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A radicalização do debate de campanha se tornou algo mais do que o jogo da verdade nua e crua: o tucano quebrou o mito sagrado em torno da presidente
Moradores receiam que empresa de curso de especializações venha a implantar faculdade no coração de um dos bairros residenciais mais tradicionais de Goiânia
Pedro Freitas
Professor Altair Sales Barbosa é, sem dúvida, um dos maiores estudiosos do assunto mostrado pela entrevista “O Cerrado está extinto e isso leva ao fim dos rios e dos reservatórios de água” (Jornal Opção 2.048) e sua opinião, como sempre, foi muito pertinente para o momento que vivemos.
O Cerrado é o berço de águas do Brasil e sua ocupação, sem critérios, implica sim em alteração no regime hídrico que prejudica o fornecimento de água potável nas cidades, assim como sua disponibilidade para a produção de alimentos, com ou sem irrigação; as atividades agroindustriais; e, no final, a qualidade de vida de humanos, animais e de toda a flora. Substituir a vegetação natural de Cerrado por lavouras e pastagens exige uma quota de responsabilidade de quem autoriza — o governo — e de quem executa — os empresários rurais.
Existem tecnologias que proporcionam manter a capacidade de captação de água e recarga de aquíferos próximos à da vegetação nativa. O uso dessas tecnologias não faz parte de políticas públicas ou de recomendações agronômicas, quando se trata da produção de alimentos, fibras e matérias-primas. O exemplo mais marcante é o entendimento dos princípios básicos do sistema de plantio direto, os quais, uma vez respeitados, aumentam a infiltração de água no solo e a promovem a recarga plena de aquíferos.
Pedro Freitas é Rio de Janeiro (RJ)
Email: [email protected]
“É preciso focar em pesquisas voltadas para recobrar o Cerrado”
Miranda de M. Obrigada pela entrevista! Extremamente educacional para mim. Perguntas que me vieram à cabeça — não é possível melhorar a situação fazendo: 1) Buracos profundos com pedras para captar a água das chuvas e reabastecer os aquíferos? (Vi algo assim sendo feito na Índia — muitos buracos relativamente pequenos); 2) Mudar o tipo de pavimentação das cidades para algum material permeável? 3) Educar a população e, sobretudo, os construtores e fornecedores de materiais de construção, não permitindo o uso externo de coberturas de solo impermeáveis? Essas ações, obviamente em paralelo com pesquisas voltadas a recobrar o Cerrado (o que agora vejo como crítico para o país), e vários experimentos de intervenção recuperativa — enfocando inicialmente nos sistemas hídricos — podem ajudar. Email: [email protected]“Esta já é a melhor literatura sobre a realidade que extinguiu o Cerrado”
José Carlos Marqui Excelente exposição do professor Altair Sales. Como cidadão consciente, considero esta entrevista a melhor literatura sobre a realidade que extinguiu o bioma Cerrado. Por falta de tempo, adiei várias audiências com o professor Sales, encontro sempre motivado pelos amigos Ortizon Filho e convites do professor Agostinho Carneiro. Foi melhor, pois agora tenho ampla noção dos conhecimentos, dedicação e carinho dos mestres do Instituto do Trópico Subúmido (ITS), voltados à conservação do Cerrado Nacional. Email: [email protected]“Era melhor indicar Caiado para a Saúde, mas isso não significa que ele não será bom na Segurança Pública”
Antonio Alves Conforme o mostrado na matéria “‘Bomba de Iris foi um traquezinho’, diz delegado Waldir sobre anúncio de Caiado como secretário” (Jornal Opção Online), o delegado Waldir tem razão: melhor seria ter indicado Ronaldo Caiado para a Saúde, mas isso não significa que Caiado não será um bom Secretário de Segurança Pública. Gregor Mendel, pai da Genética, não foi biólogo, era padre. Embora segurança seja uma questão técnica, não deve ser feita exclusivamente pelo secretário, o secretário toma decisões administrativas e dá fé aos documentos públicos. É a equipe técnica que faz o serviço. Acho que o delegado deve se lembrar de que José Serra (PSDB), mesmo sendo economista, foi ministro da Saúde no governo FHC. Email: [email protected]“Neoliberalismo é confundido pela esquerda com o liberalismo clássico”
Wesley Gomes O neoliberalismo de fato existe, como mostrado na matéria “A imbecilidade neoliberal” (Jornal Opção 1.979), mas ele é confundido pela intelectualidade esquerdista com o liberalismo clássico. O neoliberalismo não é nada mais que uma nova forma de intervencionismo e pode ser visto no Consenso de Washington. O neoliberalismo defende um Estado “menos intervencionista” e “mais eficiente”, onde haja uma boa margem para a economia de mercado, mas onde a mesma ainda fica submetida aos caprichos do Estado. Já o liberalismo clássico defende totalmente a economia de mercado e há economistas que são “minarquistas”, porque acham que deve existir o Estado mínimo, onde o mesmo não deve influenciar em quase nada na economia. Há também entre os economistas austríacos os anarco-capitalistas – que defendem a abolição completa do Estado, pois, segundo eles, o Estado distorce o valor conferido à propriedade privada. Então, o neoliberalismo não é nada mais do que o liberalismo clássico adaptado ao paladar socialista. Os marxistas dogmáticos insistem em dizer que o neoliberalismo é sinônimo de liberdade de mercado, quando na verdade não é, pois, mesmo assim, ele ainda defende uma economia planificada. Entendeu agora por que os liberais odeiam ser rotulados como “neoliberais”? Se você quer um exemplo de países com economias liberais, veja a lista da Heritage Foundation, onde mostra os países que têm o maior índice de liberdade econômica e vejam os que estão no topo e os que estão na lanterna. A partir dessa conclusão podemos afirmar que FHC e o PSDB são neoliberais, mas eles não são liberais, pois defendem um “Estado musculoso” (expressão do próprio FHC). Mas, mesmo assim, eles são considerados capitalistas e pró-mercado, pois, devido à intoxicação ideológica marxista nas universidades e escolas, mesmo no neoliberalismo, há mercado demais. O certo, segundo os marxistas, seria uma economia totalmente planificada (como em Cuba) ou semiplanificada (deixa uma parte minúscula parcialmente livre e o resto amarrado, como ocorre na China e no Brasil). Email: wesley_f_gomes@hotmail“Ronnie Von e Chico Buarque me decepcionaram”
Betinha Abreu
Concordo com o que foi exposto na matéria “Ronnie Von vira santo em biografia autorizada” (Jornal Opção 2.045). Quando eu era pré-adolescente, quando havia aquele movimento da Jovem Guarda e da MPB, eu virei fã do Ronnie e do Chico Buarque, que hoje me decepcionaram. O Ronnie ficou chato demais, muito arrogante com esse negócio de “conhecer tudo”. Acho que a gente deve demonstrar que conhece alguma coisa dentro de um contexto, e também por tentar ignorar sua história com a Ana Luisa, com quem ele acabou o casamento. Já o Chico decepcionou pelas suas escolhas políticas. Estou imaginando um livro cor de rosa.
Email: [email protected]
“Falar de Pio Vargas é dividir um sentimento pelo qual ainda me emociono”
Linda Rezende Muito obrigada pela brilhante volta ao passado, na matéria “Três poemas de Pio Vargas” (Jornal Opção 1.906). Pio Vargas passou por aqui como um cometa com luz própria em tempos de juventude, efervescência cultural e revolução. Com certeza, hoje, está brilhando no céu. Falar de Pio Vargas é dividir um sentimento pelo qual ainda me emociono como se ele ainda estivesse aqui. Ele era muito engraçado, gozador, brincalhão. Eu e vários colegas fazíamos parte da Comissão Nacional da Juventude e Pio era o presidente daquele órgão, que existia no PMDB, que era um partido probo e idealista, que nós, jovens, achávamos que poderia mudar o mundo. E, realmente, nós éramos meio revolucionários mesmo. Não concordávamos com as imposições políticas da época. Luramos contra a ditadura militar. Sem dinheiro, nós fazíamos pedágios pelas cidades para conseguir dinheiro a fim de ir participar das convenções em São Paulo, mais precisamente em Osasco. Lembro-me como se fosse hoje das noites frias. Tremíamos de bater queixo, pois tínhamos poucos agasalhos e o frio era de doer na pele. Alojávamo-nos em um ginásio público, mas lá estávamos. Foram muitos ônibus nessa época que saíam da Praça Cívica em direção a São Paulo e Pio Vargas foi convidado à mesa de honra, como tinha de ser. E quem foi fazer a abertura do evento? Ele, o presidente do partido, o presidente do Congresso Nacional, o maior mito de nossa história contemporânea: Ulisses Guimarães. Após os cumprimentos e elogios aos jovens que ali estavam, o então deputado Ulisses, já velhinho, afirmou: —Eu sou um peemedebista histórico... E sem maiores cerimônias, Pio Vargas o interpelou: — Histórico sou eu, presidente, o senhor é pré-histórico. A gargalhada foi geral, inclusive do próprio Ulisses. Daí em diante a convenção transcorreu no maior clima de alegria e entusiasmo. E a tirada agradou tanto ao velho Ulisses que, muitas vezes depois, em ocasiões diversas, afirmou que era um “peemedebista pré-histórico”. Saudades do meu amigo Pio por termos dividido muitos momentos agradabilíssimos. Email: [email protected]
Marconi Perillo e Iris Rezende disputam pela terceira vez um 2º turno em que a linguagem da modernidade é o grande diferencial
Marcelo Miranda reafirma que fará gestão voltada para os municípios, com muito diálogo com os prefeitos
Liderança peemedebista declara apoio ao adversário Marconi Perillo e diz que seu partido precisa se renovar
Há quem diga que vivemos a era dos políticos analógicos e dos eleitores digitais; as eleições deste ano, entretanto, provaram que vivemos uma fase de transição
Em 32 anos, maior partido de oposição teve apenas dois nomes na disputa pelo governo — com exceção de Santillo em 1986, que se impôs ao grupo irista — e precisa renovar discurso e atores
A quantidade de chuvas nas regiões Centro-Oeste e Sudeste será 67% da média histórica, o que contrasta com a Região Sul, onde tem chovido acima da média, com 147%
Escrito em estilo fluente e elegante, solidamente embasado em documentos, publicações e depoimentos — além de uma excelente iconografia — “Getúlio: Da Volta Pela Consagração Popular ao Suicídio (1945-1954)” é percorrido com o interesse de um thriller de ficção dramática
Quase 60 anos depois do assassinato da família Clutter, imortalizado por Truman Capote na reportagem literária mais famosa de todos os tempos, o clássico “A Sangue Frio”, a cidade de Holcomb, nas planícies do oeste do Kansas, parece condenada a um luto infinito
Xico Sá nada tem de ingênuo e, por isso, sabe que as empresas privadas têm suas regras e negócios. Há pouco, para provar que a imprensa censura aqueles que apoiam a presidente Dilma Rousseff, o jornalista e escritor tentou, com certa matreirice e alguma brejeirice, publicar uma declaração de voto num artigo-crônica que escrevia na caderno de esportes da “Folha de S. Paulo”. Ciente da orientação editorial do jornal, o editor da área barrou o texto e comunicou à direção. No lugar de “punir” Xico Sá, com um possível afastamento, por descumprir normas editoriais, o editor Sérgio Dávila propôs que escrevesse um artigo, na página 3, “Tendências/Debates” — espaço nobre —, declarando seu voto na candidata do PT a presidente da República. Xico Sá, evidentemente, não quis. Porque, se aceitasse, não poderia acusar a “grande imprensa” de vendida para o tucanato. Porém, com a prova de que o jornal agiu de maneira democrática e aberta, a situação do “petista” ficou complicada. A esquerda patropi já produziu apparatchiks mais hábeis e menos trapalhões.
Rafael Teodoro
Naquela manhã de domingo o telefone tocou e tocou e tocou. Ele estava ao lado do aparelho. Mas hesitava em atender. Tinha medo de que se repetisse a noite anterior.
Sim, uma noite de sábado, céu limpo, clima quente. Uma noite inofensiva como qualquer outra não fosse por um pequeno detalhe: naquele dia eles completavam doze meses de namoro. Ele então pega o telefone e liga para ela. Animado, quer conversar mesmo sem ter assunto. Achava que ela não lembraria da data. Era estranho dizer isso, mas ele sempre havia sido mais atento aos detalhes da relação, aos pequenos detalhes, aqueles que fazem a vida sair da banalidade tão comum. Um desenho de coração num caderno, uns versinhos escritos apressadamente, uma caixa de bombons, as flores... Ele preparava tudo com o esmero de um confeiteiro que despeja a cobertura sobre um bolo de aniversário para alguém muito especial. Esse alguém era ela.
Ele só queria vê-la feliz.
Todavia, ela não parecia valorizar tanto aqueles pequenos gestos. E assim, do outro lado do telefone, naquele sábado quente e silencioso, ele escuta uma voz sem nenhum entusiasmo carinhoso. Ele ouve uma voz fria e indiferente.
Dura, seca, de partir o coração.
No diálogo que se seguiu ela cobrava satisfações. Fotos compartilhadas, recados em redes sociais, conversas com colegas de trabalho... Tudo era motivo de aborrecimentos. Por vezes, mui arrogante, ela deixava-se envaidecer e cobrava dele um pedágio pela passagem na sua vida. “Se soubesse que tu eras assim, não me interessaria...” Pronto. Agora ele se sentia qual um estelionatário a enganá-la. E, no entanto, ele nunca a enganou.
Ao telefone, ela tornava a falar com um ar de despeito, como se a doação do amor não fosse entrega, e sim caridade. Como se tudo o que viveram até ali — as declarações, os presentinhos, os abraços, os beijos, os planos para um futuro juntos — não significasse nada. Tudo o que ela via eram os seus desejos, as suas vontades. Egoísta, ela queria controlá-lo.
Quanto de ciúmes havia naquilo ele não sabia. Talvez fosse uma faceta escura de um amor tão puro entre grandes árvores azuis, prenhes de frutos podres que principiavam a cair. Ou talvez fosse o temor que acomete quem ama com tanta intensidade que prefere matar a perder. E aquelas brigas, aquela hostilidade gratuita, súbita, inexplicável, feriam o coração dele. E o amor ia morrendo aos pouquinhos, afogado na desconfiança.
Ele só queria que ela se libertasse do seu passado. “Eu já esqueci”, ela dizia. Dizia não porque fosse mentirosa, mas porque achava que pudesse enganar a si própria. No fundo, queria amenizar a dor que a consumia ante a lembrança de outros homens, homens que a fizeram transitar pelas sendas perigosas da raiva e do ódio. Os mesmos homens que a usaram um dia, que a ludibriaram, que fizeram da sua sensibilidade uma ponte para o desespero humilhante de quem confia e é traída, de quem se entrega para o amor e se percebe quedar junto à armadilha da frialdade mais abjeta — na qual se homizia a triste figura dum coração de pedra. Altiva, ela não aceitava que seu passado era uma prisão da qual ela ainda não pudera se desvencilhar. Era um fardo que ela carregava como um medalhão sobre o peito, que resplandece o brilho túmido duma cegueira branca que terminava por turvar a visão de todos à sua volta. E começava a matar até mesmo o amor, perdido que estava num labirinto de suspeitas e dúvidas.
Naquela noite, então, depois de ouvir tudo o que ela disse, pela primeira vez em 12 meses de namoro ele duvidou. Pela primeira vez, após todas as crises, ele se viu balançar, vacilar no sentimento para o qual ele não havia posto obstáculo — e entregara-se completamente. Erguia-se pouco a pouco um muro com os tijolos do cansaço e da desesperança. Ao final da construção, ele temia seriamente que ela não pudesse mais ver os momentos felizes, o desenho de coração num caderno, os versinhos escritos apressadamente, a caixa de bombons, as flores... Nada! Nem um instante de alegria na memória, nem uma gota de carinho num oceano de mágoas. Absolutamente nada. Pela primeira vez ele teve medo de se afogar.
Inconformado, sabia que os fantasmas do passado perseguiam-na. Ela insistia em negar. Eles haviam prometido um ao outro experimentar o novo, recomeçar do zero, só nós dois, por Deus, eles juraram! Mas ela continuava perdida no terreno pedregoso das lembranças antigas, irresoluta e desconfiada. Sem perceber, ela não via que o terreno ficava próximo a um mar de entulhos; que as lembranças eram como pedras amarradas ao corpo daquele amor que se tornava cada vez mais pesado. Ela prendia o sentimento dele e o lançava contra as ondas daquele mar revolto, indomável, cruento, cheio de entulhos. O sentimento ia se afogar. Os fantasmas do passado agora surgiam redivivos, transformados com a face do ceifeiro, que os vinha buscar para a morte, enquanto o amor estilhaçava moribundo.
Ele só queria entender por que ela o maltratava, por que essa desconfiança imotivada, esse receio possessivo, tanta infantilidade! Por quê? Se ela havia sofrido tanto e, como ele, desejava se libertar, por que não acreditar naquele amor? Por que não se dar essa chance?
Naquele momento, ele compreendeu finalmente que estava a ser processado. Era réu de um crime que não tinha perpetrado, pecador de um pecado que não havia cometido. Ele era o culpado de forma sumária, sem direito a um julgamento justo.
Pena. Ela não via que ele não era o criminoso, o pecador, o bufão que se aproximava para humilhá-la outra vez ao brincar com seus sentimentos. Na sua cegueira branca, ela não entendia que o amor que ele dava a ela era santo, pois oferecia a redenção. Era uma porta que se abria no presente para um futuro de felicidade — uma felicidade que ela certamente nunca tinha sentido. E que ela própria, ensimesmada, sabia não ser possível sentir com mais ninguém. Porque aquele sentimento era puro e sacro; não vinha para consumi-la na maldade terrível da perfídia velada; vinha, isto sim, para retirá-la daquele quarto escuro solitário, onde ela se trancara desde tempos imemoriais para a vida. Ele queria resgatá-la. Oferecia-lhe sua mão. Infelizmente ela estava cega. Não queria aceitar.
Naquela noite de sábado, pela primeira vez ele desligou o telefone. E pela primeira vez não sentiu mais vontade de ligar. Logo ele, que sempre quis conversar com ela, dedicar a ela suas melhores palavras! Ele sabia que alguma coisa estava errada.
No domingo, quando tornou a si após sair da imersão em pensamentos que o remetiam à noite anterior, primeira vez em 12 meses de namoro ele hesitou em atender ao telefone. Não sabia se ela telefonava arrependida, se queria se desculpar. E temia o contrário: que ela tornasse à sua ira, que descontasse a sua raiva injustificável, enquanto queimava na fogueira dos ciúmes mais pueris. Então pela primeira vez ele sentiu medo de acabar. Sentiu um medo absurdo de que ela não tornasse a si, que não vislumbrasse os riscos do caminho que ela trilhava. Era um caminho sem volta, decerto. Ele só não sabia se ela queria parar por ali e voltar a cultivar o amor.
Por isso, enquanto o telefone tocava insistentemente, ele olhou de novo para o aparelho. O barulho irritava-o. Ele já se via compelido a tomar uma atitude. Que faria? Ignorá-la seria covardia. Mas ele sabia que, se a atendesse, aquele poderia ser o momento derradeiro duma história de amor tão bonita. Ou talvez não! Talvez fosse justamente a oportunidade de que precisava, a conversa que permitiria a ela entender que não devia ocupar-se com miudezas, e que não era justo puni-lo por faltas que ele não protagonizou, que não era correto expiar os sofrimentos passados nas costas de um inocente. Talvez. Só talvez ela então percebesse o óbvio: que os 12 meses que passaram juntos haviam sido os momentos mais felizes da vida dele.
E foi nisso que ele acreditou, quando, vencendo a hesitação do início, tomou em mãos o telefone e decidiu dar a si próprio uma última chance de viver aquele amor.
Rafael Teodoro é advogado e crítico de música e literatura.
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Tiago Henrique Gomes da Rocha: um assassino tão assustador que parece ter saído de algum romance policial dos mais exagerados l Foto: André Costa[/caption]
Os melhores romances sobre a crueldade humana — como “Crime e Castigo”, do russo Fiódor Dostoiévski, e “A Sangue Frio”, do americano Truman Capote — são, quase sempre, baseados em casos reais. Mas é a imaginação poderosa dos escritores que tendem a plasmar os crimes e a torná-los emblemáticos. Fica-se, assim, com a impressão de que os escritores exageram e até forçam a realidade. Mas o fato é que esta às vezes é mais fantástica do que a ficção.
No seu romance, Dostoiévski constrói a história de um criminoso intelectualizado, Raskólnikov, que pretende cometer o crime perfeito e lógico. Mata duas mulheres e, muito bem investigado, é preso.
Truman Capote leu no “Times”, em 1959, uma notícia sobre o assassinato brutal de uma família no Kansas e propôs escrever um texto para a revista “New Yorker”. Astucioso, percebeu de imediato que o crime continha material para uma obra mais alentada, mas que precisava ir além do jornalismo tradicional, que faz um recorte rápido da realidade e o apresenta aos leitores como se fosse um retrato preciso da realidade.
No Kansas, Capote começou uma investigação detida sobre as mortes da família Clutter (o casal Herbert e Bonnie e seus filhos Nancy e Kenyon) e a respeito dos assassinos Perry Smth e Dick Hikcock. Chegou a ficar íntimo dos criminosos, sobretudo de um deles, e em 1965, na “New Yorker”, publicou a história que, depois, foi levada ao formato livro com o título de “A Sangue Frio”. Explicar um criminoso à exaustão, suas motivações, não é perdoá-lo, e sim uma forma de entender as ações dos homens — que continuarão matando independentemente de leis flácidas ou rígidas.
Há críticas ao romance de não-ficção de Capote, sugerindo que exagerou e que imaginou mais do que devia, mas, na verdade, seu livro iluminou a história, tornando-a, trágica e humanamente, mais compreensível. Não à toa psiquiatras, psicólogos e advogados-criminalistas o estudaram e estudam detidamente.
Willian Novaes, diretor da editora Geração, sugere que um jornalista de Goiás escreva um livro sobre a história do assassino serial Tiago Henrique Gomes da Rocha, de 26 anos, que matou 22 mulheres e 17 homens (pode ser mais e pode ser menos). É possível escrever dois tipos de livros a respeito. Uma obra de oportunidade, escrita em cima da hora, relatando o básico, os crimes e o sofrimento das famílias, e uma obra mais detida, ao estilo de “A Sangue Frio”.
O momento, claro, é de consternação e a sociedade quer e exige que Tiago Henrique, que trabalhava como vigilante e tem porte de galã, seja condenado. É inescapável: não há outro caminho. A pena do assassino deve ser a mais alta possível.
Entretanto, passada a pressão inicial, talvez seja o caso de se investigar mais a fundo a história. Não se trata de apresentar muitas novidades, por exemplo novos crimes — é provável que se chegará a um número limite —, mas sim de alargar a compreensão de quem é, de fato, Tiago Henrique. A compreensão inicial, o fato de que teria sido abusado sexualmente na infância, daí sua “raiva do mundo” — matar seria uma forma de aplacá-la —, é importante, mas é possível ir além disso.
Para entender e explicar Tiago Henrique, o jornalista (ou escritor) terá de se despir de certo preconceitos e ouvi-lo várias vezes, assim como sua família, para criar um perfil para além do que afirma o criminoso (o jornalista e escritor americano Gay Talese só entendeu a fundo a máfia ítalo-americana ao se tornar amigo de um mafioso, chegando a frequentar sua casa e conviver com sua família). A “raiva do mundo”, como resultante do assédio sexual quando tinha 11 anos, explica alguma coisa, mas não tudo. O jovem criado pela mãe, sem a presença do pai, odiaria mulheres diferentes daquela mulher que o ama incondicionalmente e é seu provável modelo de perfeição feminina? Trata-se de um homem acima de tudo mau?
O rótulo “psicopata” explica muitas coisas, mas não tudo. Psicopatas têm comportamentos parecidos, mas com variantes — daí que é preciso definir o que é específico do caso de Tiago Henrique.
Aquele que quiser escrever sobre o criminoso deverá escavar mais fundo, quem sabe com a ajuda de psiquiatras, psicólogos, sociólogos, antropólogos e linguistas. Policiais e peritos devem ser consultados. O caso é de uma riqueza ímpar e sugere uma abordagem menos perfunctória.
Por que Tiago Henrique preferia atirar no peito (lembraria mãe,maternidade?) de algumas mulheres e não na cabeça? Ele apresentou uma explicação pouco esclarecedora, mas, ouvido com atenção e em circunstâncias diferentes, certamente poderá apresentar uma versão mais detida. Há detalhes, mesmo nas falas curtas publicadas na imprensa, que precisam ser examinados pelo jornalista, o que for escrever o livro, com o rigor de um legista. Entender bem o jovem criminoso possivelmente será útil para que se compreenda outros criminosos e se esclareça crimes parecidos.
Com uma visão do amor, dos sonhos, das utopias, dos sentimentos, da solidariedade, enfim, de valores tão refratários nesse terceiro milênio, Miguel Jorge não se intimida nem se aniquila diante da “ambiguidade das facas”, numa atmosfera em que nos sentimos como num campo de disputas

