Soraya Castro

Especial para o Jornal Opção

Eu resisti por um bom tempo. Elena Ferrante estava em todo lugar – nas listas de melhores do ano, nas recomendações entusiasmadas, nas conversas de pessoas que eu respeito. E, por alguma razão que não consigo explicar direito, fui deixando para depois.

Quando finalmente abri “Dias de Abandono” (Biblioteca Azul, 184 páginas, tradução de Francesca Cricelli), estava eu mesma passando pela superação de um término de relacionamento. Poderia ter sido um problema, mas não foi.

Aconteceu o oposto: li o livro inteiro com a distância curiosa de quem reconhece o território, mas já não está perdida nele, e foi exatamente essa distância que me permitiu ver a arquitetura do que a autora construiu. E, também, porque há certas leituras que só fazem sentido quando o chão para de tremer.

Elena Ferrante é uma escritora italiana cujo anonimato se tornou tão famoso quanto sua obra. Ninguém sabe quem ela é de verdade (especula-se que seria a tradutora Anita Raja) e há uma coerência perturbadora nisso, tratando-se de uma autora que disseca identidade feminina com uma precisão que, a meu ver, poucos homens saberiam de fato fazê-lo.

“Dias de Abandono” foi publicado em 2002, antes da tetralogia napolitana que a tornaria mundialmente conhecida. É um livro mais curto, mais concentrado; o tipo de coisa que você lê de uma vez e fica olhando para o teto por um tempo depois.

A história tem uma premissa simples: Olga, uma mulher de trinta e poucos anos, dois filhos pequenos e quinze anos de casamento, é abandonada pelo marido Mario, que vai embora com uma mulher mais jovem. Sem grande cena, sem explicação satisfatória. Ele simplesmente vai. O livro é o que acontece depois disso; não a história do abandono, mas o que esse abandono ativa.

Escrita acompanha estado mental

Olga não sofre bonito. Esse é o ponto. Ferrante não tem nenhum interesse na versão domesticada da mulher abandonada, aquela que chora com elegância, mantém a casa em ordem, cria os filhos com dignidade silenciosa e emerge, alguns capítulos depois, mais forte e ela mesma. Essa mulher não existe aqui (e, convenhamos, diante de uma rejeição, será que ela deveria existir?).

O que existe é uma desintegração em três frente simultâneas: a realidade (o que era estável deixa de fazer sentido), a identidade (Olga perde o eixo que organizava quem ela era) e a linguagem interna (o pensamento vira repetição compulsiva, não elaboração). A escritora registra tudo isso com uma precisão que chega a ser desconfortável.

Um dos recursos mais inteligentes do livro é formal: a escrita acompanha o estado mental de Olga. No início, quando ela ainda tenta se manter de pé, a prosa é mais controlada. À medida que o colapso avança, as frases ficam mais curtas, caóticas, repetitivas – chegam a sufocar. A cena em que ela fica trancada no apartamento com os filhos e o cachorro agonizando, no calor, sem conseguir abrir a porta, é o ápice dessa estratégia; a linguagem literalmente desmorona junto com ela. Nada de ornamento, é pura estrutura: a forma é o argumento.

Ferrante também faz uma escolha narrativa radical ao confinar tudo na perspectiva de Olga, e é uma escolha que traz consequências. O leitor não a observa de fora, fica preso dentro dela. Isso produz uma experiência dupla: de perda de controle e de confronto com o que preferimos não admitir sobre nós mesmos. Porém, essa confinação tem outro efeito, pois torna Olga uma narradora não confiável. Não porque ela minta, e sim porque o colapso distorce. Mario e a amante não são personagens, são funções. São o catalisador e o espelho, nada mais. A narrativa não nos dá acesso a eles porque Olga não tem esse acesso. Não há nenhum juízo moral sobre o novo casal, quem tem raiva é Olga. Ferrante apenas mostra.

Há uma cena que resume tudo isso com uma eficiência brutal. Em determinado momento, a protagonista descobre que Mario entrou sorrateiramente no apartamento que foi deles e levou as joias de família – presente que ele havia dado à antiga esposa, peças com peso simbólico de continuidade e pertencimento – para dar à amante. Olga vai para cima dele.

Não pela traição, não pela amante, não pelos anos perdidos, mas pelas joias. É um detalhe que parece pequeno, mas é grandioso: ele não só foi embora; ele revisitou o passado e o redistribuiu. Pegou o que havia construído dentro do casamento e entregou para fora. É um pagamento. E a raiva de Olga encontra ali um objeto concreto, irrevogável, visível, porque a traição ela já estava tentando digerir, entretanto, ela não consegue nomear de outra forma que não seja fúria.

Ultimamente, tenho me debruçado no existencialismo, e foi impossível ler “Dias de Abandono” sem tirar Søren Kierkegaard (1813-1855) na cabeça, lembrando sua teoria sobre ruminação. Em “A Doença para a Morte”, o filósofo dinamarquês mostra que o desespero mais profundo é aquele em que o sujeito não sabe que está em desespero, confunde o looping  com tentativa de resolver, quando, na verdade, é uma recusa inconsciente de integrar o real. Olga acha que rumina para entender, só que a ruminação é a recusa disfarçada de esforço. O pensamento vira circuito fechado: pensar, não resolver, intensificar. E o momento em que ela começa a sair do colapso não é quando finalmente entende; é quando para de tentar entender.

O final do livro é discreto, e é bom que seja. Olga não se reconstrói de forma épica, não há catarse redentora. A linguagem, então, fica mais calma, menos acelerada, e ela começa a enxergar Mario de forma mais realista; não mais justa, mais indiferente. Ela para de construir o monstro, não porque ele virou gente boa, mas porque ele deixou importar o suficiente para ser monstruoso. É uma despedida por dissolução de interesse, não por perdão. E é exatamente por isso que parece verdadeira.

O que Elena Ferrante faz em “Dias de Abandono”, e que poucos livros sobre essa temática conseguem, é mostrar que o colapso não é emocional, é existencial. Olga não desmorona só porque foi abandonada. Desmorona porque o eixo que organizava sua existência estava, desde o início, fora dela. Quando a estrutura do casamento cai, não é apenas um homem que vai embora, é a identidade inteira que precisa ser reconstruída sem os andaimes que ela nem sabia que estava usando. Isso é mais assustador do que a traição, e a autora tem a coragem e a habilidade técnica de não suavizar nenhum segundo disso.

Eu deveria ter lido antes. Mas talvez tenha lido na hora certa.

Soraya Castro, escritora e crítica literária, é colaboradora do Jornal Opção.