Editorial

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A radical Marina Silva vai desafiar o coro dos contentes do tucanato e do petismo

Marina Silva, a candidata do PSB a presidente da República — não há ou­tra possibilidade —, é um “problema” e uma “solução” [caption id="attachment_12777" align="alignleft" width="825"]artigo_jose maria e silva.qxd Marina Silva: a candidatura da socialista quase-missionária indica uma radicalização da política nacional e alianças mais conservadores podem ruir nos Estados | Foto: Miguel Baia Bargas[/caption] “Problema” porque “assusta” mais do que Eduardo Campos, falecido na quarta-feira, 13, aos 49 anos. É provável que assusta progressistas e conservadores (principalmente os do agronegócio, que, a rigor, são menos conservadores do que imagina a vã filosofia patropi). Mesmo com certo ar angelical — inclusive é religiosa — e defensora de causas progressistas, como a preservação do meio ambiente, é conservadora, em termos comportamentais. É uma evangélica radical, se se pode formular assim. É contrária ao aborto e não tem qualquer empatia com causas como “casamento” entre ho­mossexuais. Na política nascida no Acre (de 56 anos) coexistem, numa ambiguidade que chamaria a atenção do escritor americano Henry James, uma conservadora e uma progressista. A defesa intransigente do meio ambiente, com o consequente controle do crescimento capitalista no campo — quiçá inevitável, dadas as pressões do agronegócio e, ao mesmo tempo, do crescimento populacional no Brasil e no exterior —, camufla a Marina adepta do conservantismo questões comportamentais. Entretanto, ao contrário de outros políticos, Marina Silva tem posições claras a respeito de alguns assuntos e tende a não tergiversar. A confusão é mais de quem a interpreta, que em geral a vê quase que exclusivamente como uma radical de esquerda, devido à pregação de que a expansão do capitalismo deve ser controlada pelo Estado — deixando de notar outros aspectos de seu pensamento. Fica-se com a impressão de que a provável presidenciável quer construir um mundo para os “escolhidos”, o que é uma ideia político-religiosa — que, sob o socialismo, gerou uma ditadura implacável, responsável por milhões de mortos (cerca de 100 milhões, e exclusivamente no século 20, depois de 1917) —, e por isso antropólogos e sociólogos, mais do que cientistas políticos e estatísticos, deveriam ser convocados para explicá-la. Marina Silva talvez seja mais bem compreendida se for vista como uma radical de esquerda que incorpora certo radicalismo (comportamental) de direita, derivando posições políticas a partir de uma visão religiosa (evangelizadora e quase fundamentalista) do mundo. Então, a ex-mi­nistra, chefe do grupo político co­nhe­cido como Rede Susten­tabilidade, é de esquerda, politicamente, e de direita, em termos comportamentais? É provável que mesmo esta in­terpretação seja redutora e que a líder socialista — quem sabe, uma so­cialista cristã — careça de uma observação mais aguçada e menos simplista. Porém, o que importa, no momento, não é a clareza ideológica sobre o que é Marina Silva. Até porque o que falta na política patropi é transparência ideológica — e não só de Marina, que, aliás, talvez seja mais bem posicionada, com suas contradições, do que a presidente Dilma Rousseff, que, para governar, assenhorou-se de uma aliança política que, por certo, contraria seu ideário, mas não o de Lula, que é um animal político do primeiro time, que percebeu rápido que política se faz na circunstância e com práticas e aliados possíveis, não com ideias revolucionárias, bonitas e futurísticas. O que define a tática (a intervenção na realidade) é a circunstância — não uma ideia. O que importa é o debate, ainda prematuro mas necessário, sobre a viabilidade de Marina Silva. O cientista político e filósofo Marcos Nobre, da Unicamp, concedeu uma entrevista polêmica e instigante à “Folha de S. Paulo”. Aqui e ali, fica parecendo mais oráculo do que cientista, mas não porque queira ser profeta, e sim porque a política, que é construção no momento, é sempre um terreno escorregadio e pantanoso. Ao contrário do historiador, que trabalha com fatos mais ou menos consolidados, o cientista político comete mais erros porque tem de interpretar os fatos no momento em que estão acontecendo. Trabalham, pesquisam, escrevem e dão entrevistas sob pressão. A “Folha” cobra que Marcos Nobre explique por qual razão a aliança Eduardo Campos e Marina Silva, supostamente representante do “novo”, não havia decolado. A explicação talvez não seja lá muito precisa, mas tem sua pertinência: “Não decola porque a campanha foi lançada na entrevista ao ‘Jornal Nacional’, na véspera de sua morte. A exposição nacional começou ontem” (terça-feira, 12). [caption id="attachment_12779" align="alignleft" width="1022"]Eduardo Campos: o líder pernambucano, progressista e modernizador, era muito mais agregador do  que a líder ambientalista Marina Silva. E ele tinha um pé no coronelismo nordestino, na oligarquia Eduardo Campos: o líder pernambucano, progressista e modernizador, era muito mais agregador do que a líder ambientalista Marina Silva. E ele tinha um pé no coronelismo nordestino, na oligarquia | Foto: Nacho Doce/Reuters[/caption] Marcos Nobre avalia que a morte de Eduardo Campos piora a situação da presidente Dilma Rousseff. Na sua opinião, o PSB não tem saída, exceto lançar Marina Silva. “O sistema político, que excluiu a candidatura de Marina, será obrigado a trazê-la de volta com um cacife gigantesco. Isso acontece antes do horário eleitoral. Vai ter um período de confusão, mas acho que a Marina será candidata por causa da pressão sobre o PSB. Isso é ruim para o governo porque Marina tem carisma, cacife, voto e ‘recall’ [lembrança dos eleitores]. O governo não contava com isso.” Entra aí, pois, Marina Silva como “solução”.

Eleitores em campanha

Pode-se dizer que há eleitores que estão em campanha — uns com Dilma Rousseff, outros com Aécio Neves. Alguns estavam com Eduardo Campos. Mas há os eleitores, ainda que devida ou parcialmente politizados, que não estão em (e na) campanha. A rigor, não estão indecisos. Tão-somente não querem votar em quem está no poder e em quem, mesmo na oposição, não parece oferecer uma alternativa de mudança em relação ao status quo. O próprio Eduardo Campos seguiu o governo do PT durante 11 anos e se considerava neolulista, um apadrinhado do ex-presidente Lula da Silva, que chegou a pensar em lançá-lo a vice-presidente de Dilma Rousseff e/ou a presidente em 2018. Porém, por entender que o PT não abre espaço para político de outro partido, o líder pernambucano decidiu romper a aliança e lançar-se candidato já em 2014. Eduardo Campos era oposição, claro, mas ao mesmo tempo era visto como um homem do “establishment” lulopetista. Marina Silva, mesmo tendo pertencido ao PT e ao ministério de Lula da Silva, é vista como avessa aos conchavos, ao sistema político dominante. Embora seja pragmática em certos pontos — sua estrutura logística não é gratuita nem feita de so­nhos —, é, no geral, purista. Às ve­zes, não parece habitar o mundo dos mortais. É uma outsider, quem sabe até mesmo na Re­de Sus­tentabilidade — grupo no qual, tudo indica, predominam po­líticos avessos à religião e ade­ptos de um socialismo possivelmente diverso da ideia socialista da ex-ministra do Meio Ambiente. Os eleitores que não estão em campanha, e que aparentemente não querem estar em campanha, podem perceber em Marina um par, uma irmã, no descontentamento universalizado com os políticos. Trata-se, lógico, de uma hipótese. O que pode “salvar” Dilma Rousseff, no primeiro ou no segundo turno, é o voto dos eleitores mais pobres. A perda de uma figura nordestina no pleito — Marina, ao se tornar uma política nacional, parece ocupar um não-lugar, quer dizer, é de todos os lugares, mas não é de nenhum especificamente, nem mesmo do Acre, sua antiga base (é mais forte em Brasília) — pode contribuir para aumentar o cacife da petista. No Nordeste o governo, com seus programas sociais, será o principal cabo eleitoral de Dilma Rousseff. No Nordeste e nas áreas mais pobres do país. No Sudeste, onde não está bem, dada a força da classe média — que, endividada, quer mais do governo, especialmente recuperar o poder de ir às compras —, a presidente vai precisar de uma energia redobrada de seu principal cabo eleitoral, Lula da Silva. Em suma, Marina Silva complica o jogo, mas não apenas para Dilma Rousseff. O principal ameaçado é mesmo Aécio Neves. Como segundo colocado nas pesquisas de intenção de voto, o tucano de Minas Gerais é o primeiro alvo do PSB. Eduardo Campos tinha algum pudor de criticar o amigo Aécio Neves. Marina Silva não terá pudor algum. Na eventualidade de segundo turno entre Dilma Rousseff e Marina Silva, o tucanato fica com a segunda, bem recebido ou não. O que o PSDB mais quer é — com Aécio Neves, o preferido óbvio, ou Marina Silva — arrancar o PT do poder. Agora, se a ex-ministra não deslanchar, vai ser difícil, talvez até muito difícil, o PSB segurar alguns de seus aliados. A tendência é que passem, sem nenhum constrangimento, para o lado de Dilma Rousseff, cristianizando Marina Silva, que, a rigor, “está” mas não “é” do PSB (o PSB vai tentar controlá-la, numa missão impossível, e é provável que a ex-ministra vai tentar controlar o partido). Marina Silva, como se disse antes, é uma outsider — uma espécie de Antônio Con­selheiro de saia, ou, no limite, uma Lula da Silva radicalizada, acima de partidos e grupos políticos.

Morte gera consenso

O dramaturgo Nelson Rodri­gues escreveu que “o mineiro só é so­lidário no câncer”. É uma boutade. Mais certo é dizer que o brasileiro é mais solidário na morte. A mor­te reorganiza o consenso, o pacto da civilidade e, assim, elide as contradições. Eduardo Cam­pos, que mal era citado pelas elites políticas e empresariais, de repente se tornou maior do que certamente é. Fica-se com a impressão de que, morto, tornou-se nacional e um político do porte de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva. A verdade é que o momento apropriado para se avaliar uma pessoa, seja político ou não, não é logo após a sua morte, na hora da comoção privada ou coletiva. (Observe-se que a primeira biografia alentada de Getúlio Vargas, de autoria do jornalista e escritor Lira Neto, só foi publicada integralmente 60 anos depois de sua morte.) Mas obituários não devem excluir a contradição, os problemas. Em alguns jornais ingleses, franceses e norte-americanos, os obituários são escritos antecipadamente por dois motivos. Primeiro, porque escrever às pressas, especialmente sobre pessoas complexas, é sempre um risco. Às vezes não se escapa do reducionismo. Segun­do, porque, escritos antecipadamente, tendem a refletir não a comoção, o clima da morte. Como todos sabem, o que define um homem, político ou não, não é sua morte, ainda que trágica, e sim a inteireza de sua vida. Os 49 anos de E­duar­do Campos não podem ser definidos por um único dia. A morte, por assim dizer, faz “parte” da vida — e não o contrário. Morto Eduardo Campos, de repente começou-se o consenso: “era um grande político”, um elemento da “renovação política” do país. Num momento de confrangimento, de tristeza, é difícil dizer o contrário, desafiando o coro dos recém-contentes. Mas é estranho que ninguém tenha dito que, mesmo com a candidatura, ainda não havia se tornado um político nacional. Ainda estava circunscrito ao Nordeste, sobretudo à sua Paságarda, Pernambuco. A morte, por certo, “transformou” Eduardo Campos num político nacional, ainda que momentaneamente. Era jovem, e a morte de jovens, sobretudo daqueles que falam em renovação, choca muito e cria uma espécie de congraçamento coletivo. A morte, se se pode dizer assim, amplia a civilidade — o que não é negativo. O presidente John Kennedy morreu quando tinha 46 anos e teve quatro filhos com Jacqueline Kennedy. E tornou-se um mito internacional. O político brasileiro deixa cinco filhos e uma mulher jovem, de 46 anos. Com seus olhos azuis e porte ereto, era tão bonito quanto Jack Kennedy. Não se trata, numa adesão insensível à realpolitik, de dizer que Eduardo Campos era mau político. Nada disso. Trata-se, pelo contrário, de exibir o homem em sua grandeza e limites apropriados. No governo, por quase oito anos, contribuiu para ampliar a modernização de Pernambuco. Não se pense que governou como socialista, apesar dos investimentos no social, com prioridade para a educação (estudantes pobres ganharam bolsas para estudar no exterior e incentivou-se a escola de tempo integral). Economista, não tinha veleidades românticas. Era um realista. Por isso, criou um planejamento que combinou incentivo maciço ao crescimento com políticas desenvolvimentistas e, mesmo, assistenciais (não há como descartar o assistencialismo nem mesmo em países muito ricos, como os Estados Unidos, Japão e a Ale­manha, pois a pobreza é um fenômeno universal). No seu governo, caíram os índices de homicídio e o PIB de Pernambuco duplicou. “Tocou obras como o Porto de Suape, a Transnordestina, o estaleiro Atlântico Sul.” Com que dinheiro? Seu governo recebeu espantosos 30 bilhões de reais do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), nos governos de Lula da Silva e Dilma Rousseff. O PT foi seu grande parceiro administrativo e político. Lula da Silva era uma espécie de tutor político. Eram amigos, aliados e, claro, pernambucanos. Portanto, Eduardo Campos, como realçaram os obituários, traduzindo opiniões diversas, era mesmo um gestor moderno e, assim, um agente da renovação. Era um desenvolvimentista e, filiado ao Partido Socialista Brasileiro, nada tinha de comunista. Era, acima de tudo, um modernizador. Mais: era um homem de Estado, de extrema vocação para o serviço público. Um dos melhores perfis de Eduardo Campos saiu na “Piauí”, com o título de “Candidato anfíbio” (a revista diz isto porque ele era “capaz de adaptar às mais diversas situações e ambientes”), da lavra da atentíssima repórter Daniela Pinheiro. É um retrato multifacetado, nem laudatório nem ofensivo. Justo, registrando seus sucessos, ambivalências e problemas. Nas suas conversas e discursos, Eduardo Campos dizia com frequência: “O Brasil parou de melhorar e começou a piorar”. É uma frase de marqueteiro (repetir para ver se pega). Porque o país, apesar dos problemas, não piorou. O país, com erros e acertos do governo do PT — e acrescente-se que um país não é construído tão-somente com os atos dos governos, como se não existisse uma sociedade civil vigorosa que, a duras penas, resiste e sobrevive a quaisquer planos econômicos —, tem melhorado. Per­nambuco, apesar da eficiência de seu governo, tem uma pobreza elevada, “a 19ª posição no ranking do Ín­dice de Desenvol­vi­mento Hu­ma­no (IDH)”. Trata-se de um dos piores índices do país. À repórter Daniela Pinheiro, Eduardo Campos disse, depois de conversar com hóspedes de um hotel: “Falaram que não votavam ‘naquela mulé’ de jeito nenhum. Reparou que agora ficam chamando ela de Dilmão, Dilmona? O povo está com abuso demais dela”. As pesquisas indicam que, de fato, há algum distanciamento, porque a presidente Dilma Rousseff não tem 40% das intenções de voto, mas por que um político do porte de Eduardo Campos tem de reforçar preconceitos contra um ser hu­mano, chamando Dilma Rousseff, que não agride pessoas, de Dilmão e Dilmona? Nos seus discursos e entrevistas, Eduardo Campos dizia que, se eleito, a “raposada do PMDB” não teria vez no seu governo. Lula da Silva pensava da mesma maneira e o mensalão, de alguma maneira, foi um instrumento para, controlando outros partidos, contornar o peemedebismo, que se tornou um sistema na política brasileira. O peemedebismo, mesmo não elegendo um presidente de seus quadros, controla e monitora os governos, tanto de centro quanto de esquerda a partir do domínio no e do Parlamento. É um cavalo de Troia encravado no “disco rígido” do Brasil. Se eleger uma bancada forte de deputados e senadores, o PMDB continuará contaminando e mandando na política nacional e mesmo um governo do PSB terá de compor com seus próceres. O PMDB é um vírus que paralisa qualquer governo que não o acolha (mas também é útil ao colaborar para moderar o PT). Eduardo Campos dizia que “aposentaria” José Sarney. O curioso é que praticamente retirou Severino Cavalcante da “aposentadoria” e trabalhou para ter o apoio de Inocêncio de Oliveira. Fica-se com a impressão que “nossos” coronéis são melhores dos que os coronéis dos “outros”. Reduzir impostos quando há um Estado pantagruélico, altamente centralizador e dispendioso, é praticamente impossível. Mas Eduardo Campos dizia, com frequência, que faria uma reforma tributária “imediata” para diminuir impostos. Um dos coordenadores de sua campanha na área de planejamento econômico, o economista Eduardo Giannetti, PhD pela Universidade de Cambridge, aparentemente não acredita que seja tão fácil assim. Eduardo Campos afirmava que, se eleito, derrubaria a inflação para 3%. Giannetti, embora aliado, ressalva: “O próximo governo vai ter que lidar com a verdadeira herança maldita. No Brasil, há uma dificuldade imensa de convencer a população de que há custos que precedem benefícios. O Brasil acumulou distorções e a correção dessas distorções — que inclui aumento das tarifas — vai, necessariamente, fazer com que a inflação suba 1,5% a 2% de cara”. Porém, como se sabe, não se ganha eleição com discurso excessivamente realista. Ganha-se eleição vendendo esperança e sonhos. A crueza da realidade é “embrulhada” pelo marketing para ser apresentada com certa suavidade ao eleitorado. Giannetti assinala que o próximo presidente deve redefinir o papel do BNDES, “redesenhar o modelo do setor elétrico, restabelecer o tripé econômico — geração de superávits primários nas contas públicas, juntamente com o regime de câmbio flutuante e o de metas para a inflação, além da simplificação do sistema tributário para voltar a atrair investimentos”. “Acho que o Armínio [Fraga] nem vai gostar de ouvir isso, mas, do ponto de vista estrito da economia, há pouca diferença entre o que devem ser as propostas de Aécio e as de Eduardo”, frisa Giannetti. Acrescente-se que o economista é mais ligado a Marina Silva. [caption id="attachment_12780" align="alignleft" width="1173"]Aécio Neves: o senador, candidato a presidente da República pelo PSDB, possivelmente será atingido pelo tom mais agressivo do discurso de Marina Silva | Foto: Orlando Brito/ ObritoNews Aécio Neves: o senador, candidato a presidente da República pelo PSDB, possivelmente será atingido pelo tom mais agressivo do discurso de Marina Silva | Foto: Orlando Brito/ ObritoNews[/caption] O vezo autoritário de Eduardo Campos é o mesmo de Dilma Rousseff e Aécio Neves (que sempre controlou a Imprensa de Minas Gerais com mão de ferro). Quando uma pergunta não lhe agradava, o entrevistado logo era desclassificado como um agente de Aécio Neves (no Brasil, a crítica, que é legítima, é confundida com “ataque”). “Quem era essa mocinha do SBT, que foi treinada só para me perguntar sobre o Aécio?”, disse certa vez. As perguntas eram pertinentes e a “mocinha” comportou-se profissionalmente (afinal, durante certo tempo, Eduardo Campos e Aécio Campos eram carne e unha). Jornalista pode até ter simpatia por um ou outro candidato, mas precisa fazer as perguntas apropriadas, que contribuam para que os eleitores compreendam o quê e como pensam os políticos. Uma das jogadas bem-sucedidas de Eduardo Campos foi, com o apoio do PT, a indicação de sua mãe, Ana Arraes, para o Tribunal de Contas da União. No TCU, há ministros que têm méritos, é claro, mas não chegam lá basicamente por isso. A indicação é, no geral, política. Ana Arraes “derrotou” pesos pesados porque seu filho, Eduardo Campos, era o grande “trunfo” da negociação. Por si mesma, não seria indicada. Antônio Campos, o Tonca, irmão de Eduardo, disse à “Piauí”: “Se ele não ajudar a mãe, vai ajudar quem?” Uma lógica irretorquível, sem dúvida. No governo de Pernambuco, Eduardo Campos nomeou mais de 20 parentes (tios, primos, genro, cunhados), sob o argumento de que eram competentes. Ariano Suassuna, falecido recentemente, tio de sua mulher, ganhou um cargo de acomodação, mas com salário de primeira linha. O que fazia, de fato, não se sabe. Mas todo mês o dinheiro era depositado em sua conta bancária. Nepotismo “ruim” é só o dos “outros”. João Grilo e Chicó decerto aprovariam. Um dos projetos de Eduardo Campos era mudar o setor previdenciário, mas alertando, para não perder votos, que não iria mexer em direitos adquiridos. “Não dá para um desembargador deixar pensão para a segunda mulher novinha. O cara contribui 25 anos e a pensão dura sessenta”, disse à “Piauí”. Ora, no caso, não há o que fazer, porque, como disse, não se mexe em direitos adquiridos, ainda que, eventualmente, possam ser injustos. Para enriquecer o perfil de E­duar­do Campos, contraditando a louvação habitual, Daniela Pinheiro re­cor­reu ao professor Michel Zai­dan, da Uni­ver­sidade Fe­deral de Pernam­bu­co e doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). O político de matiz róseo, de agenda positiva, é ligeiramente desconstruído pelo mestre. “Ele [Eduardo Campos] aumentou as secretarias de 18 para 28, e cortou sete antes de sair do governo. Colocou dois postes co­mo herdeiros políticos no Estado para continuar no controle. Eduar­do é o imperador e Pernambuco é o reino”, afirma Zaidan, autor do livro “A Honra do Imperador”. “Não há oposição em Per­nam­buco. Isso não é um bom sinal”, afirma Zaidan. O socialista, segundo o professor, governou com o instrumento das nomeações e liberação de verbas para a­lia­dos políticos. A repórter Da­nie­la Pinheiro comprovou na prática o que Zaidan lhe disse: “O único deputado que aceitou falar comigo contra Campos pediu para ficar no anonimato. Recentemente, uma prima do candidato, a vereadora Marília Arraes, chegou a postar uma carta insinuando que Campos tentava emplacar o filho João na presidência da Juventude do PSB com métodos pouco democráticos”. Zaidan admite que Eduardo Campos não era mau gerente. Mas afirma que “até empresas de transporte com ar-condicionado para a Copa ganharam incentivo fiscal”. O professor-doutor discorda dos que apresentam o político como “fato novo”. “Ele é parte de uma oligarquia. Assim como Aécio Neves. Nesse ponto, são idênticos. Nunca tiveram um emprego, viveram da política, da herança política dos avós e dos velhos hábitos de manutenção do poder”, afirma o pesquisador. Eduardo Campos era neto de Miguel Arraes, apontado como coronel de esquerda. O que se disse acima não diminui Eduardo Campos em nada. Tão-somente nuança o político, mas não retira sua grandeza. Sua história foi fatalmente amputada e, com isso, pesquisadores gabaritados terão de cristalizá-lo como um político mais importante para Pernambuco do que para o país. A morte de jovens, como Eduardo Campos, é sempre lamentável. Fica-se com a sensação de que, com sua energia e vontade, poderia ter feito muito para modernizar o país. Uma pena que a Velha Senhora o tenha levado tão cedo, retirando-o da política nacional e de sua família.

Iris Rezende, como ministro da Justiça, fez pouco para reduzir a criminalidade

Em campanha para governador, o peemedebista sugere que o problema da violência pode ser resolvido num passe de prestidigitação. Como ministro, ficou conhecido pela frase “o crime, muitas vezes, é inevitável” [caption id="attachment_12108" align="alignright" width="620"]Iris Rezende e Barbosa Neto: os dois políticos precisam entender que a violência e a segurança pública são temas que não devem ser tratados meramente como questões eleitoreiras | Foto: Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção Iris Rezende e Barbosa Neto: os dois políticos precisam entender que a violência e a segurança pública são temas que não devem ser tratados meramente como questões eleitoreiras | Foto: Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção[/caption] Há algum tempo, quando políticos de Goiás procuraram auxiliares da presidente Dilma Rous­seff, para sugerirem que boicotassem o governo do tucano Marconi Perillo, receberam um recado que revela estadismo e percepção de como a economia funciona de modo integrado. Rousseff teria dito que prejudicar um Estado é sacrificar o crescimento geral da economia. Não só. De maneira lúcida, teria apresentado a informação de que o crescimento do país, mesmo que ínfimo, depende basicamente daquilo que os economistas chamam de âncora verde, quer dizer, do agronegócio. O mau uso da política, para atender pleitos provinciais, tende a prejudicar a economia como um todo e reflete tanto na taxa de crescimento quanto na balança comercial. Como informou o Tesouro Nacional recentemente, Goiás, com as contas em ordem, pôde pleitear e obter financiamentos facilitados pelo governo federal — que, a rigor, não é de Rousseff ou do PT, e sim do país (o Poder Executivo deve ser visto e aceito como uma “instituição”, não como propriedade partidária ou pessoal). Com dinheiro em caixa — parte dos recursos foi gerada internamente —, o governo de Marconi Perillo está fazendo um amplo trabalho de recuperação e ampliação da malha rodoviária de Goiás, um Estado que, em termos geográficos, é maior do que Portugal, Cuba e Israel juntos. Estradas melhores, além de mais amplas — algumas estão sendo duplicadas —, são fundamentais para ordenar e escoar a produção com mais facilidade. A recuperação do Autódromo Internacional de Goiânia, em tempo recorde e com qualidade elogiada por pilotos com experiência internacional, atrai eventos que, além da diversão em si proporcionada pelo esporte, fortalece e revitaliza tanto o comércio em geral quanto os setores de hotéis e restaurantes. Ao mesmo tempo, o governo está investindo na construção de hospitais de referência, como o Hugo 2, em Goiânia, e um hospital regional na cidade de Uruaçu, no Norte do Estado. O Crer, ampliado, é mencionado pelo governo da presidente Rousseff como referência para outros Estados que planejam construir hospitais de reabilitação. Os centros de recuperação de dependentes químicos (credeqs) começam a sair do papel e, possivelmente, serão outro modelo para o país. No momento, e isto em todo o país, os dependentes químicos cujas famílias têm recursos financeiros são tratados e, eventualmente, recuperados em instituições particulares, mas a um custo elevado. Famílias pobres não têm como custear o tratamento de seus integrantes que são dependentes químicos. Alguns são levados para “clínicas” dirigidas por religiosos, que, apesar da boa vontade e de alguns resultados positivos, não têm como fazer um trabalho médico-clínico rigoroso e, às vezes, nem mesmo têm instalações físicas adequadas. O governo de Goiás está mostrando ao país aquilo que a Europa constatou há mais tempo: o uso de drogas não é apenas um problema de polícia — é também uma questão, seriíssima, de saúde pública. E é um problema social e cultural. As pessoas precisam se tratar e, ao mesmo tempo, adquirir expectativa de que terão um “lugar” na sociedade. Os credeqs poderão ser, portanto, um local de tratamento e, ao mesmo tempo, de recuperação da estima do indivíduo e, indiretamente, de sua reinstalação como cidadão, e não como pária, na sociedade. Com os comentários e informações acima se quer dizer que, com recursos disponibilizados, o governo de Goiás está recuperando e ampliando sua infraestrutura, para possibilitar o crescimento econômico, e também está investindo no indivíduo. Pode-se dizer, como está na moda, que o tucano Perillo está fazendo sua lição de casa. De­savisados podem concluir: “Com dinheiro, farto ou não, qualquer um faz”. Não é bem assim. O governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, é do PT e tem o apoio maciço do governo de Rousseff. No entanto, faz uma gestão pífia e possivelmente não será reeleito (a senadora Ana Amélia de Lemos, do PP, tem chance de derrotá-lo). Tem-se a impressão de que, ao contrário de Perillo, Genro é mais ideólogo do que gestor. Na edição de quarta-feira, 6, o jornal “O Estado de S. Paulo” publicou uma reportagem, “Em 2015, portos brasileiros esgotarão potencial”. A repórter Bárbara Bretanha escreve: “A falta de acessos às rodovias e às ferrovias vem causando um alto custo de movimentação de contêineres — o mais alto do mundo, 200 dólares por unidade. Sem investimentos, a capacidade dos portos brasileiros será esgotada em 2015”. Há indícios de que o governo federal, embora tenha recursos financeiros, não consegue investi-los e, às vezes, também investe mal. De 2003 a 2013, segundo o presidente da Associação Brasileira dos Terminais Portuários (ABTP), Wilen Manteli, “o governo autorizou investimentos públicos totalizando R$ 19,46 bilhões, mas apenas R$ 9,29 bilhões foram usados. Entraves burocráticos impediram que o dinheiro fosse aplicado em melhorias”. Num país que precisa crescer, portanto tem de exportar mais, a crise dos portos sugere que a presidente Rousseff, embora bem intencionada, não tem agido com precisão e eficiência. Há muito discurso, talvez muita reunião, mas pouca ação e escassa objetividade. Fica-se com a impressão de que os petistas sentem mais “prazer” participando de reuniões do que resolvendo problemas reais. Segurança e eleição Se na questão do transporte, que é essencial para dinamizar o crescimento da economia, o governo de Rousseff não acerta a mão — a Ferrovia Norte-Sul foi inaugurada com pompa e circunstância, mas não funciona —, imagine na questão da segurança pública. Durante anos, e a tese persiste, ainda que de maneira mais tênue, a esquerda adotou o discurso de que a violência é um mero produto das desigualdades sociais. De fato, as desigualdades sociais não devem ser desconsideradas, como às vezes faz o discurso liberal mais radical, mas a violência, em larga medida, se tornou organizada. O narcotráfico, para ficar num exemplo, é um negócio rentável e pode-se falar, sem receio de equivocar-se, que é organizado por “empresários” — alguns deles mantêm até negócios lícitos como maneira de “lavar” os frutos das ações ilícitas. O governo de Rous­seff, assim como o de Lula, mas também como o de Fernando Henrique Cardoso, não combate a violência com rigor. Fala-se nas penitenciárias como locais de reeducação, adotando-se um discurso humanista louvável, mas elas devem ser vistas também, e quem sabe sobretudo, como locais de excluir os indivíduos que não aceitam as regras de convívio pacífico em sociedade. Por uma questão ideológica, sem amparo no Direito e na realidade, o petismo investe muito pouco na construção de presídios — como admitiu o próprio ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, do PT. O fato de não existir presídios suficientes, o que acaba por transformar os existentes em pocilgas às vezes inabitáveis, colabora para que alguns magistrados e policiais sejam, de certo modo, condescendentes com os criminosos. O juiz pode alegar que não há presídios suficientes e adequados — as celas estão quase sempre superlotadas — e, por isso, pode liberar presos considerados “menos periculosos”. Os policiais, alegando que prendem e os juízes “soltam”, às vezes fazem vistas grossas para alguns crimes. Eventualmente, acossados pelo discurso anti-polícia, que a esquerda impregnou na sociedade, policiais são poucos rigorosos no combate à criminalidade. A segurança pública em qualquer país é vista como uma questão nacional, afinal os Estados não são isolados. Portanto, o governo federal deveria observar a questão com mais interesse. Há especialistas que sugerem a criação de um Ministério da Segurança Nacional. No entanto, possivelmente para omitir-se e, quiçá, investir menos, os presidentes da República — e não apenas Lula da Silva e Rousseff — preferem deixar a segurança nas mãos dos Estados, numa espécie de pacto federativo invertido, quer dizer, os recursos são concentrados nas mãos do governo federal, mas as crises, o combate à violência, são de responsabilidade quase que exclusiva dos governadores. A estrutura do narcotráfico é móvel, isto é, move-se por vários Estados, com a droga migrando pelo país. Teoricamente, a Polícia Federal está atenta ao problema; na prática, o combate fica nas mãos dos governos estaduais, que, com estruturas deficientes e não raro despreparadas, são obrigados a policiar fronteiras imensas. Nas campanhas eleitorais, em todas, o tema da segurança pública, como reflexo das preocupações dos indivíduos — especialmente do medo da violência —, não sai da pauta. O problema é que a colocação do assunto em discussão não é feito como a devida seriedade., De repente, do nada, aparece um Barbosa Neto, com uma linguagem técnica que o transforma mais em robô do que num especialista, sugerindo reformas “macro-estruturantes” na segurança pública. O ex-deputado federal esquece que, quando ministro da Justiça, Iris Rezende, agora candidato a governador pelo PMDB, poderia ter contribuído, de maneira decisiva, para articular um programa de combate à criminalidade, com objetivos de curto, médio e longo prazo. No entanto, embora com poder, Iris não deu uma contribuição fundamental para o combate à violência. Pelo contrário, sua gestão ficou conhecida pela frase “o crime, muitas vezes, é inevitável”. A frase, que repercutiu em todo o país, foi muito criticada. A “Folha de S. Paulo” chegou a chamá-lo de “capitão do mato”. O que Barbosa Neto e Iris sugerem é que o problema da violência pode ser resolvido com um toque de... mágica. Não pode, é claro. Os dois estão fazendo política eleitoral, não estão tratando a questão com a seriedade necessária. Lamenta-se isto porque, embora esteja mais preocupado com sua candidatura, Iris tem uma tradição de seriedade. Pergunta-se: o que Iris Araújo (PMDB), como deputada federal, tem feito para combater a violência no país? Qual foi o projeto que apresentou? Pedir intervenção no Estado é de um primarismo que deve chocar os magistrados da Justiça, seja a estadual, seja a federal. E explorar a dor alheia — de pais que perderam seus filhos ou de filhos que perderam seus pais — é quase um crime. É desumano. l

De volta, candidatos com poderes mágicos e suas propostas miraculosas

Em política, como em qualquer área do marketing, importa muito o visual. Nada contra, desde que por trás da aparência haja igual consistência. A questão é que não é isso o que geralmente se encontra

Celg deve ser só a menor parte de um plano sério para a questão energética em Goiás

Venda de Cachoeira e crise da empresa à parte, é hora de os candidatos ao governo e suas chapas optarem por deixar as futricas do passado e discutirem profundamente a questão da energia elétrica no Estado

Hora de ter cuidado para a campanha não seguir rumo à baixaria

Material apócrifo contra Marconi foi distribuído fartamente na inauguração do comitê de Iris Rezende. Se a coligação comandada pelo PMDB entrar por esse viés, corre sério risco de fazer um jogo desleal, inconsequente e suicida

Bem-vindo à sua realidade, Brasil

À ascensão da bola deu-se concomitantemente o apagão social da crítica. Agora, a bola vai embora. Com o fim da Copa, espera-se que a luz volte à cabeça das pessoas [caption id="attachment_9692" align="alignleft" width="616"]Dilma Rousseff, agora retomando o lugar de Felipão no comando das ações: cada um com seu tigre de papel | Foto: Fotomontagem Dilma Rousseff, agora retomando o lugar de Felipão no comando das ações: cada um com seu tigre de papel | Foto: Fotomontagem[/caption] Em 1950, o Brasil, até en­tão nada mais do que uma república das ba­nanas de tamanho continental aos olhos de Europa e Estados Unidos, curtia seu primeiro grande momento de autoafirmação geopolítica. O país vivia a euforia de sediar a Copa do Mundo de Futebol, que já era então a indiscutível paixão esportiva do País. O presidente era Eurico Gaspar Dutra e a capital, o Rio de Janeiro — Juscelino Kubitschek era apenas deputado federal e talvez sonhasse em ser presidente um dia, mas certamente não pensava em criar Brasília. A última Copa havia sido na França, em 1938. O Brasil tinha feito ótima campanha, comandado por Leônidas da Silva e Domingos da Guia, e tinha chegado ao 3º lugar. O evento quadrienal não pôde ser realizado em 1942 e 1946, por causa dos horrores da Segunda Guerra Mundial e suas consequências. A Copa do Mundo de 1942 não foi disputada, mas Brasil e Alemanha haviam se candidatado a sediar o evento. A competição foi cancelada antes que houvesse a escolha do país-sede e muitos dos atletas acabaram por servir o Exército de seus respectivos países, e até mesmo morrer, na guerra. Para 1950, o Brasil usou o argumento de ter se candidatado a sede para 1942. A outra candidata, a Alemanha, estava suspensa pela Fifa até segunda ordem. O Mundial foi preparado sem muitas críticas contrárias internas e, com apenas 13 participantes e grandes jogadores brasileiros em atividade — Zizinho e Ademir Menezes eram as maiores estrelas —, a expectativa era da ratificação do sucesso total, com a apresentação do País ao mundo como cartão-postal e campeões mundiais. Como se sabe, o Uruguai furou o script. O gol de Ghiggia foi o ponto fora da curva preparada para a exposição nacional como gigantes do mundo do futebol. O Brasil entrou no Maracanã no dia 16 de julho como campeão do mundo e o deixou como portador do complexo de vira-latas. Sessenta e quatro anos depois, o Brasil voltou a ser sede de uma Copa do Mundo. Ao ser escolhido como local do evento, em 2007, não havia guerra que ameaçasse o evento. Um revezamento de continentes pela Fifa e a crise em vários dos possíveis concorrentes na América, entre eles a Argentina, facilitou para que o nome do Brasil fosse facilmente escolhido. Era o que bastava para coroar mundialmente o governo Lula, que então navegava na onda positiva da economia global. Ainda não tinha ocorrido a crise imobiliária nos Estados Unidos, que iniciaria um movimento de recessão que afetaria o País muito mais do que uma “marolinha”, como definiria o então presidente. O país do futebol, já pentacampeão, organizou uma Copa debaixo de contestações internas, com protestos e acusações de superfaturamento das obras, e a desconfiança externa, notada principalmente por meio dos inúmeros puxões de orelha feitos pela entidade-mor, a Fifa, por conta dos sucessivos descumprimentos de prazos. Com 12 novos estádios, os mais caros da história dos Mundiais, a competição encerra-se neste domingo. O palco da final é de novo o Maracanã, mas em campo não estará o Brasil. Uma seleção medíocre, com planejamento, convocação, treinamentos e modelo tático malfeitos, chegou até mais longe do que devia. Mas teve tempo de manchar sua história: o 7 a 1 sofrido para a Alemanha será, de agora em diante, uma tatuagem feita, em tamanho maior, sobre a do Maracanazo. Se em 1950 o Brasil não conseguiu a glória de passar a reinar no futebol, em 2014 perdeu, do modo mais humilhante — em casa e de goleada —, o status de rei do gramado. Pelos relatos da época, hoje não há nada perto do que foi a comoção de 1950. Um dos motivos talvez seja porque o brasileiro atualmente sabe que o maior motivo para preocupação ainda está por vir e não tem nada a ver com o desempenho nas quatro linhas: a expectativa para a economia brasileira o Brasil a partir de 2015 é catastrófica. A maioria dos especialistas mais respeitados prevê que o País vai entrar em declínio, especialmente após outubro passar e as urnas, como a Copa, também forem coisa do passado. A conta a pagar será bastante amarga, mas menos por conta de estádios que certamente virarão elefantes brancos do que pela maquiagem engendrada para evitar que viesse à tona a realidade da situação econômica em uma ocasião pouco propícia aos interesses do governo. É bom ressaltar que a grande mídia cooperou com isso: os olhos inevitavelmente voltados para a Copa fizeram com que as grandes questões nacionais fossem para debaixo do tapete das salas de imprensa. Assim, o caos na saúde, o aumento da violência, o escândalo da gestão da Petrobrás, tudo isso deixou de ser pauta. Representados por 58 mil pessoas no Mineirão, 200 milhões de brasileiros aguardavam ansiosos a conquista da vaga na final da Copa. Cada gol da Alemanha foi como um tapa para fazer acordar o torcedor da ilusão de que apenas a motivação, juntamente com improviso e “alegria nas pernas” — expressão usada pelo técnico Luiz Felipe Scolari para definir o estilo de Bernard, o garoto escolhido para substituir Neymar no jogo decisivo —, seria suficiente para vencer o poderio do adversário. Foram sete golpes que fizeram uma realidade dura aparecer: não havia craques, não havia esquema tático, não havia planejamento, não havia trabalho eficiente da comissão técnica, enfim, não havia nada que sustentasse o tigre de papel chamado seleção brasileira. Resta saber o que espera a população brasileira quando a Copa eleitoral acabar. Vença quem vencer, sem mais nada a perder ou a ganhar, o governo federal deve se tornar, então, convenientemente mais transparente. Aflorarão todas as nuances então escondidas. E o 7 a 1 da tarde-noite no Mineirão poderá estar materializado de formas mais concretas e brutais do que o fim do sonho de um hexa. A realidade, quando ofuscada, um dia reaparece. Nada fica oculto a ponto de nunca tornar à luz. Mais: algo até então escondido, sufocado, quando ressurge costuma vir de forma avassaladora. Assim é o sentimento de derrota, a autoestima aniquilada pela taça que viria e não vem mais. As consequências desse humor agora ainda são indefiníveis. À ascensão da bola deu-se concomitantemente o apagão social da crítica. Agora, a bola vai embora. Com o fim da Copa, espera-se que a luz volte à cabeça das pessoas. E que o brasileiro deixe de ser torcedor e se torne cidadão. A pátria de chuteiras já tirou a bandeira verde-amarela do capô do carro e da sacada do apartamento. Nunca, de fato, em um pós-Copa, o patriotismo nacional avançou além do âmbito esportivo. A esperança é de que o espírito das manifestações do ano passado, que ficou dormente durante as semanas do Mundial, esteja ainda pronto a aflorar para participar de fato da discussão eleitoral e registrar sua marca no destino do País. Seria, isso, uma boa nova para enfrentar a realidade difícil que virá.

É preciso entender Goiás

O trabalho do marketing é essencial para dar visibilidade estética e assim tornar o produto, no caso, o político, mais palatável. No entanto, não consegue tirar, modificar e colocar uma nova personalidade política

Condenado do caso mensalão derruba ministro do governo de Dilma Rousseff

O ex-deputado federal Valdemar Costa Neto, de dentro do presídio da Papuda, em Brasília, força a presidente Dilma Rousseff a tirar César Borges do Ministério dos Transportes

Iris “envelhece” a prática política de Caiado e este não “rejuvenesce” a prática política daquele

O deputado federal Ronaldo Caiado, do DEM, “entregou-se” ao candidato do PMDB a governador de Goiás, Iris Rezende. Mas pode perder suas bases eleitorais. Mas o que sai chamuscada de fato é a ideia de que se trata de um político coerente

Eleitores podem trocar o ‘novo’ pelo ‘gestor’ na disputa de 2014

Qual é o problema da presidente Dilma Rousseff? O eleitorado não a percebe como gestora. Em Goiás, pelo contrário, os quatro principais candidatos são assimilados como gestores

Petismo e tucanato devem cobrar mais civilidade de seus militantes e da sociedade

O povo adora quando o rei está nu. Nos estádios, onde os indivíduos se dissolvem e se tornam massa, com a consequente diluição da responsabilidade, é comum os poderosos, como um presidente da República ou o próprio árbitro, serem criticados com extrema aspereza e, não faro, deselegância. No caso da presidente Dilma Rousseff, no jogo da Seleção Brasileira contra a Seleção da Croácia, por mais que vaias sejam sinônimo de vitalidade da democracia e de que o Estado não controla tudo, é evidente que os xingamentos foram de uma grosseria imperdoável. Nas redes sociais, a petista vem sendo agredida da maneira indelicada, até brutal. Às vezes, é chamada de “anta”. Trata-se de uma falta de civilidade que assusta. Porém, quando o agredido é Aécio Neves, do PSDB, às vezes apresentado como cheirador de cocaína — na revista “Piauí”, num longo perfil escrito pela repórter Malu Delgado, o tucano nega e admite apenas que, na juventude, fumou maconha —, vários petistas acham graça e, até, aplaudem. As vozes civilizadas do petismo e do tucanato deveriam se insurgir contra as grosserias gerais.

O que Marconi pode ensinar à presidente Dilma Rousseff

A presidente do Brasil é competente e íntegra. Mas, ao contrário do governador de Goiás, não consegue arrancar do papel as principais obras que planeja. Falta-lhe autoridade? Não tem pulso? Falta-lhe firmeza? O mais provável é que esteja sucumbindo ante a força tentacular da burocracia [caption id="attachment_6287" align="alignleft" width="300"]Dilma Rousseff: a presidente da República é uma política moderna, competente e de rara integridade, mas seus projetos raramente saem do papel. A única coisa que o Programa de Aceleração do Crescimento “acelera” é uma ampla paralisia das ações | Foto: Ueslei Marcelino/Reuters Dilma Rousseff: a presidente da República é uma política moderna, competente e de rara integridade, mas seus projetos raramente saem do papel. A única coisa que o Programa de Aceleração do Crescimento “acelera” é uma ampla paralisia das ações | Foto: Ueslei Marcelino/Reuters Dilma Rousseff: a presidente da República é uma política moderna, competente e de rara integridade, mas seus projetos raramente saem do papel. A única coisa que o Programa de Aceleração do Crescimento “acelera” é uma ampla paralisia das ações | Foto: Ueslei Marcelino/Reuters[/caption] A presidente Dilma Rousseff (PT), além de não ser incompetente, é de rara integridade e, no poder, tem sido mais moderada do que contrapõe o discurso ortodoxo de certos liberais. Mas há dois problemas com o seu governo. Primeiro, parece não ter entendido que é preciso lidar com os políticos reais (não há outros) que apoiam o governo, sem subestimá-los e sem menosprezá-los. Em termos estritamente pragmáticos não dá para exigir apoio e tratar com distanciamento. Nesse ponto, o presidente Lula da Silva é mais “político” do que sua sucessora. O segundo aspecto é mais problemático. Empresários, políticos e cidadãos comuns concordam num ponto: as intenções da presidente são as melhores possíveis, mas seu governo peca na execução de projetos cruciais. Dilma Rousseff parece ter sido engolida pela burocracia. Fica-se com a impressão de que é mais fácil fazer obras em Cuba, com dinheiro brasileiro, do que na terra de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. O discurso do governo de Dilma Rousseff é firme, até contundente, mas a ação é flácida. Quando se ouve o discurso da presidente acredita-se que faz o melhor governo, não do Brasil, e sim do mundo. No entanto, quando se sai às ruas, percebe-se que o país, embora não esteja inteiramente parado, vive um processo de relativa estagnação. É possível que, se não existissem os programas sociais e se os sindicatos não estivessem ideológica e politicamente manietados — cevados por vultosos recursos públicos —, o país estaria passando por certa conflagração social. Na área de segurança pública, a crise parece ser dos Estados, mas, na verdade, o que falta mesmo é uma política nacional que coordene as ações dos governadores. O governo federal, que centraliza os recursos do país em Brasília, tem dinheiro suficiente, até sobrando, para investir, mas os Estados e municípios, vítimas de um pacto federativo que só existe no papel, estão quebrados e não têm como resolver o problema. Fala-se, aqui, sobretudo dos Estados menos poderosos economicamente. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, admitiu, há algum tempo, que, mesmo tendo verbas, o governo federal não conseguiu construir os presídios necessários. Sobrou burocracia e faltou capacidade de fazer. O resultado é que, com mais criminosos nas ruas, a violência é crescente e não decorre necessariamente, como não raro pensa a esquerda, de problemas sociais. A violência explode nos Estados, mas deve ser vista como algo organizado e conectado nacionalmente. Deste modo, urge uma política de segurança pública nacional — dura no trato da criminalidade. Um Ministério da Segurança Pública talvez seja muito mais necessário e útil do que muitos dos ministérios criados pelo PT para agasalhar aliados políticos. No campo econômico, numa tentativa de impulsionar o capitalismo e contribuir para o crescimento da economia, o governo Dilma adotou, por intermédio do BNDES, a chamada “política dos campeões”. A intenção é positiva. O governo do PT, de matiz socialdemocrata — nada a ver com comunismo, ressalte-se —, está incentivando e financiando a chamada “indústria nacional”, projetando a criação de players competitivos, como o grupo JBS-Friboi, nos mercados interno e externos. O BNDES tem mais de 30% das ações do JBS — o que, do ponto de vista do mercado financeiro, é entendido que a empresa é forte, à prova de tempestades locais e internacionais. Entretanto, o mercado privado — sim, os próprios liberais — tem criticado a “política dos campeões”, sugerindo que, no lugar de um banco público, os bancos privados poderiam financiar os empreendimentos. Há uma certa razão nisto. Porque o dinheiro público poderia ser mais bem utilizado no financiamento de obras de infraestrutura, como portos, ferrovias e recuperação e ampliação de rodovias. O investimento em infraestrutura contribuiria para um crescimento mais geral da economia — e não apenas de empresas específicas, como é o caso da JBS e, antes, as de Eike Batista, o player que soçobrou. No caso de uma “empresa campeã” quebrar, como é sempre possível, o governo, via BNDES, terá de assumir os custos. Os contribuintes brasileiros terão de “financiar” a resolução da crise da empresa, ou, pior, “pagar” por uma empresa que, dependendo do quadro crítico, sairá do mercado e deixará apenas o rombo. No caso das empresas campeãs, o lucro é dos indivíduos ou de grupos de investidores, mas as perdas são da sociedade. No Brasil fala-se tanto na criação de uma política agrícola — mas nada se cria de estrutural e duradouro — que até os produtores rurais já não se importam muito com sua inexistência. Eles continuam plantando e comercializando sua produção, enfrentando as intempéries da natureza e do mercado, e pouco ligando para o que faz o governo. Se dependessem do governo federal para alavancar seus negócios, os produtores estariam “perdidos” ou, como dizem, “rodados”. Além da falta de apoio direto, como financiamentos e seguros semelhantes aos que são feitos nos Estados Unidos e na França, para citar dois países que valorizam a agricultura e a pecuária — o agronegócio —, há o problema grave das rodovias federais, quase sempre malcuidadas, até abandonadas. Se as rodovias fossem estadualizadas, com o necessário repasse de recursos federais, é bem possível que estivessem em melhor estado. Zelar pelo patrimônio público federal num país gigantesco, continental, é quase impossível sem o apoio e a interferência dos governos estaduais. Mesmo com escasso apoio do governo federal, o agronegócio é, há muito tempo, a âncora verde da economia. Pode se reduzir a compra de ferro, por exemplo, mas não há como diminuir a aquisição de soja e carne. A China está comprando menos ferro brasileiro, mas não deixa de comprar alimentos para 1,3 bilhão de pessoas. Com o processo de desindustrialização — algo grave, ao qual o governo petista não dá a devida importância —, o agronegócio vem “segurando” a balança comercial e, com isto, garantindo certa estabilidade à economia. No campo ético, não há o que dizer da presidente Dilma Rousseff. Ou melhor, trata-se de uma gestora e política honesta. Até honestíssima. Mas há problemas sérios em seu governo. A Petrobrás, maior empresa do país, passa pela maior crise de sua história. A aquisição da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, foi um mau negócio. Mais do que isto, foi estudadamente um mau negócio, porque indivíduos que estavam (alguns estão) na empresa possivelmente ganharam ao adquiri-la. Ao revelar que não sabia dos termos integrais do acordo de aquisição, a presidente sugere que o governo petista sonega informações precisas ao gestor. À falta de sintonia soma-se a ausência e quebra de autoridade. A refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, é outro elefante branco do governo petista. A Venezuela, divulgada como parceira, caiu fora e deixou o abacaxi para Dilma Rousseff. Como pode uma presidente que não é incompetente e é íntegra fracassar? Por uma questão de justiça, não se pode falar em fracasso integral — o governo federal acaba de inaugurar uma obra importante para o país, a Ferrovia Norte-Sul —, mas o fato é que a sociedade sabe que o governo de Dilma Rousseff não corresponde às suas demandas. As pesquisas indicam que o brasileiro não está satisfeito com a gestora petista. Na semana passada, uma pesquisa do Pew Research, um dos institutos mais qualificados dos Estados Unidos, mostrou que 72% dos brasileiros não estão satisfeitos com o país. Só 26% afirmaram que estão satisfeitos — um índice baixíssimo. A pesquisa foi feita entre 10 de abril e 30 de abril deste ano, em todo o país. Não se pode, porém, acusar a presidente Dilma Rousseff de perseguição política. Ela tem sido republicana no trato com os governadores de oposição, como o goiano Marconi Perillo, do PSDB. No lugar de republicana talvez seja mais exato usar o termo pragmática. A presidente, até por ser economista, sabe que a economia cresce de maneira integrada, mas, num país continental, às vezes com uma região “puxando” a outra. As áreas nas quais o agronegócio é muito forte, como Goiás, estão crescendo mais do que as regiões onde está ocorrendo desindustrialização. Assim, boicotar Goiás, por mesquinharia política, seria um contrassenso em termos de crescimento econômico. No caso, além de se provar moderna, a presidente deixa evidente que sabe como a economia é conectada. Ela sabe o que é “âncora verde”.

Luzes no Centro-Oeste
Nem tudo são flores em Goiás. Não é em nenhum lugar. Estado com área física de país — maior do que Israel, Portugal e Cuba juntos —, Goiás é um Estado novo e sua infraestrutura ainda está sendo construída. Num mercado jovem, os empresários aos poucos estão constituindo negócios sólidos, resistentes às tempestades circunstanciais. Ao mesmo tempo, empresas de outros Estados e, até, países estão se instalando na região, dinamizando a economia e alocando mais dinheiro e capital nos negócios. O resultado é que Goiás mudou e não pode ser interpretado à luz de picuinhas políticas. [caption id="attachment_6293" align="alignleft" width="620"]Marconi Perillo: o governador de Goiás percebe o Estado como indutor do crescimento e do desenvolvimento. Ele investe em obras de infraestrutura, mas também em programas para reduzir as desigualdades sociais Marconi Perillo: o governador de Goiás percebe o Estado como indutor do crescimento e do desenvolvimento. Ele investe em obras de infraestrutura, mas também em programas para reduzir as desigualdades sociais[/caption] Fala-se muito da longevidade do governador Marconi Perillo no poder — são quase 12 anos, e, se forem computados os anos de Alcides Rodrigues, são quase 16 anos. Aliados falam em sorte e competência. Adversários dizem que ele gasta muito com a mídia — daí a imagem positiva. O uso abusivo da ideologia às vezes cega os contendores políticos. Comecemos pela questão da mídia. Primeiro, em termos proporcionais — considerando tempo, circunstâncias —, praticamente todos os governadores gastaram o mesmo. Segundo, um Estado que precisa atrair investimentos, convocar o país e o mundo para olhá-lo, precisa se divulgar. É inescapável. Quem não se comunica, dizia o Chacrinha, se trumbica e, mais, não é visto, não se torna atraente. Se Goiás fosse um Estado isolado, a Mitsubishi não teria se instalado em Catalão. Instalou-se porque um governo do PMDB, de Maguito Vilela (1995-1998), mostrou as potencialidades do Estado e ofereceu o incentivo fiscal adequado. A Perdigão, agora Brasil Foods, não chegou sozinha ao Sudoeste de Goiás. A Hyundayi poderia ter se instalado em outra unidade da Federação, menos em Goiás, onde havia certa dificuldade para se levar seu produto (automóveis) para outros Estados. O governador Marconi Perillo batalhou, viajou várias vezes, articulou com o empresário Carlos Alberto de Oliveira Andrade (cujas iniciais formam o nome de sua empresa, Caoa) e com os sul-coreanos e a montadora da Hyundai está instalada em Anápolis. A Hyundai é importante por si, porque é um símbolo de que a economia goiana comporta uma multinacional de alta qualidade. Mas também é relevante por outro motivo. Empreendimento de tal dimensão atrai outros negócios de grande, médio e pequeno portes. Ao se instalar em Anápolis, à margem da BR-153, a grande loja Havan, aquela que provoca polêmica por ter como símbolo a estátua da Liberdade, possivelmente levou em consideração o fato de que a Hyundai e laboratórios farmacêuticos, como Pfizer e Neoquímica, estão assentados no município. Criou-se em Goiás uma economia “referencial”. Às vezes fica-se com a impressão de que, em termos de economia, o mercado “corre” sozinho. Não é bem assim. Tanto que, nas crises, o mercado vai atrás do Estado para solucioná-las. Os empresários pensam nos próprios negócios, mas o Estado “pensa” na sociedade — não é mero representante de uma classe social. Em Goiás não é diferente. Se fossem esperar que Goiás se desenvolvesse apenas pela vontade do empresariado local, nacional e internacional, os governantes teriam hoje uma arrecadação irrisória. Felizmente, o Estado teve e tem governantes que pensaram e pensam de maneira mais ampla e cosmopolita. Em 1984, acatando uma ideia do empresário João Alves de Queiroz, dono da Arisco (e hoje principal acionista do grupo Hypermarcas), e do economista Flávio Peixoto, o então governador Iris Rezende criou o incentivo fiscal Fomentar. Foi decisivo. Em seguida, com o governador Marconi Perillo, Goiás deu um salto qualitativo. Às vezes economistas e políticos dizem: “O grande governador é o Produzir”. Não é. O incentivo fiscal por si não basta. É preciso ter vontade e disputar os negócios — nacional e internacionalmente. Empresários costumam dizer que “Marconi não dorme no ponto” e está sempre disposto a conversar sobre negócios que contribuam para o crescimento e para o desenvolvimento do Estado. O tucano-chefe é visto no mercado como um gestor arrojado e que sabe fazer as coisas acontecerem. Não é o Jornal Opção que está dizendo isto. Basta perguntar a respeito ao pessoal da Hyundai, da Mitsubishi, da Suzuki, do laboratório Teuto-Pfizer, da Votorantim, da Brasil Foods. Os empresários são unânimes em dizer que Marconi entende o funcionamento da economia, o que significa, na prática, cadeias produtivas, as conexões negociais. Líderes empresariais locais — como Helenir Queiroz, da Associação Comercial e Industrial de Goiás (Acieg), Pedro Alves de Oliveira, da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), José Evaristo dos Santos, da Federação do Comércio do Estado de Goiás (Fecomércio), Osvaldo Antônio Pagnussat Zilli, da Associação Comercial e Industrial de Aparecida de Goiânia (Aciag), e Luiz Medeiros, da Associação Comercial e Industrial de Anápolis (Acia) — sempre dizem que o governador é “antenado” com as coisas do mundo contemporâneo. Líderes da Sociedade Goiana de Pecuária e Agricultura (SGPA), como Ricardo Yano, e da Federação da Agricultura do Estado de Goiás (Faeg), como José Mário Schreiner, afirmam que se trata de um gestor que modernizou as relações com os empresários e produtores rurais. Todos asseguram que Marconi está sempre presente, com posições firmes e compromissadas, nas demandas do Estado. Na discussão sobre as mudanças nas regras do ICMS — o governo federal articula(va) uma reforma tributária positiva para si e nefanda para os Estados emergentes —, Marconi, sua equipe e os parlamentares de sua base estiveram sempre ao lado do empresariado. Aliás, não só presente, como pressionando e defendendo a economia e empreendimentos de Goiás. Alguns deputados das oposições não perceberam a dimensão do problema, que tem a ver com a vida de todos os goianos, e nada tem a ver com ideologias partidárias. Os empresários por certo perceberam quem defende e quem, na prática, não defende Goiás. Recentemente, empresários chineses estiveram em Goiás examinando terrenos na região do Médio-Norte e do Norte de Goiás. Eles pretendem plantar soja e levá-la in natura para a China. O governo de Goiás pontuou, por intermédio do governador Marconi e de seu secretário da Agricultura, o competente e atento Antônio Flávio de Lima, que é mais adequado industrializar a soja no Estado. Isto se chama agregar valor, contribuir para o crescimento e desenvolvimento local. É uma visão moderna e precisa da economia. Portanto, não é apenas o incentivo fiscal em si que contribui para a expansão da economia goiana. É o indivíduo, no caso Marconi, que faz a diferença. Voltemos, então, à questão da mídia. Um produto ruim pode ter uma mídia excelente, mas não se firma no mercado. Assim é um político. A oposição, se quiser desconstruir o tucano-chefe, deve começar por fazer uma análise verdadeira do que ele é. Uma análise falsa, para fins politiqueiros, acaba por servir de vitamina do crescimento... para o próprio Marconi. Há alguns dias, o governador Marconi inaugurou a iluminação da BR-153 entre Aparecida de Goiânia e o condomínio Aldeia do Vale, em Goiânia. É um longo trecho, no qual ocorrem muitos acidentes, porque a rodovia passa dentro das cidades, cortando vários bairros. O governo federal — como diria um político mexicano, tão próximo de Deus e tão longe dos cidadãos comuns — não moveu uma palha, mas Marconi, atendendo à sociedade, iluminou a rodovia, diga-se, federal. A iluminação da rodovia federal pode ser uma metáfora para sugerir que, em Goiás, as luzes do Iluminismo — que apostava no desenvolvimento global das sociedades, dos homens — estão presentes. Por isso, a sociedade — os empresários são apenas a parte mais visível — diz que Marconi é o gestor que faz e não é burocrata. Admite-se que Marconi é um político profissional, na acepção do sociólogo Max Weber. Ele é político por vocação. Um homem público. Mas não é só isto. Na verdade, tornou-se, não um gerente — palavra às vezes limitadora —, e sim um gestor de visão. No lugar de apenas fazer política, no sentido tradicional — no Brasil costuma-se fazer promessas, sem pensar que é preciso cumpri-las —, Marconi optou por gerir o Estado. O resultado é que, com uma gestão que tem o que mostrar — rodovias recuperadas, escolas reformadas, Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo 2) e centros de recuperação de dependentes químicos (credeqs) em construção, autódromo reformulado (elogiado por pilotos e jornalistas do ramo) —, os ganhos políticos vieram juntos. Se lidera as pesquisas de intenção de voto, isto deve, em larga medida, à sua capacidade administrativa. “Marconi tem o que mostrar” — é o que se diz. Note-se o caso de Anápolis. O prefeito João Gomes é do PT, mas admite que Marconi foi o governador que mais investiu no município. O governador investiu quase 1 bilhão de reais na cidade de Antônio Gomide, o jovem pré-candidato do PT a governador de Goiás. artigo_jose maria e silva.qxd O raciocínio acima pode sugerir que Marconi pensa tão-somente em crescimento econômico. Mas isto não procede. Na verdade, o governador é um apóstolo da ideia de que crescimento sem desenvolvimento não é positivo para a sociedade. Há programa social em Goiás que é compensatório. As pessoas recebem apoio para garantir a sobrevivência diária. Mas há também programas que são inclusivos e que têm porta de saída. É o caso da Bolsa Universitária. Mais de 150 mil estudantes receberam o benefício, desde sua criação. Milhares estão no mercado de trabalho, inteiramente independentes. A Secretaria da Educação de Goiás também premia o mérito e os melhores alunos ganham uma bolsa-poupança. A Secretaria de Ciência e Tecnologia faz um trabalho forte para qualificar os goianos — com a Bolsa Futuro. O economista francês Thomas Piketty, no polêmico “O Capital no Século XXI” — um best seller mundial —, afirma que a desigualdade social está aumentando e não diminuindo no mundo. Se chamado a examinar o caso de Goiás, ainda que seja uma questão aparentemente menor — porque o estudioso, cotado para Prêmio Nobel de Economia deste ano, estuda a desigualdade de renda globalizada —, Piketty certamente dirá que, aqui, há uma ação do Estado para promover o crescimento da economia, mas também uma política de integração social. Marconi, ainda que seja avesso ao debate ideológico, é um gestor e político desenvolvimentista, assim como seu ex-secretário de Planejamento, Giuseppe Vecci. Para Marconi, o Estado deve ser indutor do crescimento, mas também propulsor do desenvolvimento. Por sua larga experiência, o tucano-chefe sabe que, se não houver intervenção do Estado, pode ocorrer crescimento, mas sem desenvolvimento. Por isso, interfere, sem sacrificar o crescimento, para garantir o desenvolvimento. Qual é o segredo de Marconi? Primeiro, uma vontade indômita. Poucos acordam tão cedo e dormem tão tarde... e sempre trabalhando, dialogando com a sociedade. Segundo, o governador consegue arrancar do papel aquilo que os burocratas, assim como certos intelectuais, insistem em deixar lá. Muitas vezes os indivíduos se comprazem com a ideia de que vão fazer alguma coisa para mudar o mundo. Mas o discurso da mudança às vezes apenas esconde o desejo de não mudar. Marconi erigiu um sistema eficiente de cobrança, com uma autoridade inquestionável e inquebrantável, que consegue arrancar as ideias do papel, levá-las à prática e concluir as obras em tempo hábil. Outro detalhe: são obras de ampla utilidade pública — o que não exclui o lazer (como o autódromo e o centro de excelência para prática esportiva). Pode-se dizer que Marconi tem sorte? Sim, tem. Mas sorte sem vontade e capacidade de fazer as coisas não adianta. O jovem tucano acredita em planejamento, em trabalho orgânico, em agregar valores e pessoas. É por isso que, aos poucos, vai construindo o futuro no presente. Exagero? Não. Realidade. Realismo. A oposição só vai decifrá-lo no dia em que avaliar com correção e retidão intelectual os seus méritos. Se não fizer isto, vai continuar perdendo eleições.

Discurso do ódio na internet é perigoso pra todos, não só para esquerda e direita

O ex-atacante da Seleção Brasileira de Futebol Ronaldo Nazário criticou o governo da presidente Dilma Rousseff e provocou uma comoção nas redes sociais. Paulo Coelho entrou no debate e foi atacado. Joaquim Barbosa aposenta-se do Supremo devido a ameaças. O discurso do ódio, que está na moda, deve ser confrontado com a premência de se defender a tolerância

Crise sugere que Iris e Friboi estão desconectados da realidade

A sociedade fica com a impressão de que o PMDB está sem rumo, à deriva e implodindo, e que seus principais líderes vivem num mundo paralelo, distante do mundo real dos eleitores. O tucano Marconi Perillo pode ser o principal beneficiário deste apreço pela irrealidade

Iris e Friboi podem ser os principais eleitores do tucano Marconi Perillo

Iris Rezende está municiando o tucanato com críticas cortantes a Júnior Friboi. Este não pode contra-atacar, pois é refém da popularidade do líder histórico. Como convencer Vanderlan Cardoso e Antônio Gomide a compor se o PMDB não tem um candidato? [caption id="attachment_2101" align="alignleft" width="620"]Iris Rezende e Júnior  do Friboi: os dois peemedebistas não estão guerreando apenas nos bastidores. O primeiro critica a “dinheirama” do segundo. E o grupo deste aponta que o líder histórico está superado e é freguês de Marconi Perillo Iris Rezende e Júnior do Friboi: os dois peemedebistas não estão guerreando apenas nos bastidores. O primeiro critica a “dinheirama” do segundo. E o grupo deste aponta que o líder histórico está superado e é freguês de Marconi Perillo[/caption]  

“Nunca tive um amigo que não pudesse tornar-se um inimigo ou um inimigo que não pudesse tornar-se amigo.” Getúlio Vargas
A pressa do jornalismo diário não permite que se apreenda de maneira precisa ou ampla o que os entrevistados dizem. Na quinta-feira, 15, “O Popular” entrevistou o ex-prefeito de Goiânia Iris Rezende, que pretende ser candidato a governador pelo PMDB. Mas o editor e o repórter, se disseram que o peemedebista quer postular a eleição em 5 de outubro deste ano — óbvio tão ululante que até o “espírito” do dramaturgo Nelson Rodrigues sabe do que se trata —, não perceberam a fala mais decisiva do decano da política goiana: “Acho que, se um dia eu fosse disputar uma eleição marcando passo com alguém com dinheiro, estaria negando tudo que já preguei ao longo da minha vida”. O que Iris disse nas linhas e nas entrelinhas? Não há dúvida de que, embora seja um mestre na manipulação das palavras, para que seja mantida a ambiguidade típica do político, Iris, no caso, é quase explícito. Ele está dizendo, mais do que sugerindo, que, se apoiar o dolarizado Júnior Friboi — o político que supostamente tem entre 250 milhões e 500 milhões para torrar na campanha — para governador, na eleição de 5 de outubro deste ano, estará “negando tudo que” pregou “ao longo da” sua “vida”. É um recado com endereço duplo. Primeiro, para o ambiente interno, que estaria grudado firmemente no “bolso” do empresário. O líder histórico recebeu informações, por certo, de que há pré-candidatos a deputado federal e a deputado estadual que dizem, às claras, que, se Friboi não for candidato a governador, também vão retirar suas postulações. Alega-se que não se trata de nada contra Iris. O que eles querem é a estrutura que Friboi promete proporcionar. Segundo, para o público externo. Iris está dizendo à sociedade que seu partido, o PMDB, não quer deixá-lo disputar, mas que ele quer, sim, ser candidato a governador de Goiás. É um recado direto, sem firulas, para as pesquisas espontâneas de in­tenção de voto. Os luas-bois recomendaram que Friboi e aliados não se manifestem, pelo menos não de maneira agressiva e desrespeitosa, como se fosse um contra-ataque. Friboi não pode atacar Iris, porque, ao fazê-lo, estaria cometendo suicídio político. É muito melhor ter um Iris desmotivado do que ter um Iris como adversário, talvez até inimigo, na campanha. “Iris nunca esquece”, frisa um deputado. Mas pelo menos um deputado e um ex-deputado disseram ao Jornal Opção que estão coçando a língua para responder o que chama de “diatribes” de um político amadurecido que estaria se “comportando como prima donna” e “é o freguês eleitoral preferencial de Marconi”. Friboi e o deputado federal Pedro Chaves (PMDB) sempre pedem calma. Eles acreditam que Iris vai espernear, porém, como não tem mais o controle do partido — que, de fato, foi subjugado (e supostamente é subvencionado) por Friboi —, acabará por ceder, aceitando disputar o Senado. A aliados, aqueles que frequentam seu escritório político, Iris tem dito que não quer e não vai disputar o Senado. Ele não teria mais paciência para ficar o dia inteiro no Congresso Nacional — às vezes debatendo o “sexo dos anjos”. O peemedebista é objetivo e pragmático. É político vocacionado para o Executivo. [caption id="attachment_4536" align="alignleft" width="300"]Marconi Perillo: há uma espécie de céu de brigadeiro para o candidato a governador de Goiás. O líder tucano lidera as pesquisas de intenção de voto e conta com a falta de norte político das oposições. É cedo para dizer, mas o político pode ser eleito no primeiro turno | Foto:  Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção Marconi Perillo: há uma espécie de céu de brigadeiro para o candidato a governador de Goiás. O líder tucano lidera as pesquisas de intenção de voto e conta com a falta de norte político das oposições. É cedo para dizer, mas o político pode ser eleito no primeiro turno | Foto: Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção[/caption] [caption id="attachment_4537" align="alignleft" width="300"]Antônio Gomide e Vanderlan Cardoso: os pré-candidatos do PT e do PSB têm estruturas anódinas, mas podem ser vistos pelos eleitores como alternativas, como fatos “novos” | Foto: Jornal Opção Antônio Gomide e Vanderlan Cardoso: os pré-candidatos do PT e do PSB têm estruturas anódinas, mas podem ser vistos pelos eleitores como alternativas, como fatos “novos” | Foto: Jornal Opção[/caption] Friboi, com a cautela de empresário que está pisando em terreno minado e relativamente desconhecido, o da política, disse que vai ser candidato de qualquer maneira, exceto se perder na convenção. Noutras palavras, está dizendo que não tem qualquer receio de Iris e disputa com o líder histórico — mais de meio século na política — na convenção. Por que disputa? Porque tem certeza, não se sabe se dolarizada — não há, até agora, nenhuma evidência de que o empresário está “comprando” apoio, apesar das insinuações até de peemedebistas —, que vence Iris. Entretanto, embora seja um neófito em política, Friboi nada tem de bobo ou ingênuo. Sabe que derrotar Iris seria uma vitória de Pirro. Mesmo que o encanecido peemedebista decidisse apoiá-lo seria uma ajuda pro forma, desmotivada, sem alma. Os jornais não estão dando publicidade ao fato, pelo menos não de modo explicíto, mas, enquanto Iris e Friboi mandam-se recados, tanto pela imprensa quanto por emissários, os recados que os eleitores estão assimilando podem não ser nada agradáveis, em termos políticos, para os dois contendores. Os eleitores percebem que há uma luta surda para ser candidato, mas ninguém sabe, para além das críticas que fazem ao governo de Marconi Perillo, do PSDB, quais são suas ideias para continuar a modernização de Goiás. O PMDB está trabalhando, do ponto de vista da sociedade, com duas agendas negativas — sem perceber que o eleitor quer conhecer muito mais a sua agenda positiva. A primeira agenda negativa é a briga interna. O que se está dizendo é: Friboi deve ser candidato porque tem dinheiro e Iris não será candidato porque, segundo um deputado do PMDB, tem uma cascavel no bolso em que guarda a carteira. A segunda agenda negativa é falar mal o tempo todo do governo Marconi e, ao mesmo tempo, de Goiás. Fica-se com a impressão de que tudo que se faz em Goiás é ruim — o que certamente choca, para ficar num exemplo, os empresários que investem no Estado porque o consideram progressista e cada vez mais avançado. A agenda positiva, que é a apresentação de propósitos críveis — a sociedade está cansada de diagnósticos empobrecedores sobre segurança pública, educação e saúde —, tem sido esquecida ou negligenciada.
Eu te veto e tu me veta
O que se depreende é que no PMDB há uma luta surda pelo poder, mas não é uma batalha de ideias e não tem como objetivo a melhoria do Estado. É o poder pelo poder. Não se está falando mal, e não haveria por quê, de Iris e Friboi. O que se está dizendo é que a sociedade está observando cuidadosamente o que estão falando um do outro. Aqui e ali, nos bastidores, escapa uma fala de um friboizista que considera Iris como “superado”, “velho”, “alquebrado” e “advogado de apenas dois projetos: o governo para si e um mandato de deputado federal para sua mulher, Iris Araújo”. “No PMDB é assim: é Iris [Rezende] e Iris [Araújo]. O resto é... o resto”, afirma um deputado que não se apresenta como anti-irista. Se Iris veta Friboi para o governo e se Friboi veta Iris para o governo, o que pensar dos dois políticos? O óbvio: os dois peemedebistas não se aprovam. Um, Iris, avalia que o outro, Friboi, não está qualificado para gerir o poder público e que dinheiro não pode tudo. O outro, Friboi, embora não explicite isto em palavras públicas, avalia Iris como “superado”, como “um homem do passado”, uma espécie, como afirma um prefeito, de “bananeira que já deu cacho”. Paradoxalmente, embora desconfiem das qualificações um do outro, Iris aceita Friboi como vice e Friboi aceita (e precisa de) Iris como candidato a senador. O recado subliminar, diria um publicitário ou um psicólogo é: para o governo, nenhum serve. Agora, ante as críticas, e se o eleitor acabar pensando o mesmo? A quatro meses das eleições — apenas 120 dias, com o agravante da Copa do Mundo de Futebol, que vai tornar a disputa ainda mais curta —, embora não esteja morto (o partido é respeitado e forte no Estado), o PMDB está cristalizando a imagem, verdadeira, de que não tem candidato e, sobretudo, de que não consegue lançar e bancar um candidato a governador. Na semana passada, numa nota, um repórter do Jornal Opção criou a seguinte imagem: “Pegue um pires de louça quebrado. Mande um especialista [um restaurador] colá-lo. O pires poderá ser usado, mas as marcas do quebrado — as rachaduras — permanecerão. Indeléveis ou não”. O PMDB não é nada diferente do pires. “Qualquer que seja seu candidato a governador — Iris, o nome da tradição, ou Friboi, o nome da renovação interna [vale ressalvar que o novo nem sempre é renovador] —, o partido irá dividido para o pleito de 5 de outubro deste ano. Unido, o PMDB não vence o grupo de Marconi há quatro eleições, desde 1998 — há praticamente 16 anos. Dividido, o PMDB terá imensa dificuldade de disputar de igual para igual com uma político habilidoso, metódico e que pesquisa exaustivamente os humores da sociedade. O presidente dos Estados Unidos que aboliu a escravatura e uniu à força o Sul ao Norte, Abraham Lincoln, disse, num discurso célebre: “Uma casa dividida contra si mesma não pode subsistir” (leia em http://bit.ly/1mAM0II). Fica-se com a impressão que, numa espécie de masoquismo involuntário ou inconsciente, o PMDB aprendeu a gostar de apanhar do PSDB do governador Marconi. Digamos que Friboi seja o candidato a governador do PMDB. Na sua campanha, ao ser criticado pelo empresário, o tucano-chefe não precisará fazer muito esforço para se defender. Basta colher os depoimentos que Iris vem dando à imprensa. Algumas críticas podem ser veladas, mas outras nem tanto. O líder histórico está dizendo, às vezes apenas sugerindo, que Friboi, se for o candidato do PMDB, não o será por mérito, e sim pelo poder de convencimento do dinheiro. “Follow the money” (“siga o dinheiro”) — Iris poderá dizer, se lembrar do caso Watergate, que derrubou o presidente americano Richard Nixon. O Ministério Público, a partir de certo momento, certamente seguirá o “rastro do dinheiro”. Um grupo do PMDB, irista, sugere que a chapa ideal para enfrentar e tentar derrotar Marconi inclui Iris para o governo, Friboi (ou Vanderlan) para vice e Gomide para senador (o PT está investindo na “política de senadores”). Jorcelino Braga tem sido convocado ao escritório de Iris Rezende e, como emissário, tem levado a proposta para Vanderlan: o peemedebista quer compor. O pré-candidato do PT, Antônio Gomide, também tem recebido recados, por meio de aliados do prefeito de Goiânia, Paulo Garcia (PT), de que Iris quer compor. Mas como compor com um partido que, a 120 dias das eleições, nem mesmo consegue definir o seu candidato e, numa briga interna feroz, “suja” seus dois principais nomes? Vanderlan e Gomide ouvem os convites para uma aliança, mas, quando abrem os jornais, descobrem a realidade: o PMDB, se briga bem internamente, não tem candidato a governador. Tem-se a impressão de que, na falta de dinheiro, Iris está tentando usar Vanderlan e Gomide como trunfos para forçar Friboi a desistir de ser candidato, mas desconsiderando que os dois políticos têm projetos diferentes. Por que deveriam abrir espaço para Iris? Gomide, mesmo se perder, está jogando para o futuro, para o pós-Marconi — em 2018. Vanderlan, como candidato a governador, possibilita um palanque eleitoral para o candidato a presidente do PSB, Eduardo Campos, em Goiás. Sem contar que, ante a disputa de duas forças tradicionais, PMDB e PSDB, pode ser que, conforme os humores das ruas, um candidato “novo”, mesmo subestimado, inclusive pela imprensa, possa surpreender e ser eleito. Marconi “olha” para a política de Goiás e comemora: o céu de brigadeiro sorri para o jovem líder. As oposições, caóticas e com interesses divergentes, podem contribuir para que o tucano-chefe seja eleito pela quarta vez. Mas é preciso dizer que Marconi, se reeleito, não o será apenas devido aos equívocos dos adversários. Ele, como gestor e político, tem méritos. Enquanto na maioria dos Estados, como no Rio Grande do Sul do petista Tarso Genro, impera o caos, em Goiás, mesmo com dificuldades, o governo está com suas contas relativamente organizadas. Não só. O governo inaugurou e vai inaugurar obras relevantes. Se a oposição continuar insistindo na tese do caos absoluto, e como o caos não é visível para as pessoas, a maioria do eleitorado vai apostar mais no que está vendo, de concreto, no que em discursos.