Entre o jogo e a vida, a goleada poética do atacante Miguel Jorge

Com uma visão do amor, dos sonhos, das utopias, dos sentimentos, da solidariedade, enfim, de valores tão refratários nesse terceiro milênio, Miguel Jorge não se intimida nem se aniquila diante da “ambiguidade das facas”, numa atmosfera em que nos sentimos como num campo de disputas

Ronaldo Cagiano

Cultural_1885.qxd

Escritor Miguel Jorge

Nos onze livros que enfeixam o visceral caleidoscópio poético de “As Sete Regras do Jogo”, Miguel Jorge metaforiza as grandes questões contemporâneas que inquietam não apenas o poeta, mas o homem como caudatário de suas preocupações éticas, quando é ambígua a convivência entre o ser e ter.

Tão ancestral e tão atualizada nesse tempo e numa sociedade dita civilizada e moderna, mas amesquinhada pelo fetichismo do deus mercado e pelas seduções redundantes da cultura de massas, essa consciência de que existir é um jogo pesado e cujas regras colocam vis a vis uns contra os outros (ausente toda alteridade), vai encontrar nessa polifonia uma profunda inquirição sobre o núcleo seminal de toda o dilema que nos povoa: a ruína do amor como condição essencial da pax social.

O poeta se insurge logo nos primeiros versos, inquirindo e acicatando com pertinência: “Que faço eu neste campo de futebol?!/ Se os meus gritos são outros”. (…) “A poesia/ Se interroga: de que palavras são feitos/ Nossos inimigos?” Perguntas que vão balizar todo o corpo do poema, que ao se dividir em livros, propõe em cada capítulo, com seus enunciados e sentenças distintos, esquartejar a coluna dorsal dessa grande angústia que desestabiliza o indivíduo — aqui falam o poeta e o ser social e afetivo — e que vai sendo desnudada num meticuloso processo de questionamento metafísico, metalinguístico e existencial, numa perspectiva metafórica e semântica, em que a palavra é um bisturi e sua linguagem desfere uma caudalosa e candente implosão, um verdadeiro soco no estômago.

Miguel Jorge percebe que nesse trânsito proceloso da vida doem “os lastros/ deste violento embate”, mas ele não se intimida nem se aniquila diante da “ambiguidade das facas”, numa atmosfera em que nos sentimos como num campo de disputas. E aqui o futebol simboliza com nitidez uma visão apriorística sobre as distorções mercantilistas do esporte, que hoje prescinde do amor e da arte — porque no quotidiano de nossos sentimentos e no cipoal de nossas re(l)ações, “há sempre os entraves. As traves./ Talvez o acaso”. Essa fe­liz, porém contundente imagem, nos confere a dimensão apocalíptica ou as latitudes de uma bus­ca desenfreada por resposta fora das quatro linhas (do estádios — ou estágios — do viver). Note-se também nessa densa e tensa poesia um sutil jogo de palavras em que sonoridade, ritmo, harmonia, rimas internas são usados não apenas como alternativa paracul10 uma elegante plasticidade, mas como recurso formal que dá sentido a uma ideia, ou lhe confere explicação.

A inflexão filosófica está presente nessa obra na medida em que o autor vai buscar nas fontes da cultura clássica seus referenciais críticos e também estéticos como instrumentos de decantação desse caos, quando sua percepção falimentar não apenas dos sentimentos, mas dos valores reclamam uma dissecção mais aguda e ao retaliar múltiplas realidades, exuma o caráter brutal e instaurador da desordem anti-idílica do indivíduo. “Findou-se o jogo.

Findaram-se nossas/ Pequenas partidas de amor e ódio./ Ganhamos um prêmio para viver/ A vida: um tempo. Um passe. Uma bula./ Uma bola. Um beijo. Um consumo/ Proibido no momento.” Reconhece e revela, nessa parábola-analogia do nosso percurso humano, que receberá o apito final, aquele momento crucial quando “A graça pálida das quase incertezas/ Devolve corações aos seus altares” já quando “Os portões cercam-se de cansaço”.

Com uma visão do amor, dos sonhos, das utopias, dos sentimentos, da solidariedade, enfim, de valores tão refratários nesse terceiro milênio, que mal entrou em campo, já mostrou sua fadiga e seus vícios, a poesia de Miguel Jorge reforça a sensação de que “Do campo ao palco, o jogo/Promove delírios, feito febre, cada vez mais cara”, pois a vida é uma “Partida Partida ao Meio” e pertencemos a uma época em que “As Copas das Cópulas” regem tudo, “driblam seus destinatários” “entre espaços de infâmias” nessa pátria escura e indomável.

Apesar desse tempo de prorrogações e pênaltis, no cerne de sua poesia se erguerá o troféu pelo resultado de sobreviverem, a duras penas, o homem, arte e o amor, pois o poeta entende que “Não se guarda sigilo das esperanças, nem a ilusão/ De quem vive o chão das palavras”. Eis o segredo guardado a sete chaves, que nos deixa, memoravelmente, como pista definitiva para o leitor, no desfecho de sua poética, ao mesmo tempo, indignada e apaziguadora: “Que no amor joga-se/ Mais, quem perde menos”.

Ronaldo Cagiano é escritor.

Nota: o texto publicado nesta edição integra o livro “As Sete Regras do Jogo”, de Miguel Jorge.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.