Fábula da Abelha
15 maio 2026 às 09h21

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Era uma manhã dourada de primavera. O orvalho brilhava nas pétalas e nas folhas, cujas gotículas, sob a luz do sol, pareciam pequenos cristais. Ali perto, num jardim perfumado por jasmins-laranjas e alfazemas-brasileiras, vivia, em uma colmeia de abelhas europeias, uma abelha chamada Melina.
Era uma operária: trabalhadora e diligente que só. Passava os dias recolhendo néctar e pólen, ajudando a manter a harmonia e a sobrevivência do enxame do qual fazia parte. E muito mais do que isso: desempenhava uma tarefa essencial — a polinização —, que garante frutos e grãos vitais à mesa humana e à alimentação dos animais, ao mesmo tempo em que perpetua as plantas por meio de sementes e frutos.
Como todo mundo tem um defeito (muitas vezes muitos), Melina tinha o seu: irritava-se com facilidade. Bastava um leve empurrão durante o voo, uma flor disputada ou um zumbido atravessado para que seu coração se enchesse de raiva e o ferrão já se preparasse para o ataque.
— Um dia ainda vou ensinar uma lição de dor! — dizia ela com o ferrão sempre pronto e sua ira caminhando à frente do seu juízo.
A velha abelha-rainha, sábia pela longa experiência de vida, advertia Melina com frequência:
— Cuidado, pequena. Há golpes que machucam o outro, mas ferem primeiro quem os dá. Em certos casos, a ferida pode ser fatal para quem golpeia.
Melina, sempre com cara de paisagem, ouvia os conselhos da rainha sem realmente escutá-los. Achava aquilo exagero de alguém que não voava tão longe igual a ela enquanto operária e cuja vida se “limitava a viver no interior da colmeia produzindo ovos e feromônios”.
Numa certa tarde, uma menina de aproximadamente seis anos entrou no jardim, atraída pelo perfume das flores. Aproximou-se de um galho de jasmim-laranja para sentir seu aroma e, sem querer, tocou no galho da flor onde Melina recolhia néctar. Furiosa, a abelha não hesitou: avançou e ferroou a mão da menina, que chorou de dor e saiu correndo, aos gritos, em busca da mãe.
Por um instante, Melina sentiu-se vitoriosa: “Dei uma boa lição com a minha ferroada”. Mas logo veio o espanto. Ferir com o ferrão significava também ferir a si mesma. Seu corpo começou a enfraquecer, e o voo tornou-se vacilante. Melina não sabia que, ao ferroar, seu ferrão ficaria preso à pele de sua vítima, e que, ao tentar voar, parte do seu aparelho digestivo, músculos e nervos também ficariam junto com o ferrão, o que inevitavelmente a levaria à morte.
Melina caiu sobre uma folha de cróton e depois foi ao chão, onde sempre há formigas carnívoras à espera de presas. Ela então compreendeu, tarde demais, a lição da rainha: de que certas maldades cobram um preço alto, e quem fere por impulso pode acabar destruindo a própria vida.
Antes do último suspiro, ela já no chão, de costas e mexendo lentamente as perninhas, olhou para o céu e murmurou:
— Se eu tivesse escolhido a calma, como a rainha me aconselhou, ainda haveria flores e mais flores amanhã. Há certas lições que nos chegam tarde, sem que haja tempo para aplicá-las.
Moral da história: A maldade muitas vezes destrói primeiro quem a pratica; há feridas que, ao serem causadas, arrancam também um pedaço de quem as provoca.
Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza



