Nós e o sabiá lutando com gigantes
23 maio 2026 às 17h29

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Eu estava sentado num banco dentro do Parque Areião Washington Novaes, assistindo a um concerto farfalhante executado pelo vento, que soprava brandamente as folhas dos bambuzais. Por lá, existem diversas espécies dessa planta, que, botanicamente, não é classificada como árvore, mas como parente do milho, da cana-de-açúcar e do capim.
Em frente a mim, havia um carro no estacionamento do parque. Um sabiá-laranjeira pousou primeiro no teto do automóvel; depois, com a solenidade de quem chega para tomar posse de “seu” território, pousou no vidro lateral dianteiro do veículo, bem próximo ao retrovisor. Então surgiram três aves: o sabiá propriamente dito e duas imagens dele refletidas no vidro e no retrovisor.
Dois intrusos instalados no seu pedaço de mundo sem pedir licença. Aí não! Dois atrevidos com a mesma pose insolente dele, que ora atacava um, ora o outro. Eram bicadas fortes no vidro. Essa peleja não é do sabiá, já registrei muitas aves nessa contenda. Eu quis contar ao passarinho que seus inimigos eram moinhos, e não gigantes, e que, em vez de se digladiar com eles, poderia estar cantando. Certamente a ave nem sabe que é símbolo do Brasil, por ser dona de um canto melodioso e estar presente em grande parte do território nacional. Os poetas Gonçalves Dias e Carlos Drummond de Andrade já cantaram a ave. Mas aí me lembrei de que os sabiás dão início à sua cantoria em setembro, com a chegada da primavera, prosseguindo assim com sua temporada reprodutiva. O canto é, digamos assim, a poesia que declamam visando à sedução da fêmea.

| Foto: Sinésio Dioliveira
Aquela cena me trouxe uma metáfora: me fez pensar em quantas vezes também nós nos tornamos inimigos do espelho. Nem sempre de um espelho de vidro, claro, mas de imagens distorcidas que inventamos. Afinal, sabe bem você, altaneiro leitor, que nós, seres humanos, somos craques em colocar caraminholas dentro da própria cabeça. Possuímos um talento danoso para transformar sombras em gigantes e coincidências em provas irrefutáveis de perseguição. Falando em perseguição, tenho uma conhecida que acha que a situação complicada por que passa, de ordem financeira, é uma prova de Deus para testar sua fé.
Ela acredita que há um tesouro reservado para ela. “Tenho fé, irmão!” Ela me chama de irmão, e eu a chamo de irmã. Tenho a impressão de que espera que um Daniel Vorcaro apareça em sua vida, como já apareceu na vida de muitos. Flávio Bolsonaro, que está com o conteúdo da cueca bem sujo de batom, que o diga sobre a bênção que é o “trambanqueiro” Vorcaro.
Já pensei em lhe falar do Deus de Baruch Spinoza, mas silencio as palavras, pois seus ouvidos foram moldados para outras crenças. Certamente lhe soaria estranho um Deus desconhecedor de ameaças ou recompensas, sem juízo final nem predileções humanas, que não dá carro de presente; um Deus que não se encontra aprisionado em templos nem necessita de dízimos e ofertas, mas que se revela sublimemente no vento soprando o bambuzal, no rumorejar do riacho ao passar pelas pedras, no cair da chuva sobre a terra para engravidar as sementes. Enfim, no próprio ato de existirmos.
Há quem veja desprezo onde existe apenas distração, que interprete um silêncio como rejeição definitiva, que faça de um atraso, de uma palavra atravessada ou de um gesto mal compreendido a prova de uma hostilidade inexistente. Aí o céu desaba, e tudo vira um angu de caroço. Aos poucos, constrói-se um conflito inteiro sobre alicerces frágeis, até que a imaginação passa a parecer mais verdadeira que os fatos. Putz! Nossas caraminholas são danosas.
O sabiá seguia firme na própria convicção. Bicava um rival, depois o outro, sem perceber que ambos dependiam inteiramente da presença dele para existir. Bastaria apenas ruflar as asas e pousar em algum galho para que os adversários desaparecessem. E foi o que fez, talvez movido pela dor de tanto bicar os gigantes que eram ele próprio.
Num impulso breve, abriu as asas e voou. Não venceu batalha alguma, porque não havia nenhuma batalha. O vidro da porta e do retrovisor permaneceram imóveis, indiferentes, e eu fiquei pensando que, às vezes, a paz começa quando deixamos de alimentar os fantasmas que introjetamos e passamos a enxergar o mundo sem as distorções do medo e da suspeita. Mas não há motivo para alarde, altaneiro leitor, pois a divina comédia humana, sabemos bem, é vasta e nela nada é eterno. Nela, até os nossos delírios de permanência acabam cedendo ao movimento das engrenagens do tempo: esse bicho faminto que engole séculos e homens.
Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza



