Augusto Diniz

Desonestidade do ministro da Saúde ganha formato de monólogo com transmissão ao vivo

General especialista em logística, Eduardo Pazuello trata Pfizer com desdém por oferecer 8 milhões de doses ao Brasil depois de ser ignorada pelo governo federal

Em dia de fúria, ministro da Saúde que dizia ser especialista em logística concede entrevista na qual as perguntas foram feitas e respondidas por ele mesmo e depois participa de live da desinformação semanal com o presidente da República para manter mentiras em dia | Foto: Reprodução/TV Brasil

Depois de 1 hora, 8 minutos e 31 segundos de live transmitida ao vivo pelo Facebook e pelo YouTube na noite de quinta-feira, 7, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), ao lado do ministro da Saúde, o general especialista em logística Eduardo Pazuello, disse sobre o Brasil ter superado 200 mil vítimas da Covid-19 desde o início da pandemia, em março de 2020, que “lamenta”, mas que “a vida continua”.

“A gente espera volta à normalidade o mais rapidamente possível. No mais, pessoal, a vida continua. A gente lamenta que hoje estamos batendo aí as 200 mil mortes. Muitas dessas mortes com Covid, outras de Covid, não temos uma linha de corte no tocante a isso daí. Mas a vida continua. A gente lamenta profundamente. Eu estou preocupado com a minha mãe que tem 93 anos de idade. Se ela contrair o vírus vai ter dificuldade pela sua idade. Mas temos que enfrentar isso daí.”

Em tom professoral de quem dá bronca na turma que não presta atenção, o ministro da Saúde gastou uma hora dos jornalistas e da população brasileira na tarde de quinta-feira, 7, horas antes da live semanal de Bolsonaro, para dizer que é vítima da desinformação ou do problema de comunicação no Brasil. Ao falar das mais de 200 mil mortes, Pazuello destacou os mais de 7 milhões de brasileiros recuperados da Covid-19 durante a pandemia.

Outros dados relevantes

Claro que não coube espaço no monólogo do ministro, que se indagou e respondeu durante a transmissão do que deveria ser uma entrevista, para falar sobre a quantidade de casos suspeitos, o tamanho da subnotificação de pacientes e mortos não confirmados pela doença e a ocupação de leitos de UTI para tratamento da Covid-19. “É uma guerra. E nós precisamos usar todas as armas necessárias para poder vencer”, declarou Pazuello cinco meses depois de se recusar a negociar com os laboratórios Pfizer e BioNTech a compra de 70 milhões de doses da vacina produzida por norte-americanos e alemães, a primeira a ser aplicada no mundo em dezembro.

E continua o discurso de defesa da saúde, ao menos no papel: “É o momento que a saúde não pode ter bandeiras, não pode ter partido, não pode ter ideologia”. O titular da Saúde, que foi apresentado como especialista em logística, já deixou mais de 7 milhões de testes RT-PCR perderem o prazo de validade parados no Aeroporto de Guarulhos. Precisou de uma autorização do fabricante da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para estender o prazo de uso dos exames para começar a enviar a Estados e municípios.

No site do Ministério da Saúde, na parte de perguntas frequentes, informa que o vírus Sars-CoV-2, causador da Covid-19, não é transmitido pelo ar. Mas Pazuello defendeu na quinta-feira que a guerra contra a pandemia não pode ter bandeira ou ideologia. Então por que mentir para a população sobre a forma de transmissão da doença que já matou mais de 200 mil brasileiros em menos de dez meses? “Nós estamos falando de brasileiros, meus parentes e seus parentes”, se dirigiu aos jornalistas presentes o ministro.

Tratamento precoce?

Horas depois, na live presidencial, defendeu o tratamento precoce com medicamentos sem eficácia no combate à Covid-19. E deixou o presidente propagar informações falsas sobre a redução da carga viral do Sars-CoV-2 com a utilização de remédios não indicados para casos de Covid-19. Também incentivou as repetidas afirmações de Jair Bolsonaro, que insistiu em enfatizar que a vacinação não será obrigatória no Brasil. Se isso não é adotar um tom ideológico para discutir uma questão sanitária e técnica de extrema urgência, o que mais seria, Pazuello?

“É nesses momentos mais difíceis que nós temos que ter resiliência, que temos que acordar de manhã e ir trabalhar.” Já no início da não entrevista monólogo, o ministro da Saúde critica o que chama de “incompreensão de periódicos” sobre o trabalho realizado pela pasta. O problema é que o ministério deixou passar todas as oportunidades que teve para trabalhar. Lembremos que não faz muito tempo que o seu titular, o mesmo Pazuello, questionou: “Para que essa ansiedade, essa angústia?“. Vale recordar que o tal Plano Nacional de Imunização, anunciado em 16 de dezembro de 2020, só foi apresentado porque o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que o cronograma fosse entregue em 48 horas.

Pazuello confessou que já passaram quatro equipes de comunicação pelo Ministério da Saúde desde que o general especialista em logística, que não conhecia o Sistema Único de Saúde (SUS), assumiu a pasta no dia 15 de maio de 2020. “[A Medida Provisória] Nos permite fazer contratação de vacinas e outros insumos antes mesmo de estar concluído o seu registro na Anvisa.” Mas o mesmo Ministério da Saúde firmou acordo de compra e transferência de tecnologia da vacina da Universidade de Oxford em parceria com o laboratório AstraZeneca em junho de 2020. Alguma coisa não bate na informação do ministro.

Equívoco do governo

Depois de cobrar da imprensa que publique a versão que interessa ao Ministério da Saúde sem abrir para perguntas, general Eduardo Pazuello correu para a live do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), onde respondeu a questionamentos amigáveis da filial da assessoria de imprensa do Palácio do Planalto | Foto: Reprodução/YouTube

A verdade é que o governo se equivocou ao apostar em apenas uma vacina contra a Covid-19 e se deu mal ao ver a imunização começar em outros países com doses da Pfizer/BioNTech e da Moderna enquanto os resultados da fase três da Oxford/AstraZeneca eram contestados por inconsistências na metodologia diferente adotada em cada um dos grupos de voluntários estudados. Mas o ministro da Saúde prefere mentir durante o monólogo de quinta-feira: “Eu não podia fazer nenhuma contratação que não houvesse incorporação anterior no Sistema Único de Saúde para poder comprar”.

Logo depois, Pazuello acaba por deixar escapar que o problema, na verdade, eram os decretos de calamidade que perderam valor legal no dia 31 de dezembro de 2020. O que ocorreu de fato foi que o governo federal e o Ministério da Saúde não agiram enquanto era tempo para comprar as doses necessárias de doses de outras vacinas para iniciar ainda em dezembro de 2020 a vacinação dos grupos prioritários.

Agora a previsão de Pazuello, se o cronograma – sem data acertada de início – for cumprido, é de concluir em 12 meses a imunização das fases um, dois, três e prioritária da aplicação das doses no Brasil. O que significa que parte dos grupos de risco da pandemia no País ainda poderão aguardar as duas ou uma das dores até o primeiro trimestre de 2022. O principal ponto, de verdade, da Medida Provisória número 1.026, de 6 de janeiro de 2021, se dá na prorrogação da dispensa de licitação para compra emergencial de insumos e imunizantes após o fim do vigor dos decretos de calamidade pública com o encerramento do ano de 2020.

No mesmo dia em que o governo de São Paulo apresentou dados genéricos, que também despertaram suspeita de cientistas e jornalistas – queriam dados completos da fase três da pesquisa de desenvolvimento da vacina CoronaVac, parceria do Instituto Butantan com o laboratório chinês Sinovac Biotech -, o Ministério da Saúde resolveu reagir para tentar apresentar algo. E Pazuello disse que a União era “o grande cliente do Butantan, que é uma instituição do Estado”. O ministro afirmou que a pasta negocia a conclusão de um contrato com o instituto paulista para a compra de 46 milhões de doses da CoronaVac.

Compra desautorizada

No final de outubro, Pazuello anunciou a compra de 46 milhões de doses da vacina fabricada pelo Instituto Butantan em parceria com a chinesa Sinovac, mas foi desautorizado pelo presidente Jair Bolsonaro em resposta a um seguidor nas redes sociais. Foi quando o titular do ministério voltou ao seu lugar, de ocupante do cargo para obedecer às ordens do chefe do Executivo, até mesmo quando Bolsonaro decide contrariar os pesquisadores, a ciência e a medicina. Sem qualquer reclamação ou sinal de contrariedade.

Mas citou, no monólogo transmitido ao vivo, que o memorando de intenção de adquirir as doses da CoronaVac de São Paulo já estava assinado desde outubro de 2020. O que resta saber é se Pazuello contrariou Bolsonaro ou se o presidente apenas jogou para a galera em uma tentativa de agradar seus apoiadores quando chamava a vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan de “vachina”, “vacina chinesa” ou “vacina do Doria”.

“Participamos da fase três de testes do Butantan por intermédio da Fiocruz”, descreveu o ministro. Só que, ao apresentar o Plano Nacional de Imunização, a CoronaVac não constava entre as doses que seriam utilizadas para imunizar os grupos prioritários nas quatro primeiras fases da vacinação no Brasil a partir de fevereiro ou março.

Notícia distorcida?

Depois de comprovar as informações atravessadas e diferentes dados a cada novo comunicado oficial do Ministério da Saúde, Pazuello reclamou que é difícil informar, “porque a gente repete, repete, repete e a notícia vai distorcida”. Para começar a esclarecer a fala do ministro, é preciso que o general que ocupa o cargo desde maio decida se o brasileiro não precisa de demonstrar ansiedade para ser vacinado logo, se o presidente autoriza ou não a compra de doses da CoronaVac e a partir de quando a vacinação sairá do papel.

Uma coisa mudou. Na live presidencial do mesmo dia, Bolsonaro ficou calado ao ouvir Pazuello citar que o governo federal irá utilizar doses da CoronaVac na vacinação da população pelo SUS. “O que eu estou dizendo para os senhores e senhoras já falei n vezes. A primeira pergunta quando a gente abre para reportagem é ‘o ministério vai comprar a vacina do Butantan?’, “por que o ministério não vai comprar a vacina do Butantan?’. Pô! Acabei de explicar que estamos comprando há meses.”

É preciso explicar que só agora a vacina do Butantan surgiu oficialmente, depois do anúncio frustrado por Bolsonaro em outubro, como parte do Plano Nacional de Imunização na boca de Pazuello. E que as perguntas foram citadas pelo ministro, que se respondeu em seguida. E agora alegou que só poderia comprar com a MP publicada, “incluir no SUS e depois pagar”. E se irritou com os fotógrafos: “Cada vez que eu aponto o dedo nego tira foto, mas é o jeito de falar. É impressionante, né? Quer tirar foto? [Pazuello levanta o dedo] Ó! Toma. Chato”.

Sem data definida

Depois de falar em compra de 46 milhões de doses da CoronaVac, Pazuello começa a defender o negócio firmado com a Oxford e AstraZeneca em junho, quando ficou acertado o pagamento de R$ 1,9 bilhão para transferência de tecnologia e fabricação das doses no Brasil. Em seguida, citou que o Brasil entrou no consórcio da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Covax Facility. Mas pesquisadores brasileiros alertaram que o País demorou demais a aderir e ficou no fim da fila.

As falas de Pazuello, em tom professoral, davam a impressão de que o Brasil começaria a vacinação na sexta-feira, 8. Mas o governo brasileiro ainda não sabe quando chegarão as 2 milhões de doses importadas da vacina de Oxford/AstraZeneca fabricadas pelo instituto Serum. O ministro insiste que é preciso ser noticiado o que é dito.

“É fundamental que os meios de comunicação, a nossa mídia, os senhores e as senhoras comuniquem o fato. Me mostrem quando foi que um brasileiro ou a população brasileira delegou aos redatores ou a qualquer um dos senhores a interpretação dos fatos. Me mostrem. Eu não fiz. Nós não queremos a interpretação dos fatos dos senhores. Nós não queremos tendência ideológica ou de bandeira”, ordenou o ministro que não conseguiu comprar seringas e agulhas para utilizar no Plano Nacional de Imunização contra a Covid-19 na virada do ano.

Incompetência escancarada

Inconformado, o ministro da Saúde continuou sua aula sobre o que não entende, assim como não sabia o que era o SUS. “Eu quero assistir à televisão e ver a notícia do fato que aconteceu. Deixem a interpretação para o povo brasileiro. Deixem a interpretação para cada um de nós. Os senhores não têm essa delegação”, reclamou o ministro da Saúde que adotou com uma das primeiras medidas à frente da pasta não mais divulgar o número total de mortes causadas pela Covid-19 no Brasil.

Pazuello reclama sem entender como funciona o jornalismo. Deve ser complicado, depois de participar de uma live presidencial com perguntas amigáveis de jornalistas que fazem um trabalho de puxadinho da Secretaria de Comunicação do governo federal durante a transmissão ter que encarar o trabalho técnico de quem confronta declarações de autoridades com dados, documentos, números e outras informações.

A verdade dos fatos, para Pazuello, é aquilo que coloca o Ministério da Saúde bem na fita. Mas o que valoriza e melhora a imagem da pasta é eficiência na prestação do serviço, comprar vacina, proteger a população, liderar o combate à pandemia. Isso, até aqui, o especialista em logística do Exército não fez. Nem passou perto.

Mas na prática…

Só que o exemplo do Palácio do Planalto é sempre o pior possível, como a decretação de sigilo dos cartões de vacinação do presidente da República. Isso mesmo. Por até 100 anos, ninguém pode ter acesso por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) para descobrir se Bolsonaro, que faz campanha diária contra a vacinação para diminuir os casos de Covid-19 no Brasil, será ou não imunizado. Virou segredo de Estado. Digno de república bananeira.

Mas paga o preço por ter feito pouco caso das negociações com outras vacinas na espera da produção de doses da Oxford/AstraZeneca pela Fiocruz antes de qualquer outro imunizante. Não contava com imprevistos nas fases de teste, nem investiu para valer em pesquisas nacionais para o desenvolvimentos de vacinas com tecnologia 100% brasileiras. O custo de sucatear a universidade pública uma hora cobra seu preço. Sucateamento esse que foi agravado no governo Bolsonaro.

Quem não tem muito o que apresentar de concreto se irrita para tentar criar narrativas e culpar a imprensa por não fazer o trabalho que é do governo federal e do Ministério da Saúde, não de jornalistas. Ainda mais depois de 17 dias de silêncio durante as férias do presidente Jair Bolsonaro em meio à maior pandemia do século que tem a comprovação em dados confirmados, inclusive do próprio Ministério da Saúde, do aumento de casos e mortes pela Covid-19 no Brasil no final de dezembro e início de janeiro.

Emoção?

“Peço perdão aí pela palavra um pouco mais emocionada, um pouco mais direta. Mas acredito que o objetivo foi apenas transmitir a ideia como ela é exatamente.” Tudo bem, ministro. Pode começar a ser sincero e pedir desculpas aos familiares de mais de 185 mil brasileiros que perderam a vida para a Covid-19 durante a sua gestão à frente do Ministério da Saúde, em menos de oito meses no cargo. Sem contar os 7.703.580 infectados a mais – até o fechamento desta edição – desde a sua chegada ao posto de titular da pasta. Como o sr. afirmou, é preciso tratar as informações com honestidade. Porque o resultado do seu trabalho nós temos a prestação de contas diariamente no total de enterros.

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