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Profissionais veteranos da imprensa, com trajetória bem-sucedida, passaram a usar o prestígio que têm para desinformar e hoje integram a tropa de choque da comunicação bolsonarista
Na segunda-feira, 19, Leda Nagle, de 70 anos, foi o centro das atenções do Twitter, o maior celeiro de polêmicas políticas entre as redes sociais. Depois de uma carreira bem-sucedida, em que se destacou principalmente como apresentadora do Jornal Hoje, na Rede Globo, na maior parte dos anos 80, a veterana jornalista ganhou espaço em redes menores e na EBC, a estatal do governo federal, durante o governo Dilma Rousseff.
Hoje, tem um canal no YouTube em que apresenta um programa chamado “Clube da Notícia”, dedicado a membros (pessoas que pagam uma espécie de mensalidade para ter acesso a conteúdos exclusivos). Detalhe importante para o que vem a seguir: nos últimos tempos, passou a ser reconhecida também como um dos esteios do bolsonarismo nos meios de comunicação.
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Leda Nagle mostra tuíte com fake news durante live privada: décadas de carreira agora a serviço da desinformação | Foto: Reprodução[/caption]
“Notícia”, entre aspas, não é bom sinal. Em um momento da live em seu canal no sábado, 17, a apresentadora leu dois tuítes (como são chamadas as postagens da plataforma Twitter), os quais deveriam ter despertado algum tipo de alerta em uma jornalista experiente e que quisesse honrar o princípio número um da profissão: alcançar a verdade dos fatos, produzindo notícias e não “notícias”.
Afinal, as mensagens em questão no Twitter estavam no que se supunha ser o perfil de ninguém menos do que o delegado-chefe da Polícia Federal, Paulo Maiurino, e denunciavam uma conspiração entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Com que finalidade? Matar o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).
Ora, nenhum repórter iniciante falaria isso ao microfone ou acionaria seu chefe de redação sem antes tomar o cuidado de verificar se a “bomba” vinha de fato da conta do delegado na rede social.
Leda Nagle pulou essa parte. Leu os tuítes ao vivo para, certamente, milhares de pessoas (o canal tem 1,06 milhões de inscritos, embora membros sejam minoria desse total) como se isso fosse uma notícia absurda, mas não do ponto de vista de algo inverossímil: sem contestar a “informação” (STF e Lula planejam matar o presidente), se mostrou chocada com o conteúdo e se limitou a dizer, depois de uma exclamação religiosa: “Eu realmente não sei o que fazer, estou assustada com isso tudo. Porque isso não é política, né? Isso é tudo, menos política”.
Ela se formou em Jornalismo na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e começou como repórter da TV Globo em 1973. Já acumula, desde então, 48 anos de redação, mais de 20 deles à frente do programa “Sem Censura”, da estatal TV Brasil. Cair em fake news de primeiro grau nessa altura da carreira, convenhamos, não pode ser aceitável.
É muito difícil acreditar que realmente Leda não tenha ideia do que acabara de fazer ao ler aqueles tuítes. Talvez confiasse no sigilo do grupo, por ser uma live privada. Os pedidos de desculpas que ela publicou na segunda-feira, garantindo que o trecho divulgado foi extraído por um membro do canal antes que ela pudesse conferir a veracidade da “informação” (ressaltando que a jornalista só fez o comunicado após a repercussão negativa, quase 48 horas após o repasse da “informação” por ela), foram patéticos.
Curiosamente, na sessão aberta do “Clube da Notícia”, na segunda-feira, 19, a apresentadora se “convenceu” de que não deveria ter pedido desculpas, após ler o comentário de um fã: “Regra número 1 da guerra cultural contra a patrulha ideológica: não peça desculpas. Seus aliados não precisam. Seus inimigos não aceitarão.” Ela aceitou a ideia: “Gostei viu, Bruno, obrigada! Não vou pedir desculpas, não, porque não fiz de má-fé. Não achei bacana a pessoa ter vazado isso, era um grupo fechado.”
Mas Leda Nagle faz parte de um outro clube: o dos jornalistas de renome nacional e carreira consagrada que abriram mão da ética e do patrimônio profissional para se tornar celebridades do mundo de “informações alternativas” criado pelo bolsonarismo. Uma espécie de “jornalismo freestyle”.
Experiência e desinformação
É o caso de outro ex-global, o octogenário Alexandre Garcia, que também aderiu de corpo e alma à tropa de choque da imprensa governista. Porta-voz do último presidente da ditadura militar, o general João Baptista Figueiredo, conservador e de direita, o ex-apresentador dos principais telejornais da Rede Globo era uma exceção no meio profissional, formado por maioria de gente liberal e/ou de esquerda.
Alexandre Garcia: defesa da ivermectina e ataque ao lockdown | Foto: reprodução[/caption]
Desde o início do governo Bolsonaro, Garcia tornou-se defensor de toda e qualquer medida adotada pela gestão. Chegou ao ápice quando, já contratado pela CNN Brasil, passou a apoiar na TV a adoção de métodos e remédios sem comprovação científica (como a ivermectina) e ataques a medidas restritivas, além da fazer uso da propagação de dados sem fontes reconhecidas. Em dezembro, disse também que a revolta da população de Manaus ao “lockdown” era uma “vitória da liberdade”. Não soube de sua avaliação sobre a carnificina sanitária que vitimou a cidade no mês seguinte.
Augusto Nunes, de 71 anos, é outro nome consagrado que integra a bancada do pós-jornalismo. Diretor de redação de alguns dos maiores veículos de comunicação do País, hoje ele está no comando da TV Record e na Rádio Jovem Pan. Nunes foi um dos “criadores” da candidatura à Presidência do então governador de Alagoas Fernando Collor, quando fez uma entrevista para o “Jornal do Brasil, lançando ao País “o caçador de marajás”.
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Jornalista Augusto Nunes: no comando da TV Record e referência da tropa de choque bolsonarista| Foto: Reprodução[/caption]
Na última década, tornou-se um dos maiores militantes antipetistas da imprensa. No microfone da Jovem Pan – o principal abrigo do ideário bolsonarista na imprensa tradicional –, ele se prestou ao papel de confundir a audiência sobre a destinação dos repasses federais aos Estados e a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a condução da pandemia pelas esferas de governo, propagando a mentira de que Bolsonaro não podia mais fazer nada. “Ele não administrou a pandemia porque não podia”, afirmou em um dos programas. Mas o nível de adesão ao bolsonarismo se mede mesmo de forma inequívoca quando Augusto Nunes resolve chamar o coronavírus de “vírus chinês”.
O que levou profissionais de tanta reputação a mancharem a biografia? Ideologia? Dinheiro? Lavagem cerebral? Talvez um pouco de tudo. O fato é que são nomes de peso que, no momento, servem a um propósito que vai bem além do que a simples mistura de opinião, adesão política e assessoria de imprensa: eles passaram a usar o prestígio que têm para desinformar. Pelo que um dia representaram, é uma tragédia para a profissão.
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O inquilino do Planalto se move inutilmente para virar o dono da cadeira, mas a cada solavanco que protagoniza mostra que pode ser tão nocivo quanto uma pandemia
Como diz uma máxima do capitalismo, crises são ocasiões de grandes oportunidades para quem com elas sabe lidar. O Brasil não precisaria de outra crise que não a da pandemia para encarar um grandíssimo desafio. Aliás, não poderia se dar ao luxo de erigir outras prioridades ao largo da urgência sanitária.
Um adversário dessa monta, com a estrutura do Sistema Único de Saúde (SUS) – que, embora contestado, é robusto, com ótima capilaridade e elogiado mundo afora –, seria o suficiente para qualquer presidente buscar mostrar serviço. Bem sucedido no combate ao coronavírus, então, Jair Bolsonaro teria no colo a reeleição que busca a todo custo desde o dia em que pôs a faixa presidencial. Incompreensivelmente, em nenhum momento essa foi sua intenção, como viríamos a saber nós e o mundo inteiro, ter o vírus como inimigo. Ao contrário.
Na semana “comemorativa” dos 57 anos do “movimento de 1964” – como esta gestão federal insiste em considerar o golpe cívico-militar que depôs João Goulart e instaurou a ditadura –, o Brasil bateu recordes de mortes diárias e de média móvel de óbitos pela Covid-19. Não há leitos disponíveis nos hospitais, a fila de espera nacional por UTI ultrapassa 6 mil pacientes e oxigênio, insumos e medicamentos para intubação estão no fim.
Um governante em sã consciência não teria outra preocupação. Pois nessa mesma semana, Bolsonaro esteve muito mais ocupado em reagir ao “estado de xeque” em que foi colocado pelos presidentes de Câmara e Senado, especialmente Arthur Lira (PP-AL), que falou em “remédios amargos e até fatais” se o Planalto não entrasse na linha. Em outras palavras, o deputado disse que o impeachment é logo ali.
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Ernesto Araújo, agora ex-ministro de Bolsonaro: dupla desfeita tarde demais | Roque de Sá / Agência Senado[/caption]
Se ele não pensa em pandemia nem na rotina normal, imagine quando acuado. Na esteira de demitir o inexplicável ministro das Relações/Alucinações Exteriores, Ernesto Araújo, entregando-o ao Centrão, aproveitou para testar sua força com os militares. Demitiu o ministro da Defesa, que foi trocado por se negar a cooptar o Exército a trabalhar politicamente para o (des)governo de Jair Bolsonaro. Fernando Azevedo e Silva já havia feito mais movimentos estranhos ao posto do que funcionalmente deveria, mas seu chefe queria ir além.
No enigmático mundo paralelo do presidente da República, chamar as Forças Armadas a sair de seu papel constitucional para lhe ladear palanque contra supostos adversários– no caso, governadores (quase todos) e prefeitos que implantaram, a alto custo político, restrições ao comércio e à circulaçãopara conter casos e mortes por Covid-19 – é apenas uma tarefa normal de reação da “gente de bem” a quem estaria “esticando a corda”. E o que é esticar a corda, na visão de Bolsonaro? Insistir em medidas para evitar a propagação do vírus e, assim, reduzir contágios, internações e mortes.
Aventura golpista
O presidente, então, descobriu que o “meu Exército” era delírio com grande dose de “wishful thinking”. Ao forçar a saída de Edson Pujol, o chefe da maior das três forças militares, Bolsonaro ganhou de brinde a entrega dos cargos de comando também na Marinha e na Aeronáutica. Sinal claro que de não embarcariam em sua aventura descaradamente golpista.
Porém, ato contínuo, seu líder na Câmara dos Deputados, o Major Vítor Hugo, do PSL e eleito por Goiás – embora sem raízes no Estado – na carona dos votos do Delegado Waldir, entrou em cena. Apresentou um projeto de lei absurdo e tentou acelerar ao máximo sua votação: era a mudança na interpretação do que seria uma decretação de Mobilização Nacional (exclusiva para momentos de conflitos bélicos com outra Nação), para que, a pretexto de combater o coronavírus, o chefe do Executivo ganhasse poder absoluto sobre servidores públicos civis e militares. Inclusive as polícias estaduais. Era a tentativa de legalizar um golpe usando como justificativa um comando sobre a pandemia que nunca quis assumir não colou.
Bolsonaro é assim: precisa fabricar crises, uma atrás da outra, para que não tenha de governar, coisa que não quer e que, mesmo se quisesse, não demonstrou ter capacidade alguma até o momento. Desde sua posse, contam-se nos dedos das mãos as semanas transcorridas sem pelo menos um sobressaltovindo de Brasília. As cortinas de fumaça não são para aprovar projetos questionáveis ou impopulares – embora essas “boiadas” possam até passar, como efeito colateral –, mas para movimentar o cenário político com polêmicas enquanto o presidente continua a fazer o de sempre: nada durante os dias úteis e aglomerações aos sábados e domingos.
Voltando ao começo do texto, curiosamente, a Covid-19 é a única crise de que ele não quer cuidar. Pelo contrário, a despeito de todas as advertências da ciência e dos próprios políticos, Bolsonaro trabalha sempre para blindar a pandemia de quem quer combatê-la. É praticamente seu sócio, mandando, de seu lugar privilegiado de poder, contrainformações e mentiras para que seus seguidores espalhem. Se pode atrapalhar, pra que ajudar?
Nesta semana, novamente, o presidente da República fez de besta os outros Poderes e demais instituições. Na quarta-feira houve um encontro entre o já citado Arthur Lira mais o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), e o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga. Na pauta, a unificação nacional dos esforços entre governadores, prefeitos, Parlamento e governo federal para o combate à pandemia. Com pregação de uso de máscaras, de isolamento e distanciamento social e tudo o mais. Que lindo seria se fosse, mas não é.
É que meia hora depois estava lá Jair pregando contra um lockdown que só ele viu até hoje e falando que governadores tiram o “ir e vir” dos cidadãos de uma forma mais grave que um estado de sítio. E sentenciou: “A fome mata mais do que o vírus!”. Realmente, todo dia no Brasil devem estar morrendo de 3 mil a 4 mil pessoas sem ter o que comer, mas elas disfarçam muito bem com aquele jeito asfixiante e intubado de que é por Covid.
Talvez a maior referência da diplomacia política, Nicolau Maquiavel já escrevia meio milênio atrás: “Nunca se deve deixar prosseguir uma crise para escapar a uma guerra, mesmo porque dela não se foge, mas apenas se adia para desvantagem própria.”
Bolsonaro leu Ustra, não Maquiavel. Há aí um grande abismo intelectual e moral. E o Brasil? Pobre Brasil, continua no limbo entre a morte do velho sistema e o surgimento de algo novo, como diria outro pensador, Antonio Gramsci, segundo o qual “nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparecem”. Até se sabe quando, continuaremos a conviver com a pandemia de Covid e o pandemônio de Bolsonaro.
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