O segredo de Dona Nazarena
16 maio 2026 às 21h00

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Fernando Cupertino
Especial para o Jornal Opção
Dona Nazarena era uma viúva, já de idade. Morava sozinha, pois as duas filhas, havidas de seu casamento com o sargento Tião de Deus, já eram casadas e moravam na Capital. Preocupadas com a mãe, cuja saúde já não estava lá muito boa, combinaram de alternar as visitas que faziam à casa materna, a cada duas ou três semanas.
Era sempre um momento muito alegre a chegada das filhas e dos netos, anunciada com a devida antecedência pelo telefone.
Com os genros, a coisa já não era assim tão risonha. Um deles, o Wilsinho, bancário, tinha mesmo uma aversão total pela sogra e não fazia nenhum rebuço disso. Referia-se a ela como “a jabiraca”, ou, em dias de ira mais ferina, como “a jararaca”. Achava que esse último título era muito mais apropriado, pois a velhota era miúda e de língua venenosa, tal como a cobra de mesmo nome que, pequenina e virulenta, ainda mata muita gente se o socorro com o soro antibotrópico não chegar a tempo.
O outro, Simão, embora também pusesse gosto ruim em tudo o que se relacionasse à sogra, era comedido em externar sua aversão. Como falava pouco, raramente se manifestava sobre ela. Quando muito, mencionava “a bruxa da minha sogra”, mas, isso, muito raramente.
Fato é que ambos encaravam aquela viagem forçada, para passar o fim de semana em casa de Dona Nazarena, como um autêntico calvário.
A sogra, por sua vez, não era nenhuma santa, embora fizesse questão de aparentar ares de absoluta inocência e inquestionável santidade. Quando as filhas iniciaram namoro com os rapazes com quem viriam a se casar, a velha aprontou poucas e boas. Implicava com tudo o que se relacionasse aos futuros genros. Acusações e críticas, explícitas ou veladas, eram uma constante — “não sabem portar-se à mesa”; “usam roupas inadequadas; “não têm boa educação”; “não são atenciosos e corteses” — e por aí afora.
Isso fez nascer e prosperar uma antipatia recíproca e crescente, cuja situação exigia um grande esforço familiar para ser contornada.

A chegada dos netos atenuou um pouco o mau clima, mas não o desfez de todo. Era só surgir uma oportunidade e lá vinha a velha a alfinetar os dois genros.
Nos preparativos para receber a visita das filhas, genros e netos, Dona Nazarena gostava de fazer-se passar por grande cozinheira — coisa que, aliás, se encontrava muito longe de ser verdade.
Como os três netos gostavam muito das empadinhas tradicionais da cidade, ela encomendava algumas dezenas a uma pessoa de confiança, com a instrução precisa de que devessem ser entregues na véspera da chegada da família e que tivessem pouco molho em seu interior.
À noite, ela própria preparava um molho bem condimentado e, com o auxílio de uma seringa, aplicava injeções nas empadas, de modo a torná-las mais saborosas.
Ocorre que Wilsinho — logo o genro mais chato — naquela semana, estava em visitas de inspeção nas agências bancárias da região e chegou de véspera à casa da sogra. A mulher e os filhos viriam apenas no dia seguinte.
Ao bater à porta, com toda a cerimônia, ouviu lá de dentro a velha gritar: — Vai entrando, porque estou ocupada aqui na cozinha!… Foi o que fez. Entrou, depositou a mala junto ao sofá da sala e foi até a cozinha, onde apanhou a sogra com a boca na botija, ou seja, tendo nas mãos a grande seringa de plástico, repleta de molho de tomate, e a injetá-lo cuidadosamente nas empadinhas, como se fora uma zelosa enfermeira.
Wilsinho compreendeu tudo num instante: — Ah, então esse é o segredo de suas empadinhas, Dona Nazarena?!… Logo a senhora que vive ditando regrinhas sobre honestidade e bons costumes? Isso é uma tapeação vergonhosa!
A sogra não sabia o que dizer. Gaguejou algumas coisas meio sem nexo, juntou tudo aquilo que estava sobre a mesa, toda atrapalhada e, voltando-se para o genro, anunciou solenemente: — Estou disposta a negociar. Esqueça o que viu e eu mudo o jeito de tratá-lo. Senão, Mariazinha vai ficar sabendo que você andou arrastando as asas para os lados daquela perdida da Florinda, filha de dona Naná. Pensa que eu não sei que estiveram aos beijos e amassos no escuro, lá pelo Beco da Vila Rica? E se teve mais coisas, certamente minha filha saberá arrancar de você. Ah, isso ela vai fazer!…
Wilsinho levou um baita susto. Afinal, na festa de São João do ano passado, quando ele e a mulher haviam tido um arranca-rabo por conta de bobagens, ele tomara mesmo umas e outras a mais do que devia e engraçara-se com a Florinda durante a quermesse, levando-a, depois, a dar um passeio demorado pelas ruas pouco iluminadas dos arredores. Achou que o caso estava morto e enterrado, mas lá vinha a velha jabiraca com a estória…
Conhecendo bem a mulher ciumenta que tinha, o jeito foi aceitar logo o cessar-fogo e prometer eterno silêncio sobre o assunto das injeções nas empadinhas. Mas o melhor de tudo foi que, com a cara da mais completa pureza, quando perguntado pela mulher sobre a mudança de seu comportamento para com a sogra, simplesmente dizia: — Você estava certa. Sua mãe é uma boa alma. Eu é que não a entendia bem. Agora, vejo o quanto estava errado.
— Eu não lhe disse, benzinho, que você fazia um juízo absolutamente equivocado sobre mamãe?
Ele aquiescia silenciosamente, mas, por dentro, acrescentava ao discurso dizendo para si mesmo: — Jararaca velha de uma figa! Ainda haverá de me pagar por essa e por todas as outras!
Mas não houve tempo. Poucos meses depois, Dona Nazarena foi-se deste mundo e, com ela, o segredo das empadinhas que tanto sucesso faziam em família e que ainda, durante muitos anos, continuaram a ser lembradas.
Wilsinho, aliviado, assistiu, assim, ao fim daquela ameaça que pairava sobre sua cabeça. Como a mulher nunca ficou sabendo do acontecido, conservou-as: a mulher e a cabeça.
Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.



