“Em janeiro, o Tocantins volta a ter um governo perto do povo”

Marcelo Miranda reafirma que fará gestão voltada para os municípios, com muito diálogo com os prefeitos

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Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Eleito em primeiro turno naquela que talvez tenha sido a mais cruenta campanha ao governo, em que seus adversários usaram o costumeiro arsenal de baixarias do chamado siqueirismo, o peemedebista promete muito trabalho. Marcelo Mi­randa, que vai governar Tocantins pe­la terceira vez, tem um objetivo claro: trazer a moralização para a administração pública, com muitos programas e ações para dinamizar a economia do Estado, que está combalido pela gestão desastrosa de Sandoval Cardoso e Siqueira Campos.

Marcelo Miranda fala das dificuldades que enfrentou na campanha, afirma que espera uma transição tranquila, para tomar pé da situação, e promete dar um choque de gestão assim que assumir. “Precisamos de ações enérgicas imediatamente na área de saúde, por exemplo, que está um caos no Tocantins”, diz o governador eleito.

Euler de França Belém — O sr. é quase um herói em sua eleição, no Tocantins, porque repetiu-se algo ocorrido no passado. Carlos Lacerda disse à sociedade brasileira que se Juscelino Kubitschek fosse candidato não podia ser eleito, se fosse eleito não podia assumir, se assumisse tinha de cair. Com o sr. não foi diferente. O sr. foi eleito governador duas vezes, se elegeu senador, e há uma perseguição implacável, numa política não institucional num sistema chamado siqueirismo. Mas o sr. venceu tudo isso e teve o apoio da população que quis derrubar esse sistema. Como o sr. se sente hoje, com essa vitória maiúscula no Tocantins depois das grandes dificuldades que enfrentou para ser candidato?
Não me considero herói. Eu me lembro que aqui mesmo, antes da convenção, falamos sobre essa perspectiva. Já tinha na minha cabeça essa história, semelhante à do Carlos Lacerda, em que meus adversários diziam que eu ganho, mas não levo. Vi isso direto na campanha, eles falavam o Marcelo ganha, mas não é diplomado e não toma posse. É inadmissível isso na política brasileira, principalmente num Estado jovem como o Tocantins, onde eles tentam transmitir para a sociedade que só se ganha no tapetão. Meus adversários só pensam em ganhar no tapetão. Das oito eleições realizadas no Tocantins, só não disputei a primeira, ou seja, disputei sete, sendo três de deputado estadual, duas de governador, uma de senador e agora novamente de governador. Venci todas. Se a população tivesse dúvidas, não teria me dado mais essa vitória. Fui bombardeado durante todos esses anos, desde o ano de 2006 não tenho sossego na minha vida, mas a persistência, a determinação, o compromisso que sempre tive com a sociedade, me levaram a disputar os cargos quando convidado. Infelizmente, ainda há essa visão retrógrada daqueles que não entenderam que é preciso ir para frente, pensarmos no presente e no futuro. Eu conquistei mandatos pelo diálogo, por estar presente na dia a dia da população, independentemente de estar no cargo. Conseguimos traduzir um sentimento popular das famílias, não só como político, mas como pai, como filho. Essa mudança que queríamos traduzir teve resposta nas urnas.

Cezar Santos — Há o simbolismo de fim de uma era de prática nefasta na política tocantinense com a sua vitória?
Foi a campanha mais importante no Estado desde a criação do To­­cantins, sem desmerecer os ou­tros que disputaram no passado. A­cho que nossa eleição mostrou uma nova realidade. E que fez surgir novas lideranças em vários partidos, independentemente de quem es­tava do lado de lá ou do lado de cá.

Euler de França Belém — E que mostrou a autonomia do eleitorado diante do poder.
Sim, a autonomia do eleitor. Lá na base nós sentíamos isso. In­felizmente ainda tem aquela velha política do clientelismo, o que temos de diminuir, de acabar, e só conseguiremos com a mudança de paradigmas, de mentalidade. É uma página virada. Eles (os adversários) falarem que vão entrar com processo (para mudar o resultado da eleição)… Eu respeito o Judi­ciário brasileiro, tanto é que hoje estou credenciado, fui registrado, mais uma vez, como fui registrado no Senado, por ter ganhado a eleição, mas ainda está esse imbróglio até hoje [Marcelo Miranda não pôde assumir o mandato], mas tenho até 31 de dezembro para reconquistar a minha vaga.

Euler de França Belém — Se reconquistar a vaga, como fica?
Assumo e fico até o dia 31 de dezembro, aí renuncio para assumir o governo do Tocan­tins, depois o suplente assume. O primeiro suplente é o Eudoro Pedroza, o segundo é o Brito Miranda.

Euler de França Belém — Cos­tumo brincar dizendo que sua campanha foi a campanha da boca contra a campanha do bolso. Cam­pa­nha da boca porque o sr. tinha pou­cos recursos, di­ficuldades i­mensas até por falta de estrutura, mas apresentou projetos. Seu ad­versário Sandoval Cardoso, mes­mo sendo anódino, tinha muitos re­cursos. Qual foi o segredo da vitória?
Não quero dizer que fui vítima. Mas nunca imaginei disputar uma eleição como essa. Nas vezes anteriores, foram campanhas respeitosas. Mas agora foi de um desrespeito total. A boca, sem recursos, mas ganhamos no braço, porque tínhamos o que dizer, tínhamos credibilidade para chegar lá no Bico do Papagaio, em qualquer lugar, e falar o que precisávamos falar. Eu podia falar o que fiz no passado, dizer que tinha ido apresentar minhas propostas. Foi uma campanha modesta, propositiva. O eleitor pôde ver nossas propostas nos programas eleitorais. Eu ia aos distritos e as pessoas falavam que tinham ido à cidade e visto os nossos programas. Fizemos uma campanha modesta e respeitosa, mas meu adversário entendeu de fazer o contrário. No final dele dizia que o problema dele era o tempo, que não tinha tido tempo para que as pessoas pudessem conhecê-lo. Ou seja, ele reconheceu que a população não o conhecia. Ele baixou tanto o nível que quis até entrar na questão pessoal. Ele passou a ser conhecido pelo aspecto negativo. Eu sempre o respeitei, mas ele bateu tanto que eu tive de responder, porque a sociedade também estava cobrando uma resposta. Resumindo, posso dizer que foi uma das melhores campanhas que fiz na minha vida.

Cezar Santos — Já se previa que seria uma campanha muito agressiva, suja mesmo. Não lhe causou desalento em algum momento, ver tanta baixaria?
Não, e sabe por quê? Primeiro, porque eu estava muito preparado, Deus estava me guinado. Em segundo lugar, os meus verdadeiros companheiros, nos momentos mais difíceis, estavam no meu lado. Não me abalei nenhum minuto, se o fizesse, todos nós poderíamos sucumbir. Assumi o compromisso de ser o chefe, o comandante, e não podia fraquejar naquele mo­mento. Me valeu a experiência que ad­quiri na planície, e mesmo nos momentos em que governei o Es­tado. Isso me credenciou. Eu não podia ser irresponsável em mostrar fraqueza. Se eu estivesse intranquilo comigo mesmo, não poderia ir para as praças falar com a população. Se tínhamos de percorrer tantos municípios num dia, eu dizia vamos embora, independentemente de denúncias que eles faziam. A população deu a resposta. Não tive desalento em nenhum momento.

Frederico Vitor — Ter vencido no primeiro turno fortalece sua eleição?
Sem dúvida. Por isso gostaria de aproveitar a oportunidade para agradecer toda a população tocantinense, que me deu mais essa oportunidade de governar o Estado, a partir de janeiro. Foi uma campanha propositiva, em que tivemos a oportunidade de debater. Nós reelegemos a senadora Kátia Abreu, pelo seu belíssimo trabalho, e que consumou com sua reeleição na Confederação Nacio­nal da Agricultura (CNA). Ela é uma grande parceira do governo federal. Agradecer também a eleição dos quatro deputados federais, dos oito. Eu cumprimento os 24 deputados estaduais, independentemente de cor partidária, e também aos 8 deputados federais. Quero cumprimentar não só os 360 mil que confiaram em mim, mas a toda a população. Em janeiro, Marcelo Miranda volta a governar para todos. Como preguei “Um Governo mais Perto de Você”, será um governo mais perto da população. Respeitando as instituições. Quem ganhou não foi Marcelo Miranda, foi um governador municipalista, que estará em todas as regiões, conversando com os prefeitos. Come­çamos com um time, aumentamos esse time e nele não tem reserva. Todos ganharam.

Euler de França Belém — Quando assumir, o sr. terá um grande problema, que é o Igeprev [Instituto de Gestão Previdenciária do Estado do Tocantins], que sofreu desvios milionários. Como o sr. vai tratar essa questão.
Vou até as últimas consequências, custe o que custar. Vamos tentar recuperar o que é recuperável, porque tem coisas que não recupera mais. Foi um rombo de mais de R$ 1 bilhão. O recurso é do servidor público, descontado na folha de pagamento, e foi simplesmente desviado e vamos ter de recuperar. O rombo é muito grande. Quero mais uma vez tranquilizar os servidores públicos do meu Estado porque vamos atrás disso.

Euler de França Belém — Tem alguma ação do Ministério Público denunciando isso?
Tem, foi dado entrada.

Cezar Santos — Não há uma CPI [Comissão Parlamentar de Inquérito] em curso na Assembleia Legislativa do Tocantins?
Sim e quero parabenizar aqueles que estão lutando para que a CPI não vire pizza. Pois se ela não for concretizada até o dia 31 de dezembro, vamos cobrar uma nova CPI. Mesmo levando aos Tribunais não poderemos deixar passar. Fui arguido por vários segmentos. No Instituto de Pre­vidência devemos fazer tudo que é possível para recuperar o que foi desviado.

Marcos Nunes Carreiro — O sr. foi eleito, mas não conseguiu maioria na Assembleia Legislativa. Como governar o Estado sem a maioria na Casa, inclusive com a presença de Eduardo Siqueira Campos, que foi o mais votado?
Primeiro que a Assembleia é formada de 24 representantes. Já fui deputado estadual por três mandatos e presidi aquela casa por quatro anos, de 1998 a 2002. Não vejo dificuldade nenhuma na convivência com o Parlamento. Nós elegemos oito com a nossa coligação. Nossa aliança foi de quatro partidos. Tenho absoluta certeza que a Assembleia Legislativa não vai faltar aos interesses maiores do Estado. Vejo que não terei dificuldades de convivências, e os deputados que foram eleitos representam uma renovação muito grande. Estou muito tranquilo para governar. Nesse primeiro momento nós fizemos uma minoria que é responsável e comprometida.

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Governador eleito do Estado do Tocantins, Marcelo Miranda: “Minha preocupação é fazer um bom governo a partir de janeiro de 2015 e mostrar à população que ela acertou em nos escolher” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Euler de França Belém — Há a possibilidade da sua aliança eleger o presidente?
Vou procurar discutir com a nova legislatura. Não tenho dificuldades com vários deputados da oposição, que trabalharam comigo quando governador. Na verdade não tenho inimizades. O que tenho são adversários políticos, alguns realmente não são fáceis de lidar.

Euler de França Belém — Há nomes cotados?
Até este momento não. Acredito que aqueles que têm pretensão ainda estão na ressaca da eleição. Mas vejo que em nosso grupo, todos estão aptos e a presidência da Assembleia será bastante discutida. Vai haver sensibilidade dos parlamentares na importância da parceria com o governo.

Cezar Santos — A transição de governo já está sendo feita? Não haverá dificuldades, até para que o sr. saiba a real condição das finanças do Estado?
Estou conversando com alguns setores, e a equipe de transição está sendo montada. Eu já disse à imprensa que gostaria de ter esse apoio do governo para que pudéssemos fazer essa transição transparente e respeitosa. O governo acenou naquele primeiro momento. Estamos aguardando em virtude deste segundo turno das eleições presidenciais, principalmente no Tocantins, e eu tive o privilégio de ter sido o único governador eleito no primeiro turno na Região Norte.

Euler de França Belém — Mas o governador chegou a dizer que somente fará a transição após a sua diplomação.
Eu espero que isso não aconteça, que seja apenas um ruído. Não vejo diplomação num prazo final até dia 19 de dezembro. Vejo que esta transição é importante, e tenho certeza que o governo não tem o que esconder. Eu também conheço um pouco a máquina administrativa. A equipe que estamos montando será de técnicos.

Euler de França Belém — O sr. já sabe o montante do orçamento para o próximo ano?
Vou ter acesso agora a esta informação. O governo precisa ter a sensibilidade de nos chamar a­go­ra para discutir a questão do orçamento do Estado. Sempre foi as­sim em todos os Estados. Na mi­nha época não foi diferente. Não é bom que o governo que faz a transição venha a inviabilizar algum setor da próxima administração. Espero que o governo seja sensível nesta discussão do orçamento. Não tenho como falar de números agora, até por não ter os dados.

Marcos Nunes Carreiro — Alguns políticos eleitos pela sua base dizem ou cogitam a possibilidade de o sr. abrir uma auditoria nas contas públicas.
A partir do momento que tivermos as devidas informações da equipe de transição, não vou abrir mão disso. O que recebermos a população vai saber. O governo tem dois meses para organizar a casa. Ele não pode continuar com a casa desorganizada como está, pois é um desgoverno total, a responsabilidade do governo agora é colocar a casa em ordem, pois já se foi a Lei de Responsabilidade Fiscal. Como eu disse, vai depender do governo atual para que possamos tomar certas decisões. O certo é que vou dar um choque de gestão. Isso não significa demissão, como tentaram espalhar durante a campanha, quando tentaram jogar os servidores públicos contra mim. Mas não conseguiram. Graças a Deus! Se precisar nós vamos fazer mesmo (auditoria). Não vou titubear na próxima administração, de forma alguma.

Marcos Nunes Carreiro — Como será feito esse choque de gestão?
Temos problemas seriíssimos na saúde em todos os setores. Se precisar buscar fora pessoas para alguns destes setores assim o farei. Vamos buscar técnicos preparados e conhecedores da área para fazermos as mudanças necessárias. Atualmente, faltam 174 tipos de medicamentos. No meu governo não se vai dar calote em fornecedor, pois estaremos presentes em tudo. Eu vou comandar de perto, pois o governo é meu e estará sob meu comando. Auxiliar vai entender da importância de seu chefe. Pela primeira vez instituiremos aos assessores um contrato de resultado. Trata-se de um contrato para os nomeados que vão ter um ano de prazo para mostrar resultado. Haverá metas a serem cumpridas. Isso é choque de gestão.

Cezar Santos — Está prevista uma reforma administrativa?
Sim, vamos trabalhar nestes próximos dois meses. E posso dizer que o único secretário nome­ado até o momento sou eu. Eu co­nheço a máquina administrativa. Não direi que o atual governo au­mentou ou diminuiu pastas, mas no meu governo, se precisar diminuir, nós iremos diminuir. Teremos que enxugar a máquina, fundir al­gu­mas áreas, por exemplo. Fare­mos isso porque é um absurdo ter tantas secretarias e autarquias. Que­re­mos ter uma máquina enxuta. Vol­to a dizer: choque de gestão não é demissão. Porém, instituiremos os concursos públicos. E di­go: o Tocantins irá surpreender não apenas os tocantinenses, mas o Brasil.

Euler de França Belém – E qual será a surpresa na área da saúde?
O governo anterior prometeu três hospitais: o de Gurupi, o de Araguaína e o de Araguatins. E havia recursos para fazer as obras, pois a senadora Kátia Abreu (PMDB) os havia assegurado. Os de Gurupi e Araguaína ainda estão na fase de terraplanagem e em Araguatins até a placa da obra sumiu. Os hospitais que existem nessas três cidades já não comportam mais a demanda e pode-se dizer que já estão virando labirintos, pois aumentam de cá, puxam de lá, com tantas reformas e ampliações. A construção dos hospitais é de suma importância e iremos buscar recursos para isso. Não temos como fugir disso. Por exemplo, o Hospital Geral de Palmas, quando assumi o governo em 2003, estava em 30% do serviço. Terminei a obra e, inclusive, quem inaugurou foi o então presidente Lula. Agora, aproveitando o período eleitoral, começaram a fazer mais um andar nele, uma obra realizada sem o menor cuidado, a toque de caixa. O resultado é que quando chove, o hospital é inundado. Está caótico. Assim, reconheço que é necessário construir hospitais, mas, primeiro, precisamos ordenar o serviço. Um exemplo: visitei o hospital de Araguaína, encontrei profissionais da época em que eu era governador, que continuam lá, e eles me disseram que uma das grandes dificuldades que enfrentam é que, às vezes, se deslocam quase 800 quilômetros, se contarmos ida e volta, para participar de reuniões em Palmas. E, às vezes, nada é resolvido. Ou seja, é preciso descentralizar os serviços. Isso é necessário. Passaremos para a gestão de OSs [Organizações Sociais]? Não. Essa medida pode ter dado certo em outros Estados, mas no Tocantins não funcionou.

De início, faremos ações emergenciais, pois sem isso não conseguiremos fazer a saúde voltar a funcionar. Durante a campanha eu me reuni com a classe médica e com o Conselho Regional de Medicina e eles me disseram: estamos vivendo um momento de caos na saúde. Assim, vejo que os primeiros dias de governo serão de luta mesmo. Precisamos de mais médicos, mais remédios e mais atendimentos dignos aos pacientes. Vamos implantar também o programa Saúde Mais Perto de Você e centros de especialidades nas regiões, além do Crer, cujo projeto já está pronto e será instalado em Araguaína.

Então, acredito que será algo impactante. Agora, precisamos recuperar a autoestima dos nossos profissionais. Precisamos de administradores hospitalares. E em alguns setores eu terei que me aprofundar. Por exemplo, a questão da mortalidade infantil. Uma criança morre a cada três dias no Tocantins por falta de atendimento médico. São dados. Morreu uma criança em Colinas, porque ficou 15 dias esperando por uma UTI aérea, que não estava em serviço porque o governo não pagou. E não adianta o governo tentar esconder isso. Foi verdade. Tem que assumir essa dívida com a família. Faltam UTI nos hospitais. Presenciei isso em Gurupi e Araguaína. Está um caos total na saúde do Tocantins. Ou seja, é um desafio e faremos tudo isso, custe o que custar.

Frederico Vitor – E o que o sr. fará na segurança pública?
Tolerância zero. Eu lancei um programa na minha campanha: A Polícia Está de Olho. Nós vamos ter que voltar a força-tarefa com a integração das Polícias Civil, Militar, Guarda Metropolitana com a implantação da central de operações policiais de combate ao crime e à violência. Mas o que precisamos fazer? Há um déficit hoje, principalmente na Polícia Militar. No meu último governo, nós acrescentamos 1.800 novos policiais militares. No governo que renunciou, havia sete soldados. Hoje, há uma demanda de 3.800 militares, entre policiais e bombeiros. Nós temos que entrar imediatamente com um concurso público para 1.300 novos policiais para reduzir um pouco a demanda. Como fazer? Aí entra o orçamento do Estado. Por isso, precisamos trabalhar ostensivamente até o dia 30 de dezembro, desde que haja disposição do atual governo, para que possamos participar do orçamento e, assim, ter os recursos necessários para realizar isso. Mas também teremos a parceria do governo federal. O ministro da Justiça, que esteve no Tocantins recentemente, nos garantiu essa parceria. Então, tenho certeza de que a tolerância zero irá funcionar. Queremos levar mais segurança à população. Hoje, temos situações em que, por falta de pagamento, se um carro vai para a oficina, a empresa que cede os carros para as polícias não o devolve. Imagine só. Durante a campanha, um policial militar me autorizou a falar que eles estão com dificuldades para trabalhar. Não tem armas, não tem carro. Quando tem o carro, não tem a gasolina. Não tem segurança. Não falarei o nome desse policial porque ele corre o risco de ser punido. Na campanha foi assim. Quem abraçava as nossas propostas, ou eram demitidos ou transferidos. Isso aconteceu ao ponto do policial falar para mim: “Marcelo Miranda, nós temos certeza que o sr. ganhará a eleição. Nós temos dificuldade para trabalhar, pois não temos arma, carros e, quando temos, falta a gasolina e nós, policiais militares, não temos segurança”. Eu não tenho nada contra nenhum chefe, mas a verdade tem que ser dita e é por isso que nós queremos priorizar a segurança pública, área fundamental para que possamos dar tranquilidade a quem precisa ter tranquilidade. Tentaremos expurgar os bandidos no Tocantins.

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Marcos Nunes — No lado econômico, o Tocantins tem, hoje, um superávit no setor primário, com um agronegócio muito forte. Mas, a industrialização é fraca. O sr. tem planos para tornar o Estado forte no setor industrial?
Foi um dos maiores debates que tivemos durante a campanha. O agronegócio, a agroindústria é a maior vocação que temos, e impulsiona a nossa economia. O que fortaleceremos é a vocação econômica local, com mais incentivos para produção e exportação no Tocantins. Nós temos um maior desafio, que eu percebo pela logística do nosso Estado, que é uma das melhores do país. A BR-153, cuja duplicação teremos o privilégio de receber, é fundamental para nossa economia. A Belém-Brasília corta o Tocantins todo. Nós temos a Ferrovia Norte-Sul, e o agronegócio e outros setores passam por ela. Quem quer investir em um Estado que não tem uma logística favorável? É difícil investir. Porém, quando você tem uma logística favorável, se investe. E nós também temos a oportunidade de receber da Bahia a Ferrovia Leste-Oeste, que corta aquele Estado, o Tocantins e vai ao Mato Grosso. Nós estamos, também, discutindo a hidrovia Tocantins, que voltou para pauta. Portanto, com isso, nós termos os melhores modais de transporte. Como fazer isso? Buscá-los. E isso, nós sabemos fazer. Temos que buscar novos investidores e valorizar os que já estão conosco. Os investimentos que tivemos no Tocantins, sem desrespeitar os outros governos, foram em sua maioria absoluta feitos no meu governo. Foi quando ocorreram os os maiores investimentos no nosso Estado. Foi no nosso governo, pois começamos a preparar o Estado. Lembro que fiquei traumatizado em ver como a soja entrava cara no Tocantins e, hoje, a pecuária, não que esteja enfraquecida, mas em algumas regiões já não é tão forte. A região norte, em Araguaína, o agronegócio tem tomado conta. Portanto, nós preparamos e temos que continuar preparando para os novos investimentos que vão chegar. Por exemplo, o porto de Praia Norte, o ecoporto. Isso aquecerá a economia e, para isso, temos que preparar os municípios, para que sua economia também seja aquecida. Os municípios estão aquém em vários setores. Eles estão apáticos pela falta de recurso, muitos não se preocupam em buscar e só o FPM não resolve a situação. A arrecadação deles é muito pequena. Por isso que, com novos investimentos e em vários setores, nós venceremos esses obstáculos. Os números não são favoráveis e se não fosse o agronegócio no Tocantins, hoje, o Estado estaria em uma situação adversa.

Frederico Vitor – E na área da educação? O que o sr. fará? O sr. também tem em pauta a escola integral?
Eu bati muito nessa tecla. Escola integral são dois turnos. Lamen­tavel­mente, em um município onde passei, a cidade de Brejinho, a escola estava fechada, pois não estava paga a conta de energia elétrica. Vocês imaginam a situação que nós vivemos na educação. A escola estava sem aula. Bom, eu bati muito na tecla da escola modelo de educação integral. É mais que um ensino de tempo integral. Nós investiremos em educação com metodologias novas, com as exigências do novo mercado de trabalho. Também falamos muito, e está no nosso plano de governo, das escolas técnicas profissionalizantes, pois temos que preparar o aluno para o mercado de trabalho. Cheguei a Maurilândia, uma cidade pequena, pacata, eu e a senadora Kátia Abreu visitamos o comércio. Numa portinha, uma mocinha nos atendeu. Eu disse “eu quero pedir a senhora…”. Ela parou e disse que não: “Sou eu que vou arguir o sr.”. Perguntou o que eu tinha para dizer sobre as escolas técnicas, pois ela fazia o curso do Pronatec. Hoje, esse programa do governo federal é a coqueluche na área das escolas profissionalizantes. Isso, eu presenciei em todos os municípios onde o Pronatec estava vinculado. Pelo Pronatec, nós expandiremos os empresários. O empresariado local é importantíssimo. Com as empresas que vierem para o Estado, daremos condições para as pessoas entrarem no mercado de trabalho e tiraremos, um pouco, a responsabilidade do poder público. Eu falei muito também sobre as escolas agrícolas regionais, aproveitando a vocação local. E com essa vocação, consequentemente, nós daremos a oportunidade ao filho do agricultor, que está na fazenda, de ir para uma escola mais próxima e não ter que ir para a cidade. Por isso, nós teremos que preparar também o filho do agricultor para o mercado de trabalho. Levaremos polos da Unitins [Fundação Universidade do To­can­tins], a Universidade do Es­ta­do, para outros centros populacionais, e não ficar só nas grandes cidades. Queremos levá-la para outros locais. Falamos muito, também, em Conheci­men­to sem Fronteiras, um programa para dar oportunidade e ex­periência internacional aos estudantes. Nós faremos um in­tercâmbio, vai quem merecer e tra­balhará para isso. Queremos também trabalhar com o Acelera Brasil, programa do Ayrton Sen­na, que nos deu vários prêmios e foi um programa que modernizou a área educacional. Temos também o Tocantins Di­gital, Professores da Família e o Sa­­lão do Livro, que é fundamental.

Marcos Nunes Carreiro – Como está a situação da Unitins? Dizem que a universidade está desestruturada e que faltam investimentos. Isso é verdade?
Há um descontentamento quase geral com a Unitins. Ela precisa ser reestruturada e, por isso, eu digo que precisamos levar polos da Unitins para outras regiões e não ficar só nos grandes centros. Nós teremos que ver essa questão.

Marcos Nunes Carreiro – Em quais cidades há polos da Unitins?
Palmas, Araguaína, Gurupi, Paraíso, Tocantinópolis, e temos que expandi-la para Augustinó­polis, Araguatins, para o sul do Estado, pois ainda há aquela dificuldade do jovem em se deslocar de sua casa por grandes distâncias para estudar. Que­remos trazer esse jovem para mais perto de sua casa.

Frederico Vitor – O governo de Goiás está construindo Centros de Recuperação para Depen­dentes Químicos, os Credecs. E a questão da droga é um problema nacional, não é regional, nem municipal. O sr. pretende fazer algo parecido no Tocantins?
Sem dúvida. É um dos grandes desafios. Por que nós temos que investir, também, na área educacional? Para, justamente, tirar da pauta a droga. É um enfrentamento que teremos. Precisamos trazer, de volta, políticas públicas para o jovem, no Tocantins. Nós não temos, hoje, política pública alguma para o jovem. Só se fala em agronegócio, não se fala em esporte, em lazer e, por isso, os jovens estão se desvirtuando. Portanto, nós trabalharemos para fortalecer a educação em vários setores. Não tenha dúvida, nós queremos investir nesses centros de recuperação. Tínhamos investido no passado, mas esses investimentos pararam. Além disso, queremos conhecer programas sociais que deram certo em outros Estados. E isso não é diminuir Tocantins, pois se o governo tem feito algo importante, por que não o manteremos? Por exemplo, os Pioneiros Mirins. A criança depois de atingir a idade limite do programa fica sem ter uma atividade, fica ociosa. Nós precisamos revitalizar alguns programas sociais para evitar a droga. Pois, a maior criminalidade está nas pessoas quem mexem com droga e são os jovens que mais cometem crime hoje. E o menor que se envolve ainda tem a proteção da Justiça. Nós investiremos, portanto, em programas para diminuir a droga no nosso Estado.

Marcos Nunes Carreiro – Em relação à política, já no fim de 2014 começam as articulações para 2016 e o sr. já tem feito isso nos bastidores. Consta que o deputado Sargento Aragão, que era do Pros e teve uma votação expressiva em Palmas, para o Senado, deve deixar o partido e filiar-se à sua base, com o intuito de disputar a Prefeitura de Palmas em 2016. Há espaço para ele?
O deputado Aragão, um homem a quem respeito e admiro por sua determinação, que já mostrou sua liderança política, foi muito corajoso quando renunciou à vice-prefeitura. Ele não aceitou a forma como queriam conduzir e isso é uma questão interna deles. Ainda assim, ele mostrou sua liderança para o município e para o Estado. Tem um bom valor, mas não houve, até o momento, contato comigo. Para não dizer que não houve contato nenhum, eu o cumprimentei por seu aniversário. Ele sempre defendeu Marcelo Miranda e suas atividades partidárias, mesmo sem mandato. Sempre esteve na defesa do nosso governo, que passou. E eu o respeito por suas atitudes, pela forma como ele vem conduzindo sua vida política. O ano de 2016 é de suma importância, mas a minha preocupação, agora, é janeiro de 2015 para que possamos fazer um bom governo e mostrarmos à população que ela acertou em nos escolher. É lógico que, no decorrer do ano, Tocantins voltará a respirar a democracia e daremos a oportunidade de surgirem novas lideranças. É importante dizer isso, pois nós queremos que as novas lideranças entendam sua importância.

Frederico Vitor – Por que o sr. acredita que a presidente Dilma será reeleita?
Eu sou Dilma, todos sabem disso. Entendo como foi importante para Tocantins o governo do presidente Lula e a Dilma também foi muito importante para o Estado, mesmo sendo um governo adversário. Ela mostrou para o Brasil sua importância e não só pelos programas sociais, e sim em vários setores. Sem desmerecer o adversário da presidente Dilma, Aécio Neves, que foi meu colega governador, eu acho importante a reeleição da presidente. E estou engajado e convido, convoco, os companheiros que me deram a oportunidade de governar, para defendermos e darmos a vitória a Dilma no Tocantins, novamente, no segundo turno.

Frederico Vitor – Tocantins tem problemas no abastecimento e no fornecimento de energia elétrica?
A nossa energia é a mais cara. Nós temos que rever essa questão. Hoje, nós exportamos energia, quer dizer, é um Estado exportador de energia. Mas, nós temos esse gargalo que é a energia mais cara. E ainda existem locais em que falta energia. Por isso, nós temos que investir em programas, principalmente com o governo federal, para levarmos energia até na base.

Euler de França Belém – Por que a energia em Tocantins é a mais cara?
Infelizmente, isso é pela concessionária. O Estado tem quase 50% das ações e continuaremos com essas ações, pois diziam que o Tocantins estava vendendo sua parte e eu não aceitarei isso. O Estado continuará tendo sua ação junto ao novo grupo acionário.

Frederico Vitor – Junto com essa política de distribuir na base a energia, haverá também um fortalecimento das políticas de atração de novas empresas para o Tocantins?
Sem dúvidas. Nós temos que fortalecer o setor energético para trazermos novos investimentos, novos investidores.

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