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O silêncio dourado do Jair

A última sexta-feira, dia 11, começou em polvorosa. A Polícia Federal bateu ponto logo cedo no cumprimento de mandados de busca e apreensão contra pessoas do círculo íntimo do ex-presidente Jair Bolsonaro. Entre eles o general Mauro Lorena Cid, ex-colega de Bolsonaro na turma de cadetes da Academia Militar de Agulhas Negras e pai de Mauro Cid (ex-ajudante de ordens de Jair); Frederick Wassef, advogado da família Bolsonaro, e Osmar Crivelatti, que também atuava como ajudante de ordens do ex-presidente.  

O nome da operação, Lucas 12:2, faz jus ao objetivo dela. Trata-se de uma passagem bíblica que diz o seguinte: “Mas nada há encoberto que não haja de ser descoberto; nem oculto, que não haja de ser sabido”. Dito e feito. Afinal, a exposição escancarada de um intrínseco esquema de venda de valiosos presentes – entre joias e esculturas - dados por nações estrangeiras ao Estado brasileiro pegou o Exército, o Parlamento e toda a população brasileira de calças arriadas. 

Porém, quase três dias depois da operação ser deflagrada, Jair, que é sempre tão falante, um usuário tão assíduo das redes sociais, não disse uma sílaba sequer sobre a ação policial aos seus fiéis seguidores. 

Mas afinal, o que há de se dizer? O que há de dizer quando uma mensagem trocada entre assessores do ex-presidente e interceptada pela polícia afirma, em tom de confabulação, que a ex-primeira-dama "sumiu" com um pacote de itens preciosos?

Como se referir ao fato confirmado na investigação de que um dos objetos vendidos, um relógio Rolex dado a Bolsonaro pelo rei da Arábia Saudita em visita oficial do ex-mandatário ao País em 2019, foi referido por Cid como "item nunca usado" em um e-mail enviado a um interessado no objeto? 

Como explicar que a PF verificou que os valores obtidos nas vendas estilo “No precinho, pra levar agora” foram convertidos em dinheiro em espécie e entraram no patrimônio pessoal do ex-presidente, por meio de laranjas e sem uso do sistema bancário formal, fato que levou o órgão a pedir a quebra do sigilo bancário de Bolsonaro e sua esposa? 

Existe um embaraço, um quase palpável desconcerto no ar. Talvez, não por haver fatos escandalosos vindos à tona – tal qual profetizado pela passagem bíblica que dá nome à operação da PF -, já que a gestão do ex-presidente foi marcada por denúncias gritantes que vão desde desmonte da PF até atraso proposital na negociação de aquisição de vacinas contra Covid. Mas, sim, pelo teor mesquinho, baixo, vexatório do cenário verificado na investigação policial: o de que o ex-presidente da República transformou o Planalto em uma barraquinha de camelô de metais preciosos. 

Diante do quadro que se desenha, a mudez de Bolsonaro é compreensível. Levando em conta o quanto ele pode comprometer ainda mais seus aliados e comprometer a si mesmo, o silêncio de Jair é mais valioso que os kits de joias Chopard e as esculturas douradas que deveriam estar no acervo da União, mas que acabaram negociadas e vendidas por seus amigos. 

Silence is gold, fellas. 

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A bibliofobia de Tarcísio de Freitas 

A partir de 2024, as escolas públicas de São Paulo passarão a ser escolas sem... livros. O novo cenário distópico será fruto da decisão da gestão Tarcísio de Freitas, que determinou que, a partir do ano que vem, a rede de educação paulista tenha apenas conteúdo didático digital a partir do 6º ano do fundamental. 

É claro que Tarcísio está se espelhando em países de primeiro mundo. Bem, na verdade não. A Suécia, um dos países com os melhores resultados educacionais do mundo, por exemplo, decidiu se embasar em pesquisas científicas (algo que parece fugir ao conhecimento do atual governador de SP) para abrir mão do conteúdo digitalizado - que vinha sendo adotado nos últimos anos - para retomar os livros físicos. Conforme a própria ministra das escolas da Suécia, Lotta Edholm, em artigo publicado no final do ano passado, o povo sueco "colecionou conclusões de prejuízos” com a substituição dos livros físicos por material de tela. 

De acordo com estudos apresentados pela Agência Nacional Sueca de Educação, com a leitura digital o leitor passa menos tempo apenas lendo. Os alunos, conforme o estudo, 'folheiam' o texto mais rapidamente em detrimento da compreensão do que leem. Isso foi levado em conta para que o governo sueco percebesse que o tempo de tela de crianças e jovens – que disparou mais de 50% desde 2020, de acordo com pesquisa do Hospital Infantil de Alberta (Canadá) e as Universidades de Calgary (Canadá) e College Dublin (Irlanda) - era justamente o problema, e não a solução, no quesito educacional.  

E é válido destacar que essa não é a primeira decisão de Tarcísio a levantar um estandarte contra o legado do ensino. Em maio deste ano, foi necessária a intervenção da Justiça de São Paulo para evitar que a estação de metrô que leva o nome de um dos educadores mais reconhecidos e citados em trabalhos acadêmicos do mundo, Paulo Freire, fosse rebatizado como Estação Fernão Dias. 

Aparentemente, para Tarcísio, um educador que, com sua metodologia, conseguiu a proeza de alfabetizar 300 adultos no prazo de 45 dias na pequena Angicos, no Rio Grande do Norte, era menos digno de homenagem do que um notório escravagista e caçador de esmeraldas. 

Correndo o risco de os paulistas cheguem a uma situação que se assemelhe a um certo livro de Ray Bradbury, alguém ajude Tarcísio a superar seu trauma com livros.  

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