Condenado do caso mensalão derruba ministro do governo de Dilma Rousseff

O ex-deputado federal Valdemar Costa Neto, de dentro do presídio da Papuda, em Brasília, força a presidente Dilma Rousseff a tirar César Borges do Ministério dos Transportes

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No prefácio do excelente “Pen­sando o Século XX” (Objetiva, 431 páginas, tradução de Ota­cílio Nunes), do historiador e pensador inglês Tony Judt, o historiador britânico Timothy Snyder escreve: “A verdade da autenticidade é diferente da verdade da honestidade. Ser autêntico é viver como se deseja que os outros vivam; ser honesto é admitir que isso é impossível”. Outro autor, menos conhecido, sugeriu: “Quer pureza? Não vá ao convento”. O filósofo não quis evidentemente manchar o bom nome dos conventos, mas apenas indicar que não há pureza em lugar algum e que há problemas em todos os lugares. O filósofo Isaiah Berlin disse que é preciso examinar as pessoas como elas são, e não como deveriam ser, e que não há paraíso possível. As utopias, quando postas em prática, acabam se tornando ditaduras ferozes — casos do fascismo (que, sim, era um tipo de utopia) e do socialismo (talvez a utopia que, como realidade, se tornou a mais sanguinária da história).

As utopias, às vezes longe de serem progressistas e humanistas, quase sempre são conservadoras, reacionárias e, eventualmente, brutais. Algumas utopias são belas tão-somente no papel, ou seja, quando não se tornam realidade.

Entretanto, se os homens devem ser examinados como são — porque não há outros homens, a não ser os de seu tempo —, não se deve aceitar todos os comportamentos como típicos de uma sociedade civilizada e democrática. Certo que os limites ao excesso na sociedade democrática são as leis e as instituições. Mas a questão moral, e não se está falando de moralismo, deve ser levada em consideração. As noções de certo e errado, embora pareçam maniqueísmo, precisam ser postas no debate. Sabe-se que criminosos de alta periculosidade comandam o narcotráfico a partir de presídios. Mas o que não se sabia, ao menos até a semana passada, é que um presidiário, que está na Papuda em Brasília, poderia nomear um ministro. Pois agora se sabe que isto é possível. Valdemar Costa Neto, cumprindo pena na capital construída por Juscelino Kubitschek, Lucio Costa e Oscar Niemeyer, derrubou o ministro dos Transportes, César Borges, pelo qual a presidente Dilma Rousseff tem apreço, e indicou Paulo César Passos. Mesmo não sendo mais deputado federal e presidente do PR, Costa Neto, espécie de conde do mensalão, mantém o controle do partido — daí a pressão bem-sucedida. Para não criar arestas incontornáveis, a presidente acomodou César Borges, também filiado ao PR, na Secretaria dos Portos.

Questionada sobre as alianças pouco católicas, Dilma Rousseff exibiu uma filosofia de matiz lutopetista: “A vida é muito mais complexa do que parece”. A presidente pode ter razão, mas é preciso todo e qualquer fisiologismo, até aceitar pressões de um presidiário, devido a 1 minuto na propaganda eleitoral na televisão e no rádio? É o que o PR tem a oferecer à campanha da petista-chefe. Porém, dada a complexidade da vida — ao fato de que a realidade é o que é, diria Maquiavel e Hobbes, não o que se fantasia a respeito —, o eleitor certamente vai perguntar: quando se sacrifica princípios, tendo em vista a questão eleitoral, é preciso pelo menos levar em consideração a existência de projetos de desenvolvimento para o país? O que, em termos de projetos de crescimento e desenvolvimento, agregam o PT de Dilma Rousseff — esta, sim, uma política de rara integridade moral e, ao contrário do que o tucanato apregoa, competente — e o PR do condenado Costa Neto? Em termos de grandeza, não há nenhuma confluência. Só miudezas. O PT aderiu à tese de que o único pecado em política é perder eleição. Tornou-se um partido que, em termos morais, de virtude, se iguala à maioria, quiçá a todos.

O PTB faz jogo duplo. A cúpula aderiu à candidatura presidencial de Aécio Neves, do PSDB, mas parte do partido, sobretudo deputados federais, prefere ficar com Dilma Rousseff, ou melhor, com o governo. O PP também faz o tradicional e eficiente jogo duplo. A presidente leva a cúpula, porém com vários líderes do partido acompanhando Aécio Neves. O vice-governador de Goiás, José Eliton, vai subir no palanque do tucano mineiro. Assim como outros. Há, portanto, as questões regionais, às vezes incontornáveis, mas há o jogo tático-estratégico de jogar com os dois candidatos mais fortes. Assim, se Dilma Rousseff for reeleita, PTB, PSD (dirigido pela enguia Gilberto Kassab, espécie de Jânio Quadros sem caspas e com português menos enviesado) e PP continuarão no governo, com ligeiras acomodações. Se Aécio Neves for o eleito, as acomodações estão, antecipadamente, feitas.

Alguns partidos, como PMDB, PR, PTB e PP (o velho PDS com nome reciclado), nunca saem do poder e, a rigor, nunca fazem oposição. O governismo (ou governite) é uma espécie de doença dos partidos patropis.

Dilma Rousseff critica o que chama de “conveniência”, sugerindo que a política deve ser feita com base em “convicções”. Aqui, ao menos, a presidente não está tratando do que é, e sim do que deveria ser. Quando o governo vai às compras, com seus vários instrumentos, há sempre alguém vendendo algum “produto” no hipermercado chamado “Política”.

Mas não se pode mencionar Dilma Rousseff, apontando apenas o fisiologismo do situacionismo, e ignorar as palavras de Aécio Neves. Ao sugerir que a presidente está sendo abandonada e que mesmo alguns políticos que dizem estar ao seu lado se bandearão num futuro próximo, o tucano-chefe de Minas põe uma pedra pouco ética no caminho. “Tem muito mais gente que já desembarcou e o governo ainda não percebeu. Porque vão sugar mais um pouquinho do governo até o final. Eu digo a eles: ‘Façam isso mesmo. Suguem o que puderem e venham para nós’”, disse Aécio Neves.

Noutras palavras, o fisiologismo dos que estão sugando não importa, especialmente se, depois de sugarem, trocarem de lado, transferindo apoio da presidente mineira para o senador mineiro. Aécio Neves mostra habilidade política, costurando “altas” alianças, mas revela que concorda com as ações fisiológicas de seus “aliados”. Ao dizer isto, e falando com sinceridade, o presidenciável tucano demonstra, mais uma vez, sensibilidade política — no sentido tradicional — e falta de sintonia com os cidadãos que saíram às ruas há pouco tempo para criticar os desmandos gerais dos políticos-governantes brasileiros, sejam tucanos, petistas ou socialistas.

Ronaldo Caiado e Isaura Lemos

Pense na seguinte imagem: Iris Rezende, do PMDB, discursa no seu palanque de candidato a governador de Goiás, tendo à direita o deputado federal Ronaldo Caiado, do liberal DEM, e à esquerda a deputada estadual Isaura Lemos, do Partido Comunista do Brasil. Digamos que, nos seus discursos, Caiado faça críticas cerradas ao Movimento dos Traba­lhadores Sem-Terra e Isaura faça uma defesa sem quartel do MST. O que o eleitor dirá desta salada ideológica? Que não cheira bem?

Pós-escrito

Tony Judt, no livro citado no primeiro parágrafo, faz uma crítica cerrada à jogatina comandada por governos — como no Brasil faz a Caixa Econômica Federal, que tem mais de 10 formas de jogos, como a Mega-Sena e Lotofácil. O historiador diz que é uma forma de o governo arrancar dinheiro da sociedade, notadamente dos pobres e da classe média baixa, para financiar projetos nos quais não quer gastar recursos dos tributos. Na prática, as loterias se tornaram uma espécie de “tributação” indireta e consentida… l

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