Celg deve ser só a menor parte de um plano sério para a questão energética em Goiás

Venda de Cachoeira e crise da empresa à parte, é hora de os candidatos ao governo e suas chapas optarem por deixar as futricas do passado e discutirem profundamente a questão da energia elétrica no Estado

Usina de Cachoeira Dourada: venda da “galinha dos ovos de ouro” foi decisiva para Celg sofrer as dificuldades atuais | Foto: Cedoc/Jornal Opção

Usina de Cachoeira Dourada: venda da “galinha dos ovos de ouro” foi decisiva para Celg sofrer as dificuldades atuais | Foto: Cedoc/Jornal Opção

Um dos principais focos da campanha eleitoral que se inicia em Goiás tende a ser o imbróglio da crise da Celg. Não há qualquer dúvida de que o assunto será levantado pela oposição ao governo de Marconi Perillo (PSDB), que comandou a gestão da estatal por mais de 11 anos dos últimos 16 (de 1999 a março de 2006 e de 2011 até o presente momento). Que a estatal estará na berlinda eleitoral, já se sabe. Resta saber como.

Todos os governos que desde a criação da empresa, em 1955, tiveram em suas mãos sua administração poderiam ter feito mais do que efetivamente fizeram. Afinal, geriram uma instituição de altíssimo potencial, voltada para um mercado que sempre esteve, está e deverá estar em crescimento. Ter o monopólio de praticamente toda a distribuição de energia elétrica de um Estado do porte de Goiás deveria ser o sonho de qualquer empresário. Uma oportunidade de ganhar dinheiro por gerações e gerações.

Iris Rezende e Maguito Vilela, ex-governadores peemedebistas:  um vendeu Corumbá 1 e o outro negociou Cachoeira Dourada | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Iris Rezende e Maguito Vilela, ex-governadores peemedebistas:
um vendeu Corumbá 1 e o outro negociou Cachoeira Dourada | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Como se não bastasse a oportunidade de ser de uma gigante hegemônica em seu território, com dividendos garantidos, a Celg tinha como sua aliada outro patrimônio do Estado, a usina de Cachoeira Dourada. A posição de Goiás era como a de quem tinha petróleo à vontade no solo e podia sorver da cadeia completa de produção, até despejar o produto no tanque do consumidor. Era isso até 5 de setembro de 1997, data em que, por meio de leilão público e pela ninharia de R$ 820 milhões, durante o governo estadual sob a tutela de Ma­guito Vilela (PMDB), a usina foi arrematada pelo grupo Endesa, com sede na Espanha e hoje a maior multinacional privada do setor elétrico na América Latina.

Cachoeira Dourada era uma verdadeira galinha dos ovos de ouro — aliás, uma metáfora que analistas e políticos já fizeram exaustivamente. Sua venda trouxe um dano irreparável. Se todo goiano parasse para pensar no prejuízo que ele próprio sofreria acaso alguém cometesse a insanidade de vender a galinha em forma de usina, a população teria motivos suficientes e justos para promover uma revolta e impedir o negócio. Mas, não: à época, era moda privatizar. A onda começou de cima, pelo governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que, fazendo uma avaliação com os olhos de hoje, cometeu erros também, como a venda da Companhia Vale do Rio Doce.

Porém, nenhuma das privatizações da era FHC conseguiu, nem de perto, ser proporcionalmente tão negativa quando a da usina de Cachoeira Dourada foi para Goiás. É algo de que qualquer governante deveria se lamentar pelo resto da vida pública — e privada, para usar um trocadilho apropriado, embora talvez infame, aproveitando o tema.

Todos os que se sentaram na cadeira do Palácio das Esme­ral­das, portanto, têm uma parcela de responsabilidade pelo fato de a Celg hoje ser a âncora e não o motor do desenvolvimento de Goiás. Maior ou menor, mas têm. E, pelo ajuntado histórico de tudo isso, talvez não seja uma estratégia adequada ao PMDB aproveitar-se do estado atual de penúria da empresa e focar o tema por esse viés. Pode querer bater e acabar por apanhar mais do que supunha, simplesmente porque a caixa preta da retrospectiva conduzirá ao ponto focal: tudo seria diferente se Cachoeira Dourada ainda fosse patrimônio público. E quem entregou a usina de bandeja foi um governo peemedebista. Em tempo, com Iris Rezende em seu primeiro governo, o partido vendeu também outro patrimônio hidrelétrico do Estado — o complexo de Corumbá 1, em 1984.

Se os candidatos e seus coordenadores de campanha forem inteligentes — e aqui não importa se se está na situação ou na oposição —, optarão por avançar mais profundamente na discussão da crise elétrica por que passa o País, necessariamente colocando em realce a estrutura, os desafios e as possibilidades de Goiás. A atual situação é grave e inconcebível: ocupando um território continental, tendo à disposição e à vontade recursos de diferentes matrizes — hídrica, solar, eólica, biomassa etc. —, o Brasil esteve, este ano, à beira de um novo apagão, como o que ocorreu entre os anos de 2001 e 2002.

A insuficiência de energia também emperra o crescimento — e os goianos, órfãos da Celg, sabem bem disso. Se uma indústria quer instalar uma nova unidade em algum dos países emergentes que forma a sigla Brics (Brasil, Rússia, Ín­dia, China e África do Sul), vai pe­sar todas as condições antes de ba­ter o martelo. Entre as prioridades nos itens para a seleção, sempre, são as questões que en­volvem o abastecimento de energia elétrica — disponibilidade, custo, acessibilidade, entre outros.

Ocorre que, entre os cinco países em destaque, o Brasil é disparadamente o que cobra a mais alta tarifa pelo fornecimento de eletricidade. Dados da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) de acordo com relatórios da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e da Agência Internacional de Energia (AIE) referentes a de 2011 — quando a situação talvez fosse até menos ruim do que a atual — revelam que a tarifa média no Brasil era de R$ 329 por MWh, enquanto que na Rússia, por exemplo ela estava a um valor que equivalia a R$ 91,5 por MWh. Ponto para os russos — e para chineses, indianos e sul-africanos, todos com preços de e­nergia bem mais “em conta” para atrair grandes empreendimentos.

Mesmo com a economia na­cional em um cenário desfavorável e sem tendência a melhoria, Goiás tem conseguido crescer quatro vezes mais do que a média do País. Dessa forma, é de se imaginar o quanto não poderia ter sido maior esse salto acaso tivéssemos contado com a salvaguarda essencial de energia elétrica. Mas não: esse crescimento deu-se “apesar” da crise do setor energético, que levou a vários empreendimentos instalarem alternativas para driblar a deficiência — e haja implantação de grupos geradores, impactando alta e negativamente no preço final da produção.

Nosso Estado, puxando a econo­mia do Centro-Oeste, é a bola da vez do País. Estando no coração do território brasileiro, seria a hora de aproveitar a boa onda. Terras agricultáveis, bom clima, rodovias agora em condições satisfatórias, Ferrovia Norte-Sul inaugurada, porto seco, aeroporto de cargas em breve. Então, o que falta? Abun­dância de energia elétrica.

É hora de, muito além das futricas de eleição, os candidatos ao governo apresentarem propostas factíveis e animadoras sobre como desenvolver da melhor forma a promissora economia goiana. E isso passa, sem dúvida, pela revitalização da Celg e pela prioridade à otimização dos recursos energéticos para todos no Estado.

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