Árvore de rua tem uma vida muito difícil
17 abril 2026 às 14h00

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Sobre o livro A Vida Secreta das Árvores, do engenheiro florestal alemão Peter Wohlleben, já escrevi sobre ele neste espaço. Em determinado momento de sua trajetória profissional, o engenheiro viu as árvores apenas pelo viés comercial: “Todos os dias eu avaliava centenas de abetos, faias, carvalhos e pinheiros para saber se podiam ir para a serraria e descobrir o seu valor de mercado”: Durante anos, sua relação com a floresta foi a de quem mede tábuas sem perceber a sombra, sem perceber os vitais benefícios ambientais das árvores. Via volume, densidade, preço, porém não via vida.
Com o tempo, a mata foi lhe ensinando outra interpretação dela. Isso aconteceu depois de ele ir trabalhar como instrutor de sobrevivência, conduzir excursões em florestas e acompanhar funerais naturais — aqueles em que cinzas humanas são depositadas em urnas biodegradáveis ao pé das árvores. Então começou a perceber as árvores com outro olhar. Já não observava troncos como quem examina mercadorias enfileiradas, mas como quem as reconhece como seres especiais. Nas conversas com os visitantes do parque, descobriu detalhes que antes lhe escapavam. “Aprendi com eles a não prestar atenção só nos troncos e em sua qualidade, mas também em raízes anormais, padrões de crescimento diferentes e camadas de musgo na casca das árvores”, diz no prólogo.

| Foto: Sinésio Dioliveira
Meu retorno ao livro tem a ver com o capítulo 27, cujo título é “Crianças de rua”. Nele Wohlleben fala das sequoias gigantes: árvores nativas da costa oeste dos Estados Unidos que também foram plantadas na Europa. Quando visitei São Francisco, Califórnia, conhecer as sequoias do Muir Woods National Monument foi a primeira atratividade turística que fiz questão de conhecer. Vi árvores já centenárias por lá muito antes de Pedro Álvares Cabral chegar ao Brasil. Na Europa, essas árvores raramente passam de cinquenta metros; em solo americano, podem alcançar o dobro. A diferença não está apenas no clima ou na terra. Em seu habitat natural, segundo o autor, as sequoias crescem cercadas por outras árvores, protegidas por uma comunidade vegetal que compartilha nutrientes, abriga raízes e amortece ventos. Enfim não vivem sozinhas, não enfrentam o mundo isoladas. Há uma camaradagem entre elas.
Me vali das sequoias para chegar às árvores de Goiânia. Há milhares delas espalhadas pelos espaços públicos da cidade, e as de rua são as que mais sofrem. Põe sofrimento nisso. Elas crescem cercadas de gente e, ainda assim, vivem abandonadas. Há quem passe por elas sem se dar conta de que são também seres vivos e que merecem uma atenção maior, tanto do poder público como da comunidade. No ambiente urbano, as árvores sobrevivem sob uma adversidade permanente. Dividem espaço com o concreto, fiação elétrica e com a lógica de uma cidade que quase sempre considera uma árvore um estorvo. As folhas secas, que um dia foram verdes e geraram sombra, são tidas por muitos como “lixo”.
Tentam fincar raízes em solos endurecidos, suportam o calor que sobe do asfalto e enfrentam longos períodos sem água suficiente. Algumas adoecem sem que ninguém perceba; outras são mutiladas em podas tão violentas que mais parecem castigo do que cuidado. Cabe aqui citar a ferocidade das motosserras da Equatorial. E há mais outro problema sério: muitas têm o tronco estrangulado pelas calçadas, o que prejudica a absorção de água e nutrientes.
O que mais impressiona é que, apesar de tudo, continuam ali. Resistindo. Mas chega um momento em que algumas árvores, fragilizadas por anos de agressões, passam a representar risco para as pessoas. Nesses casos, a única alternativa acaba sendo a remoção. Isso costuma provocar o descontentamento de muitas pessoas, mas é preciso lidar com a questão com racionalidade. A arborização de uma cidade é um trabalho contínuo, feito no tempo lento da natureza. Muitas das árvores que hoje oferecem frescor, abrigo e beleza foram plantadas há vinte, trinta anos ou mais.
Quando uma está gravemente doente e oferece risco real de queda, sua remoção deve ser entendida como uma medida de responsabilidade, e não como agressão à natureza. Cuidar da paisagem também significa saber quando uma árvore precisa ser substituída para que outras continuem a cumprir esse papel.
Vale, portanto, observar que a retirada de muitas árvores ocorre em decorrência da situação difícil em que vivem. São inúmeros obstáculos – falta de espaço, solo compactado, podas drásticas, falta de manutenção – que comprometem seu crescimento, encurtam sua longevidade e, muitas vezes, as colocam em conflito com a própria estrutura das cidades. Em grande parte, essas dificuldades nascem de um planejamento urbano deficiente, da ausência de um manejo adequado e das condições ambientais hostis impostas pelo espaço urbano.
Enfim, árvore de rua tem uma vida muito difícil.
Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza

