito não desenvolveria esse quadro de fobia.

O tipo de tratamento dado ao comportamento das novas gerações tende a ser bastante pejorativo. Os nativos digitais são mesmo pessoas com hábitos cada vez piores ou tudo não passa de um conflito de gerações diferentes?
Eu acredito que o comportamento da nova geração é mais visível. Se você ficasse parado diante da televisão na sua casa, isso não seria observado por muita gente. Já ao usar o celular no meio da rua, quando todo mundo tem acesso a um instrumento que está na mão, não está na parede ou em um móvel, é claro que a visibilidade se tornou maior sobre a adesão que as pessoas têm à nova tecnologia. Mas quanta gente ficou ligada no rádio, quanta gente ficou ligada na TV, no computador de mesa bastante interessado durante um tempo?

Essas situações foram se sucedendo ao longo das novas descobertas. Tudo que é novo gera muita comoção e interesse, e quanto mais esse objeto novo for algo que pode ser transportado, levado junto com o indivíduo, mais evidente fica o seu uso e todos tomam conhecimento de que aquilo está sendo utilizado. Acredito que esse seja o componente diferencial das últimas invenções tecnológicas relacionadas à comunicação.

Ninguém fica preocupado se o rádio do carro está ligado da hora que você se senta no banco para dirigir à hora em que você desliga o som porque a pessoa está em um ambiente mais privativo e não está com um objeto na sua mão, é algo acoplado ao seu veículo. Mas a partir do momento que você tem um celular e fica para cima e para baixo com ele, todo mundo fazendo a mesma coisa tem um efeito muito mais gritante do que se fôssemos observar quantas pessoas neste momento estão na rua escutando notícias, um programa de rádio ou quantas pessoas estão em suas casas assistindo a um programa ou determinado canal de TV.

A TV é uma febre? Sim. É um instrumento muito importante na vida das pessoas e pode deixar de ser na medida em que outras formas de acesso à comunicação surgem. São substituíveis. Alguns foram e continuam a ser utilizados, por suas características, são muito acessados e vão perdurar. Quando alguma coisa é realmente revolucionária, os primeiros a adotarem são os mais jovens.

Como a sra. avalia o uso de tablets e smartphones por crianças sem uma restrição de tempo ou controle em casa?
Os tablets e celulares são muito sedutores e às vezes competem com a companhia do pai ou da mãe que não são tão agradáveis ou estimulantes assim. Esse comportamento chega a ser incentivado por alguns pais, porque toda vez que a criança está irrequieta ou desagradável se oferece a ela ver um filminho, um desenho. E essa criança é habituada, sem que o pai e a mãe percebam, a ter nesse instrumento uma forma de diversão rápida e eficiente. É um cuidado a ser tomado recomendar aos pais que ofereçam outras alternativas como a conversa, o contato, a possiblidade de estar ao ar livre em contato com a natureza e pessoas.

Que outras atividades também sejam estimulantes. E não apenas que esses contatos sirvam só para que a criança ou o adolescente receba uma infinidade de recomendações sem fim, o que torna o contato pouco agradável. Vamos mesclar. Vamos educar nos dispondo mais. Infeliz­mente o tempo dos adultos está cada vez menor. E a disponibilidade cada vez menor faz com que até esse instrumental substitua, infelizmente, o que poderia ser muito mais positivo. Por isso é preciso fazer uma mescla, uma soma. E não algo presencial se transformando cada vez em uma situação mais rara.

Trata-se mais de saber se beneficiar das novas tecnologias e adotar um bom uso do que está à disposição?
Tudo na vida nós podemos fazer um bom uso ou um mau uso e você pode se beneficiar ou se prejudicar daquilo. Educar para o bom uso é o que as gerações mais antigas podem fazer. Porque coibir o uso, principalmente para um adolescente, apenas aguça ainda mais a sua capacidade de ser desafiador e não resolve. É importante que se mostrem outras alternativas para que aquelas invenções do passado que são ainda hoje úteis e positivas continuem a ter o seu valor para as novas gerações. l

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