O fantasma da família Clutter

Quase 60 anos depois do assassinato da família Clutter, imortalizado por Truman Capote na reportagem literária mais famosa de todos os tempos, o clássico “A Sangue Frio”, a cidade de Holcomb, nas planícies do oeste do Kansas, parece condenada a um luto infinito 

Eduardo Ritter
Especial para o Jornal Opção

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Truman Capote: pioneiro do jornalismo literário com o romance “A Sangue Frio”, que narra a história do assassinato da família Clutter, nos Estados Unidos, em 1959

Um carro que ficou na estrada por praticamente duas mil mi­lhas finalmente che­ga até a cidade de Holcomb, nas planícies do oeste do Kansas, ou, como diria Truman Capote na abertura do clássico “A Sangue Frio”, “lá onde cresce o trigo, uma área isolada que mesmo os demais habitantes do Kansas consideram distante”. Foram mais de 12 horas na estrada. O cansaço estava fazendo com que os olhos ficassem pesados quando começaram a surgir as primeiras placas indicando: Holcomb. Até então, parecia uma cidade imaginária, criada pela massa cinzenta de romancistas “maniconíacos”, onde uma família escondia um tesouro em uma casa completamente isolada do resto da civilização norte-americana. Nada melhor do que descobrir a existência dessa casa para, depois de horas de viagem, chegar lá e levar toda a fortuna do cofre dos Clutter sem deixar rastros nem suspeitas.

Na chegada na fazenda, uma placa avisa: não ultrapasse, propriedade privada. Ora, que diabos, nesse fim de mundo, quem liga? O carro transpassa a barreira e entra no terreno privado sem temer qualquer consequência. O veículo é estacionado e, a certa distância, o motorista observa dois adolescentes de cabelos loiros entrando num celeiro. A garota mais velha deve ter uns 17 anos — com pernas magras e carnes rijas. Ela e o irmão, de aproximadamente 15 anos, observam o carro que estaciona por ali, dentro da propriedade da família, sem dar muita bola. Provavelmente eles nem sabem que há meio século, no meio de uma madrugada serena, um calhambeque também chegava naquela fazenda com dois criminosos armados, cheios de boa vontade e muita ganância. E, assim como esses dois irmãos ingênuos de 2014, havia dentro da casa no longínquo 1959 uma irmã mais velha e um irmão mais novo que, bem como os seus pais, foram mortos por dois criminosos que buscavam uma fortuna que não existia.

Foi assim que, no dia 13 de julho de 2014, exatamente no mesmo momento em que Argentina e Alemanha decidiam a Copa do Mundo no Maracanã, no Rio de Janeiro, eu cheguei até a propriedade onde a família Clutter foi assassinada nos anos 1950. E, o mais incrível de tudo é que a descrição feita por Truman Capote, na reportagem literária mais famosa de todos os tempos, pode ser perfeitamente aplicável ao cenário contemporâneo: “Holcomb também pode ser vista de muito longe. Não que haja muito para ver — apenas uma congregação desordenada de construções dividias ao meio pelos trilhos da linha principal de Santa Fe Railroad, um vilarejo fortuito delimitado ao sul por um trecho barrento do rio Arkansas, ao norte por uma auto-estrada, a Route 50, a leste pelas pradarias e os campos de trigos”. Essa é a mesma descrição que posso fazer sobre a minha chegada na propriedade em 2014 — quase 60 anos após o crime. Inclusive, você consegue ver perfeitamente os trilhos que estão atrás da residência.

O silêncio do local é assustador. Se não fosse o Versa, carro locado em San Diego, eu juraria que estava no dia do crime — 15 de novembro de 1959.

Andei por todo o terreno. Havia roupas estendidas no varal. Achei que tomaria um tiro. “Ei, estranho, que diabos está fazendo aqui?”. Mas os dois adolescentes, provavelmente irmão e irmã, que cruzaram comigo na chegada na propriedade — eles saíram em uma caminhonete — nem deram bola para a minha presença. Estava tudo silencioso demais, mas aberto demais, acessível a qualquer louco demais. Fiquei na dúvida se havia alguém em casa ou não. Espiei em uma das janelas e vi uma cozinha. Enxerguei parte da sala, aonde os criminosos mataram “a sangue frio” o sr. Clutter. Por um momento, senti-me culpado, como se fizesse parte do crime. Parecia que estava vendo tudo e não estava fazendo nada. A sensação é que eu tinha que fazer alguma coisa, ligar para a polícia, gritar por socorro, mas por quê? Estava tudo tão tranquilo… Dei a volta pela casa e fiquei de frente para o parquinho, aonde as crianças do casal Clutter brincaram durante anos. A sensação que eu tinha era que a qualquer momento o sr. Clutter, do alto dos seus 48 anos, chegaria com os seus óculos de fundo de garrafa para perguntar no que poderia me ser útil.

Mas nem o sr. nem a sra. Clutter apareceram.

Lembrei, então, do que havia acontecido há poucos minutos, quando entrei em Holcomb. Primeiro, passei por uma praça, aonde havia um memorial dedicado à família Clutter. Então, seguindo as orientações do GPS, cheguei até a Oak Avenue, a tal da rua onde ficava a propriedade da família Clutter. No entanto, pelas minhas pesquisas na internet, não havia um número residencial específico. Então, meio perdido, estacionei o carro no fim da rua. Parecia um daqueles enigmas de jogos de vídeo-game em que você precisa linkar uma peça à outra. Pois foi isso: cheguei ao final da rua e estacionei o carro no meio da pista, que estava deserta. Havia duas casas que, teoricamente, seriam as últimas da avenida — que mais parecia uma rua de Catuípe (cidade perdida no meio do Rio Grande do Sul). Enfim, a que seria a última casa era uma espécie de oficina mecânica. Entrei na propriedade e a minha chegada foi anunciada pelos cães que estavam amarrados, nos fundos, mas que latiam desesperadamente.

— Hi… — saudei com uma voz quase muda de vergonha e desconfiança.

— Hi… — respondeu o senhor que me viu e que se dirigia à minha direção com a testa franzida.

— Estou procurando a ex-propriedade da família Clutter e….

— É bem ali — tratou de cortar a minha fala o tal senhor, apontando para uma casa que mal dava para se enxergar no fim do horizonte…

E então era isso. A casa da família Clutter, mesmo depois do que aconteceu, estava lá, amarela, intacta, de maneira, exatamente da mesma forma que estava naquela madrugada digna de filme de terror dos anos 1950. E fiquei me questionando: que diabos, como alguém mora tão isolado assim do resto da civilização? E, repeti a questão, ainda mais desorientado: como, em 2014, alguém mora assim tão isolado do resto da civilização? No nosso imaginário, até é compreensível que, nos anos 1950, uma família fosse ingênua (para não chamá-la de burra — ok, desculpem a insensatez) para morar tão afastada de qualquer pedido de socorro. Mas em 2014? E depois de tudo o que aconteceu dentro da própria residência? Era algo, para mim, tão absurdo de ser entendido quanto os 7 a 1 da Alemanha na Copa…

O que eu senti pouco a pouco, fazendo a pergunta para o senhor da mecânica próxima à residência e para outros moradores de Hol­comb, é que eles realmente não gostam muito dos curiosos e jornalistas que vão até lá para ver a casa da fa­mí­lia Clutter. Na verdade, a sensação que se tem é que essa é uma cidade condenada a um luto infinito — e com todos os motivos para isso.

“Bem, quando não encontramos o cofre, Dick apagou a lanterna e, no escuro, saímos do escritório para uma sala, uma sala de estar. Dick me perguntou baixinho se eu não conseguia andar fazendo menos barulho. Mas ele fazia, no mínimo, tanto barulho quanto eu. Cada passo da gente era o maior estardalhaço. Chegamos a uma sala e uma porta, e Dick, lembrando do diagrama, disse que era um quarto. Acendeu a lanterna e abriu a porta. Um homem disse: ‘Querida?’. Estava dormindo, piscou os olhos e perguntou: ‘É você querida?’. Dick perguntou: ‘O senhor é o senhor Clutter?’. Agora ele estava bem acordado; sentou-se na cama e disse: ‘Quem é? O que está querendo?’. E

Dick respondeu, muito educado, como se fôssemos dois vendedores de porta em porta: ‘Queremos falar como senhor. No seu escritório, por favor’. E o senhor Clutter, de pés descalços, só de pijama, foi conosco até o escritório e acendemos as luzes de lá.” Essa cena, narrada na pági­na 296 de “A Sangue Frio”, Truman Capote, não me saía da mente, enquanto eu estava lá, parado, diante da casa esperando por um tiro ou por uma interlocução. Mas é impossível chegar na propriedade da família Clutter e não ficar lá parado, viajando no tempo, imaginando o carro dos criminosos chegando no início da madrugada do dia 15 de novembro de 1959. E também é inimaginável não se perguntar: em que estariam todos sonhando dentro daquela casa, sem saber que eram os seus últimos minutos de vida? Como foram os últimos momentos de toda a família antes de irem se deitar? E como não se comover ao imaginar a sra. Clutter dando beijo de boa noite nos dois filhos? E ainda: como pode a casa estar completamente conservada exatamente da mesma maneira que era na época do crime?

Até hoje não sei se fiquei lá minutos ou horas. A cena toda do crime estava em minha memória, mesmo sabendo que há um “quê” de ficção na narrativa de Capote. Imaginava o Dick gritando para o sr. Clutter, ao ouvir que não havia nenhum cofre na casa: “Não mente pra mim, seu filho da puta! Eu sei muito bem que você tem um cofre”. E não tem como não ficar chocado ao pensar no sr. Clutter, abraçado à mulher, que suplicava para que os dois criminosos não fizessem mal aos seus filhos, tentando acalmá-la dizendo: “Querida, esses homens não vão fazer mal a ninguém. Eles só querem dinheiro”. A cena narrada por Capote, com base na própria versão contada pelos bandidos, é agoniante, desesperadora, revoltante e, acima de tudo, genialmente literária. E a agonia está presente no silêncio da propriedade enquanto se está lá. E pensar que foi tudo por um dólar…

“Eu me ajoelhei ao lado do senhor Clutter, e só a dor de me ajoelhar — e me lembrei daquele maldito dólar. Um dólar de prata. A vergonha. O asco. E eles tinham me dito para eu nunca voltar para o Kansas. Mas só fui entender o que eu tinha feito quando ouvi aquele som. Parecia alguém se afogando. Gritando debaixo d’água. Entreguei a faca a Dick. E disse: ‘Você acaba com ele. Vai se sentir melhor’. Dick tentou — ou fingiu que tentava. Mas o senhor Clutter tinha força de dez homens — e já estava se livrando das cordas, tinha conseguido soltar as mãos. Dick entrou em pânico. Dick queria sair correndo dali. Mas eu não deixei ele ir embora. O homem ia morrer de qualquer jeito, eu sei, mas eu não podia deixar ele lá naquele estado. Pedi a Dick que segurasse a lanterna bem focalizada. E então eu fiz pontaria com a espingarda. E a sala explodiu.

Um clarão azul. E ficou cheia de fumaça. Meu Deus, eu nunca vou entender como as pessoas não ouviram aquele barulho num raio de trinta quilômetros”. E, assim, o sr. Clutter foi assassinado. E, de­pois dele, a esposa e os dois filhos.

A sangue frio. Gelado. Cruel e maquiavélico. Mas, estando ali, no interior do Kansas, em uma cidade de menos de 3 mil habitantes, em uma residência completamente isolada, você consegue entender como ninguém ouviu nenhum disparo à quilômetros de distância. E tudo isso rendeu para os dois bandidos miseráveis 40 dólares (não mais de 100 reais) — e a condenação à pena de morte.

E o que dizer sobre Holcomb e a residência dos Clutter mais de 50 anos depois? Nada, absolutamente nada. A residência continua tão afastada do resto da cidade quanto antes. E continua sendo habitada por uma família com filhos adolescentes como antes. E qualquer carro, inclusive o carro de um brasileiro sem nenhum atestado de sanidade mental, pode estacionar na propriedade. E o motorista brasileiro, mexicano, irlandês, paquistanês, indiano, afegão, argentino, pode entrar na residência, olhar para dentro da casa e, se quiser, pode entrar lá e repetir o crime horrendo dos anos 1950.

Mas, felizmente, nada disso aconteceu, pelo menos por enquanto.

E eu? Eu segui o meu caminho e, num posto perto de Kansas City, descobri que a Alemanha tinha vencido a Copa. E os alemães fizeram a volta Olímpica no Maracanã enquanto eu estava de luto por ter passado pelos túmulos da família Clutter em Garden City, e não pelos 7 a 1 que fizeram milhões de brasileiros (menos os 22 integrantes da seleção) se sentirem como o povo de Holcomb se sente até hoje por uma tragédia tão absurda, que a sua falta de sentido só foi possível de ser pensada nas páginas de um livro que se baseia na tragédia da própria tragédia (a morte resultado da morte — a pena de morte do amor do próprio autor). E assim eu, um leitor brasileiro, do fim do mundo do Rio Grande do Sul, fui até o fim do mundo do Kansas para tentar entender um pouco mais da (in)sanidade do ser humano. Missão essa, completamente fracassada, pois tão insana quanto o ser humano sou eu, aqui e agora, na minha própria Owl Farm missioneira.

Eduardo Ritter é jornalista. Doutorando em comunicação.

via Revista Bula

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