Opção cultural

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Opção cultural
Aos 11 anos, menino deixa a família na zona rural para estudar; décadas depois, executivo de mobilidade lança romance inspirado no poder transformador das escolhas

Em Senhas da Memória, o autor constrói uma narrativa ficcional inspirada em experiências universais, contemplando temas como educação, família, trabalho, valores e formação humana

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CRÔNICA
A leitura é a verdadeira oficina da escrita literária

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Santo Agostinho 8885585858585
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Padre Alfredo e a caçada das capivaras

Empolgado com uma caçada empreendida por amigos, o religioso misturou a mortante de capivaras com a liturgia e deu tudo errado

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José Ternes, Foucault, Bachelard, Drummond de Andrade e o embate entre o pensamento clássico e o moderno

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Copyright ou “copy-IA”? O futuro da música autoral na era das máquinas

Uma música produzida por IA custa quase nada. Não exige estúdio, nem músicos. Sequer demanda carreira ou agenda. Consequentemente, também não reivindica direitos conexos tradicionais

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Não se mexa, romance de Margaret Mazzantini, relata mea culpa de um pai diante da filha em risco de morte

Romance é um monólogo em que Timóteo relembra seu caso de infidelidade enquanto a filha, vítima de acidente de trânsito, luta pela vida em um hospital de Roma

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Os amendoins e os assovios

Fernando Cupertino

Especial para o Jornal Opção

Das minhas memórias de infância, o amendoim tem presença garantida em quatro situações: nos confeitos açucarados e multicoloridos de Dona Otávia; nos pés-de-moleque feitos por minha mãe; na canjica com amendoim que se comia na Sexta-feira da Paixão e, também, nos cajuzinhos de amendoim, que eram frequentemente servidos nas festinhas de aniversário.

Talvez alguém pense consigo mesmo: — Que falta de assunto, meu Deus! Amendoins?

Explico-me: neste momento estou na Guiné-Bissau, na costa oeste da África, numa missão de trabalho. É a terceira vez que venho ao país, cuja principal riqueza vem justamente da exportação da castanha de caju e do amendoim. Seu prato mais típico, o caldo de mancarra (que é o nome pelo qual o amendoim é conhecido aqui), é muito bom e forte. Consiste num cozido da pasta do amendoim triturado, à qual se juntam carne ou peixe, quiabo e umas folhas cujo nome não sei bem.

Lembranças da infância

Mas voltando às lembranças de infância, a mais doce e colorida é a dos confeitos fabricados por Dona Otávia e embalados em artísticos cartuchos de cartolina, como se fossem uma cornucópia. Os meninos que serviam de apóstolos na cerimônia do lava-pés, na Quinta-feira Santa, recebiam confeitos de presente, ao final da missa. Fora disso, também se podia encomendar aos quilos para festas especiais, tais como primeiras-comunhões, casamentos e bodas de prata ou de ouro.

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Sempre tive a impressão de que, se o paraíso tivesse gosto, não poderia ser outro que não o dos confeitos de Dona Otávia, para além da goiabada com queijo, naturalmente.

Já a tal canjica de amendoim — coisa de que nunca consegui gostar, por mais que me esforçasse, era prato obrigatório em casa de meus avós Luiz e Altair,  a fim de atenuar os rigores do jejum e da abstinência na Sexta-feira da Paixão, dos quais somente estavam desobrigados os doentes, as crianças e os idosos.

Apesar disso, havia sempre a insistência para que todos comêssemos aquela quase-sopa de milho com leite e amendoim torrado, que sobre mim nunca exerceu a mínima atração.

Já para o pé-de-moleque, o apetite era total! Feito a partir da rapadura de cana-de-açúcar, com amendoim torrado, era uma festa o dia em que corria a notícia de que estava se pensando numa sessão de trabalho que culminasse com uma boa quantidade de pé-de-moleque.

Tudo começava com o descascar dos amendoins, ofício para o qual, nós, crianças, também éramos requisitados.

Pé de moleque com rapadura 1

Afinal, haja paciência para retirar, uma a uma, as cascas que mais pareciam delicados estojos, dentro dos quais estariam apenas dois ou três caroços de amendoim. Para isso, sentávamo-nos no chão, tendo, de um lado, a saca de amendoins em casca e, de outro, um recipiente para receber os já desembainhados. Depois disso, levava-se ao forno para torrá-los e, finalmente, era preciso esfregar um punhado deles nas mãos, de cada vez, de modo a retirar a fina película que se desgarrava após a torrefação.

Daí em diante, eram minha mãe e minha avó que se ocupavam em preparar o doce, num grande tacho de cobre, mexendo sem parar com uma enorme colher de pau, até “dar o ponto”, trabalhando toda aquela pasta de rapadura derretida e amendoim triturado e mais alguns inteiros.

Vertia-se então aquela massa macia e açucarada sobre uma pedra, onde já se encontrava disposta uma fina camada de farinha de mandioca, que era para não deixar grudar o doce sobre a superfície. Feito isso, era esperar esfriar — ou arrefecer, como dizem os portugueses — para cortar os pedaços em forma de losangos. Hum! Uma delícia!

Porém, o mais interessante de tudo isso é que, tanto o descascar do amendoim ainda cru quanto a tarefa de limpá-lo daquela fina casca depois de torrado, eram atividades sob a estrita fiscalização de minha avó, que exigia que o trabalho fosse feito ao mesmo tempo em que todos devíamos assoviar continuamente. Sabedoria dos antigos, sem dúvida alguma, a fim de evitar a perda de muitos amendoins que, de outra forma, em lugar de irem parar na panela, teriam o fatal destino de serem sacrificados à gula dos pequenos trabalhadores.

Conheça uma antiga charada

“O que é, o que é: uma caixinha de bom parecer, que não há carapina que saiba fazer?” Resposta: o amendoim.

(Antiga charada que aprendi com meu pai.)

Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.

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