Obra de instituto de pós-graduação pode provocar impactos negativos no local

Moradores receiam que empresa de curso de especializações venha a implantar faculdade no coração de um dos bairros residenciais mais tradicionais de Goiânia

Obras embargada do IBC na Avenida Professor Venerando de Freitas Borges, Setor Jaó. Empreendimento tem sido alvo de muita polêmica | Fernando Leite/Jornal Opção

Obras embargada do IBC na Avenida Professor Venerando de Freitas Borges, Setor Jaó. Empreendimento tem sido alvo de muita polêmica | Fernando Leite/Jornal Opção

Frederico Vitor

Apesar de ter perdido um pouco do legado de cidade planejada, Goiânia ainda mantém traços ur­ba­nísticos que privilegiam extensas áreas verdes como parques, jardins e a­lamedas. Um destes locais é o Jaó, setor predominantemente residencial com um número restrito de estabelecimentos comerciais, caracterizado como um bairro tranquilo e bastante ar­borizado. Mas, desde que se iniciou uma obra tocada por um instituto de coaching, com sede localizada numa das principais avenidas daquele setor, moradores estão temerosos de que o empreendimento venha mais tarde a se transformar numa faculdade, o que inevitavelmente traria transtornos à região.

Vale lembrar que outros setores residenciais de Goiânia, como Sul, Bueno, Bela Vista e Cidade Jardim já sofreram impactos negativos em algumas regiões por comportar instituições de ensino superior com centenas de alunos em meio às residências. A presença de ambulantes, vigilantes de carros — os flanelinhas —, o surgimento de bares e aumento da poluição sonora são inevitáveis. Além disso, a luta por vagas de estacionamento em vias, transtornos com o barulho excessivo e os problemas relacionados à segurança são impossíveis de serem evitados.

A empresa que tem tirado o sono de alguns destes moradores do Jaó é o Instituto Brasileiro de Coaching (IBC), cujo presidente, José Roberto Marque, teria residência no Jaó, segundo informações. O curso mantém há cinco anos uma sede administrativa na Avenida Pampulha com a Professor Venerando de Freitas Borges, de onde se gerencia formações em coaching em todo o País. De acordo com a definição da própria empresa, coaching é uma metodologia que busca atender as seguintes necessidades: atingir metas, solucionar problemas e desenvolver novas habilidades voltadas para administração de empresas, esportes, gestão de recursos humanos e planejamento estratégico. Trata-se de um processo que utiliza técnicas, ferramentas e recursos de diversas ciências — psicologia, sociologia e neurociências.

Um morador que pediu para não ser identificado disse que, recentemente, um pizzaria existente no setor tentou obter a autorização da Secretaria Municipal de Trânsito (SMT) para que uma ilha da Avenida Professor Venerando de Freitas Borges sofresse intervenções para a instalação de recuos para estacionamento. Corre nos bastidores que, caso ganhasse a autorização, a IBC teria assim um precedente para também ocupar outra ilha em frente de sua sede, para então transformá-la em estacionamento, descaracterizando a planta urbanística do local.

Outra informação que circula entre os moradores é de que a IBC estaria comprando vários imóveis no Jaó, próximo à sua sede, o que sinaliza que há a intenção de expansão do empreendimento. Além disso, já haveria um pedido de autorização para que futuramente a empresa venha a abrir uma faculdade em um terreno situado na Avenida Professor Venerando de Freitas Borges com a Rua J-3, no qual existia uma casa que foi reformada para dar espaço às novas instalações. Atualmente, a obra estaria embargada por falta de projeto de impacto e uso do solo por parte da Prefeitura.

No dia 30 de setembro, um grupo de moradores do Setor Jaó encaminhou abaixo-assinado à Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano Sustentável (Semdus) pedindo para que fossem paralisadas a referida obra no imóvel da Avenida Professor Venerando de Freitas Borges com a Rua J-3. Segundo o documento, “a edificação não tem respeitado os limites impostos pelo Plano Diretor de Goiânia e legislação complementar, fato que acarretará graves prejuízos aos vizinhos e ao planejamento urbanístico do setor, historicamente residencial. Ressalta-se que, pela envergadura da obra, não há no local sequer uma placa com os nomes dos responsáveis técnicos, fato que indica o absoluto descaso do proprietário pelas leis e regulamentos aplicáveis à matéria.”

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Sede administrativa do IBC na Avenida Pampulha com a Professor Venerando de Freitas Borges | Celeocy Borges Cotrim: “É preciso estudos de impacto para a liberalização do uso do solo”

O abaixo-assinado, com cerca de 30 assinaturas, foi encaminhado a Semdus e recebido pela chefe de gabinete Grazielle Pires da Silva, e protocolada uma cópia da denúncia no Ministério Público de Goiás (MP-GO). Em consulta ao site da secretaria municipal constatou-se a existência de dois processos (57938463 e 57893788) em nome de IBC Co­aching Editora e Distribuidora de Livros Ltda., que evidenciam a destinação comercial da referida edificação, além de sua própria característica arquitetônica. A empresa também apresentou outro processo (57232218) com pedido de uso de solo para a atividade de educação superior no Setor Jaó.

De acordo com o diretor de Ordenamento Sustentável e de Ocupação do Solo da Semdus, Celeocy Borges Cotrim, as atividades de fins econômicos, ou seja, abertura de empresas e estabelecimentos comerciais são permitidos em qualquer setor ou área de Goiânia. Ocorre que a licença expedida pela Prefeitura é liberada de acordo com a classificação viária onde o empreendimento estará localizado. O município avalia o porte e o grau de incomodidade da empresa que será aberta para então emitir o alvará de funcionamento.

A Avenida Professor Vene­rando de Freitas Borges, classificada pela Prefeitura como via coletora, pode comportar macroprojetos em terrenos que podem chegar a até 10 mil metros quadrados. Sendo assim é permitida a abertura de empreendimentos comerciais com graus de incomodidade níveis um, dois e três. Entretanto, com relação à altura da edificação, no setor Jaó a máxima permitida é de nove metros do solo até a laje de cobertura. Em casos de intituições de ensino de até 360 metros quadrados de área, não é classificado pela Prefeitura como empreendimento de impacto. Mas, a partir desta dimensão, são necessários estudos de impacto no trânsito para se obter a liberalização de utilização do solo.

Celeocy Cotrim afirma que se o instituto IBC ocupar dois lotes, sendo um deles em frente à Avenida Venerando de Freitas, não há impedimentos para expansões futuras. Contudo, isso só se daria mediante novos estudos de impacto no trânsito, obrigatórios para obter nova licença para possível ampliação.

Tais normas são previstas na Lei Municipal 8.834, de 30 de ju­lho de 2009, em seu anexo I que es­pecifica os diferentes usos do solo para atividades não habitacionais em vias de pista única e dupla. “Essas interferências no trá­fego são permitidas pela SMT, que avalia instalação de semáforos, faixas de pedestres e até mesmo baia interna para que os alunos tenham acesso de embarque e desembarque interno à edi­fi­cação, visando não impactar o trânsito”, informa Celeocy Cotrim.

artigo_jose maria e silva.qxdInstituto Brasileiro de Coaching está há 5 anos no Setor Jaó

O Jornal Opção entrou em contato com o IBC para maiores informações a respeito do impasse com a vizinhança e com a Prefeitura. A resposta veio por meio de um e-mail encaminhado pela assessoria de imprensa, informando que: “o IBC tem sede administrativa no Setor Jaó, em Goiânia, há cinco anos, onde são gerenciadas as formações em coaching oferecidas pelo instituto em todo o País. Visando o melhor gerenciamento dos cursos de pós-graduações que o IBC oferece, a administração destes passará a ser realizada no próprio instituto, pois hoje são geridos pelas Faculdades Monteiro Lobato (FATO), sediada em Porto Alegre-RS, ou seja, continuará sendo apenas sede administrativa.”

A reportagem visitou a sede do IBC e foi recebido por uma assessora de imprensa. A informação passada é que o prédio em funcionamento no Setor Jaó serve apenas para fins administrativos para cursos de pós-graduação que são ministrados em outros Estados.

Esporadicamente o local sedia treinamento para funcionários, com no máximo 15 pessoas, em módulos com duração de uma semana. Indagados do porquê manter no Setor Jaó a sede de uma grande empresa com operação em todo o País, a resposta foi de que o bairro estaria próximo ao Aeroporto Santa Genoveva, o que facilitaria a logística de despacho e recebimento de materiais didáticos.

O diretor de operações da IBC, Francisco Capel, explicou que o IBC atua em Estados onde o PIB é mais forte, como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Distrito Federal, apesar de que em Goiás, praticamente não teria operação de cursos de coaching. Ele afirma que a sede de Goiânia é apenas uma unidade administrativa, o que tem sido alvo de “muitos boatos”, como por exemplo, a intenção de instalar uma grande faculdade no coração do Jaó. “Nós já temos cursos de pós-graduação com número muito diminuto de alunos. Os moradores estão achando que nós vamos receber centenas de pessoas, mas acontece que lá é apenas a administração que ocupa três lotes de aproximadamente 3 mil metros quadrados.”

Moradores se dividem enquanto aos impactos

Meire Coimbra: “Os impactos são por conta da ausência de estacionamento”

Meire Coimbra: “Os impactos são por conta da ausência de estacionamento”

Segundo a presidente da Associação de Moradores do Setor Jaó, Meire Coimbra, o bairro já foi essencialmente residencial, mas, nos últimos anos, tem recebido uma gama de novos comércios. Ele afirma que se vier um grande empreendimento educacional, os impactos seriam inevitáveis, apesar de dizer que desconhece se a obra do IBC venha de fato ser uma faculdade com número elevado de alunos e funcionários. “É um curso de pós-graduação que vai funcionar apenas nos finais de semana, pelo menos foi essa a informação que me passaram.”

Meire Coimbra diz que o único problema que os moradores poderão sentir é em relação ao movimento de veículos nas portas das residências vizinhas ao curso, por conta da ausência de estacionamento do próprio do IBC. Para o morador Fran­cisco Sena, que é administrador do grupo Amigos do Setor Jaó no site de relacionamento Facebook, a questão ganhou corpo pela mobilização dos moradores para que a obra do instituto na Avenida Venerando de Freitas Borges fosse embargada. “Os vizinhos se manifestaram contrários à abertura de uma faculdade dentro do Setor Jaó. Nada mais do que isso.”

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BRUNO

Gostaria de nova reportagem do Jornal Opção sobre esta obra. Infelizmente ela está concluída e não tem apoio dos moradores vizinhos ,pois não foram consultados. Gostaria que fosse feito uma correlação com a nova lei do aceite que está na iminência de votação na Câmera Legislativa de Goiânia em 2018.

Waldo Amorin

As vezes tenho a impressão que em Goiânia pode-se construir qualquer coisa em qualquer lugar… menos é claro no Setor Jaó. Se eu fosse um dos moradores de lá iniciava um movimento separatista, pedindo a independência do bairro do restante do país. Seria uma espécie de Mônaco com Flamboyants e Ipês! E o melhor: todos sairiam ganhando, inclusive Goiânia.