Ton Paulo
Ton Paulo

Brasil e EUA: Foram-se os anéis e com eles, os dedos

Com Bolsonaro, o Brasil estabeleceu uma relação diplomática direta com Trump, e não com os EUA. Nos resta, agora, arcar com as consequências desastrosas dessa escolha

O caso Trump-Bolsonaro se trata de uma história de amor não correspondido | Foto: Reprodução

“- I love you!

– Nice to meet you again.”

O diálogo acima poderia perfeitamente ter saído de alguma comédia romântica norte-americana em que a moça, perdidamente apaixonada pelo rapaz, declara seus maiores e puros sentimentos e recebe, em resposta, a prova de que foi apenas usada para satisfazer desejos momentâneos. Mas não. O diálogo não foi dito em um filme (pudera), mas sim na Assembleia Geral da ONU onde o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, soltou um “Eu te amo” para o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e recebeu em troca um “Bom te ver de novo”.

A declaração de amor não correspondido de Bolsonaro, que aconteceu em setembro de 2019 na sala GA-200, onde os presidentes dos países ficam antes e depois de discursar na Assembleia da ONU, em Nova York, reflete muito mais do que a paixonite platônica de um chefe de Estado. Desafortunadamente, o gesto representa o perfil de um governo que baseou sua diplomacia com a maior potência econômica do mundo em uma única relação afetiva, e não-recíproca, com um presidente que acabou de deixar a Casa Branca com uma impopularidade histórica.

A obsessão de Bolsonaro por Trump vem de anos, mas se intensificou após a chegada do capitão reformado na Presidência do Brasil – fato que lhe deu plenos poderes para copiar seu amado em cada simples passo do norte-americano, fosse lá o que isso pudesse custar. E custou. Na ânsia de ser notado e agradar Trump, Bolsonaro caçou briga com gigantes mundiais e parceiros econômicos históricos do Brasil.

Desde que assumiu, Trump iniciou uma campanha para que os países, assim como os Estados Unidos fez em sua gestão, mudassem suas embaixadas de Tel Aviv para a cidade de Jerusalém. O ato, fortemente simbólico, representa uma tomada de partido em favor de Israel no eterno conflito entre israelenses e palestinos.

A mudança determinada por Trump subverteu uma política padronizada por anos pelos Estados Unidos de não reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel enquanto o status da região não fosse decidido em um acordo pacífico. Mas é claro que Bolsonaro, o fiel cãozinho trumpista, não poderia deixar de acompanhar o mestre.

Trump reconheceu formalmente Jerusalém como a capital de Israel. Bolsonaro tentou fazer o mesmo e quase meteu o Brasil numa guerra | Foto: Divulgação

Após ameaçar, ao longo de 2019, transferir a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém, o governo Bolsonaro decidiu, no lugar, abrir um escritório comercial na região. A reação foi instantânea. O Conselho da Liga dos Estados Árabes, composto por 22 países do Oriente Médio e norte da África, divulgou um comunicado no qual dizia que a abertura pelo Brasil de um escritório comercial em Jerusalém representava “uma grave regressão e violação do status legal internacional” da cidade e das resoluções do Conselho de Segurança da ONU sobre o tema.

Mas o que temos nós a ver com os árabes? Bolsonaro deve ter se perguntado isso, esquecendo-se (ou ignorando) que o mercado árabe é o terceiro maior importador de carne brasileira. Para se ter uma ideia, segundo a Federação das Associações Muçulmanas do Brasil, a Fambras, 45% da carne de frango e 40% da bovina que o país exporta hoje levam o selo halal –ou seja, pode ser consumida segundo preceitos islâmicos.

A história toda quase terminou de forma trágica, mas não serviu de lição para Bolsonaro. Não serviu para que ele entendesse que Brasil não é EUA e não pode fingir ser. “O que mais posso fazer para agradá-lo?”, deve ter se perguntado Bolsonaro. Virou alvo o país com governo autodeclarado comunista – mas, na prática, agressivamente capitalista – e que compete com os EUA o cargo de maior potência econômica do mundo. Por que não caçar briga com os chineses, um dos maiores parceiros comerciais do Brasil?

O presidente parece ter delegado essa missão especialmente aos filhos e ministros. De um lado, Eduardo e Carlos Bolsonaro acusavam a China publicamente de terem “causado a pandemia”, repetindo o discurso de Donald Trump. Do outro, o então ministro da Educação, Abraham Weintraub, propagava o ataque. No centro, Ernesto Araújo, ministro das relações exteriores (pasmem), citava no Twitter um filósofo chinês para insinuar que a “China iria falhar em seu interesse de dominar o mundo”.

Resultado: o ex-presidente Michel Temer teve que entrar nas negociações para liberar a importação dos princípios ativos para fabricação da vacina CoronaVac no Instituto Butantan. A relação problemática do governo com a China foi admitida até por integrantes da alta cúpula. O assunto chegou a ser um dos temas da reunião do presidente com ministros no Palácio do Planalto na tarde do dia 18, segunda-feira.

Para agradar Trump, não havia limites para Bolsonaro – e isso incluiu prejudicar nossa economia em nome do Tio Sam ou ser conivente/passivo com isso. Vale lembrar que, em 2019, num gesto de amor e generosidade com os EUA, o governo brasileiro decidiu ampliar de 600 milhões de litros para 750 milhões de litros a cota anual de importação de etanol com redução tarifária, beneficiando diretamente os norte-americanos, que são os maiores exportadores do produto ao Brasil.

Base de Alcântara, no Maranhão | Foto: Reprodução

Como se não bastasse, o Ministério da Economia ainda prorrogou uma isenção aos EUA de uma tarifa de 20% cobrada sobre a importação de etanol. Ao mesmo tempo em que beneficiou Trump, a medida prejudicou produtores do Nordeste brasileiro. “Mas o governo brasileiro deve ter ganhado algo em troca!”, você pode questionar. E ganhou: um aumento da taxa sobre o alumínio exportado para o país por fabricantes brasileiros, passando de 49,48% para 136,78%. Que maravilha, não?

Ah, e claro, não nos esqueçamos da famigerada Base de Alcântara, em que Bolsonaro assinou um acordo permitindo aos norte-americanos o lançamento de foguetes e satélites a partir da base espacial brasileira no Maranhão. Uma conquista do presidente Bolsonaro! Afinal, que país não sonha com uma nação estrangeira usando seu território em benefício próprio e tirando vantagens de todos os seus atributos demográficos para fazer lançamentos de foguetes e satélites?

O que restou?

Trump foi o primeiro presidente norte-americano a não ser reeleito para um segundo mandato em quase 30 anos; o 11º em toda a história política dos EUA. Sua saída da Presidência não foi só, digamos, complicada: foi desonrosa, patética, constrangedora. Havia, ainda, uma esperança republicana de que Trump pudesse retornar fortalecido e triunfante em 2024, devido à base de eleitores que ele conseguiu construir – eleitores esses, em boa parte, induzidos pela ideia de que Trump “os livrou das ameaças comunistas que assolam o mundo”. No entanto, até isso foi por água abaixo.

A persistente retórica furada trumpista de “fraudes nas eleições” – teoria essa refutada por absolutamente todas as autoridades eleitorais dos Estados norte-americanos – cavou 25% de sua cova política. Mais 25% foram consumados após o republicano insuflar apoiadores a invadirem o Capitólio, sede do congresso norte-americano, durante a confirmação pelos parlamentares da vitória do democrata Joe Biden. Os outros 50% são fruto de 4 anos de loucura desenfreada na Casa Branca. E pasmem: durante toda essa trajetória de declínio, enquanto Trump era alvo de desaprovação e repúdio por líderes políticos do mundo todo, ele ainda contava com um fiel amigo, camarada e companheiro.

Como um fiel cão que dá a vida por seu dono, Bolsonaro não só não repudiou a retórica de “eleições fraudadas” de Trump, como a endossou. Até quando os conselheiros de Trump e o próprio republicano, tacitamente, reconheciam a derrota, o presidente brasileiro continuou lá, firme na defesa do mestre.

O Brasil foi o último país integrante do G20 a reconhecer a vitória de Joe Biden nas eleições americanas. Bolsonaro parabenizou o presidente eleito nos EUA após 38 dias de sua eleição. Um dos últimos líderes mundiais a se manifestar. Já diz o ditado: vão os anéis, ficam os dedos. No caso do Brasil, perdemos os dedos, as mãos e os braços, ficando com tocos que agora acenam desesperadamente para o novo governo norte-americano.

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