Eleitores podem trocar o ‘novo’ pelo ‘gestor’ na disputa de 2014

Qual é o problema da presidente Dilma Rousseff? O eleitorado não a percebe como gestora. Em Goiás, pelo contrário, os quatro principais candidatos são assimilados como gestores

Marconi Perillo e Iris Rezende: o tucano e o peemedebista, se o jogo for convencional, devem ser os principais atacantes da disputa eleitoral deste ano. Eles tendem a polarizar

Marconi Perillo e Iris Rezende: o tucano e o peemedebista, se o jogo for convencional, devem ser os principais atacantes da disputa eleitoral deste ano. Eles tendem a polarizar

Pesquisas apontam que os brasileiros não consideram a presidente Dilma Rousseff, do PT, como desonesta. Pelo contrário, é vista como um política, até não-política, que não admite corrupção, apesar de a máquina pública ser prima-irmã dos “malfeitos”. Se é assim, o que está “pegando”, como diz a gíria? James Carville, marqueteiro do ex-presidente americano Bill Clinton, diria: “É a economia, estúpido!” De fato, o Brasil não está crescendo e os brasileiros, cada vez mais endividados, estão desesperançados, como mostrou uma pesquisa recente. Entretanto, há outra questão — nem sempre apresentada com a devida ênfase. Dilma Rousseff não é vista pela sociedade como gestora, ou melhor, como gestora eficiente. Resulta, pois, que, além de ter dificuldade para operar politicamente — daí a presença constante de Lula da Silva como eminência parda ou “ponte” —, a presidente não opera a máquina pública com eficiência. Ainda assim, continua em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto.

Primeiro, porque é mais conhecida do que seus adversários, Aécio Neves, do PSDB, e Eduardo Campos, do PSB, na disputa pela Presidência da República. Sua liderança tem a ver, possivelmente, com conhecimento. Em países continentais são raros os políticos que se tornam de fato nacionais. A presidente, pelo cargo, é um rosto visível com frequência em todo o país, quase sempre imposto pela onipresença das redes e emissoras de televisão e pela internet.

Segundo, em seus Estados, Minas Gerais e Pernambuco, Aécio Neves e Eduardo Campos têm a imagem de gestores competentes. Aos poucos, tornando-se (mais) conhecidos dos eleitores, com suas experiências sendo exibidas de modo mais amplo, é possível que se aproximem cada vez mais da petista — que, no lugar de pelo menos estabilizar-se, está caindo, tanto que o Lulopetismo clama pela volta do dom Sebastião de Garanhuns.

Aécio Neves e Eduardo Campos, se conseguirem se tornar conhecidos como gestores que podem levar o país a um novo patamar de crescimento e, portanto, gerar novas e verdadeiras esperanças, podem superar Dilma Rousseff. Um deles, é claro. O primeiro, por contar com a estrutura do PSDB e representar um Estado mais substancial política e economicamente, tende a se cristalizar como o “antagonista” da petista-chefa. É possível que aquele que se tornar conhecido como “o gestor” chegue ao segundo turno praticamente empatado — ou até mesmo em primeiro lugar — com a presidente.

No plano nacional, pode-se dizer que os três principais candidatos, Dilma Rousseff, Aécio Neves e Eduardo Campos, embora estejam na política há algum tempo, ainda representam o “novo”. Porém, ao menos nestas eleições, o eleitor demonstra mais interesse na figura do “gestor” do que na figura do “novo”. Entretanto, se a presidente fraqueja como gestora, o tucano e o socialista ainda não são percebidos como gestores pelo País. Dife­rentemente de Dilma Rousseff — um ente a ser definido com mais precisão —, são vistos como políticos, muito embora sejam, de fato, gestores qualificados.

Iris Rezende

O quadro político de Goiás guarda ligeiras diferenças do quadro nacional, e um dado é relevante: os quatro principais candidatos — o governador Marconi Perillo (PSDB), Iris Rezende (PMDB), Vanderlan Cardoso (PSB) e Antônio Gomide (PT) — são percebidos como gestores eficientes. Qualquer um deles que for eleito certamente saberá como governar Goiás.

Com quase 81 anos, Iris é um gestor experimentado e deve ser visto como um modernizador. Trata-se de um homem público com história respeitável. Mas talvez seja possível detectar três questões que sugerem que Iris é um político cada vez mais do passado do que do presente.
Primeiro, fica-se com a impressão de que quer ser governador para “vingar-se” de Marconi, o que demonstra uma visão rancorosa da vida em sociedade, e não para gerir e modernizar Goiás ainda mais. Assim, trata-se de um passo atrás — não adiante.

Segundo, o modo como retirou Júnior Friboi do páreo, comportando-se como um coronel político, daqueles que não abrem espaço para ninguém, indica que, se é um modernizador administrativo, não se modernizou como indivíduo e político.

Terceiro, o peemedebista — insistamos, um homem sério, vocacionado para o poder —, quando instado a falar à sociedade goiana, uma sociedade cada vez mais globalizada, quase sempre fala do passado, e notadamente de um passado cada vez mais remoto para a maioria dos goianos. O passado é importante — o brilhante escritor americano William Faulkner escreveu que o passado não está morto e nem mesmo é passado —, mas um gestor precisa ser inteiramente contemporâneo das pessoas de seu tempo. Iris parece “dialogar” como o homem da década de 1960 ou, no máximo, com o homem da década de 1980, quando se elegeu governador de Goiás pela primeira vez.

As três derrotas do peemedebista — duas para o governo e uma para o Senado — resultam, provavelmente, de sua incompreensão da modernização acelerada de Goiás. É bem possível que o goiano atual e Iris não se compreendem. Falta aquela sintonia — fina — entre ambos. O problema do líder histórico não é sua idade, e sim sua mentalidade. A maneira como torpedeou Júnior Friboi sugere que não aceita nenhuma renovação no PMDB. Aceitaria no governo?

Vanderlan Cardoso

Vanderlan Cardoso e Antônio Gomide: o socialista e o petista seguem no pelotão de trás, mas são gestores competentes

Vanderlan Cardoso e Antônio Gomide: o socialista e o petista seguem no pelotão de trás, mas são gestores competentes

Vanderlan é um político sério e um gestor eficiente. Em Senador Canedo, sua meca, tornou-se um mito, dividindo a história do município entre a. V. e d. V. — antes e depois de Vanderlan. Mas Senador Canedo, um município pequeno — com uma arrecadação fabulosa, e aí reside um dos segredos do sucesso do líder do PSB —, não deve ser vista como Paságarda por aquele que, se eleito, irá governar um Estado maior do que Portugal, Israel e Cuba juntos. Quando Vanderlan abre a boca fica-se com a impressão de que é candidato a prefeito de Senador Canedo e não a governador de Goiás. No programa político na televisão, exibido recentemente, o socialista deixou patente que sabe fazer diagnósticos — embora a crítica politizada não permita que perceba o que se faz de positivo para os goianos —, mas não é hábil na apresentação de uma agenda propositiva. É possível que avalie que, como há vários candidatos, deve ganhar aquele que “imprecar” mais contra o governador Marconi.

Ao contrário do que diz, Vanderlan não representa mais o novo, depois de ter sido prefeito de Senador Canedo duas vezes, candidato a governador uma vez — ficou em terceiro lugar — e de ter trocado de partido três vezes (PR, PMDB, PSB). Talvez seja possível uma ressalva: embora não seja mais o novo, o líder do PSB também não pode ser enquadrado como “velho”. Porém, em termos de ideias, pelo menos até agora, não parece um contemporâneo dos goianos atuais. Pode parecer, talvez seja, preconceito, mas ele tem maneiras ruralizantes-retardatárias. Falta-lhe, quem sabe, uma visão mais global do mundo, do País e de seu Estado. Mas, repita-se, é gestor — e eficiente.

Antônio Gomide

O ex-prefeito de Anápolis Antônio Gomide é um fenômeno a ser examinado com atenção. Porque, além de sua capacidade de gerir — vale ressaltar que Anápolis, segunda cidade mais relevante de Goiás, não é uma segunda Senador Canedo —, é o pré-candidato a governador que mais se aproxima da ideia do “novo”. A rigor, dado o tempo que está na política — porque política não deve ser considerada tão-somente como o exercício de cargos executivos —, não deveria ser considerado como “novo”. Porém, como nunca participou de uma eleição para o governo, ao contrário de Vanderlan, Iris e Marconi, é, de fato, o que há de mais novo. Porém, governar um Estado não é o mesmo que administrar uma cidade, ainda que de médio porte. Como Iris e Marconi, parece mais vocacionado para o poder do que, por exemplo, Vanderlan — que é um empresário que, por acaso, está na política.

Por falta de estrutura política — o PT tem poucos prefeitos e líderes influentes no interior — e, sobretudo, falta de recursos, Gomide terá dificuldade de romper a polarização PSDB-Marconi versus PMDB-Iris Rezende. Se romper, tende a substituir Iris e enfrentar Marconi no segundo turno. Difícil, muito difícil, mas não impossível, especialmente se, no meio do caminho, a campanha de Iris desidratar-se e se Vanderlan não consolidar-se como segunda via.

Marconi Perillo

Governador de Goiás pela terceira vez, Marconi parece não ter envelhecido no poder. Seu terceiro mandato, em termos de infraestrutura, talvez seja o mais produtivo. No campo social, criou programas mais inclusivos, com o objetivo não de “compensar” o indivíduo, e sim de integrá-lo ao mercado e, consequentemente, à sociedade.

Nos dois primeiros mandatos, o tucano era mais conhecido como político do que como gestor. No terceiro, depois de certo desgaste em sua imagem, transformou-se mais em gestor e, aos poucos, está revitalizando o político.

É possível que a principal qualidade de Marconi seja ser contemporâneo dos goianos. Ele fala às pessoas do presente, mostra-se atento às suas demandas, articula parcerias com a sociedade e por isso é visto como “agregador”. É um indivíduo envolvido com o seu tempo, deslocando-se no espaço, Goiás, com rara desenvoltura. A oposição até agora não conseguiu decifrá-lo, optando não pela dialética do esclarecimento, e sim pela ilusão de que se trata de um produto gerado pela propaganda.

Quanto à eleição o que se deve dizer é simples e direto: é decidida na campanha. Ninguém ganha eleição por antecipação. Recomenda-se ao candidatos, todos eles, que esqueçam o salto Luis XVI em casa e calcem sapato de salto baixinho. A soberba nunca deu “poder” a ninguém.

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