O protesto das aves contra a capina química
01 maio 2026 às 08h30

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A liberdade poética, além da poesia em seu vasto quintal de subjetividade, pode ser estendida também à crônica. Pelo menos acho. E a crônica, para ser palatável, precisa de uma pitada criativa de poesia. Só palavras que se atenham tão-somente a contar um fato, despidas de emoção, deixam o texto insosso. O que pode fazer o leitor encerrar a leitura, quando muito, no terceiro parágrafo, muitas vezes no segundo. Tomara que você, altaneiro leitor, chegue a ler pelo menos o segundo.
A liberdade poética é algo tão fecundo que até ministro do Supremo Tribunal Federal (não o aturdido STF de agora) já escreveu sentença tingida de lirismo, e isso sem abandonar o rigor da boa prestação jurisdicional. Refiro-me ao ex-presidente da corte Carlos Ayres Britto. Em um encontro sobre direito e poesia, ele fez uma observação interessante: “Quando o juiz se expressa poeticamente, me parece que ele concilia os conceitos dos juízos emitidos com a estética da linguagem. A decisão dele se torna mais assimilável”.
Cabe aqui um parêntese: há decisões viciadas que não atendem aos critérios da lei, e isso por falta de imparcialidade ou de integridade do julgador. Em casos tortos assim, penalizar o juiz com aposentadoria compulsória é como jogar na lagoa o sapo que foi à festa no céu escondido dentro da viola do urubu. Chamar a aposentadoria compulsória de punição é algo hilariantemente horroroso, haja vista que o polpudo salário que o togado ganhava antes continua entrando na conta e com a vantagem de ele não precisar mais trabalhar. Em “Educação de um Príncipe Cristão”, do humanista holandês Erasmo de Roterdã, cuja publicação se deu em 1516, três anos após Maquiavel escrever “O Príncipe”, o autor chicoteia os magistrados que não honram a toga que vestem e que dela se valem para se enriquecer: “Não há nada mais prejudicial do que magistrados começarem a extrair lucros da condenação dos cidadãos”.

Foi essa mesma liberdade poética que me permitiu, outro dia, uma conversa bem proveitosa com alguns periquitos-de-encontro-amarelo, rolinhas-roxas, avoantes, canários-da-terra, pombas-asas-brancas e até pardais. Eles visitam a minha janela todos os dias em busca da ração improvisada que lhes preparo: um modesto banquete de quirela, sorgo e sementes de girassol. E água também. Na verdade, quase não falei. Fiquei ali mais no papel de ouvinte, como convém a quem tem o privilégio de receber visitas aladas. O assunto, para minha surpresa, não era a estiagem a caminho nem a escassez de frutos nos parques por falta de mais árvores frutíferas nesses espaços, mas a capina química que vem sendo aplicada em áreas urbanas de Aparecida de Goiânia. Havia no bando uma inquietação de descontentamento, o qual vejo como amparadíssimo de razão.
— Como usar um produto químico para matar a vegetação se ele também intoxica a população e causa dano ao meio ambiente? — protestou um canário-da-terra. E acrescentou, com a lógica simples que às vezes falta aos humanos, que “os próprios aplicadores do veneno se vestem como astronautas para não respirarem aquilo que espalham: o famigerado glifosato”. A asa-branca, sempre mais sóbria, ergueu o pescoço e observou que “a medida vai na contramão do bom senso: buscar rapidez e redução de custos pode até parecer racional na planilha, mas deixa de sê-lo quando coloca em risco tudo o que pulsa vida ao redor; esse antropocentrismo do homem é abominável, pois só ele se vê como dono do planeta”. Já a avoante, depois de engolir um grão de sorgo, entrou na conversa para lembrar que “os noticiários insistem em falar apenas dos riscos oferecidos pelo produto químico aos cães e gatos. Nós, sobretudo as aves gramíneas, também corremos risco de vida. O que também ocorre com as insetívoras, que é caso dos nossos irmãos pitiguaris, almas-de-gatos entre outros”.
De repente, a conversa das aves encerrou-se e todas levantaram voo rapidamente. Cheguei até a janela para ver o que havia acontecido. O motivo era um gavião-pedrês, que, num voo rasante no comedouro à beira da minha janela, capturou uma rolinha-roxa. Ele pousou num muro próximo à janela, e a rolinha se debatendo e emitindo sons de desespero, mas as garras afiadas da ave de rapina impediam a fuga da presa. Ao me ver, o gavião deu o que tinha nas asas: voou e foi se fartar de carne fresca numa mangueira enorme dentro do Parque Mutirama.
Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza
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