Eis-me de volta, altaneiro leitor, ao assunto lixo. Retomo-o com uma frase que li em alguma matéria ou artigo, cuja exatidão das palavras não me lembro, mas a ideia dela permanece: uma cidade se mantém limpa menos pelo ato de recolher e mais pelo compromisso de não sujar. A síntese da frase ajuda a compreender por que o tema atravessa décadas sem uma solução definitiva. O que tem como principal motivo, acredito eu, a ausência de engajamento da população. Lógico que o poder público tem o seu pecado.

Não há como esperar uma cidade limpa, por exemplo, quando existem pessoas que levam seu cachorro para fazer cocô na rua e não recolhem a titica do animal, pessoas que descartam na calçada de sua casa um fogão, um sofá, um colchão que não usam mais, pessoas que descartam o seu lixo num parque, pessoas que fazem as matas dos parques de motel e ainda deixam os preservativos usados por lá. Certa vez, participei de uma ação coletiva de limpeza do Bosque dos Buritis. Foi muita sujeira retirada do interior da mata. Uma mãe que estava com a filha ainda criança participando da ação, ao ver a quantidade de preservativos descartados, desistiu da tarefa.

A problemática do lixo em Goiânia não é assunto de agora. É antigo. O próprio título desta crônica mesmo foi retirado de um texto publicado há quase 70 anos no extinto jornal Cinco de Março, mais precisamente na edição de 1º de novembro de 1959, ano em que se deu a criação do semanário. Em 1981, o respectivo periódico encerrou sua trajetória e foi substituído pelo Diário da Manhã, também idealizado pelo jornalista Batista Custódio, que foi embora da vida em novembro de 2023. O texto a que me refiro está publicado no acervo da hemeroteca do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, criada na gestão do atual presidente, Jales Guedes Coelho Mendonça, que é um Midas em gestão. O acervo da entidade reúne exemplares de diferentes jornais e se consolidou como fonte valiosa para pesquisadores e interessados na história da imprensa em Goiás, que teve o seu início com o jornal Matutina Meiapontense, fundado em março de 1830 em Pirenópolis, que à época se chamava Meia Ponte.

Esse registro histórico estabelece um diálogo pertinente com o que se observa hoje em nossas ruas. Em minhas andanças pela cidade, tenho notado que o acúmulo de lixo em vias e outros logradouros públicos está mais ligado ao comportamento cotidiano da população do que, propriamente, à ausência de ação do poder público. Mesmo em áreas com coleta regular, persistem práticas como o descarte fora de horário, o uso inadequado de lixeiras e a não-separação de resíduos. Essas condutas reduzem a eficiência do serviço existente. Isso não elimina a responsabilidade do poder público, ao qual cabe o papel de fiscalizar e investir em educação ambiental, mas indica que, sem a adesão da população às práticas corretas, o problema se mantém.

Imagem de texto publicado em 1º de novembro de 1959 no extinto jornal Cinco de Março sobre lixo na cidade
| Foto: Reprodução

Um exemplo recente ajuda a ilustrar a minha narrativa. Dias atrás, vi uma montoeira de sacos de lixo numa ilha de uma Avenida Absay Teixeira no Setor Jardim Guanabara III. Havia também galhos de poda e um colchão. Nas calçadas da mesma via, marcada por intensa atividade comercial, não havia lixo visível. A ilha central, no entanto, consolidou-se como ponto de descarte irregular. Não se trata de um fato recente por lá. E não é só nesse setor que é assim. Essa dinâmica danosa se repete constantemente: a prefeitura realiza a limpeza; em seguida, o espaço volta a ser ocupado por resíduos descartados de forma inadequada. Fato que deixa claro a escuridão mental das pessoas que agem assim.

Esse ciclo revela que o lixo, mais do que um problema operacional, tornou-se elemento recorrente da paisagem urbana: quase uma camada incorporada à cidade. Romper esse padrão exige mais do que ampliar a coleta. Depende de mudança de hábito, cumprimento de horários, uso correto dos equipamentos disponíveis e entendimento de que o espaço público não é extensão do quintal privado. Sem isso, qualquer esforço de limpeza continuará sendo apenas uma pausa entre um descarte e outro. Ou seja, será a prefeitura limpando; a população sujando…

Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza

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