Getúlio: uma trilogia para ler e apreciar

Escrito em estilo fluente e elegante, solidamente embasado em documentos, publicações e depoimentos — além de uma excelente iconografia — “Getúlio: Da Volta Pela Consagração Popular ao Suicídio (1945-1954)” é percorrido com o interesse de um thriller de ficção dramática

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Getúlio Vargas: politicamente isolado, preferiu o suicídio à desonra da renúncia

Lena Castello Branco
Especial para o Jornal Opção
A biografia é um dos gêneros discursivos mais antigos, situando-se na fronteira entre a história e a literatura. Fronteira aliás difusa em seus começos, e ainda bastante imprecisa nos dias atuais. Até porque tanto a literatura como a história objetivam representar as experiências dos homens e suas inquietações, bem como responder às questões que são suscitadas a cada momento.

Como lembra Pesavento, o historiador trabalha com a erudição, pois se utiliza de um instrumental teórico e fático que lhe permita “estabelecer toda sorte de correlações possível entre um acontecimento dado e outros, de forma a revelar significados”.

A elaboração da história tem por base o documento, com que se trabalha a partir do conhecimento da historiografia e da teoria pertinentes ao tema escolhido. O emprego do método é fundamental para que se conheçam os caminhos percorridos pelo historiador, de maneira que outros possam segui-lo, aceitando ou refutando as conclusões a que chegou.

Juan Suriano afirma que a biografia esteve marginalizada no período de hegemonia da Escola dos Annales. Nas décadas de 1940 a 1980, abandonou-se a história política tradicional, centrada nos grandes vultos, e passou-se a cultivar uma história totalizante, de análise das estruturas e dos processos.

Pouca importância dava-se ao acontecimento ou ao indivíduo, privilegiando-se os atores coletivos. Em consequência, a biografia histórica — “tan vieja cuanto la propia historia”, diz o historiador argentino — passou a ter papel secundário na produção acadêmica.

Segundo o mesmo autor, os grandes relatos interpretativos entraram em declínio com a derrocada dos estados de bem-estar social e do socialismo real, que deram lugar a uma sociedade mais individualista, em que se questionava o compromisso de pensar a sociedade como um todo.

No campo da história, as certezas foram substituídas pela dúvida e pela dispersão epistemológica. A biografia voltou ao primeiro plano da historiografia, ensejando a revalorização dos atores sociais. Na história como na literatura, o sujeito recobrou im­portância, emprestando-se valor às histórias individuais e familiares.

Na atualidade, cresce o interesse pelas biografias de pessoas públicas, políticos, sindicalistas, desportistas, empresários, artistas. En­tretanto, nas searas acadêmicas, ainda persiste alguma resistência a esse gênero histórico, que vem sendo explorado predominantemente por jornalistas. Também têm público cativo as biografias romanceadas, que quase sempre exploram aspectos sensacionalistas e dão ênfase para as desventuras amorosas e familiares dos protagonistas.

Na recriação da vida do biografado, acentua Pesavento, o biógrafo aproxima-se do literato, quando busca ter acesso ao clima de uma determinada época, bem como ao modo como as pessoas “pensavam o mundo, a si próprias, os valores que guiavam os seus passos, quais os preconceitos, os medos e sonhos”. São os recursos da literatura, como chave do imaginário, aliados aos da história, que permitem ao au­tor/pesquisador aproximar-se de perfis e valores de um dado momento histórico, e assim desvelar o que condicionou (condiciona) o comportamento das pessoas.

Quando se escolhe alguém para ser biografado, faz-se necessário recorrer às fontes disponíveis, de maneira que seja possível delinear aspectos da sua vida pública e particular, seus gestos espontâneos e também suas performances intencionais. De acordo com Jacques Le Goff — um dos renovadores do gênero biográfico — “só se pode escrever uma boa biografia se esta for sobre um personagem de quem se acredita ser capaz de chegar bem perto”. Em outras palavras: as fontes consultadas devem ser diversificadas e confiáveis, permitindo apreender os múltiplos aspectos da personalidade do biografado.

O perfil de um indivíduo que se destaca em seu meio — como Getúlio Vargas o foi — começa a ser esboçado coletivamente por seus contemporâneos, em paralelo à sua própria existência. Textos laudatórios apontam virtudes e acertos, bem como escondem imperfeições e defeitos. Mentiras, meias verdades e calúnias atuam no sentido inverso, na construção de mitos da maldade que se incorporam à personagem real. Cola-se ao indivíduo uma “pe­le imaginária” — a expressão é de Jo­sé d´Asumpção Barros — que resulta da mistura de excertos da verdade, criações da fantasia e fragmentos de valores individuais ou coletivos.

Despir dessa vestimenta o biografado permitirá conhecê-lo me­lhor; mas há que aproveitá-la — a essa “pele imaginária” — para resgatar o imaginário social que lhe de­finiu a tessitura peculiar. Ao biografar Vargas, o desafio será como dissecá-la e ao mesmo tempo entendê-la, em face dos valores que permeavam a sociedade brasileira — so­bre­tudo a gaúcha e a carioca — do fi­nal do século 19 a meados do século 20.

A questão que se coloca é de como esboçar o “verdadeiro” perfil psicológico e social de um dos mais fascinantes personagens da história brasileira, em sua dimensão política, intelectual e humana sem perder de vista os muitos cenários em que se desenrolou sua existência.

A tarefa difícil e complexa constituiu-se em desafio para João de Lira Cavalcante Neto — o jornalista Lira Neto. Formado em Filosofia, Letras e Jornalismo, ele trabalhou durante muitos anos em Fortaleza (CE), sua cidade natal; atualmente, reside em São Paulo (SP). É autor de várias biografias, dentre as quais: “Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão” (2009); “Maysa: só Numa Multidão de Amores” (2007), “O Inimigo do Rei: Uma Biografia de José de Alencar” (2006); “Cas­tello: a Marcha Para a Ditadura (2004)” e outras.

Nos três volumes de “Getúlio”, Lira Neto confirma as qualidades de percuciente pesquisador e bom escritor — e de certa forma consegue superar-se a si mesmo no fazer biográfico. Adotando a narrativa cronológica, diversifica, entretanto, os cenários e permite-se privilegiar temas ou personagens extemporâneos que venham a contribuir para melhor delinear o perfil do biografado. É o caso, por exemplo, do ex­ce­lente “Prólogo” — no volume 1 — quando é relatado o sobrevoo de aviões italianos, em 1931, sobre a capital brasileira, o Rio de Janeiro, ostentando na fuselagem o emblema fascista. Com essa di­gressão, é ressaltada a admiração pelo fascismo entre os vitoriosos no período pós-Revolução de 1930, com a consequente opção pelo autoritarismo, incompatível com a liberal-democracia da (encerrada) Primeira República.

Comandante em chefe da Revolução de 1930, Getúlio Vargas chega como herói vitorioso ao Palácio do Catete, atribuindo-se a missão de salvar a pátria e o povo brasileiro dos males do atraso, da violência e da incompetência dos velhos políticos “carcomidos”. Espelhando-se nos modelos autoritários da Europa, o estado brasileiro é reformado segundo padrões de eficiência e modernidade — não lhe faltando a utilização dos meios da propaganda e da psicologia das massas, por meio de novos veículos de comunicação, como o rádio.

Atento à realidade dos fatos, Lira Neto — com minúcias de pesquisador —desvela os bastidores do Estado Novo, as intrigas e lutas dos grupos que disputavam espaço entre os áulicos mais próximos do ditador. Remontando aos anos primeiros de Vargas, revela-nos também sua infância nos pampas, no seio de uma família de estancieiros, identificada com o individualismo, a violência e o autoritarismo gauchesco.

Vivi minha meninice e juventude sob a égide do getulismo, de tal sorte que essa mirada do biógrafo sobre a ambiência familiar de Vargas teve — para mim — a força de uma revelação. Nos livros semioficiais que eram distribuídos nas escolas, nos quais se exaltava o Pai da Pátria, nada disso acontecia e a imagem que nos era transmitida coloria-se de harmonia e paz familiar.

De igual modo, o relato sobre os passos iniciais de Getúlio na política, os entreveros nas coxilhas, os avanços e recuos do biografado entre os estudos acadêmicos, a política e as boleadeiras. Como ponto fora da curva, a formação da personalidade metódica de Getúlio, inclusive do ponto de vista sentimental, vindo a casar-se segundo os ditames da racionalidade, com uma jovem de família influente e rica — cujo pai, lembre-se, premido por uma crise financeira, viria a suicidar-se.

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Lira Neto deixa evidente que o ofício do historiador é o de responder às indagações e questões do seu tempo

Com o passar dos anos, acentuam-se as clivagens e as dissensões que se tornariam inconciliáveis no universo político brasileiro: de um lado, a emergência do populismo, mediante a cooptação das massas pela concessão de benefícios dados pelo Pai da Pátria, e vistos como benesses pessoais deste aos seus filhos — quase súditos. De outra parte, o retorno dos princípios da liberal democracia que fixara raízes no pensamento político e nas instituições do passado, mas que fora afastada do proscênio pela Revolu­ção de 1930. Voltarão com força du­rante a Segunda Grande Guerra (1939-1945), inclusive com a participa­ção das forças armadas brasileiras na luta contra o fascismo e o nazismo.

Ressuma do texto a personalidade enigmática do biografado, sob a más­cara de bonomia que o indefectível sorriso e o charuto compõem. A tendência à introspecção e ao isolamento acentua-se com a idade; em momentos diversos, Lira Neto identifica remissões à ideia de suicídio co­mo possível rito purificador e atestador da honra pessoal de Vargas.

Nos anos que se sucedem, o ex-ditador vai do ápice do poder ao retiro em São Borja — mas não se vislumbram momentos de felicidade, a não ser breves lampejos com a “Bem Amada”, a bela Aimée, afinal sacrificada no altar das convenções conservadoras. O casamento com D. Darcy mantém-se em aparência. A convivência com os filhos é limitada pelos deveres e apelos do poder; somente Alzira consegue captar-lhe a benevolência e obter algumas contidas manifestações de afeto paterno. Poucas são as opções de lazer: o golfe, a equitação raramente praticada, um que outro espetáculo teatral, eventuais amantes bem ao estilo da sociedade da época, tolerante com os deslizes masculinos.

Em torno, a corte estadonovista, de arrivistas e novos ricos, beneficiários dos conchavos feitos à sombra do poder e das negociatas bancadas com dinheiro público. Vargas é visceralmente honesto — mas a ditadura engendra seus próprios monstros. São fios que tecem a trama do destino: a polícia política, a abolição das liberdades civis e a censura. E mais: a chamada guarda pessoal, com 83 integrantes, entocada nos porões do Palácio do Catete.

No último volume da trilogia, a ação é centrada nos dias de agosto que antecederam a tragédia, inclusive a maré montante de indignação que impregnou camadas expressivas da sociedade brasileira. Naqueles idos de agosto, a política como arte do possível cedera lugar à divisão de forças inimigas que se digladiavam sem trégua, movidas pelo ódio e pelo rancor.

Seguindo passo a passo a evolução da crise, Lira Neto refere documentos e depoimentos que confirmam o direcionamento de verbas públicas para negócios duvidosos, ou comprometidos com o projeto de poder do grupo mais próximo de Vargas. De outra parte, a oratória fulminante e a pena corrosiva do deputado e jornalista Carlos Lacer­da, sua capacidade de demolir com palavras o adversário, levaram a posicionamentos antagônicos: pró Vargas ou pró-Lacerda. Absolu­tamente inconciliáveis.

A esse material incendiário, somou-se o atentado contra Carlos La­cerda, na noite de 4 para 5 de agosto de 1954 — quando foi mor­to, na Rua Tonelero, em Copa­ca­bana (RJ), o major da Aeronáutica, Rubens Florentino Vaz. O tiro que o vitimou fora dirigido a Carlos Lacerda que, embora ferido, escapara com vida.
Começa a escalada do drama que ganha em voltagem com a revelação do “mar de lama” que transborda dos porões do Catete.

A sequência dos fatos adquire tonalidades chocantes, com sua galeria de heróis e vilões — esses mais numerosos e logo identificados. É o caso de Gregório For­tu­nato, o Anjo Negro, homem de con­fiança da família Vargas, trazido de São Borja para chefiar a guarda pessoal do presidente; Benjamim Vargas, o Bejo, irmão caçula de Getúlio, boêmio e jogador inveterado que se inclui entre os suspeitos de planejarem o atentado; os responsáveis diretos pelo crime: Climério Euribes de Oliveira, cunhado de Gregório Fortunato e compadre de Lutero, o primogênito de Getúlio; e Alcino João do Nascimento, matador profissional, contratado por Climério — segundo sugestão de Gre­gório — para eliminar Lacerda, o arquiinimigo de Getúlio.

Rádios, jornais e a incipiente televisão do Rio de Janeiro acompanhavam com estridência a evolução da crise, que logo transcendeu as searas políticas e contaminou os quartéis. Instaurou-se um Inquérito Policial Militar na au­tointitulada República do Galeão, onde se concentravam os oficiais da Aeronáutica inconformados com a morte do companheiro de arma, exigindo esclarecimentos e a punição dos culpados.

Aliados de ontem abandonam o governo; o vice-presidente Café Filho não inspira confiança a Vargas, nem a seus familiares e colaboradores mais próximos. Ministros mostram-se favoráveis a que Getúlio renuncie ou, ao menos, se licencie do cargo, até a apuração final dos fatos.

A última reunião do ministério, na noite de 23 para 24 de agosto de 1954, teve a feição do ato final de uma tragédia shakespeariana. Lira Neto a recria em detalhes e acentua seu conteúdo dramático, com pinceladas de emoção e suspense.

Em 1991 — tantos anos passados — aqueles momentos inspiraram a peça de teatro, “O Tiro que Mudou a História”, de Aderbal Freire Filho e Carlos Eduardo Novaes. Foi encenada no próprio Palácio do Catete — e fui um dos privilegiados 75 assistentes que a acompanharam, passo a passo, seguindo o desenrolar peripatético da ação, que começava nos jardins e seguia pelas escadarias e salões do Museu da República. O ator Cláudio Marzo, em interpretação inspirada, viveu a personagem central. E nós o seguimos até o quarto do primeiro andar onde, fugindo à desonra que julgava ameaçá-lo, suicidou-se o presidente Getúlio Vargas.

24 de agosto de 1954. Seriam 9 horas da manhã. Recém-formada em História e Geografia, eu lecionava à noite e trabalhava à tarde no IAPI (Instituto dos Industriários), antecessor do atual INPS. Em Goiânia faltava energia elétrica, de maneira que acompanhávamos nos rádios dos automóveis a crise política que se desenrolava no Rio de Janeiro. Os detalhes eram avidamente perscrutados nos diários locais, “Folha de Goiás” e “O Popular”, além dos jornais vindos da capital da República, por via aérea.

Eu estava na varanda de casa, quando uma vizinha saiu correndo e gritou junto à mureta do jardim: “O Getúlio suicidou-se!” E repetia, chorando: “Ele se matou com um tiro no peito! Meu irmão telefonou contando. O Getúlio se suicidou!”.

Corremos para o carro estacionado em frente da casa e ligamos o rádio: com voz empostada e música solene de fundo, um locutor estava lendo a Carta Testamento de Vargas. Em silêncio, juntamos as mãos e ficamos ouvindo, entre incrédulas e emocionadas. Logo, outros vizinhos vieram ter conosco, e ali continuamos, na manhã ensolarada, internalizando o inimaginável: o presidente Getúlio Vargas se suicidara com um tiro de revólver no peito; o Palácio do Catete estava cercado pela multidão desesperada; ainda não se sabia onde e quando seria o enterro.

As palavras tragicamente dispostas e a voz pausada do locutor tinham um efeito altamente dramático, como se estivéssemos as­sistindo a um dos grandes mo­men­tos da tragédia universal. Tudo era, porém, incrivelmente real.

De repente, alguém perguntou: “E agora, o que vai acontecer?”

Lira Neto registra com pinceladas de emoção a tragédia vivenciada pelo suicida, bem como recompõe toda a trajetória pessoal, familiar e política de Vargas, nos volumes que compõem a trilogia, a saber: Volume I — “Ge­túlio: Da Infância à Maturidade (1882-1930)”. Volume II — “Getúlio: Da Revolução de 1930 ao Estado Novo (1930-1945)”. Vol. III — “Getúlio: Da Volta Pela Consagração Popular ao Suicídio (1945-1954)”.

Escrito em estilo fluente e elegante, solidamente embasado em documentos, publicações e depoimentos — além de uma excelente iconografia — o livro é percorrido com o interesse de um thriller de ficção dramática.

Não obstante, o autor obedece aos cânones do método científico; socorre-se de vastíssima documentação pública e privada, e refere inumeráveis biografias e livros consultados. É possível acompanhar sua trajetória, seguir-lhe os passos, concordar ou discordar dele, mas sempre com conhecimento dos caminhos que terá percorrido.

Atendo-se rigorosamente às fontes e aos fatos, Lira Neto revela-se simpático à personalidade carismática — e enigmática — do biografado. Separa o joio do trigo e, em momentos diversos, ressalta as contribuições positivas de seus governos, sua visão de estadista, seu genuíno interesse e dedicação ao povo e à nação brasileira.

Dentre tantas obras escritas sobre Vargas — a favor ou contra ele — fica a certeza de que o livro de Lira Neto traz contribuição valiosa para o maior conhecimento do homem, do político, do ditador e do estadista que nele conviveram, até de maneira conflituada.

Revelando segredos, consultando arquivos negligenciados e papéis desconhecidos, dialogando com testemunhas e familiares, Lira Neto deixa evidente que o ofício do historiador é o de responder às indagações e questões do seu tempo. De onde fica a pergunta: dentro de outros 60 anos, lá pelos vindouros 2074, como serão vistos e avaliados os embates e as contingências atuais da política brasileira?

Lena Castello Branco é doutora em história e escritora.

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