Bento Fleury Curado

O livro é denso, intenso, carregado de significados múltiplos na sua abrangência de tempo, estilo, espaço e gênero. Elizabeth Abreu Caldeira Brito realizou um trabalho de fôlego e muito estafante; aquele de rastrear, em estradas e caminhos de pedras e espinhos, talvez algumas flores, a trajetória nem sempre amena da mulher goiana no vasto, difícil e apaixonante campo da ação intelectual.

Num rastreamento muito completo e abrangente, a autora abarca as biografias das mulheres que se dedicaram ao fazer literário no Estado, além dos estudos críticos sobre as mesmas; o que é uma novidade por esses rincões, e que remete ao profundo estudo feito em 2002, em âmbito nacional, pela escritora Nelly Novaes Coelho (1922-2017), num alentado volume de 750 páginas.

Outros autores também se dedicaram ao estudo da literatura feminina no Brasil como Hilda Agnes Hubner Flores, com o “Dicionário de Mulheres”, publicado em 2011; Maria Stela Duarte Mendes, com o “Dicionário da Mulher”, publicado em 2002; Schuma Schumaber e Érico Vital, com “Dicionário Mulheres do Brasil de 1500 Até a Atualidade”, publicado em 2000; Mary Del Priori, com “História das Mulheres no Brasil”, publicado em 2006; Zahidé Lupinacci Muzart, com “Escritoras Brasileiras do Século XIX”, publicado em 2009, em quatro volumes e “Dicionário das Mulheres”, da Editora Grijalbo, com tradução de Hédon Casanova, mais antigo, de 1967. Esses, os mais conhecidos.

Elisabeth Caldeira Foto Divulgação
Elisabeth Caldeira, autora do Dicionário Crítico das Vozes Femininas | Foto: Divulgação

Sobre as escritoras femininas em Goiás, há produções de Célia Coutinho Seixo de Britto (1914-1994); José Mendonça Teles (1936-2015); Mário Ribeiro Martins (1943-2016); Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado (1969); Moema de Castro e Silva Olival (1931-2020), Darcy França Denófrio (1936); Rosarita Fleury (1913-1993) e, também, estudos críticos de Gilberto Mendonça Teles (1931-2024); Antonio Geraldo Ramos Jubé, (1927-2010); Nelly Alves de Almeida (1916-1999); Brasigóis Felício (1950); Gabriel Nascente (1950); Bernardo Élis Fleury de Campos Curado (1915-1997); Modesto Gomes (1931-2008); Basileu Toledo França (1918-2005); Bariani Ortencio (1923-2024); Eliana Gabriel Aires (1945); Heloísa Helena de Campos Borges (1948); Wânia Majadas (1941-2021); Álvaro Catelan (1947), Eurípedes Leôncio Carneiro (1949); José Fernandes (1946-2018); Ademir Hamú (1950); Miguel Jorge (1933); Eduardo Ramos Jordão (1945-2020); Jô Sampaio (1949); Maria Luísa Ferreira Laboissière (1953); Maria Zaira Turchi (1955); Vera Maria Tietzman Silva (1945); Stella Leonardos (1923-2019); Maria de Fátima Gonçalves Lima (1960); Maria Terezinha Martins do Nascimento (1950); Marília Núbile (1947); Geraldo Pereira (1958); Adovaldo Fernandes Sampaio (1944); Wendell Santos (1944); Geraldo Coelho Vaz (1940); Emílio Vieira (1944-2024); Alice Spíndola (1940-2026); Heloísa Selma Fernandes Capel; e muitos outros.

Elisabeth Abreu Caldeira Brito, agora, destaca-se na galeria das dicionaristas goianas pelo seu arrojado trabalho de garimpeira das palavras. Buscou, livre de qualquer cânone, os nomes que em diferentes tempos e estilos, reconhecimento ou anonimato, que, com ousadia, percorreram as lides literárias em Goiás; mesmo diante de todas as adversidades e lutas para a impressão da ideia feminina, num Estado mais viril e masculino, até por formação, e romper as paredes altas e agressivas que se ergueram diante dos caminhos das timoneiras da arte literária nas plagas do Anhanguera.

Elizabeth Abreu Caldeira Brito foto da capa de Dicionário Crítico das Vozes Femininas da Literatura em Goiás

Com paciência e precisão, a autora trouxe a biografia das escritoras e, também, os estudos críticos das mesmas; geralmente, presentes nos cadernos literários dos jornais goianos, como “O Popular”, “Diário da Manhã”, Jornal Opção, “Folha de Goiaz”, em épocas distintas, bem como nos prefácios, orelhas, posfácios, sites, blogs e as capas dos livros pesquisados. Conseguiu mostrar quão variada e rica é a produção da mulher nesses rincões, nesse chão parado.

Assim, trouxe reconhecimento, não somente às autoras, mas, também, aos críticos que se debruçaram sobre essas obras, num estudo acurado do estilo, tema, gênero; de modo a criar uma forma mais completa de pesquisa sobre a arte literária feminina no Estado de Goiás.

Estátua de Cora Coralina na Cidade de Goiás | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Escritoras citadas pelo Dicionário

E, assim, apareceram as romancistas (Rosarita Fleury, Edla Pacheco Saad, Armênia Pinto de Souza, Hilda Dutra Magalhães, Ada Curado, Adelice da Silveira, Alice Godinho, Elacy de Amorim, Malu Ribeiro, Adélia de Freitas, Carmem Gomes); as contistas (Nita Fleury, Ayda Félix de Souza, Célia Siqueira, Zina Brill, Alcione Hermano, Alcione Guimarães, Nice Monteiro, Maria Helena Chein, Lêda Selma, Júlia Franco, Marietta Telles Machado); as poetas (Vilda Guerra, Augusta Faro, Laila Navarrete, Yêda Schmaltz, Leodegária de Jesus, Cora Coralina, Emília Perillo, Jacira Brandão Veiga Jardim, Sônia Maria Ferreira, Elza Nobre, Berenice Artiaga, Marilda de Godoy, Maria Lúcia Félix, Ana Cárita, Dalva Chitarra, Sônia Elisabeth, Sônia Maria Santos, Natalina Fernandes, Umbelina Frota, Diva Goulart, Sônia Cury, Violeta Metran, Judite Miranda, Maria Carmem Xavier Nunes, Ellen Carneiro Valle, Divina Paiva, Lygia Rassi, Rosamary Costa Ramos, Denise Godoy, Sílvia Nascimento, Maria Abadia Silva); as memorialistas (Ofélia Sócrates, Ondina Albernaz, Luisa de Camargo Ferreira, Lêda Xavier de Almeida, Nelly Alves de Almeida, Ana Braga, Celuta Mendonça Teles, Maria Adélia Mendonça Arantes, Lydia Arantes, Lucíola de Amorim, Anna Cryssilla de Siqueira e Silva, Ana de Britto Miranda, Elza Baiocchi, Ida Artiaga Moreno); as cronistas (Genezy de Castro, Nair Perillo, Maria Paula Fleury de Godoy, Heloísa Helena Campos Borges, Alba Dayrell, Belkiss Spencière Carneiro de Mendonça); as pesquisadoras (Mary Baiocchi, Lena Castello Branco Ferreira de Freitas, Gilka Vasconcelos, Célia Coutinho, Maria Augusta Callado, Maria das Dores Campos, Maria do Rosário Cassimiro, Zilda Diniz Fontes, Nilza Diniz Silva, Jô Sampaio, Ercília Macedo Eckel, Eli Falanque, Haydèe Jayme, Mara Públio Veiga Jardim, Regina Lacerda, Maria Augusta de Sant’Anna Moraes, Narcisa Cordeiro, Nancy Ribeiro); as biógrafas (Beth Fleury, Célia Coutinho Seixo de Britto, Maria Eloá de Souza Lima, Olinda da Rocha Lobo, Áurea Cordeiro de Menezes, Esther Oriente, Amália Hermano).

Yêda Schmaltz: poeta | Foto: Reprodução

Isso para lembrar as que são mais conhecidas. Mas a bateia de Elisabeth Abreu consegue outras preciosidades, como joias puras do relicário goiano, guardadas em seu escrínio afetivo.

Polígrafa, Elisabeth Abreu produz em diferentes estilos, como poeta, cronista, biógrafa, crítica literária, crítica de arte, em trabalhos importantes no cenário das letras e das artes de Goiás.

Nessa senda, caminhou por estradas tantas, muitas orladas de flores orvalhadas, também em caminhos ásperos, de pedras e tropeços. Fez um inventário lírico com o perfume bom da emotividade.

Alcançou o cerne da produção feminina em Goiás, ao seguir os passos daquelas que machucaram os pés, mas que, mesmo sob o peso da dor, desabrocharam em flores do campo, tocadas, com suavidade, pela magia da ternura, aquela mais doce, expressa na palavra lapidada, que é a janela onde Deus espia os homens e com o encantamento do amor mais doce, aquele descido da pureza do céu.

Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado é doutor em História. O texto é a apresentação do livro, publicado pelo Jornal Opção com autorização de Elisabeth Abreu.