Nesta semana, o presidente Lula da Silva (PT) se submeterá a uma artroplastia – a cirurgia para implantação de uma prótese no quadril e fêmur. A operação é simples e tem alta taxa de sucesso alta, mas exigirá que o presidente fique longe do Palácio do Planalto por semanas. Mesmo após o período de três a seis semanas de licença, Lula deve passar a despachar no Palácio da Alvorada para evitar a locomoção até o gabinete presidencial. 

Na imprensa, se especulou que o deslocamento do centro do poder para a casa presidencial dará ainda mais poderes informais à primeira-dama, Janja. Em parte, o temor de que Janja assuma a presidência é boato de redes sociais, mas é um boato inflado manchetes como a da Folha de S.Paulo: “Lula adia viagem de ministros e indica que Janja pode substituí-lo em eventos após cirurgia”, publicada no dia 26.

Na matéria da Folha, a “indicação” de substituição foi o fato de que Lula adiou viagem com ministros para que pudesse ser acompanhado pela primeira dama. A evidência é insuficiente para sugerir que qualquer função oficial esteja sendo executada por Janja, mas, nas redes sociais, onde o clima é de eterna campanha eleitoral, o estrago foi feito. Do ponto de vista político, a institucionalidade do cargo exige mais de lula, e menos de Janja.

Dias atrás, a primeira-dama surgiu na Assembleia Geral da Onu, em Nova York, acessando locais reservados para chefes de estado, aparentando deslumbramento enquanto o Sul do país passava por uma emergência climática e humanitária. No dia 20, no evento da Semana do Clima de Nova York, promovido pelo Banco do Brasil, quem fez um discurso diante de ministros e chefes de estado sobre a floresta amazônica e povos indígenas foi justamente a primeira-dama, em tom eleitoreiro. 

Logicamente, o bolsonarismo é avesso à figura de Janja, mas setores do governismo também são, pois já anteveem na figura da primeira-dama uma possível futura concorrente à sucessão de Lula. O receio é que, em sua casa, a esposa possa agir como  mediadora do acesso de autoridades ao marido mesmo sem a atuação oficial especulada pela Folha de S.Paulo.

O fato é que, após quatro anos de mal-estar e de gambiarras institucionais, o Brasil necessita do protocolo. Não porque exista algum valor inerente na pompa ou na etiqueta, mas porque o rito tem o poder de ocupar o espaço que, de outra maneira, fica ao dispor dos líderes personalistas. Em nossa República, é melhor não confiar no republicanismo de quem tem uma autopropaganda para emplacar. 

O período de afastamento vai reforçar uma das principais queixas da base governista. Segundo matéria publicada pelo Estadão no dia 29 intitulada “Deputados do PT reclamam de ministros de Lula”, ao mesmo tempo em que o presidente lida com a pressão do Centrão por cargos no governo, o Planalto precisa gerenciar as críticas feitas pelos próprios petistas. Os deputados da base tem reclamado do repasse orçamentário e do fato de que não têm acesso ao presidente, mas apenas aos seus ministros (em especial Alexandre Padilha, das Relações Institucionais). 

Os parlamentares criticam também Rui Costa, chefe da Casa Civil, que supostamente não os atende. Em áudios publicados pelo Estadão, deputados pleiteiam buscar Lula diretamente, sem passar pela Casa Civil. Em relação a Padilha, o deputado Marcon (PT-RS) disse que o ministro “ganhou muito poder”. O petista disse ainda que o ministério do Desenvolvimento Agrário, comandado por Paulo Teixeira, tem que ter mais humildade.