Quem depois de Iris e Maguito?

Em 32 anos, maior partido de oposição teve apenas dois nomes na disputa pelo governo — com exceção de Santillo em 1986, que se impôs ao grupo irista — e precisa renovar discurso e atores

Iris Rezende e Maguito Vilela: em nove disputas ao governo eles estiveram em todas; apenas em uma vez a dobradinha foi quebrada, por Henrique Santillo (no detalhe), em 1986

Iris Rezende e Maguito Vilela: em nove disputas ao governo eles estiveram em todas; apenas em uma vez a dobradinha foi quebrada, por Henrique Santillo (no detalhe), em 1986

Cezar Santos

Como se sabe, o PMDB está no segundo turno na disputa ao governo estadual, fato que por si só prova sua força. Afinal, em tese o partido tem 50% de possibilidades de fazer de Iris Rezende o governador que vai tomar posse no dia 1º de janeiro próximo, mandando para casa o atual ocupante do cargo, o adversário tucano candidato à reeleição, Marconi Perillo.

Mas há um imperativo para o PMDB, que é se renovar tanto no discurso quanto na sua figuração. Essa renovação terá de ser feita logo, nos próximos meses, se o partido perder a eleição do dia 26 próximo, ou daqui a mais tempo, se ganhar. E perder a eleição é o cenário mais provável, diante dos que as pesquisas prenunciam.

Um dado é real no PMDB: desde 1982 — com exceção de 1986, com Henrique Santillo —, apenas Iris Rezende e Maguito Vilela foram candidatos ao governo pela sigla. São 32 anos e 9 eleições. Iris está na quinta disputa; Maguito concorreu três vezes. É muito tempo e poucos nomes. Isso aconteceu porque Iris Rezende, o líder maior do partido, quis que assim fosse — a exceção de 1986 se deu à revelia dele, que tentou derrubar a candidatura de Santillo, um adversário interno que afinal se impôs.

Não é segredo para ninguém que a cisão interna do PMDB na pré-campanha deste ano, dividido entre os adeptos de Iris Rezende e os de Júnior Friboi, evidenciou justamente essa grita de boa parte do partido pela renovação.

Mas, afinal, independentemente da eleição deste ano, em 2018, para o bem do partido, o PMDB deverá (ou deveria) disputar com outro nome que não seja Iris Rezende ou Maguito Vilela? A questão é pertinente, mesmo porque uma das críticas que se faz ao partido diz respeito também ao discurso, o que em tese pode ser renovado com novos nomes.

Uma figura de proa do partido diz que Iris Rezende, no desdobramento da pré-campanha e com as inúmeras arestas criadas com Júnior Friboi, deve ter sentido que ele poderia já ter deflagrado esse processo de renovação na sigla. “Acredito que Iris percebeu que se fosse outro nome na disputa agora, as coisas poderiam ser mais fáceis, ou menos difíceis. Iris é um grande líder, mas acho que ele deve estar sentindo que tinha de ter preparado um nome novo.”

Esse peemedebista que não quis se identificar lembra que a grita por renovação no PMDB foi inquestionável, principalmente por parte de lideranças no interior. “O que os companheiros do interior pediam era justamente isso, um nome novo para disputar o governo, o que não foi atendido. Mas, agora, estamos com Iris e é bom observar que há chances sim de vencermos a disputa, não há nada definido”, diz a fonte.

A análise do peemedebista faz sentido considerando o bom senso, mas não se pode esquecer a forma como Iris Rezende “fritou” Júnior Friboi, como antes já tinha “fritado” Henrique Meirelles e Vanderlan Cardoso, nomes que surgiam como possibilidade de renovação na sigla em disputa majoritária. A questão é: Iris não quis bancar o novo com medo de perder sua influência, ou, como muitos dizem, apenas foi apego ao poder, por pensar que tinha chances de vitória nas três vezes que disputou pessoalmente o governo?

O deputado Wagner Siqueira minimiza um pouco a questão de renovação de nomes no partido nas disputas majoritárias, embora não discorde da necessidade de renovação do discurso. Ele afirma que o surgimento de novos nomes no PMDB para os futuros embates ao governo será natural, não impositivo, e o processo inevitavelmente deve ser conduzido pelo próprio Iris Rezende.

“Ninguém é para sempre. Em dezembro Iris vai fazer 81 anos, em 2018 estará com 85 anos. Então, ele deve conduzir o processo de renovação de dentro do Palácio, se for eleito, ou vai deixar os espaços para as lideranças que surjam. Querendo ou não, o próprio Iris certamente sente que há essa necessidade de renovação”, diz Waguinho, ressaltando a incontestável liderança do ex-prefeito.

Mas e se em 2018 Maguito Vilela se apresentar mais uma vez como a opção do PMDB? Wagner diz que não acredita nessa hipótese e afirma que até mesmo o próprio prefeito de Aparecida não iria querer estar nesse embate mais uma vez, já que disputou o governo em 1994 (quando venceu) e em 2002 e em 2006 (com derrota em ambas). “O próprio Maguito deve preferir o Daniel [Vilela, filho de Ma­guito]”, diz Waguinho.

É bom lembrar que o próprio Maguito, no ano passado, esqueceu um pouco sua habitual prudência e disse com todos os efes e erres o que foi uma indireta a Iris Rezende: “O PMDB precisa escutar as ruas e apresentar nomes novos. Está claro que a população quer gente nova, coisas diferentes. Então, temos de atender. Não dá para ir contra a von­tade popular. Não podemos ir contra as pesquisas”, disse o peemedebista, repercutindo um levantamento Serpes que indicava 76,3% dos eleitores querendo nomes novos.

Voltando aos dias de hoje, recentemente duas das lideranças maiores do PMDB externaram na imprensa observações sobre a campanha, mas há expressões-chave no que eles disseram que deixam transparecer uma insatisfação além da disputa eleitoral que está sendo travada no momento: repensar o partido e direção melhor.

José Nelto, que conseguiu se eleger para a Assembleia Legisla­tiva, reclamou das dificuldades que ele teve na campanha, mas o recado pode ser entendido também sobre o comando geral da sigla, no que diz respeito diretamente a Iris Rezende. “Todo o partido tem de ser repensado”, disse Nelto.

Já o deputado federal Sandro Mabel, um dos coordenadores da campanha irista, também falando sobre o duríssimo embate eleitoral em que o partido está engajado contra Marconi Perillo, externou um recado sobre os rumos da sigla: “O partido está sim precisando se reorganizar. É preciso uma direção melhor e uma frente mais organizada.”

 

Daniel Vilela e Júnior Friboi na primeira fila

Daniel Vilela, o campeão de votos da oposição para a Câmara dos Deputados: liderança jovem cacifada Júnior Friboi, que chegou a desafiar Iris Rezende, pode ser uma iminência do novo PMDB

Daniel Vilela, o campeão de votos da oposição para a Câmara dos Deputados: liderança jovem cacifada
Júnior Friboi, que chegou a desafiar Iris Rezende, pode ser uma iminência do novo PMDB

Com 30 anos de idade, campeão de votos da oposição para a Câmara dos Deputados, Daniel Vilela cacifa-se como o grande nome da renovação peemedebista por reunir juventude e conteúdo lastreado em experiência parlamentar — já foi vereador, é deputado estadual e se elegeu muito bem para a Câmara dos Deputa­dos, com um caminhão de votos (quase 180 mil sufrágios).

Daniel foi o segundo deputado federal mais votado em Goiás, sendo por isso mesmo apontado por Iris Araújo como um dos principais causadores da derrota dela. A deputada disse com todas as letras que os correligionários Daniel Vilela e Pedro Chaves, além de Lucas Vergílio, do Solidariedade e que disputou em chapa coligada com o PMDB, “invadiram” os diretórios dela. Os três conseguiram vaga no Congresso, ao passo que Iris Araújo ficou de fora, depois de ter sido duas vezes a mais votada.

Desde já, os nomes que mais reúnem condições para essa decantada renovação no PMDB são Daniel Vilela, pelas razões expostas, e Júnior Friboi, que pode ficar com o espólio peemedebista no caso de mais uma derrota de Iris Rezende para Marconi Perillo.

E ao contrário do que muitos pensam, Friboi não tem apenas a força do dinheiro, uma vez que ele mostrou poder de articulação na pré-campanha e arrebanhou para junto de si uma legião de li­de­ranças que estão “lendo” na sua cartilha. Por isso mesmo, acabou dando muito trabalho a Iris, que teve de dar golpes abaixo da linha da cintura para se impor. Iris conseguiu, mas de jeito ne­nhum foi unanimidade. Até hoje, por sinal, Iris não é unanimidade dentro do PMDB, principalmente diante da derrota iminente.

Mas além de Friboi e Daniel, há outros nomes que podem surgir como possibilidades a partir de 2018. O prefeito de Jataí, Hum­berto Machado, administrador de mão cheia, é um deles. O vice-prefeito de Goiânia, Agenor Mariano, é outro. Sobrinho de Maguito, o deputado Leandro Vilela também figura nessa lista. Wagner Siqueira é outro que compõe esse rol. Há outros.

Em quatro anos, pode surgir uma ou mais lideranças no partido, como antes tinham surgido os deputados Thiago Peixoto e Francisco Júnior, que deixaram o PMDB por perceber que não tinha como crescer à sombra de Iris.

Dificilmente um líder se faz do dia para a noite. Antes de 2018 há 2016, com as eleições municipais, principalmente em Goiânia. Se perder mais uma vez a disputa pelo governo, ganhar a prefeitura da capital será o objetivo maior do PMDB, sob risco de se exaurir ainda mais como força de oposição.

Caberá ao partido apresentar um novo e bom nome com chances reais para a disputa, ou então ficar a reboque de alianças que podem resultar contraproducentes. Foi o caso de entregar a prefeitura para o PT de Paulo Garcia, em 2010, patrocinando a reeleição do petista em 2012. Paulo vem fazendo uma administração tão equivocada que contaminou negativamente a campanha de Iris ao governo.

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