Agostinho compreende a grandeza do mistério e insistiu na necessidade da humildade intelectual
16 maio 2026 às 21h00

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Ana Kelly Souto
De Portugal para o Jornal Opção
O Abecedário de Agostinho de Hipona: T de Trindade
Uma das histórias mais conhecidas e repetidas sobre Santo Agostinho é o episódio da criança na praia.
Conta-se que, enquanto caminhava pela praia, profundamente concentrado em suas elucubrações filosóficas, Agostinho avistou uma criança que, com uma concha, retirava água do mar e a despejava dentro de um pequeno buraco na areia. Intrigado, perguntou o que ela estava fazendo. A criança respondeu que pretendia colocar toda a água do mar naquele buraquinho. Então o santo teria dito: “Criança, isso é impossível!”.
Ao que o menino respondeu: “Agostinho, Agostinho… é mais fácil eu colocar toda a água do mar neste buraco do que você compreender o que está pensando”.
Essa passagem tornou-se uma das imagens mais conhecidas associadas a Agostinho de Hipona. Ao longo dos séculos, apareceu em pinturas, sermões, livros, catequeses e representações religiosas. Mesmo pessoas que conhecem pouco a vida ou a obra do santo geralmente já ouviram essa história. Entre suas representações mais conhecidas está o quadro Santo Agostinho e o menino à beira-mar, de Sandro Botticelli, que contribuiu para fixar visualmente essa cena na memória cultural do Ocidente.
Uma simpática lenda medieval
No entanto, ela nunca aconteceu. Trata-se de uma lenda medieval, surgida provavelmente no século XIII, que não se encontra em nenhuma de suas obras autênticas nem nos escritos de seus contemporâneos. A anedota ganhou vida própria e incorporou-se à tradição iconográfica do santo, mas é completamente apócrifa.
Infere-se que a cena teria ocorrido quando Agostinho refletia sobre o mistério da Trindade. É importante notar que a figura presente na lenda aparece um tanto ingênua, como se estivesse tentando esgotar o mistério divino pela razão — algo que o autor do “De Trinitate” jamais consideraria fazer.
Pelo contrário, compreendeu a grandeza do mistério e insistiu na necessidade da humildade intelectual. Ao refletir sobre a Trindade, voltou-se para o interior da alma humana, procurando na memória, na inteligência e na vontade dimensões nas quais o ser humano manifesta, ainda que de modo limitado, a imagem da Trindade.
Assim como é impossível colocar o mar dentro de um pequeno buraco, também é impossível esgotar pela razão o Deus Uno e Trino, como ele mesmo escreve em um de seus sermões, “Se compreendes, não é Deus”.
Mesmo não sendo verdadeira, a anedota é didática e divertida, resumindo de modo simbólico o drama vivido por Santo Agostinho e continuando a ensinar uma lição central: há realidades tão grandes que a mente humana não consegue conter, mas que o coração pode contemplar.
Em homenagem às mães
“Minha mãe, Mônica, vossa fiel serva, junto de vós chorava por mim mais do que as outras mães choram sobre os cadáveres de seus filhos” (Confissões, III, 11).
Ana Kelly Souto é doutora em Ciências da Religião e em Filosofia, professora da PUC-Goiás e colaboradora do Jornal Opção.



