Ana Kelly Souto

De Portugal para o Jornal Opção

Abecedário de Agostinho de Hipona: U de Uti  &  Frui

Chegou a letra mais perigosa do abecedário de Agostinho de Hipona: o U de Uti. Porque, quando colocamos as coisas erradas na posição de frui, a alma pode mesmo acabar na UTI.

Se você começa a sentir que nada satisfaz por muito tempo e que toda experiência precisa ser substituída pela próxima, o diagnóstico agostiniano é claro: intoxicação aguda da alma pela inversão entre uti e frui.

Permito-me a brincadeira com a “UTI da alma” porque o próprio Agostinho recorre frequentemente à imagem médica para falar da condição humana. Para ele, a humanidade inteira encontra-se enferma pelo pecado, e Cristo é o médico e o único remédio capaz de restaurar o coração inquieto do homem.

A prescrição do Doutor da Graça é peremptória, distinguir corretamente o uti do frui e aprender a amar cada coisa segundo sua medida.

Em A doutrina cristã, o filósofo explica que o uti é o uso das coisas como meio. Tudo aquilo que serve para facilitar o caminho pertence a essa ordem, dinheiro, carro, tecnologia, ferramentas, estruturas, até mesmo certas fases da vida. Já o frui é o deleite naquilo que é amado por si mesmo. A arte, a contemplação, a amizade, a poesia tudo isso toca a dimensão da fruição.

Mas o problema começa justamente quando confundimos as duas ordens.

Imagine alguém voltando para casa depois de muitos meses fora. O carro, o avião, o dinheiro da passagem e o hotel no meio do caminho são uti, meios necessários para chegar ao destino. Mas o abraço de quem se ama já se aproxima do frui. O caos acontece quando a pessoa se apaixona pelo carro, decide morar no hotel e nunca mais chega em casa, o que era meio virou fim.

Todavia, até mesmo os prazeres legítimos se esvaziam quando transformados em absolutos. A mais bela música repetida sem cessar alucina, o prato mais sofisticado, consumido à exaustão, torna-se nauseante. O prazer desordenado não leva ao deleite, anestesia e requer sempre a próxima dose.

Rubem Alves, em “Do universo à jabuticaba”, dizia que a tradição cristã teme o prazer, como se na caixa dos brinquedos estivesse escondido o pecado. Agostinho é mais sofisticado, está longe de ser um ressentido. Ao contrário, justamente porque conheceu intensamente os prazeres, percebeu que nenhuma experiência ou criatura suporta o peso de ocupar o lugar do infinito.

Somente Deus pode ser fruído plenamente, porque apenas nele o desejo encontra uma satisfação que não se consome e se esvazia. Todas as demais realidades, por mais belas e necessárias que sejam, permanecem transitórias. O próprio mundo, ao ser interrogado sobre onde está a Beleza, responde, “Interroguei a terra, e ela respondeu: ‘Não sou eu.’ E tudo o que nela existe fez a mesma confissão. […] Não somos o teu Deus; procura acima de nós”. O livro do mundo inteiro grita, “não pares em mim, segue adiante” (Confissões, X, 6, 9).

A inversão do uti e do frui leva à constatação, “Inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti” (Confissões, I, 1,1). E você?  Quantas vezes transformou estrada em morada?

Ana Kelly Souto é doutora em Ciências da Religião e em Filosofia, professora da PUC-Goiás e colaboradora do Jornal Opção.