Augusto Diniz

Com baixa adesão às medidas restritivas, Região Metropolitana segura como pode colapso da saúde

Diante da reclamação dos empresários, impactados pelo fechamento das atividades não essenciais durante a pandemia, prefeitos tentam conter caos da Covid-19

Às 19h08 de sexta-feira, 5, a regulação da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Goiânia contava com apenas quatro leitos de Unidades de Terapia Intensiva (UTI) para tratamento a pacientes com Covid-19 disponíveis. Com 232 vagas descritas no sistema da SMS naquele momento, a ocupação dos leitos de UTI para a doença na capital bateu em 98,28%.

Na mesma data, Goiânia atingia a marca de 2.748 mortes causadas pela Covid-19 desde o começo da pandemia, com 18 novos óbitos confirmados em 24 horas.

Há dois dias, 8.881 habitantes de Goiás já tinham morrido por Covid-19. Outros 2.410 goianos foram vítimas de síndromes respiratórias agudas graves, com grande chance de a maior parte dos óbitos terem sido causados pela doença.

A rede estadual de saúde contava com 429 leitos de UTI para tratar pacientes com Covid-19. Do total, apenas 14 estavam disponíveis nos hospitais geridos pelo Estado. A ocupação chegava a 96,74%. E esteve pior ao longo da semana, mesmo com o salto de 391 para 429 leitos.

Ao mesmo tempo, a soma da rede estadual com os hospitais privados em Goiás atingia 95,91% de leitos ocupados nas UTIs existentes para tratamento da doença em todo o território goiano. Àquela hora, o sistema de saúde de todos os municípios do Estado contava com 1.075 vagas abertas para pacientes com Covid-19.

Mas só 44 leitos estavam disponíveis para receber novos doentes. Pelos números, seria natural que toda a população do Estado adotasse com urgência medidas sanitárias de prevenção, como o uso de máscaras sobre a boca e o nariz, lavagem das mãos com água e sabão ou álcool em gel, ventilação dos ambientes, distanciamento social e isolamento social sempre que possível.

Revolta de parte dos empresários

Mas bastou que os prefeitos da Região Metropolitana de Goiânia – quase todos, mas não a totalidade dos chefes dos Executivos da Grande Goiânia – se reunissem com o governador Ronaldo Caiado (DEM) na tentativa de evitar o colapso da rede de saúde do Estado para gerar a revolta de parte dos comerciantes.

É compreensível que a decisão de fechar as atividades consideradas não essenciais durante a pandemia não seja aceita por todos. Principalmente porque é uma medida de desespero que gera impactos diretos na economia. Só que não restringir a circulação das pessoas nas ruas em um momento de calamidade como agora é deixar as pessoas à própria sorte diante da morte que pode ser causada por um vírus ainda mais grave do que o que conhecemos em 2020.

A segunda-feira, 1º, evidenciou a dificuldade que os prefeitos teriam para convencer a população a ficar em casa se não fosse obrigada a sair para trabalhar. Os ônibus ficaram lotados nos horários de pico e muitas lojas abriram do jeito que deu.

O isolamento social em todo o Estado ficou em apenas 32,6% no primeiro dia de vigor das medidas restritivas às atividades não essenciais. No dia 22 de janeiro, pouco mais de 29% dos goianos ficaram em casa, também em uma segunda-feira. Pelo nível do “fica em casa” sete dias antes, era de se imaginar que não seria tarefa fácil manter a população isolada.

Auxílio emergencial

Enquanto isso, o Congresso Nacional e o governo federal não entraram em um acordo para retomar com urgência o pagamento do auxílio emergencial. Mais de 30 milhões de brasileiros, da noite para o dia, ficaram sem renda em janeiro. Muitos sem ter o que comer. Durante a pandemia mais grave do mundo no século XXI.

O cálculo equivocado do governo federal, de que a Covid-19 estaria controlada em janeiro, se evidenciou em um erro primário de quem se guia por mentiras e prefere deixar a população morrer cada vez mais rápido pela doença do que resolver o problema e assumir a posição de gestor público.

Os empresários tiveram dificuldade no ano passado para conseguir acesso ao crédito facilitado do Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe).

Tanto que sobrou dinheiro em caixa do orçamento de guerra autorizado no primeiro semestre de 2020. Para o Pronampe, o auxílio emergencial e também para o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda, que autorizava empresas privadas a suspender contratos e reduzir a jornada de trabalho dos funcionários, que eram compensados com parte do salário perdido pago pelo governo federal.

Compra de vacinas

Nem precisamos falar da compra de vacinas, que virou um conto-da-carochinha. Desde agosto de 2020, a Pfizer oferece 70 milhões de vacinas ao governo Bolsonaro. Mas “pra que essa ansiedade, essa angústia?”, como declarou em fevereiro o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, que, até então, era conhecido como “especialista em logística”.

A formação dita pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) o titular da Saúde não tem, tanto é que confundiu Amazonas com Amapá e mandou as doses do imunizante de um Estado para outro, que vivem crises de níveis diferentes na pandemia.

O contrato firmado no meio de 2020 com a Oxford e a AstraZeneca para fabricação da vacina na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) prevê a mesma cláusula contratual que Bolsonaro e Pazuello tanto criticaram na proposta da Pfizer, que é não se responsabilizar por efeitos adversos do imunizante aplicado no Brasil.

Quando o prazo da negociação, 19 de março, chegava ao fim e governadores e prefeitos começavam a assinar intenções de compra da Pfizer, Ministério da Saúde e presidente da República mudaram de ideia e resolveram assinar o protocolo de aquisição de 100 milhões de doses. Para Bolsonaro, o que importa não é a saúde dos brasileiros, mas não perder a batalha eleitoral para seus adversários.

Novos inimigos

O presidente Bolsonaro elegeu novos inimigos para despejar sobre os ombros a responsabilidade pelo o que o governo federal não fez: trabalhar para conter o avanço da Covid-19 no País, com três recordes de mortes nos últimos dez dias – 25 de fevereiro (1.582 mortes), 2 (1.726 óbitos) e 3 de março (1.840 vítimas).

O Plano Nacional de Imunização (PNI) sofreu alteração no cronograma no Ministério da Saúde, com previsão de repasse de menos doses do que o previsto anteriormente. A vacinação começa a praticamente parar nos municípios. As redes de frios dos Estados precisaram controlar o estoque de vacinas para garantir que quem recebeu a primeira dose seja imunizado no prazo agendado com a segunda vacina.

Os economistas mais sérios e respeitados do Brasil e do mundo dizem que não haverá recuperação da economia sem imunização coletiva por meio das vacinas contra a Covid-19 no menor tempo possível.

Casado ao discurso dos especialistas na área financeira vem o alerta dos cientistas e médicos epidemiologistas e infectologistas: se as pessoas não forem vacinadas no Brasil até o final do primeiro semestre, teremos ainda mais mutações do vírus Sars-CoV-2 (coronavírus), o que será ainda mais trágico.

260 mil mortes

Se hoje a rede hospitalar vive situação de pré-colapso ou de capacidade total de atendimento de pacientes em mais da metade dos Estados, com outras cepas em circulação no ar, 260 mil mortes poderão ficar para trás como insignificantes em pouco tempo. Mantida a média de mais de 1,3 mil mortes diárias no País, é melhor nem imaginar a quantidade de vítimas da Covid-19 até julho.

Como ficam os prefeitos da Região Metropolitana diante das mensagens conflitantes vindas do Palácio do Planalto, que prega o fim do uso das máscaras baseado em enquetes como se fossem estudos científicos, que defende a compra de um spray israelense ainda em fase um de testes com apenas 30 voluntários, sem qualquer resultado preliminar divulgado, enquanto o empresário bate à porta da prefeitura e exige a reabertura de sua loja? Vimos o que ocorreu em Caldas Novas, com a invasão do Paço Municipal.

Sem apoio financeiro e coordenação nacional vinda de Bolsonaro e Pazuello para adotar medidas corretas de prevenção, aceleração da compra e distribuição de vacinas aos Estados, liberação do auxílio emergencial e prorrogação dos programas de crédito facilitado e manutenção dos empregos com o comércio fechado para evitar o colapso da rede de saúde, os prefeitos tentam impedir que o prédio desabe se colocando embaixo da torre de concreto.

Prefeitos e governadores sufocados

Na tentativa de escapar da responsabilização por não ter feito o mínimo suficiente para evitar milhares de mortes, Bolsonaro e sua tropa deixam governadores e prefeitos sufocados. A economia afoga e o brasileiro pobre tem ficado mais dias sem ter o que comer. Cabe ao presidente da República escolher se vai deixar seu povo morrer por fome e sem atendimento hospitalar ao mesmo tempo.

Sobre São Simão na quinta-feira, 4, que deveria trazer uma ponta de esperança ao escoamento da produção do agronegócio goiano com a inauguração de trecho da Ferrovia Norte-Sul até Estrela D’Oeste (SP) – 172 quilômetros -, graças ao discurso agressivo e mentiroso de Bolsonaro se tornou um dia para ser esquecido. Afinal, de que vale uma ferrovia importante para a mobilidade de pessoas e cargas se não tivermos mais nação para contar a história?

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