Ton Paulo
Ton Paulo

Quem cancelará os canceladores?

Quando o cancelamento começa, as atitudes que “abriram o processo” já não importam mais. Não se preza mais em cancelar a atitude, mas sim o indivíduo em si

Cena de Odiados pela Nação, episódio de Black Mirror | Foto: Reprodução

Desde que estreou pela primeira vez no Channel 4, há 10 anos, a série britânica Black Mirror, do genial Charlie Brooker, arrastou legião de fãs e arrebatou a crítica especializada. O programa transformou-se até no chamado “meme” – não é improvável que você já tenha visto, durante uma passeada pelas redes sociais, algum internauta comentando “Isso é muito Black Mirror” diante de um fato surreal ou extemporâneo demais para ser analisado com frieza de emoções. E na análise deste que escreve, o sucesso do show deve-se a um fator simples, mas brilhantemente executado: a exposição tragicômica dos vícios humanos.

No episódio Odiados pela Nação, o último da terceira temporada, a genialidade da essência de Black Mirror se acentua a ponto de arrancar exclamações do mais duro dos críticos. Não é à toa. O episódio, que traz uma atuação louvável da atriz Kelly McDonald, conta a história de uma detetive que investiga a morte misteriosa de pessoas aleatórias e a ligação desses crimes com uma corrente de rede social destinada a linchar virtualmente todo aquele que a internet julga merecedor.

No episódio, a heroína descobre que multidões compartilhando exaustivamente a hashtag #MorteAFulano levava, consequentemente, ao óbito do “réu condenado”. É claro que o episódio tem seus plot twists, mas a história em si, para os bons observadores, é ligeiramente previsível. Isso, porque para ver multidões enfurecidas digitando e publicando à exaustão, até levar um indivíduo à ruína após uma atitude condenável por parte dele, não é preciso sintonizar na Netflix: basta passar cinco minutos no Facebook, Twitter ou Instagram.

A cultura do cancelamento é real, está concretizada fora dos roteiros de Black Mirror e precisa ser alvo de preocupação. Essa cultura não tem um senhor. Ela não obedece e nem serve a ninguém. Não há como controlar e é confuso saber, inclusive, quando se começa cancelar o indivíduo. Vale destacar que, quando o cancelamento começa, as atitudes que “abriram o processo” já não importam mais. Não se preza mais em cancelar a atitude, mas sim a pessoa em si. Essa cultura se alimenta de vingança e não fica saciada até a destruição de alguém.

Não é possível falar de cultura do cancelamento sem trazer à baila o programa que volta aos debates todos os anos. O Big Brother Brasil (BBB) 21, exibido pela TV Globo, acendeu alertas nas comunidades de psicólogos e psiquiatras que observam, com terror, as vias de consequência que ganha a decisão de cancelar e o sofrimento de ser cancelado.

Karol Conká, participante do BBB21 | Foto: Reprodução

Karol Conká, cantora, compositora e apresentadora, foi uma que caiu nas graças – ou desgraças – do cancelamento. E curiosamente, a artista é protagonista em ambos os lados. Após atitudes do participante Lucas Penteado, que Karol julgou condenáveis em relação a uma outra participante – e cá entre nós, foram -, a cantora vestiu-se com a toga do mais alto grau do tribunal de cancelamento e condenou Lucas ao ostracismo literal. Karol, em certas ocasiões, chegou a proibir que o rapaz falasse à mesa enquanto ela estivesse ali e induziu o resto dos participantes a isolá-lo.

Mal sabe ela que, aqui fora, Karol foi cancelada e recancelada e deve se deparar com uma realidade bem diferente daquela que deixou ao entrar no BBB. A artista está correndo o risco de perder até R$ 5 milhões em contratos e foi abandonada até pelo próprio fã-clube, ao ser considerada tóxica e cruel com os outros participantes. O estrago foi feito. Quando deixar a casa, Karol poderá se desculpar, publicar vídeos de retratação, chorar ou simplesmente se calar para esperar a poeira baixar. Mas uma vez cancelado, o “carimbo” não sai tão fácil.

Alguns especialistas que assistem ao BBB, como a psicóloga Aline Linares, alertaram para o risco do comportamento de Karol Conká para com Lucas. “”A Karol Conká veio como a ‘canceladora’ do garoto, mas que mais me impressionou foi a forma como ela manipulou todo mundo contra ele”, analisou a psicóloga. Vale lembrar também que está havendo dentro da casa pode ter consequências duradouras. Uma depressão, quem sabe, ou algo mais. Já para Karol, ainda não sabemos como ela lidará com seu cancelamento e até onde, ou o quê, isso a levará.

Ser alvo de um cancelamento significa ter toda a sua identidade e história de vida resumidas a um único ato condenável. O tempo de “cumprimento de pena” varia conforme a gravidade do ato. No entanto, quem está familiarizado com o final do episódio de Black Mirror Odiados pela Nação, citado anteriormente, pode ter uma ideia da sentença de um julgamento de cancelamento que vai até às ultimas instâncias. Não um assassinato em massa (e aqui me desculpo pelo spoiler), mas a certeza de que quem dá a sentença, em algum momento também estará sentado no banco dos réus.

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