2014 prova que, em breve, redes sociais assumirão papel fundamental em campanhas políticas

Há quem diga que vivemos a era dos políticos analógicos e dos eleitores digitais; as eleições deste ano, entretanto, provaram que vivemos uma fase de transição

marcos1

Marcos Nunes Carreiro

Em 1960, os Estados U­ni­dos viu, pela TV, a improvável vitória do então senador democrata John F. Kennedy na corrida presidencial daquele ano. Analistas apontam que o meio televisivo foi o ponto chave e a questão determinante para que o democrata conseguisse tirar os republicanos da Presidência, no poder por dois mandatos. E a utilização estratégica da TV pelos democratas –– que, em 1960, já estava em processo avançado de popularização –– começou no primeiro debate político transmitido ao vivo entre Kennedy e o então vice-presidente Richard Nixon.

Tratado como o “Grande Deba­te”, o embate entre os dois foi assistido por aproximadamente 70 milhões de espectadores, onde Nixon, que não apostou na publicidade da transmissão, parecia abatido. Kennedy, que estava confiante, conseguiu garantir uma boa impressão junto aos eleitores e alguns analistas apontam que sua vitória nesse primeiro debate foi essencial para lhe garantir as eleições daquele ano.

Caso semelhante ocorreu em 2008, também nos Estados Unidos, quando o atual presidente Barack Obama se viu como pioneiro no uso da internet em campanhas. Por meio das redes sociais, Obama conquistou um espaço significativo entre os eleitores, o que também foi determinante no resultado, isto é, na sua ascensão à Presidência.

No centro dos dois casos estão os meios de comunicação. No primeiro, a TV; no segundo, a internet. E nas duas situações há certo louvor em relação tanto às conquistas quanto ao uso dos meios utilizados para alcançá-las. Seriam os ventos da novidade. A curiosidade humana gera interesse a tudo que é novo. Contudo, há algo de superestimado em todas essas questões.

O retrospecto reescrito acima foi apresentado, a priori, pela matéria “Mídia, sozinha, não conquista o voto do eleitor”, publicada na edição 2014 do Jornal Opção, em novembro de 2013, que adiantou uma discussão: a influência da internet e das redes sociais no pleito eleitoral deste ano. A conclusão da reportagem, à época, como já adiantado pelo título, foi que a internet não conseguiria, sozinha, arrebatar o voto do eleitorado.

Mas por que retomar a discussão? Bem, passadas as eleições do dia 5 de outubro, perceberam-se situações que fugiram à análise feita há quase um ano. O caso-chave para a retomada do debate é a eleição já considerada histórica de Waldir Soares (PSDB). Delegado Waldir, como é chamado, obteve mais de 274 mil votos, tendo sido eleito o deputado federal mais votado de Goiás.

O fato é que Waldir fez uma grande parte de sua campanha tendo como base as redes sociais, principalmente o Facebook, rede em que tem mais de 340 mil seguidores. A título de comparação, todos os sete candidatos ao governo do Estado no primeiro turno — Marconi Perillo (PSDB), Iris Rezende (PMDB), Antônio Go­mi­de (PT), Vanderlan Cardoso (PSB), Marta Jane (PCB), Weslei Garcia (PSol) e Alexandre Maga­lhães (PSDC) — e os três principais candidatos ao Senado — Ronaldo Caiado (DEM), Vilmar Rocha (PSD) e Marina Sant’Anna (PT) — somam juntos pouco mais de 370 mil seguidores. Isso mostra que a presença do deputado na internet é considerável.

Durante a campanha, Waldir vinculava sua, até então, imaginada capacidade eleitoral às redes, apostando que conseguiria converter seus milhares de seguidores em votos, objetivo que, de certa forma, alcançou. Porém, há outros aspectos a serem abordados nessa questão. A eleição do delegado pode ser atribuída somente à internet? Especialistas em marketing político e em internet garantem que não, embora admitam que foi um fator deveras contributivo.

O principal argumento é que Waldir incorporou um tema muito caro à população que foi às urnas neste ano, sobretudo em Goiás: a segurança pública. Tanto que, além do delegado, dois dos cinco mais votados para a As­sem­bleia Legis­lativa foram impulsionados por este mote: Mané de O­li­veira (PSDB), cuja luta por solucionar o assassinato do filho, o cronista esportivo Valério Luiz, ga­nhou as ruas; e a delegada A­driana Accorsi (PT). E pode-se con­tar ainda com o também delegado João Campos (PSDB), reeleito deputado federal, e Major A­raújo (PRP), reeleito deputado estadual.

Desses, apenas Waldir possui grande atividade nas redes. Ou seja, o posicionamento do candidato, que há anos atua na área de segurança em Goiás, teria sido mais importante para levá-lo à eleição do que propriamente seu trabalho na esfera virtual. Contudo, como dito, foi essencial e evoca uma discussão que há tempos tem aparecido: qual a importância de um trabalho bem feito na internet no resultado de uma eleição?

A palavra dos profissionais da comunicação 

Henrique Morgantini: “É necessário que os políticos também sejam usuários das redes sociais, ou seja, uma pessoa que está lá e comenta vários assuntos” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Henrique Morgantini: “É necessário que os políticos também sejam usuários das redes sociais, ou seja, uma pessoa que está lá e comenta vários assuntos” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Há muito se fala no papel das redes sociais em uma campanha eleitoral. E baseado no caso de Waldir Soares, a reportagem consultou profissionais do marketing político, entre jornalistas e publicitários, para saber se o deputado federal iniciou ou não uma nova era nas ferramentas de uma campanha eleitoral.

O jornalista Henrique Morgan­tini analisa que Waldir percebeu algo que muitos políticos não se atentaram: o de ser um usuário ativo das redes. Ou seja, é uma pessoa que usa o espaço virtual para comentar sobre vários assuntos, desde como “fazer um bom churrasco aos assuntos mais relevantes da sociedade, isto é, está lá e interage com os outros usuários”, algo que a maioria dos políticos não faz.

O também jornalista Carlos Willian, que é especialista em internet, concorda com essa visão. Segundo ele, as redes sociais deram aos candidatos uma igualdade de publicidade, que o tempo de propaganda eleitoral, condicionado à representação partidária, nunca deu. Entretanto, ressalta que só teve sucesso nesse recurso quem já tinha estrutura montada.

Ou seja, quem resolveu montar equipe e mecanismos de trabalho na internet a três meses das eleições, visando apenas o período eleitoral, não conseguiu alavancar nada. “Pelo contrário, o que vimos nessas eleições, nesse de­sespero por ter uma quantificação nas redes, foi compra de seguidores, algo que não resolve, pois aglomera números, mas não consegue a interatividade”, afirma ele.

Carlos Willian aponta três nomes que, em Goiás, têm atividade registrada há mais tempo nas redes e que, logo, conseguem alcançar um grupo maior. Seriam eles, além do próprio Waldir, o governador e candidato à reeleição, Marconi Perillo (PSDB), e o senador eleito Ronaldo Caiado (DEM).

“Essas pessoas já tinham atuação prévia nas redes e, por isso, foram bem sucedidas. Montar estrutura de rede social a poucos meses da eleição, não adianta. A prova disso é o delegado Waldir, que há dois anos opina sobre tudo no Facebook”, relata. Assim, o jornalista acredita que as redes tiveram, sim, um efeito relevante, mas apenas para aquelas pessoas que já eram atuantes nas redes muito antes das eleições.

Isso mostra que alguns políticos, se já não habituados ao trabalho nas redes, que passam a ter cada vez mais abrangência eleitoral, sobretudo entre os jovens. É o que aponta o profissional do marketing político Paulo Bittencourt, para quem a internet está quebrando paradigmas.
Ele aponta que a internet teve influência nessas eleições e deverá ter ainda mais nos próximos pleitos, uma vez que as pessoas têm saído cada vez menos de casa para ouvir o que os políticos têm a dizer. “A linguagem que se acostumou a usar nos palanques não é a mesma utilizada nas redes sociais. É preciso adaptar e, atualmente, são poucos os políticos que fazer isso”, relata.

Quando se diz que a internet passa a ter cada vez mais abrangência eleitoral entre os jovens, isso é confirmado quando se fala com um. Larissa Paiva, 20 anos, diz: “A militância virtual, hoje, é muito maior do que aquela que vai para a rua. No WhatsApp, por exemplo, nós coletamos informação 24 horas por dia, pois a juventude está conectada todo o tempo. Então, as redes sociais são um meio efetivo de atingir os jovens entre 16 e 24 anos”.

Larissa é estudante de Ar­qui­tetura e Urbanismo, mas tem se destacado nos últimos meses por encabeçar apoio digital ao governador e candidato à reeleição Marconi Perillo (PSDB), principalmente por meio do Facebook. Ela entende que política se faz na rua, visto que “não é toda a população que está conectada”. Porém, acredita que “é necessário também que os políticos tenham um trabalho ativo nas redes”. Ela parte do princípio de que “o eleitor gosta dessa proximidade, pois se sente igual ao candidato, cuja vida foi acompanhada, fator que é potencializado pelas redes.”

Larissa Paiva: “Política se faz na rua e, agora, nas redes. A maior parte da militância de hoje está na internet” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Larissa Paiva: “Política se faz na rua e, agora, nas redes. A maior parte da militância de hoje está na internet” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

As redes ainda são apoio, não fator principal 

O publicitário Marcus Vinícius Queiroz, um dos mais respeitados em Goiás, acredita que as redes sociais ainda não funcionam como um definidor de votos, mas as enxerga como um veículo muito importante de apoio nas campanhas, que são muito curtas. Ou seja, para ele, a internet permite que o conteúdo possa ser (re)produzido quase em tempo real, o que, muitas vezes, não é possível nos meios de comunicação tradicionais — rádio e TV.

marcos4

Publicitário Marcus Vinícius Queiroz: “Existem campanhas em que há investimento e as em que não há. Digo isso, porque manter uma rede social custa dinheiro” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Contudo, ele analisa que tudo é uma questão de investimento: “Existem campanhas profissionais e não profissionais. Campanhas em que há investimento e as em que não há. Digo isso, porque manter uma rede social custa, pois para alimentá-la com conteúdo é preciso estrutura e equipe de trabalho, logo, investimento. E isso independe de estratégia, afinal, estratégias variam de candidato para candidato”.

Queiroz, que tem experiência internacional — foi o responsável pela campanha vitoriosa do presidente colombiano, Juan Manuel Santos —, ressalta que, no Brasil, há ainda o fato de existir, entre os profissionais, o entendimento de que a importância das redes é menor em uma campanha majoritária, do que na proporcional. Mas isso tende a mudar com o passar dos anos, segundo o publicitário, a exemplo do que já acontece fora do país:

“Fora do país, a internet vem sendo usada com mais antecedência do que aqui, principalmente nos Estados Unidos. Mas estamos acelerando esse processo e a internet é uma ferramenta nova, que tem crescido eleição após eleição. Então, esse é um fator que está descobrindo seu espaço, sua linguagem e, consequentemente, irá avançar. Soma-se a isso o fato de que temos mais pessoas se profissionalizando nessa área nos últimos anos”.

Os meios de fazer um bom trabalho na internet 

marcos5

Carlos Willian: “A internet proporcionou a oportunidade de as pessoas falarem com seus ídolos diretamente” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

“Essa campanha nas redes sociais foi algo extraordinário porque na internet não tem chefe, todo mundo é igual.” A frase foi postada no Twitter um dia antes da votação pelo presidenciável Eduardo Jorge (PV), que ficou conhecido por sua interação constante com os usuários das redes sociais e seus tweets descontraídos. Eduardo Jorge, assim Waldir Soares, fez sucesso na internet exatamente por alimentar, ele mesmo, sua conta.

A alta penetração virtual se explica no caso dos dois, devido ao fator interação, pois quando o próprio político expõe suas ideias, os demais usuários tendem a ouvi-lo, uma vez que o sentem mais próximo. Isto é, a comunicação é horizontal e não vertical, como é costumeiro entre a classe política e a população. “Há políticos, por exemplo, que criaram perfis antes das eleições e, desde o dia 5, nunca mais os atualizaram”, relata o especialista em comunicação pela internet Carlos Willian.

Porém, grande parte dos políticos não atualiza suas contas por conta própria. Pelo menos, não em época de campanha, sobretudo aqueles que disputam cargos majoritários. A questão é que os candidatos têm assuntos mais importantes para resolver durante uma campanha, como traçar o plano de governo, costurar alianças, liderar reuniões, entre outros compromissos. Logo, a atualização das redes fica a cargo da equipe de comunicação do candidato, que atuam como “ghost writers”, isto é, transformam as ideias do assessorado em texto, seja ele de até 140 caracteres como no Twitter ou mais longos como no Facebook.

Mas, para isso, é necessário que a equipe esteja integrada com o candidato para tirar dele a essência do seu pensamento, seu estilo de comunicar. Tudo isso contribui para que os posts estejam o mais próximo possível daquilo que o próprio político faria. Com isso, como pontua Carlos Willian, é possível ter “uma ligação mais íntima com os demais usuários, que interagem com o perfil do candidato. Ou seja, dar a impressão de que é o próprio candidato é primordial. Mas para isso a equipe precisa estar afinada.”

Dessa forma, é corriqueiro ver alguns pecados cometidos. O mais comum trata de usar a terceira pessoa para postar algo, deixando claro que não é o próprio candidato que está escrevendo, mas um assessor. Segundo o especialista, isso é ruim.

“A estratégia da terceira pessoa não dá certo”, diz ele, visto que “a internet proporcionou a oportunidade de as pessoas falarem com seus ídolos diretamente. Vou citar um exemplo meu: um dia eu falei com o Woody Allen [cineasta americano] no Twitter. Ora, qual a probabilidade de o Woody Allen responder uma pergunta minha, se não fosse por uma rede social? Mínima. Então, a rede social ajudou a suprir a carência das pessoas que querem um contato direto com as pessoas que têm um papel na sociedade. Agora, se você usa a terceira pessoa em um post, esse contato direto acabou”.

Comprar seguidores não agrega benefício a nenhuma campanha

Um erro que, vez ou outra, é cometido durante a campanha eleitoral conduz à compra de seguidores. Com o aumento da importância das redes sociais, sobretudo no meio político, surgiram dezenas de empresas especializadas na comercialização de seguidores para páginas e perfis de redes como o Face­book e o Twitter. Porém, são falsos seguidores, isto é, não existem pessoas reais que movimentam essas contas. São apenas números.

O especialista Carlos Willian conta que comprar seguidores é uma falha grave quando se trata de uma campanha eleitoral, uma vez que se ganha em número de seguidores, mas, em contrapartida, se perde em qualidade de divulgação. “Comprar seguidores dá volume, mas não dá qualidade, pois não há interatividade, nem alcance”, diz ele.

Acontece que as redes possuem mecanismos para identificar esse tipo de fraude. Carlos Willian explica: “O Facebook, por exemplo, limita naturalmente o alcance das suas postagens, mas se a rede perceber que há algo estranho no fluxo de seguidores, esse alcance é limitado ainda mais. Hoje, temos dados de que, pelos meios normais, apenas 2% dos usuários veem aquilo que é postado em uma página no Facebook. Se for perfil, esse alcance é elevado para 16%. Por que eles fazem isso? Porque querem vender espaço. Assim, se há fraude, esses 2% caem. Ou seja, não compensa”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.